Luiz Felipe Pondé

Filosofia para corajosos? Realmente, senhor Pondé

Que o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé é, há algum tempo, uma voz tremendamente influente entre direitistas liberais e conservadores é um fato muito conhecido pelo grande público, ou ao menos pelo público que acompanha debates políticos internet afora. Não é raro, afinal, vermos adeptos da direita política compartilhando frases de Pondé, em especial citações encontradas em seus dois livros mais citados, sendo estes Contra um Mundo MelhorGuia Politicamente Incorreto da Filosofia (este, aliás, já até resenhado em meu antigo blog).

Há, porém, dois fatos, um deles bastante recente, outro nem tanto, que, creio, poucas pessoas conhecem, mas várias, em especial justamente os liberais e os conservadores sedizentes fãs de Pondé, necessitam conhecer. O primeiro é que já faz algumas semanas que o pernambucano lançou seu livro mais recente, Filosofia para corajosos (2016), em que afirma, já no subtítulo, ter a intenção de fazer que o leitor “pense com a própria cabeça”. O segundo, bem mais desalentador para um fã declarado de Pondé como este que vos escreve, é que, ao que parece, qualquer livro desse autor está se tornando, no pior sentido possível, uma obra apenas para os corajosos, posto que ler qualquer uma delas (ao menos entre as mais recentes) até o final vem sendo tarefa das mais hercúleas.

Nem é preciso resenhar esta obra em específico para que o leitor entenda porque faço tão ousadas críticas para um reles mortal. Afinal, os principais problemas das obras “comerciais” de Pondé, indo desde o razoável Contra um Mundo Melhor até o fraco Filosofia para Corajosos, passando, entre outros, pelo risível A Filosofia da Adúltera  – que, certamente, fez Nelson Rodrigues se revirar no túmulo ao ser citado como mestre inspirador dessa obra -, são um padrão que, pelo visto, continuará se repetindo por vários e vários anos.

Primeiro, para quem é conhecido como um mestre em estética no sentido artístico, Pondé parece desprezá-la no sentido linguístico, já que ou divide seus parágrafos de modo errado, deixando-os curtos demais (como em A Filosofia da Adúltera), ou esquece de dividi-los, deixando-os com um tamanho excessivo e com uma quantidade de assuntos diferentes absurda dentro de um mesmo parágrafo (como em seu livro mais recente).

Segundo, ainda no aspecto estético, o filósofo pernambucano tem aparentado cada vez mais desconhecer em absoluto os mecanismos de coesão e coerência que a língua pátria fornece a todos indiscriminadamente. Mesmo não sendo eu próprio qualquer grande exemplo disso, consigo perceber que, além de suas noções sobre pontuação (em especial, sobre o uso da vírgula) serem no mínimo questionáveis, Pondé parece crer que, para se distanciar dos “inteligentinhos” acadêmicos, só pode usar as conjunções “e”, “mas” e “que” para conectar suas orações, além de, é claro, também ter de utilizá-las de modo questionável.

Tudo isso ocasiona que, no fundo, seus escritos fiquem muito parecidos com suas entrevistas ou palestras, isto é, até bastante didáticos, mas um tanto deficitários quando se trata de finalizar um assunto ou mesmo de fazer a transição entre um tema e outro. Se já não é agradável quando um filósofo conhecedor de sua língua faz isso conosco por opção, imaginem quando o que parece é que o autor sequer domina as nuances dos mecanismos de coesão de sua própria língua.

Por fim, mas definitivamente o mais importante, é necessário discorrer sobre o conteúdo de Pondé, que é, justamente, a parte mais perturbadora, também no mau sentido, de seus livros. Além de constantemente invocar Nelson Rodrigues e uma pancada de outros mestres da escrita para claramente justificar seus textos esteticamente ruins, apesar de dizer pouco se importar com o que o leitor pensará dele, Pondé também pegou o costume de, em prol das vendas (posto que não há outra explicação plausível), ficar repetindo as mesmas piadas, as mesmas ironias e até mesmo, em certa medida, as mesmas referências, o que faz que todos os seus livros possam ser resumidos em apenas um, sendo que este talvez nem precisasse passar de 100 ou 150 páginas.

Em Filosofia para corajosos, por exemplo, essa repetitividade chega a níveis estratosféricos. Só a famosa frase “de todos os piores regimes, a democracia é a melhor” deve ter aparecido no mínimo umas 4 vezes em um intervalo de 30 páginas, quanto mais em todas as 189 do livro. Reclamações sobre como as pessoas se utilizam mal de palavras como “ética”, “religião” e “valores”, então, consomem uma quantidade de papel que muito bem poderia ser aproveitada para fins melhores.

