Ludwig von Mises

A Mentalidade Anticapitalista, de Ludwig von Mises – Uma Resenha

*O texto abaixo é o resultado de uma compilação de uma série de notas tomadas por este blogueiro que vos fala enquanto este estudava um dos livros mais famosos da divindade de alguns liberais, Ludwig von Mises. Caso queiram reutilizá-lo para ajudar em seus próprios estudos dessa e de outras obras semelhantes, sintam-se livres para fazê-lo. Caso gostem e queiram outra obra resenhada, podem tentar pedir, mas não há garantias de que a resenha virá  a ser feita. Não me prendi a detalhes biográficos do autor, apenas ao que havia no livro em si, por uma questão de extensão textual (sendo que o texto já ficou bem longo). Boa leitura.

A Mentalidade Anticapitalista – Uma Resenha

É já na introdução de A Mentalidade Anticapitalista que podemos perceber os intentos e o ritmo da obra do economista austríaco Ludwig von Mises, mais conhecido por ser uma espécie de divindade entre setores dos liberais e dos libertários.

O primeiro dos dois aspectos a serem destacados nessa introdução é que Mises expõe em muito breves linhas um dos principais assuntos de seu livro, isto é, as visões comuns acerca do Capitalismo, ou, em outras palavras, os preconceitos de intelectuais e de pessoas comuns contra esse modo de produção, associando-o a todo o mal que há no mundo.

O segundo e último desses aspectos é o fato de que o economista austríaco revela também de modo sucinto os seus objetivos com A Mentalidade Anticapitalista, que são, nas palavras do próprio liberal, “analisar esse preconceito anticapitalista e divulgar suas raízes e consequências. ” (p. 24)

O livro se divide em cinco capítulos de extensões diferentes que se interligam de um modo bastante coerente, apesar de ser possível fazer sérias objeções a algumas de suas abordagens, o que pode ser, talvez, o tema de um de meus próximos textos.

No primeiro capítulo, intitulado As características sociais do capitalismo e as causas psicológicas de sua difamação, o economista liberal propõe que o capitalismo seja analisado pelo prisma do consumidor soberano, já que, de acordo com Mises, “a principal característica do capitalismo moderno é a produção em escala de bens destinados ao consumo das massas. ” (p. 27), estas mesmas que seriam responsáveis, então, pelo futuro dos negócios em geral, tendo passado de meros “subalternos” (no vocabulário misesiano) a “público comprador”, este que controla socialmente o que deve ou não ser produzido.

Em seguida, Mises critica o comportamento de seus contemporâneos e a este contrapõe o modo de melhorar de fato as condições materiais dos homens:

“O que está errado com a maioria dos nossos contemporâneos não é que eles estão sempre desejando apaixonadamente por maiores e melhores suprimentos de diferentes bens, mas sim pela sua escolha de meios inapropriados para atingir esse fim […] Há somente um meio disponível para melhorar as condições materiais da humanidade: acelerar o crescimento do capital acumulado em relação ao crescimento da população. Quanto maior a quantidade de capital investido por trabalhador, bens melhores e em maior quantidade podem ser produzidos e consumidos. Isso é o que o capitalismo, o sistema econômico mais insultado, produziu e produz novamente, todos os dias. ” (p. 32)

Para entender, porém, o motivo por que tantos têm asco ao capitalismo, o liberal começa por diferenciar aristocratas de empresários, postulando que, enquanto estes dependem do contentamento popular nas sociedades capitalistas, aqueles eram imunes a isso justamente por viverem em sociedades de casta. Em outras palavras, para Mises, seria muito mais fácil, sem interferências estatais no sistema capitalista, minar a renda de um empresário do que minar a de um aristocrata exatamente por causa das diferenças dos modelos sociais em que cada uma dessas figuras existe.

Mises, então, explica o porquê de haver essa diferença entre o que denomina “sociedades de status” (as sociedades feudais, por exemplo) e as sociedades capitalistas:

“O que faz um homem mais ou menos próspero não é a avaliação de sua contribuição do ponto de vista de um princípio ‘absoluto’ de justiça, mas a avaliação da parte de seus semelhantes, que simplesmente utilizam como padrão de medida suas próprias necessidades pessoas, seus desejos e finalidades. É precisamente isso que significa o sistema democrático de mercado. Os consumidores estão acima, ou seja, são soberanos. Eles querem ser satisfeitos. ” (p. 36)

Além disso, o economista pondera ao leitor que, enquanto o destino individual é predeterminado nas sociedades de castas, o exato oposto ocorre no capitalismo, em que o único refúgio ao indivíduo malsucedido seria travestir seu ressentimento na forma de uma amplamente popular filosofia anticapitalista.

Uma das classes em que esse ressentimento mais se faz presente, segundo o filósofo, é a classe dos intelectuais. De acordo com Mises, “para entender a aversão do intelectual ao capitalismo, é necessário perceber que, na sua mente, o sistema é a encarnação de um número definido de pares de cujo sucesso ele se ressente e a quem ele responsabiliza pela sua frustração decorrente das suas próprias ambições desmedidas. ” (p. 47)

Em seguida, é apontada a peculiaridade do caso americano e de seus intelectuais que, desprezados pela “sociedade” (os ricos), passam a odiá-la assim como ao capitalismo por tabela.

Os intelectuais, entretanto, não são os únicos ressentidos atacados por Mises. Trabalhadores de escritório e parentes de empresários bem-sucedidos também têm as razões de seus ressentimentos escrutinadas pelo economista, além de este também explicar a aliança entre o dinheiro dos parentes (os “primos”, segundo Mises) e os diversos tipos de protestos anticapitalistas que florescem América e mundo afora.

No final do capítulo, Mises analisa a aparentemente insólita relação de amor entre as estrelas de Hollywood e da Broadway e a ideologia comunista, afirmando inclusive que nenhum outro ambiente americano teria apoiado tanto a esquerda. Para o pensador, isto se dá porque “a essência da indústria do entretenimento é a variedade […]. Um magnata do teatro ou das telas deve sempre temer a perversidade do público. Ele pode acordar rico e famoso em uma manhã e no dia seguinte ser esquecido […]. ” (p. 64)

No segundo capítulo, A filosofia social do homem comum, Mises começa a contrapor a visão do homem comum sobre o capitalismo ao que este é ou não de fato. Dentre outros aspectos, Mises correlaciona a falta de compreensão dos mecanismos da Economia em sua relação com o progresso tecnológico com a crença nesse progresso como automático e mero fato da natureza, o que tornaria, segundo o senso comum, a melhoria das condições de vida também automática e natural.

O economista austríaco afirma o seguinte acerca das opiniões comuns sobre essa relação:

“No seu modo de ver, os desenvolvimentos tecnológicos sem precedentes dos últimos duzentos anos não foram causados ou favorecidos pelas políticas econômicas da época. Eles não foram uma realização do liberalismo clássico, do livre comércio, do laissez-faire e do capitalismo. Portanto, irão continuar sob qualquer outro sistema de organização social. ” (p. 71)

Segue-se a isso uma breve explicação acerca do que é capitalismo de fato, que começa com as palavras abaixo e termina com Mises ressaltando novamente a diferença entre as explicações do senso comum e o viés misesiano sobre o capitalismo:

“Os termos capitalismo, capital e capitalistas foram empregados por Marx e hoje são empregados pela maioria das pessoas – também pelas agências de propaganda oficial do governo dos Estados Unidos – com uma conotação ultrajante. Ainda assim, essas palavras apontam, de forma pertinente, ao fator principal cuja operação produziu todas as realizações maravilhosas dos últimos duzentos anos: o desenvolvimento sem precedentes do padrão médio de vida para uma população continuamente em crescimento. ” (p. 73)

Falando em término, aliás, Mises termina o capítulo discorrendo sobre como a junção de inveja, ódio, príncipes, aristocratas, religiosos e socialistas pôde formar o que denomina “frente anticapitalista”, a mesma frente que, de acordo com o filósofo, está fazendo que as novas gerações sejam educadas em ambientes permeados do ideário de esquerda.

No terceiro capítulo, A literatura sob o capitalismo, o economista austríaco exibe as relações entre literatura e capitalismo, mostrando como a crença de alguns liberais mais antigos de que um mercado literário evoluído traria um novo florescimento intelectual ao mundo estava equivocada, já que, segundo Mises, “o capitalismo pode tornar as massas tão prósperas que elas podem comprar livros e revistas. Mas ele não pode incutir nelas o discernimento de Mecenas ou de Cangrande I dela Scala. ” (p. 92)

Em seguida, além de teorizar sobre como o anticapitalismo pode influenciar que tipo de literatura terá ou não sucesso em determinado momento histórico, Mises também aponta para o fato de que, graças aos boicotes armados por sindicalistas e outros anticapitalistas, a liberdade de imprensa e, por extensão, a de literatura ficam comprometidas, já que, “hoje em dia, está fora de questão parodiar no palco os poderes constituídos […] Os dirigentes sindicais e os burocratas são sacrossantos. O que restou para a comédia são aqueles tópicos que tornaram a opereta e a farsa hollywoodiana abomináveis. ” (p. 99)

Há também a breve análise do que o liberal chama de “fanatismo dos literatos”, ou seja, de como os sedizentes progressistas de seu tempo só tinham a maledicência e, novamente, o boicote em sentido amplo como respostas ao que era exposto pelos defensores do capitalismo.