Fora, é claro, as referências ao desconhecimento feminista acerca das relações entre homem e mulher, o apelo ao evolucionismo, a afirmação “não acho que as pessoas precisem de Deus” e vários outros itens que só soariam originais ou engraçados a um sujeito que tenha começado a estudar sobre filosofia e política ontem e que, portanto, não conhecesse qualquer obra mais antiga de Pondé em que as mesmas coisas tenham sido escritas praticamente do mesmo jeito.

Parece-me, pois, que Pondé, além de esteticamente questionável, está se tornando uma espécie de escritor de autoajuda direitista em termos de conteúdo, repetindo sempre os mesmos mantras e fazendo piadas que, de tão manjadas, estão se tornando piores do que qualquer piada do pavê contada pela clássica figura do tiozão em pleno Natal. O problema, porém, é que o tiozão não tem milhares de fãs e de detratores como audiência.

Enfim, como leitor e fã, espero sinceramente que essa “vibe” de “não me importo com o que o leitor pensa” pare de contaminar Pondé pelo menos na questão estética. Até lá, talvez a solução seja procurar seus livros técnicos para ver se desse mato sai um coelho um pouquinho melhor.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa que Pondé só viria a ler esse texto se pensasse em parar de fazer referências às pessoas que se dizem preocupadas com as baleias na África, o que, parece, não acontecerá tão em breve.

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Eu, Apolítico – Canal Livre e o Politicamente Correto: três anos depois, o que sobrou? (Ou: Ensaio sobre o Politicamente Correto)

Pela enésima vez, estive revendo o debate sobre o Politicamente Correto promovido pelo Canal Livre com a participação do filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, mais conhecido por escrever o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia e menos conhecido por ter passado a escrever, mais ou menos desde a época em que ocorreu o supracitado debate (abril/maio de 2013), livros que são melhores peças detratoras contra Pondé do que qualquer crítica genérica, tediosa e nonsense do típico esquerdista tupiniquim.

Sendo considerado por alguns um marco em termos de debate sobre a praga PC, é uma entrevista a que se deve assistir com atenção, posto que nos revela muita coisa, mas apenas se formos procurar que conclusões políticas podemos tirar desse episódio e de tudo o que se seguiu depois, desde manifestações até eleições, passando, é claro, pelo lado internet do debate político.

Hora, portanto, de palpitar sobre como analisar não apenas nem tanto a discussão canal livresca em si, mas principalmente o próprio Politicamente Correto, sua ascensão e suas implicações atuais.

Primeiro, e talvez, por incrível que pareça, muitíssimo importante, já passou da hora de se admitir que, definitivamente, nenhum programa de entrevista da televisão brasileira merece ser o palco de qualquer debate com valor político.

Falo isto não só por o Canal Livre ser, como é evidente há muito tempo para todos aqueles detentores do mínimo de sensibilidade televisiva, um sonífero dos mais potentes, mas também pelo fato de as discussões por lá parecerem de uma natureza tão genérica e tão vaga que, como efeito provavelmente indesejado, podem aumentar ainda mais o desinteresse das pessoas por qualquer tema abordado pelos entrevistadores.

O problema, na verdade, é que o programa da Rede Bandeirantes não é uma aleatória exceção, mas uma infeliz regra na televisão brasileira, apenas levando-a ao extremo da chatice e do tédio por sua forma, como já mencionado, que cura qualquer insônia.

Qualquer telespectador brasileiro percebe, outrossim, que o problema também transparece no conteúdo. Convidados com caras que inspiram tédio e com falas mais mortalmente tediosas ainda (Pondé, aliás, é rara exceção), perguntas visivelmente escritas para adular o convidado ou para confrontá-lo de forma muito indireta e muito insossa, entrevistadores pouco dispostos a sair da vulgaridade genérica e superficial que se esperaria de uma conversa de jantar familiar de quarta na pizzaria, não em uma entrevista sobre política, tudo isso e mais um pouco, no fim, só contribui para o fingimento de que não se está barateando o debate enquanto tudo o que se está fazendo, de fato, é torná-lo mais tedioso do que a polêmica sobre o cara que quebrou uma placa do Youtube ou do que o vídeo do Pirula sobre o incêndio no Museu da Língua Portuguesa.

Se existe algo a se fazer nesses programas, o que deve ser feito é aprofundar o uso de frames, ao invés de, como na maior parte das vezes os entrevistadores desejam, se ficar argumentando sobre tecnicalidades às quais, no fim, ninguém presta atenção (com razão, diga-se de passagem).

Segundo, chamar qualquer jornalista brasileiro, tirando raríssimas exceções, de politicamente incorreto atualmente é uma piada de extremo mau gosto. Pior ainda em se tratando de certo ex-membro do Castelo Rá Tim Bum, membro hoje mais conhecido por ter sido dispensado de um programa que, de ícone do politicamente incorreto e do humor ácido contra os governantes – rótulos, aliás, altamente questionáveis, pois me parece, vendo com os olhos do Octavius de 2016, ter sido apenas mais um dentre tantos casos de isentismo artificial que pululam na imprensa brasileira -, passou a ser considerado, em seus anos de crepúsculo, a simbiose perfeita entre a praga PC e a “rebeldia” chapa-branca presente, atualmente, em 99 de cada 100 esquerdistas brasileiros.