Por fim, há a análise da literatura socialista em si e de seus autores. Deixo, como provocação para os que, como eu, gostam desse tipo de análise, o início da última parte do terceiro capítulo:

“O público comprometido com as ideias socialistas pede por romances e peças ‘sociais’ (socialistas). Os autores, eles mesmos imbuídos com as ideias socialistas, estão prontos para entregar o material solicitado. Descrevem as condições insatisfatórias que, como eles insinuam, são as consequências inevitáveis do capitalismo. Eles retratam a pobreza e a privação, a ignorância, a sujeira e doenças das classes exploradas. Eles criticam severamente o luxo, a estupidez e a corrupção moral das classes exploradoras. A seu ver, tudo que é ruim e ridículo é burguês e tudo que é bom e sublime é proletário. ” (p. 109)

No quarto capítulo, As objeções não-econômicas ao capitalismo, Mises envida esforços para rebater, como no título do capítulo, qualquer crítica ao capitalismo que tenha bases que não sejam a economia, quer morais, quer filosóficas, quer sociológicas.

À primeira, a de que posses não trazem felicidade, o liberal objeta que o real objetivo do comprador é evitar o desprazer, e não necessariamente atingir o prazer em seu estado mais perfeito. Nos termos de Mises, o objetivo é, na realidade, que o comprador se torne mais feliz do que antes, que fique mais satisfeito e que, no geral, aumente o seu nível de bem-estar.

À segunda, a de um materialismo que faria que as aspirações mais nobres, entre elas a filosofia, a literatura e as outras formas de arte, ficassem em último lugar, Mises contrapõe toda a produção artística e filosófica do início do capitalismo até seus dias, citando grandes nomes da música, da literatura e da filosofia para fortalecer sua argumentação.

À terceira, a da injustiça inerente ao capitalismo, o economista austríaco opõe a vagueza, de acordo com as premissas misesianas, do conceito de justiça utilizado, além da incapacidade desses detratores do capitalismo de entenderem o capital em si, seu funcionamento e suas implicações nas sociedades.

Por derradeiro, Mises lida um pouco mais minuciosamente com o modo como a esquerda de sua época se apropriava do conceito de liberdade. Uma de suas exposições, aliás, parece manter sua relevância até mesmo quando falamos no Brasil contemporâneo:

“Nenhum homem inteligente deixará de reconhecer que o que os socialistas, comunistas e planejadores estão buscando é a abolição mais radical da liberdade individual e o estabelecimento da onipotência do governo. Apesar disso, a imensa maioria dos intelectuais socialistas estão convencidos de que, ao lutarem pelo socialismo, estão lutando pela liberdade. Eles se autodenominam esquerdistas e democratas e, atualmente, estão ainda reivindicando para si o epíteto ‘liberal’. ” (p. 139)

Last but not least, é no último capítulo, “Anticomunismo” versus Capitalismo, que Mises opõe capitalismo a “anticomunismo” e em que o austríaco ao mesmo tempo defende a liberdade denuncia seus falsos defensores, isto é, os comunistas que se travestem de anticomunistas e que são criticados ao longo desse curto capítulo.

É, aliás, com uma das razões de sua crítica que termina o livro e, por extensão, que termino esta resenha:

“Um movimento ‘anti alguma coisa’ mostra uma atitude puramente negativa. Não tem nenhuma chance de ser bem-sucedido. Suas críticas apaixonadas virtualmente fazem propaganda do programa que atacam. As pessoas devem lutar por algo que elas querem alcançar, não simplesmente rejeitar o mal, não importando quão ruim ele possa ser. Eles devem, sem qualquer reserva, endossar o programa da economia de mercado.

O comunismo teria hoje, depois da desilusão trazida pelos ‘feitos’ dos soviéticos e do lamentável fracasso de todos os experimentos socialistas, pouca chance de ser bem-sucedido no Ocidente, se não fosse esse falso anticomunismo.

A única coisa que pode evitar que as nações da Europa Ocidental, América e Austrália sejam escravizadas pelo barbarismo de Moscou é um apoio aberto e irrestrito ao capitalismo laissez-faire. ” (p. 158)

Referência Bibliográfica

MISES, Ludwig von. A Mentalidade Anticapitalista. 2. ed. Campinas: Vide Editorial, 2015. Tradução de: Adelice Godoy.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre

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Ideias não matam pessoas: de como o Grande Irmão orwelliano está mais próximo do que você pensa

Desde tempos em que boa parte da internet brasileira se mobilizava para condenar Rachel Sheherazade no tribunal da história (e, provavelmente, em um tribunal jurídico de fato) por seus comentários acerca de um horrendo caso de justiçamento via linchamento contra um jovem negro no Guarujá, tenho constatado, não com pouco temor, o seguinte: o Grande Irmão orwellianofunga em nossos pescoços, e muitos sabemos que podemos ser os principais responsáveis por isso.

Relembremos: no início do ano passado, tornou-se moda e prova máxima de alta cultura, ao menos nos círculos de esquerda brasileiros, culpar a supracitada jornalista do SBT pelos linchamentos subsequentes naquele período, posto que, em um de seus últimos quadros “Opinião” no Jornal do SBT, teria incitado tais atos com sua fala sobre o caso citado no parágrafo anterior, isto é, supostamente divulgara ideias que seriam as maiores culpas por tão grotescas exibições de barbárie.

Quase simultaneamente, setores da direita brasileira, do alto de seu método político baseado no retrógrado, propuseram a criminalização da apologia ao comunismo e similares no Brasil, argumentando para este fim que o Comunismo matou milhões durante o século XX, além de ser o responsável direto, de acordo com a mesma narrativa, pela derrocada social vivida em terras tupiniquins há algumas décadas.

Se a esquerda quis usar o rigor da lei contra sua opositora na mídia, a direita, pois, não teria motivos para ficar para trás. O caso, contudo, é que as duas, mais uma vez, erraram, e quem pagará o pato, rest assured, somos todos nós.

Legalismo totalitário, um delírio cretino

Ao reclamarem a força da lei contra inimigos, a conversa que ambos os grupos querem inocular de modo já adulto no imaginário coletivo é muito simples: não só as leis devem ser respeitadas, como também são ou deveriam ser os parâmetros morais da sociedade.

Nada, porém, mais falso e mais pérfido. Se as leis fossem nosso parâmetro moral, não seria o brasileiro um ávido combatente da sonegação de impostos e da pirataria de produtos, além de um aguerrido defensor de projetos como a Lei Seca?

Além disso, pelo menos desde “A Desobediência Civil”, de Thoreau, qualquer parvo um pouco mais instruído sabe que há, muitas vezes, leis tão abusivas que respeitá-las seria uma afronta à dignidade humana na Terra.  Que tipo de sociedade, então, querem formar esses legalistas se não as distopias totalitárias que tanto foram o pesadelo de Orwell, Camus, Bradbury, Arendt e muitos outros por tanto terem nos assolado em tempos passados? Como assim não devemos nem podemos desrespeitar as leis que atentam contra os direitos fundamentais de todos?

E, mais importante para este caso que tratamos, como justificar, de uma maneira a não ser a totalitária, a criminalização da mera divulgação de uma ideia dentro de um molde de sociedade que deveria se basear, justamente, na liberdade de expressão e de pensamento?

Pequenas justificativas, grandes cretinices

Do lado da esquerda, há, via de regra (o que, no caso, é o mesmo que “sempre”), um par de justificativas: ou se diz que o discurso de ódio não deve ser contemplado pela liberdade de expressão justamente por incitar o ódio, levando, inevitavelmente, à morte – sendo o ódio, é evidente, uma motivação para a morte -, ou se diz que, assim como todos os direitos, a liberdade de expressão não é nem pode ser um direito absoluto e intocável.

Vamos, primeiro, à segunda justificativa, posto que também a direita se utiliza dela em muitos casos, principalmente, como este blogueiro já testemunhou ocularmente, para ameaçar as pessoas de processo por terem “injuriado” o direitista ou alguém na discussão, ou seja, para defender lateralmente ou diretamente a existência de uma bizarrice como “injúria” em nossos Códigos Penal e Civil.

Ora, afirmar que um direito não é absoluto, fora ser uma obviedade brutal, é só uma justificativa pequena e cretina que pode ser utilizada para diversos fins, desde cercear comportamentos de fato perigosos até remover direitos que deveriam ser pétreos e que são importantes para o bom funcionamento de uma sociedade livre.

Pode-se, por exemplo, evitar a agressão de todos contra todos ao se postular que, não sendo a liberdade de expressão um direito absoluto, não se pode agredir pessoas fisicamente em nome dessa liberdade, já que a integridade física da pessoa humana não deve ser posta em risco sob nenhuma circunstância, ao mesmo tempo em que se pode utilizar esse mesmo postulado e mais algum pretexto do tipo “moral e bons costumes”, “defesa da alta cultura”, “justiça social” ou “defesa dos oprimidos” para relativizar e, posteriormente, instituir a censura como modus operandi para um governo que quase inevitavelmente se tornará, adivinhem, um governo totalitário. Does that ring any bells?