Acorrentados por um código moralista até parecido com um puritanismo, só que dez vezes pior, o que os jornalistas brasileiros de maneira geral vêm fazendo é, justamente, apertar ainda mais suas correntes, garantindo que os que nunca os quiseram livres possam agir com ainda mais tranquilidade, correndo risco praticamente zero de terem confrontados e desmascarados seus esqueletos totalitários dentro do armário (ou nem tão dentro assim).

Em terceiro lugar, redefinir o termo “politicamente correto” é vital, seja para análises filosóficas, seja para debates políticos. Deve estar claro que digo, com isto, que definir o politicamente correto como uma doutrina que divide o mundo em opressores e oprimidos  e que busca controlar a linguagem em todas as suas formas alegando defesa dos oprimidos não é errado, mas que o fato é que, se houve algo de positivo nas justiçadas sociais de 2015, foi a revelação explícita parcial por parte dos próprios adeptos da praga PC do real intento daqueles que buscam elevar o nível de politicamente correto na atmosfera a patamares ainda mais humanamente intoleráveis.

O segredo está na palavra “empoderamento”. Alegam os justiceiros que o 1984 internetês que promovem mira “o empoderamento das minorias”, sendo a minoria da vez variável dependendo do tipo de militante com quem nos defrontamos.

Cínicos! E tolos os crentes em qualquer intenção sincera por parte dessas pessoas.

De fato, a história muito recente (de 2013 para cá) nos mostra que o objetivo do politicamente correto é mesmo o empoderamento. Pobres minorias, porém, que estão sendo mero diversionismo para esconder que os únicos empoderados, no fim,  serão na realidade os totalitários (chamá-los “aprendizes” seria inadequado, pois há muito passaram desse nível) que, por meio da politização extrema do cotidiano e da censura progressiva da linguagem, atualmente buscam o poder sem dó nem piedade alguma daqueles de cujos dramas reais eles estão se apropriando levianamente.

O politicamente correto, portanto, deve passar a ser definido como “doutrina de natureza cínica e totalitária que, por meio do apelo a uma questionabilíssima dicotomia opressor/oprimido, do controle da linguagem com pretensões evidentes de censura e da superpolitização do cotidiano, pretende empoderar psicopatas aproveitadores de dramas de minorias para tomar-lhes a voz enquanto dizem representá-las enquanto representam nada além do próprio desejo megalomaníaco pelo poder”.

Falando em um dos pontos dessa definição, o cotidiano superpolitizado, chega o quarto e último resquício do morníssimo debate do Canal Livre em maio do 2013: talvez já tenha até passado um pouco do tempo, mas ainda é possível, e vital, diminuir ao máximo as reclamações despropositadas sobre a superpolitização do cotidiano e descobrir formas de utilizá-la justamente contra seus mentores, os politicamente corretos.

Afinal, por mais desagradável que seja a alguém envolver-se na política, o risco de desdenhá-la exatamente durante essa era de praga PC é, justamente, entregar a própria cabeça e a própria liberdade de bandeja aos megalomaníacos do momento.

Denunciar tal megalomania por si só, aliás, não basta nem adiantará a curto prazo, posto que o júri será composto, em grande e relevante parte, precisamente por crias dessa superpolitização do cotidiano.

Omitir-se ou restringir-se a lamuriar-se publicamente, pois, igualam-se e têm como único resultado a consequência da omissão: permitir que alguém tome as decisões por vocês, sendo elas, provavelmente, danosas ao omisso, ao chorão e a todos os que por elas pagarão.

Já passou do momento, em suma, de relegar as discussões canal livrescas ao esquecimento e à insignificância de que são dignas e passar a encarar não só a praga PC, mas a própria política, com a mesma maturidade necessária à vida adulta e civilizada.

Será, porém, que a geração “eu não gosto de ser adulto” e suas antecessoras que lhe inculcaram essa ideia serão capazes de realizar tal façanha?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Torce seriamente para que nenhum conservador venha lhe ordenar que “seje menas”, pois não gosta de xingar sua própria plateia desnecessariamente.

O óbvio ululante: Um recorte

"Envelheça, leitor, envelheça depressa, com urgência, envelheça!"

“Envelheça, leitor, envelheça depressa, com urgência, envelheça!”

“Não me interessa a expressão numérica da ‘festiva’. O que importa é sua capacidade de influir nos usos, costumes, ideias, sentimentos, valores do nosso tempo. Ela não briga, nem ameaça as instituições. Mas, em todas as áreas, as pessoas assumem as poses das esquerdas.”