Do lado da direita, há, além da mesma segunda justificativa da esquerda, outra que é pura simbiose com a primeira da esquerda: a de que homicídios dolosos inevitavelmente têm motivações, podendo ser e normalmente sendo estas as ideias, o que as tornaria também responsáveis por assassinatos e inspiraria certos cuidados quanto ao grau de liberdade  que se deve dar à sua divulgação. De novo, does that ring any bells?

O fato é que a justificativa simbiótica parece sensata e sua lógica, pois, indefectível, mas há um pequeno problema que nem direita nem esquerda conseguem responder: se há uma relação tão determinista entre ser exposto a uma ideia, tomá-la para si como verdade absoluta e promover assassinatos em seu nome, como explicar que nem todos os (aliás, talvez a grande maioria dos)  que se declaram adeptos de barbaridades  ideológicas atentem contra a vida humana em algum momento?

Tal situação fica transparente ao notarmos, por exemplo, que há muitos que se declaram comunistas nas universidades e  propagam essa ideologia até no seu modo mais virulento mas que, ainda assim, não tem qualquer registro em sua ficha criminal, e isto em uma sociedade com graves problemas jurídicos como é a brasileira.

A justificativa e seu consequente temor, portanto, se mostram muito distantes da realidade, o que os deslegitima como bons argumentos para a proibição de divulgação de quaisquer enunciados, por mais que nos soem como bárbaros e por mais que as ideias ali contidas, se aplicadas (e, claro, a aplicação deve ser impedida pelos meios corretos), aviltem contra a dignidade humana.

A metonímia maldita… ou será bendita?

Há, porém, uma justificativa para esse temor (isso, lógico, para os que não o usam justamente para ganhar mais e mais poder), e esta se encontra não tanto nos regimes totalitários ou em ideias desumanizadoras, mas na linguagem que usamos para descrevê-los.

Quando vamos descrever, por exemplo, o regime de Adolf Hitler, ou melhor, suas atrocidades, dizemos que “o Nazismo matou x milhões de pessoas”. Da mesma forma, trabalhamos com os regimes de Stalin, Mao, Fidel Castro, entre outros, e da mesma maneira estamos nos acostumando a trabalhar  com as ideias aviltantes. Quem nunca ouviu falar, por exemplo, que “machismo mata” ou “o racismo segrega”?

É óbvio que tais metonímias (isto é, tais tomadas da parte pelo todo ou do todo pela parte) são benéficas em termos de propaganda, já que muitas vezes evitam que as pessoas adiram a essas ideias e as usem como baliza para atrocidades. O problema, entretanto, é quando essa metonímia que transita entre o bendito e o maldito vai para o seu lado maldito, ou seja, é tomada como fiel descrição da realidade.

Explico: por mais que seja excelente dizer que “o Comunismo e o Nazismo mataram milhões” para evitar que mais pessoas se tornem adeptas dessas ideologias nefastas, é necessário lembrar que quem matou não foram as ideias em si, mas indivíduos que a elas eram fiéis e que as usaram como pretextos morais, ideológicos, políticos, culturais e até mesmo científicos (!) para cometerem suas barbaridades sem por elas assumirem nenhuma responsabilidade exatamente por saberem que, com vários outros fazendo o mesmo, ninguém iria procurar a resposta complicada, mas a simples, culpando ideias por atos.

É importante frisar, mesmo assim, que não existe relação necessária entre as afirmações “x ideia foi usada como pretexto para algum fim” e “x ideia foi deturpada” (isto é, não sou certos políticos de esquerda para fingir que acredito, em prol da luta pelo poder e pela hegemonia, que Marx foi deturpado), assim como afirmar que uma ideia foi usada como pretexto para uma finalidade não significa negar que esta deve ser combatida  dentro da sociedade e, de preferência,  expurgada da mente das massas.

Sobre como se deve preferir Mises ao Grande Irmão

Resta, então, a questão final deste artigo: como combater as ideias desumanizadoras sem apelar ao poder das leis e, com isso, deixar ao Estado o mínimo de poder possível sobre a mente das pessoas, seguindo fielmente a citação de Thoreau de que “o melhor governo é aquele que menos governa”?

Muito simples. É só seguir o conselho que nos lega o economista austríaco Ludwig von Mises em um dos capítulos de seu famoso “As Seis Lições”, livro que, por incrível que me parecia antes de lê-lo, contém mais palavras de sensatez do que de insensatez. Segundo Mises, e segundo qualquer pessoa com o mínimo de juízo, “faz-se necessário combater as más ideias”. O economista, porém, ao contrário da maioria dos que se dizem sensatos, também nos lembra de que “ideias, e somente ideias, podem iluminar a escuridão. As boas ideias devem ser levadas às pessoas de tal modo que elas se convençam de que essas ideias são  as corretas, e saibam quais são as errôneas”.

Se me é permitido, entretanto, quero completar Mises, já que o austríaco se esqueceu de avisar a seus leitores  o que em verdade vos aviso agora, amigos leitores: é necessário desconfiar de qualquer sujeito que tema ideias a ponto de querer censurá-las e que, por conseguinte, argumente que devam ser utilizados outros meios para iluminar a escuridão. Tal sujeito, via de regra, quererá, em algum momento, ser o Grande Irmão a ser cultuado. E o problema é que o Grande Irmão, temo, se aproxima cada vez mais.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre.  Pensa seriamente que, se censura convencesse alguém, deveria ser usada contra seus defensores.

Afinal, o que deu em Marco Antônio Villa e em Reinaldo Azevedo?

É mais ou menos com a pergunta do título que se finda o mais recente artigo de meu amigo olavette e futuro cientista social Italo Lorenzon para o site Terça Livre, com o qual colabora esporadicamente por meio de uma coluna própria. No texto em questão, intitulado Dar o tapa e esconder a mão: um fetiche da nossa velha direita, o aluno do velho Olavón discorre com muita propriedade  e com a assertividade na medida certa para o panorama político atual sobre a tentativa de alguns ícones da chamada direita brasileira não só de dissociarem as próprias imagens do rótulo político “direita” como também de, de certa maneira, “limpar a barra” da esquerda ao associarem a conduta ética bizarra inerente ao petismo não à essência do movimento comunista em si, mas como um desvio na tentativa de se alcançar os virtuosos objetivos deste.

Por mais que a pergunta final de Ítalo possa ter sido, então, meramente retórica, já que acaba por respondê-la ao longo de seu artigo sem maiores problemas, é justamente nela que concentrarei meus esforços neste post*: afinal, por que tantos articulistas idolatrados pela direita brasileira, apesar de serem críticos da esquerda, se furtam a rotulá-la como intrinsecamente desonesta, totalitária e genocida e a associarem as próprias imagens com o que conhecemos por direitismo ou conservadorismo brasileiro?

(*Para aqueles para quem meia palavra não basta, isto significa que este texto não deve ser encarado como uma refutação ao artigo assertivo de Ítalo, pois não há ali o que refutar. Se quiserem condenar-me por algo, que seja pelo que de fato foi escrito no texto, não por vossas impressões. Naturalmente, e como sempre, os que quiserem de fato debater e não ficar olavando por este blog serão muito bem vindos.)

O sincericídio e a propaganda

Quem quer que tenha sido de esquerda por mais de seis meses e por nenhum conto de réis não terá problema para entender o que afirmarei aqui e que, de certa forma, já foi afirmado por meu amigo Lorenzon em seu artigo: por mais que se considere qualquer forma de esquerdismo como um desastre moral para dizer o mínimo, é impossível não reconhecer os méritos da esquerda quando o assunto é “provar” justamente o contrário sobre si e, além disso, reverter a situação e rotular os seus adversários, ou seja, a direita ou qualquer um que não esteja à esquerda da extrema-esquerda, como os verdadeiros imorais, sujos, impuros, impudicos, genocidas e cerceadores das liberdades individuais, isto quando ainda não escrevem para a imperialistíssima VEJA ou não trabalham para a defensora do mal americano em territórios tupiniquins, a RGT.

Da mesma forma, quem quer que tenha conversado com pessoas ainda não completamente convertidas ao credo esquerdista  sobre as impressões que estas têm sobre a figura padrão de um direitista e tenha, em seguida, prestado atenção ao comportamento padrão do pessoal da direita brasileira também não terá dúvidas de que, contrariamente à esquerda, apesar de suas crenças também serem moralmente condenáveis, a direita, por sua vez, tem uma dificuldade imensa em angariar as pessoas para a sua causa mesmo com seus filósofos prediletos jurando de pés juntos que nossa população é extremamente conservadora e que não é, por conseguinte, difícil fazer com que se revoltem contra o padrão moral absurdo imposto pelos esquerdistas.