Nenhuma máxima melhor do que esta para começar o recorte de O óbvio ululante: primeiras confissões, do reacionário autodeclarado e maior teatrólogo de todos os Brasis já existentes, Nelson Rodrigues. E foi justamente como reacionário, e não como teatrólogo, que Nelson, o obsessivo pelos amigos (e como o sabia Otto Lara Rezende), pela pobreza e pela morte, entre outras coisas – afinal, o próprio se dizia “uma flor de obsessão”-, nos legou não só um apanhado de frases geniais sobre as esquerdas brasileiras como também uma pletora de textos em que, como um dos melhores senão o melhor dos moralistas brasileiros, disseca com precisão cirúrgica e por meio dos dramas cotidianos a alma humana. Vejamos, então, o que há de melhor no Nelson dessa obra.

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Parem de indicar “O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota” e o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” como obras de iniciação à Filosofia!

O autor do "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaios de Ironia", ao saber que conservadores estão tomando sua obra como livro para iniciantes nos estudos filosóficos

O autor do “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ensaios de Ironia”, ao saber que conservadores estão tomando sua obra como livro para iniciantes nos estudos filosóficos

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Eu, Apolítico – Ceticismo x Academia (Ou: Por que desconfiar de Renato Janine Ribeiro et caterva)

Olá, amigos leitores, e vamos a mais um post da série “Eu, Apolítico”.

Como alguns de vocês devem saber, no dia de ontem, um certo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética da USP, inventou de destilar toda sua sabedoria universitária em um detalhadíssimo e embasadíssimo comentário de Facebook sobre o novo livro de Olavo de Carvalho, O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota (sobre o qual talvez fale em breve). Ocorreu que, para desespero de seu alunado da USP e de seus fãs (se é que os tem), Olavo, como sempre, respondeu à altura e o desafiou publicamente para um debate sobre um tema qualquer a ser escolhido pelo mesmo Janine, que, até o momento, sequer se dignou a responder ao desafio.

Pasmado com tamanha falta de maturidade intelectual, resolvi, então, postar e explicar, de uma vez por todas, porque é dever de qualquer pessoa com mais de 10 anos de idade e de 2 neurônios ativos no cérebro assumir uma postura cética, ou seja, de desconfiança e de investigação própria perante o pregado pelos acadêmicos de terra brasilis (e de outros lugares também). Vamos, então, aos trabalhos.

Janine Ribeiro e a inexplicável Ética

Renato Janine no auge de suas ponderações sobre Ética…sqn

Como primeiro exemplo, usarei o próprio caso Janine. Apesar de ser professor de Ética da USP, parece que Janine, ao criticar Olavo, esqueceu-se de um dos princípios mais básicos para ser um intelectual de ética, que é o de criticar apenas o que conhece. Ao dizer, em sua crítica, apenas que o fato de Olavo de Carvalho ser bem vendido mostra o quanto o retardamento cresce com a tecnologia – e, ironicamente, o próprio Janine postou isso em uma rede social, talvez o mais representativo fruto da inovação tecnológica -, as únicas ideias que alguém pode ter do filósofo Renato Janine Ribeiro é que ou é um nome tão grande da Filosofia brasileira e mundial que pode desprezar todos os outros, ou simplesmente não leu a obra que está criticando.

O caso é que, ao ouvirmos sua mais recente entrevista ao programa Provocações (aqui, aqui e aqui), na qual ele nega peremptoriamente ser um dos grandes nomes da Filosofia, percebemos que, pelas próprias palavras de Janine, a primeira hipótese cai por terra e a segunda ganha ainda mais força.

Isto, porém, nem é o mais estranho. O mais peculiar é, ao longo de toda a entrevista, o professor de Ética simplesmente não só não conseguir chegar a uma definição mais ou menos razoável de seu objeto de estudo e ensino como também parecer mudá-la com as perguntas que lhe são feitas. Por exemplo, quando é perguntado sobre a Ética no jornalismo, o filósofo afirma categoricamente, mas sem definir antes o que seria esta ética, que um jornalista que segue a ideologia do patrão é, invariavelmente, antiético. O fato é que, se fosse um aluno em seu primeiro ano da iniciação “científica” (e entro nesta questão de o que é ciência mais tarde) tendo estas dificuldades e se contradizendo a cada segundo, teríamos, então, um desvio perdoável, exatamente porque tratamos com um iniciante. Para um pós-doutor e livre-docente, no entanto, a banda precisa tocar de um modo bem diferente, pois definitivamente não é viável pagar a alguém para estudar e ensinar conceitos sobre uma área que sequer sabe definir plausivelmente.

Mesmo com tudo isso, não posso dizer que o caso de Janine Ribeiro, o filósofo da Ética sem conceito e sem explicação, seja o pior dentro das universidades, nem que a dificuldade em definir um objeto de estudo seja, nas ditas Ciências Humanas, um problema crônico. O problema, aliás, é quando a área é definida até bem demais…

A “ciência” brasileira: Primeiro como farsa, depois como drama

Citei, em meu post sobre o Apelo à Autoridade, o seguinte exemplo dessa falácia:

“FALÁCIA II: “A ciência linguística já provou que não existem línguas simples ou complexas, mas sim línguas diferentes, logo o mesmo vale para variantes linguísticas e, portanto, é inadmissível dizer que tal fala é ‘inadequada'”. (destaque meu)” (SANTOS, O.H.C., 2013)

E destaquei, na ocasião, o apelo à ciência como única fonte possível da verdade e, portanto, como única fonte de respostas aceitáveis sobre qualquer assunto que seja. Isto, se fosse apenas “privilégio” de linguistas, sociolinguistas e crentes no Bagnismo em geral, não seria de muita ameaça, pois, apesar de acabar com qualquer crédito que essa área filosoficamente interessante e até mesmo bem fundamentada possa ter para um estudante mais ou menos sério, representaria um caso isolado e de forma alguma refletiria o estado atual das outras ciências. O problema é que, ao contrário do que parece, este tipo de cientificismo barato está se disseminando, já há muitos anos, como praga dentro de universidades.

Marcos Bagno em momento de profunda reflexão científica

Para poder ver isto mais claramente, basta prestar atenção aos dois discursos a seguir. O primeiro é do filósofo, sociólogo, antropólogo, sexólogo, biólogo, teólogo, filantropo e papa da sociolinguística, o já citado e criticado Marcos Bagno, e o segundo é o discurso mais comum contra o também já citado Olavo de Carvalho. Vejamos:

DISCURSO I: “Depois de muita discussão, pesquisa e reflexão sobre a necessidade ou não de ‘ensinar gramática’ na escola, os linguistas e educadores que propõem um ensino de língua mais sintonizado com as reais necessidades dos cidadãos concluíram que, definitivamente, não cabe mais desperdiçar o tempo e o espaço da escola com a tentativa infrutífera de inculcar nos aprendizes uma nomenclatura técnica interminável para ser aplicada em exercícios de análise sintática e/ou morfológica sem nenhum objetivo claro e definido. Com isso, podemos dizer, sem medo, que não é para ensinar gramática na escola” (BAGNO, 2011)

DISCURSO II: “Você lê Olavo de Carvalho? Mas que tolo, a Academia nunca levou esse cara a sério, ele sequer se formou em Filosofia“.

No primeiro discurso, de um dito cientista da linguagem cuja fidelidade ao método científico, como se verá, é de dar inveja a Allan Kardec, podemos perceber que não só é invocada a autoridade anônima de linguistas e educadores (ou seja, dos “cientistas”, os únicos que podem saber a verdade sobre determinado assunto), como de pessoas que querem atender às reais necessidades do cidadão. Muito curiosamente, não se mostra nem como esses linguistas chegaram a essa conclusão, nem como se definiu quais são as “necessidades dos cidadãos”, quanto mais como se fez para definir o que são “cidadãos” – se são tomados, no caso, como indivíduos ou como massa amorfa útil para a teologia progressista (e, sim, isto faz total diferença).

Fico muito curioso, então, em saber qual seria a reação de Karl Popper ao ver tudo o que disse sobre a necessidade da Falseabilidade em ciência ser jogado, sem dó nem piedade, no lixo. Imagino que seria algo parecido com isto:

“Você desprezou minhas filosofias da ciência… PARA ISSO?”

Mas, enfim, indo agora ao segundo discurso, vemos, desta vez, a estratégia toda mais claramente, certo? Afinal, mesmo sendo o maior dos reacionários, se Olavo de Carvalho passasse pela Academia, ele seria aceito por muitos, não é mesmo?

A isto, amigo leitor, respondo: Errado. E explico o porquê.

A miséria da filosofia e das ciências e a ascensão da ideologia

“O povo é sempre opressor. Marx e Rousseau são dois mentirosos”

Vendo o exemplo de Olavo de Carvalho, poderia parecer que, fosse ele formado, mestrado e doutorado, não haveria nenhuma rejeição a seu trabalho e ele seria, como se intitula, considerado, por todos, um filósofo. Acredita-se nisto, porém, até se saber que o cidadão acima, o filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, não só tem doutorado como pós-doutorado e, mesmo assim, é achincalhado e tem seu trabalho filosófico reduzido a nada pelos seus adversários políticos. Mas, afinal, sendo ele, de fato, formado filósofo, qual seria a razão para não lhe dar, segundo a lógica do segundo discurso, este título?