Óbvio que o direitista que não assume suas responsabilidades poderá afirmar que a culpa disso tudo é, na verdade, do Foro de São Paulo, das máquinas da Smartmatic que deturparam o resultado das eleições 2014, dos hereges que reclamam de Olavo de Carvalho ficar falando sobre o uso de fetos abortados na fabricação de adoçante para a Pepsi Cola ou, ainda, do pessoal que votou nulo na eleição e evitou que o subitamente infalível Aécio tirasse do poder essa ditadura comunopetista ou do esquema globalista ocidental que inevitavelmente sucumbirá ao esquema islâmico ou ao russo-chinês de dominação mundial. De fato, pode até ser que alguns desses fatores sejam mais decisivos do que aquele sobre o qual falarei, mas o problema é que não posso deixar de pensar no economista idolatrado pela direita, Ludwig von Mises, em uma de suas seis lições: sendo a melhor e mais eficiente forma de combater ideias justamente as próprias ideias, também é verdade que a falta de bom senso ao enunciar essas ideias (e é aqui que complemento Mises, se assim me permitirem os libertários mais puristas) pode ser, com igual eficácia, a melhor maneira de se fortalecer justamente as ideias que queremos ver destruídas ou jogadas no limbo da história das ideias.

Não é difícil, então, adivinhar por que motivos a direita vem prejudicando a si mesma. Ora, todos que já perambularam pelos mais diversos cantos da nossa sempre imprevisível internet já devem ter notado que um problema crônico de nossa direita é não só a falta de foco em temas prioritários – reclamam, por exemplo, das ideias esquerdistas sobre Aborto ao invés de se focarem na obtenção de vitórias mais imediatas e urgentes como a derrubada do decreto 8243 ou do Marco Civil da Internet -, mas também, na maior parte das vezes e com uma frequência, portanto, perturbadora, o constante sincericídio por parte de seus adeptos que, não podendo calar os dedos nem a boca, falam mais do que deviam sem levar em conta o momento político pelo qual passamos atualmente  e, com isso, acabam fazendo uma excelente propaganda… para a esquerda.

A direita, quando não é retrógrada, é cúmplice dos retrógrados

É evidente, porém, que não é possível analisar com a profundidade necessária a questão do sincericídio sem evidenciar uma outra razão pela qual se pode explicar por que causa articulistas como Villa e Azevedo preferem ter seus perfis associados ao cramulhão do que à direita conservadora brasileira, mesmo que pintada de ouro: a direita, quando não é retrógrada, é cúmplice dos retrógrados, sejam eles mais fiéis a tudo o que se considera “reacionarismo”, sejam contribuidores apenas esporádicos da causa pela restauração da alta cultura no Brasil ou alguma outra olavice do gênero.

Mais óbvio ainda é que, como já disse um milhão de vezes aos amigos conservadores pelo Facebook e até por este blog, o meu interesse não é pelas ideias que as pessoas defendem (isto, aliás, vem me entediando cada vez mais nos últimos tempos), mas pelo modo como as defendem. Meu problema com os retrógrados não é, por conseguinte, que defendam o que eu considero besteiras. Fosse isso, não teria me identificado completamente com Mises quando, como já citei, ele fala em combater ideias com ideias e não com censura. Meu problema com os retrógrados, na verdade, é não só nem principalmente o fato de defenderem ideias que considero atrasadas, mas  de as defenderem da forma mais retrógrada possível.

Para ser claro e didático, nada melhor do que exemplos abundantes: retrógrados são aqueles que, ao defenderem os militares brasileiros e seus controversos governos, se focam não em demonstrar a hipocrisia esquerdista ao falar sobre militares como assassinos enquanto defendem Cuba, mas usam isto como um pretexto para pedir, para ontem, uma intervenção, esquecendo-se de que podem queimar ainda mais a reputação dos milicos justamente porque estes negligenciaram o combate cultural à esquerda durante seu governo.

Do mesmo modo sincericida e inconsequente, os opositores da legalização do casamento gay não se furtam não só a fazerem oposição a essa causa: precisam, também, soltar comentários infelizes sobre o que pensam sobre o fato de um indivíduo ou de uma indivídua serem gays e, mais ainda, de esses indivíduos quererem ter relações entre quatro paredes sem se guiarem pelo senso de moralidade dos retrógrados.

Podemos colocar, ainda, os defensores mais imprudentes da Pena de Morte no mesmo balaio, pois, por mais que eu não me oponha a essa causa, não posso negar que sinto ligeira vontade de mudar de opinião quando vejo um sujeito pedindo Pena de Morte até mesmo para o chamado “ladrão de galinha”, como se o seu ato e um estupro ou outro crime hediondo fossem igualmente graves e igualmente dignos da punição máxima de qualquer ordenamento jurídico possível.