O detalhe, amigo leitor, é que, no fundo (e no raso, sejamos francos), não interessa, tanto aos acadêmicos quanto aos intelectuais progressistas brasileiros em geral, quais os conceitos utilizados e qual a formação (ou não) de Pondé e Carvalho. O que interessa é se o que eles dizem, não importando se em obras teóricas ou em informais programas de televisão e internet, desafia ou não os dogmas defendidos, com unhas e dentes, pelos teólogos do Progressismo, talvez a degeneração mais pobre do já intelectualmente paupérrimo Marxismo.

Isto, para quem conhece o progressismo, significa, na prática, que só se poderá fazer filosofia ou ciência “respeitada e pautada pela Academia” se dermos vários saltos de fé e aceitarmos, sem maiores questionamentos, premissas como “O homem é bom, mas a sociedade capitalista o corrompe” (e aqui Rousseau fica entre o choro e o riso), “a sociedade se divide entre opressores e oprimidos” (Paulo Freire e seu séquito marxista de seguidores vão ao delírio), entre outros.

O real problema, no entanto, não é se estas premissas estão corretas ou não, mas sim a limitação que se impõe à criatividade e ao processo de aquisição de conhecimento pelo qual o cientista, antes de sê-lo de fato, deve passar, pois, para sequer se questionar (ou sequer querer se questionar) sobre esses dogmas, poderá ler apenas autores que corroborem, de antemão, com as conclusões a que quer chegar, o que vai na contramão de todas as considerações razoáveis já formuladas sobre o modus operandi das ciências.

Como não ser minimamente cético, então, perante uma instituição que aplaude de pé e dá título de filósofo a pessoas que incitam o ódio entre as classes (se é que estas existem) e de cientista político a quem reduz todo o problema da violência à desigualdade social enquanto despreza aqueles que, em sua visão, são meros “reacionários”, mas que, de fato, apenas representam uma visão diferente?

Encerro os trabalhos por aqui e deixo esta pergunta e um trecho de “A Ordem do Discurso”, obra de um dos ídolos-mores da esquerda, Michel Foucault, para o leitor poder ver que, como se diz no popular, “o buraco é mais embaixo”

“Daí ele disse: só acredito na ciência, huehuehuehuehue”

“A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso […]Geralmente, se vê na fecundidade de um autor, na multiplicidade dos comentários, no desenvolvimento de uma disciplina, como que recursos infinitos para a criação de discursos. Pode ser, mas não deixam de ser princípios de coerção; e é provável que não se possa explicar seu papel positivo e multiplicador, se não se levar em consideração sua função restritiva e coercitiva” (FOUCAULT, 2012)

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e estuda “marroumenos” a filosofia. Garante que a esquerda seria ao menos mais inteligente se realmente lesse os seus ditos ídolos.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 14/09/2013

Obras Consultadas:

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 54. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 22. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2012.

“Dialeticando” com Luiz Felipe Pondé

NOTA: Este post foi publicado ainda antes de minha saída do Comunismo e do Neo-ateísmo (que eu julgava ser “deísmo”). Algumas posições aqui, então, parecerão, ao meu leitor habitual, um tanto estranhas e vergonhosas. Sim, tenho, hoje, vergonha deste texto, mas ele será essencial para entender uma série que iniciei ano passado e ainda pretendo continuar. Mas, enfim, quem quiser pode e deve lê-lo.

PS: Sim, quando digo que fui comunista dos 16 aos 18 anos, falo sério, como os que lerem isto até o fim (se tiverem estômago) verão.

Caros leitores, fãs e até mesmo apreciadores intermitentes deste blog. Vou dar uma explicação sobre o título deste post já de antemão. Meses atrás, tive a oportunidade de ler nas Páginas Amarelas da revista VEJA uma entrevista com Luiz Felipe Pondé, filósofo brasileiro, colunista do jornal Folha de São Paulo e professor da Faap e da PUC- SP. Porém, mesmo com pontos de vista interessantes, ouso discordar desse filósofo. Por isso, o título desta postagem. Farei uma dialética (oposição de ideias) com esse pensador por meio de respostas a alguns dos vieses dele e até mesmo a algumas partes da introdução dada por VEJA. Enfim, boa leitura.

VEJA- “Seja na sua coluna semanal da Folha de S.Paulo, seja em livros como o recém-lançado “O Catolicismo Hoje (Benvirá)”, ele sabe se comunicar com o grande público sem baratear suas ideias”

RESPOSTA- Justos os elogios desprendidos a esse filósofo pela revista. Todavia, há uma ideia um tanto vaga no excerto: Para essa mídia, o que seria um “barateamento de ideias?”. Todos sabemos das opiniões de VEJA. Porém, falar em “barateamento de ideias” torna-se até mesmo sofismático quando não se define parâmetros para tal.