Diante disso, o militante esperto só tem uma escolha óbvia a fazer: repudiar publicamente os retrógrados e dissociar a sua imagem, como fazem Villa e Reinaldo, desse tipo de gente, evitando, assim, que o seu próprio filme fique queimado no fim das contas. A direita, porém, como já dito, é cúmplice dos retrógrados, já que alega preferir optar por unir todos os que se oponham à esquerda, independente de suas crenças, mesmo que sua união não seja nem possível nem necessariamente desejável. O problema é que, ao tentar optar por todos, os destros acabam optando por nenhum justamente porque, por mais que o objetivo comum seja a derrota da esquerda, não existe como manter unidos dois ou mais grupos cujas divergências ideológicas em pontos fundamentais são muito notáveis. E o problema é que, ao optarem por nenhum, dão a oportunidade que a esquerda precisava para generalizá-los como retrógrados justamente porque, quando podiam, não foram suficientemente enfáticos ou sequer tentaram se desvincular de pessoas tão apressadas e tão ingênuas politicamente.

O que a direita ama é, no final das contas, a mediocridade

Até mesmo essa cumplicidade com tudo o que é retrógrado, todavia, tem uma explicação lógica que, ao ouvido conservador, parecerá não só insatisfatória como  extremamente injusta. Um dos argumentos mais usados pelos conservadores quando tentam desconverter um esquerdista é que eles, ao contrário da esquerda, são os verdadeiros amantes da liberdade por defenderem a civilização ocidental, ou seja, o único modelo de sociedade em que, segundo eles, é possível se ter relativa segurança quanto às próprias liberdades civis.

Certamente que, a não ser que eu fosse esquerdista ou sofista, não teria como negar que, entre todas as alternativas já testadas, é a democracia ocidental o modelo real e posto em prática de sociedade que, até hoje, mais foi eficiente em garantir que as liberdades civis de seus cidadãos fossem ameaçadas o mínimo possível. Ledo engano, porém, é o de achar que, por defenderem esse modelo, os direitistas brasileiros amam a liberdade, e tão ledo é que pode ser desfeito facilmente ao se observar a dúvida em que muitas dessas pessoas ficaram quando do caso Charlie Hebdo -já que dar apoio e querer a máxima liberdade para qualquer um satirizar à vontade o Islamismo e seu profeta implicaria automaticamente também querer o mesmo grau de liberdade para que a religião desses direitistas, o cristianismo, e o seu profeta fossem igualmente satirizados – ou quando, ao verem um vídeo do fraquíssimo Porta dos Fundos, queriam sair processando todo mundo não por uma questão de estratégia (ou seja, de usar o mesmo truque da esquerda para destruí-la), mas por pura e simples impulsividade.

O que a direita em geral ama, então, não é a liberdade, mas a mediocridade. É óbvio que, no discurso, dizem justamente que é a esquerda a maior amante da mediocridade, como é de fato, mas isso não muda o fato de que, ao se deparar com críticas ao seu pensamento ou a seus ídolos, a direita em massa reaja negativamente contra o crítico não necessariamente por questões estratégicas (o já elogiado Ítalo, aliás, é um dos poucos que conheço que reage por este motivo e que, ao invés de xingar muito no Facebook, escreve um esclarecedor artigo sobre o assunto), mas justamente porque, para ela, quem não ama de paixão seus ídolos e não concorda automaticamente com tudo o que dizem e fazem só pode ser um esquerdista-comunista-marxista-revolucionário-globalista-defensor da NOM e da corrupção petista.

Da mesma maneira, examinemos o processo pelo qual um sujeito pode se tornar ídolo ou protegido da direita: faz uns vídeos para o Youtube ou uns posts em um blog criticando o PT ou a esquerda mesmo que com objeções facilmente refutáveis, manda esse material para algum conservador já com bom público e, pronto, é só esperar os frutos. Com a mesma velocidade, contudo, também pode ser o sujeito descartado: é só criticar algum guru espiritual muito adorado por boa parte da direita e, como dito acima, esperar ser chamado de marxista para baixo. Muito estranhamente, as mesmas características pessoais que vão ser inevitavelmente usadas para criticar o sujeito (pouca idade, barba grande (!!!), ateísmo, entre outras) não eram, pelo visto, tão importantes quando falava o que lhes era conveniente.

Se isso não for mediocridade e ignorância política em seu estado mais bruto, não sei mais o que é. Só sei, sinceramente, que não quero ser representante de nem associado a uma ideologia que carrega em seu cerne tantos defeitos. Se eu, então, que sou apenas mais um blogueiro de internet me recuso a fazer parte disso, quem sou para cobrar essa associação com a direita por parte de pessoas que de fato têm uma reputação pela qual zelar?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pergunta-se quantos terão coragem de lhe dizer, depois desse post, que conservadorismo à brasileira não é fruto de distúrbio mental assim como o é o esquerdismo.

Teste de cegueira ideológica 2

Após o retumbante fracasso de alguns dos meus leitores no primeiro destes testes, em que a resposta certa era obviamente o filósofo húngaro Tzvetan Todorov, resolvi aplicar este segundo, desta vez com um livro mais famoso, apesar de apenas mais ou menos famoso.

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