VEJA- “Pondé é um crítico da dominância burra que a esquerda assumiu sobre a cultura brasileira”

RESPOSTA- Absolvam-me os críticos capitalistas a esse suposto regime de esquerda, mas devo discordar e afirmar categoricamente que a cultura brasileira não tende para a esquerda, e sim para a direita. Uma das maiores preocupações da esquerda relaciona-se com o acesso à cultura para todos. Afinal, parafraseando uma música de Gilberto Gil, os proletários têm direito à educação e cultura, o que é uma pregação esquerdista.

Enquanto isso, a cultura (ou a negligência exercida por alguns governos para com a mesma) quando transformada em instrumento de dominação (o caso brasileiro) e de segregação social, torna-se direitista.

O máximo que se pode alegar sobre a cultura brasileira é que a mesma é populista. Porém, por mais que alguns sofistas teimem com essa ideia, o Populismo representa muito pouco da verdadeira esquerda. Seria uma pseudo-esquerda.

E, além disso, é muito difícil ter uma dominância cultural esquerdista em um país que tem asco à esquerda, mesmo sem conhecê-la.

LUIZ FELIPE PONDÉ- “*Um jantar inteligente* É uma reunião na qual há uma adesão geral a pacotes de ideias e comportamentos. Pode ser visto como a versão contemporânea das festas luteranas na Dinamarca do século XIX, que o filósofo Soren Kierkegaard criticava por sua hipocrisia. Esse vício migrou de um cenário no qual o cristianismo era a base da hipocrisia para uma falsa espiritualidade de esquerda. Como a esquerda não tem a tensão do pecado, é pior do que o cristianismo”

RESPOSTA- Até a parte em Itálico, uma resposta muito informativa. Porém, a partir do ponto em itálico, essa resposta virou uma falácia completa.

Primeiro: Espiritualidade de esquerda? Caro filósofo, existe grande diferença entre a esquerda genuína e a demagogia. Apontar que a hipocrisia migrou do cristianismo (alegação que para alguns é uma meia verdade) para uma falsa espiritualidade de esquerda sem argumentação é um sofisma completo.

Segundo: Pondé, colocar o cristianismo acima da esquerda por causa da tensão do pecado sem fazer ponderações necessárias é uma inverdade, para dizer o mínimo. Afinal, o pecado pode tanto ajudar quanto atrapalhar. Lembre-se que vivemos em um mundo o qual precisa urgentemente de ações, e não de pregações. E pondere também que, enquanto a esquerda propõe mudanças radicais que se executadas podem beneficiar a muitos, o cristianismo propõe paciência e esperança, algo dificílimo em um mundo tão desigual e pobre para muitos.

LUIZ FELIPE PONDÉ- “A esquerda é menos completa como ferramenta cultural para produzir uma visão de si mesma. A espiritualidade de esquerda é rasa. Aloca todo o mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis que estão salvando o mundo por andar de bicicleta”

RESPOSTA- Lembre primeiro, caro professor, que a espiritualidade deve ficar a cargo de religiões e (principalmente) de doutrinas filosóficas. Apesar de religião e política terem uma intrínseca relação por serem duas das coisas mais importantes para o ser, a mistura das duas (seja em governos teocráticos ou quando as religiões são usadas para justificar guerras e outros atos) sempre trouxe resultados catastróficos. Não é preciso voltar muito tempo na história para presenciar tal fato. (Exemplo: O Tribunal do Santo Ofício, apoiado por vários reis durante a era medieval e moderna).

Outro fator reside na típica falácia das supostas pregações de esquerda. Primeiro: a esquerda prega realmente que o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Porém, a mesma corrente ideológica também prega que os trabalhadores não devem ser omissos com relação a esse mal, e por isso devem unir-se e agir politicamente para mudar tal quadro.

E, não, a esquerda ainda não tem pregações relacionadas ao meio ambiente.

PONDÉ- “Não há um pensamento alternativo à tradição de Rousseau, Hegel e Marx. Tenho um amigo que é dono de uma grande indústria e cuja filha estuda em um colégio de São Paulo que nem é desses chiques de esquerda. É uma escola bastante tradicional. Um dia, uma professora falava da Revolução Cubana, como se esse fosse um grande tema. Ela citou Che Guevara, e a menina perguntou: “Ele não matou muita gente?”. A professora se vira para a menina e responde: “ O seu pai também mata muita gente de fome”. O que autoriza um professor a usar esse tipo de argumento é o status quo que se instalou também nas escolas, e não só na universidade. O infantilismo político dá vazão e legitima esse tipo de julgamento moral sumário”

RESPOSTA- Tchê, tchê, tchê, quanta falácia junta.

Pondé, não sei se vivemos na mesma sociedade sinceramente. O que possibilitou tal julgamento não foi qualquer tipo de “infantilismo político”. O que possibilita esse e outros julgamentos é a sociedade em si. Ora, como você mesmo disse, uma menina estuda em um colégio tradicional e de boa qualidade. Quantos outros desejariam a mesma sorte, mas não podem tê-la, já que a sociedade e o sistema exigem demais de quem mal tem o que comer e pouco recompensam a exigência?

Ainda que involuntariamente, você culpa o próprio brasileiro pela situação do país. O grande problema do pensamento brasileiro é a recusa por revoluções. Durante o período Joanino, e até mesmo em outros, só ouvi falar em duas verdadeiras revoluções que ganharam adesão popular, mesmo que insuficiente: A Conjuração Baiana de 1798 e a Insurreição Pernambucana de 1817. Esse é o problema. Seja por piedade, desesperança ou misericórdia pela vida alheia, o povo brasileiro recusa-se a lutar pelos seus direitos, mesmo pacificamente. Por isso, muitos pensadores brasileiros não conseguem enxergar revolucionários como Che Guevara fora da visão de um mero criminoso. Che Guevara lutou… E o Brasil devia seguir o exemplo. Não falo de luta para instalar qualquer regime político. Falo de luta por mudanças, por maior seriedade e menor monopolização da política brasileira por algumas famílias.

A pobreza do povo dá vazão a esse tipo de julgamento. Então, não, infantilismo político pouco tem a ver com isso.

PONDÉ- “O mundo das ciências humanas, em que há pouco dinheiro e se faz pouca coisa, é dominado pela esquerda aguada. Há muito corporativismo e a tendência geral de excluir, por manobras institucionais, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da historia, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel hoje cabe às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígenes, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora. Eu detesto política como redenção.”

RESPOSTA- Pergunto ao filósofo qual o erro do suposto “novo pensamento esquerdista”. A não ser que a lógica capitalista pregue a mulher sendo oprimida somente porque quer, índios e aborígenes como mais perigosos se comparados aos homens brancos e que todo imigrante ilegal faz-se ilegal por ser mau-caráter, devendo por tal motivo ser deportado de volta ao próprio país, no qual provavelmente ocorrem “regimes de esquerda” os quais deprivam seus habitantes de qualquer oportunidade.

PONDÉ- “O cristianismo, que é a religião hegemônica no Ocidente, fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. É uma espiritualidade riquíssima, pouco conhecida por causa do estrago feito pelo secularismo extremado”

RESPOSTA- Secularismo do qual os cristãos da Idade Média são culpados, e que até hoje infecta a mente de muitos.

Além disso, já que o senhor se manifesta contra a hipocrisia alheia, caro pensador, peço-lhe que responda, sem hipocrisia, se acha possível que o trabalhador, o qual trabalha muitas vezes 12 horas por dia, de segunda a sexta, correndo o risco de ser demitido por qualquer deslize e ao mesmo tempo pensando em como estão seus familiares em casa, possa ter motivação para se preocupar com qualquer espiritualidade.

O trabalhador, qualquer que seja sua área, merece mais. Antes de exigir intelectualidade e busca por espiritualidade, reformas trabalhistas são essenciais.

PONDÉ- “Ao lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é frágil, fraco”

RESPOSTA- Primeiro, L. Felipe Pondé, creio ser contraditório defender categoricamente a espiritualidade riquíssima de uma religião e ao mesmo tempo admitir a vocação repressora institucional da mesma. O espírito é ilimitado. Colocar barreiras institucionais a ele é prova de falta de espiritualidade.

Segundo, você não aponta uma virtude cristã com a última frase. Aponta sim um problema. Até hoje, nem as religiões nem as ciências conseguiram provas perenes dos verdadeiros limites do homem. Só é frágil e fraco o homem que quer ser frágil e fraco. Discordarei de uma frase do escritor português Fernando Pessoa parcialmente. Todo homem é sim uma ilha. Afinal, toda ilha tem seus mistérios. Um dos mistérios do homem reside em suas capacidades.

Logo, falar em homem frágil e fraco é pensar de modo obsoleto e falacioso.

PONDÉ- “As redenções políticas não tem isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que acho brega. Essa visão do homem sem responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder”

RESPOSTA- A esquerda nunca afirmou que o homem não tem responsabilidades morais. Existe diferença entre culpar instituições e livrar os homens de qualquer responsabilidade, seja social, política ou até mesmo moral.

PONDÉ- “Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. É um conceito complexo e fugidio”

RESPOSTA- Claro, um conceito complexo e fugidio o qual desmerece completamente os esforços humanos e seus progressos e que foi usado como uma fonte de motivação para a repressão cristã aos pensamentos divergentes, a qual durou mais de 1000 anos.

PONDÉ- “Não se sabe se alguém é capaz de ganhar a graça por seus próprios méritos, ou se é Deus na sua perfeição que concede a graça”

RESPOSTA- Meu caro, falar em méritos em uma época medieval na qual meros questionamentos tornavam-se razões para a morte é um pouco contraditório. Ter mérito não é se omitir. Ter mérito é lutar. Afinal, como diriam alguns dos versos da Canção dos Tamoios, de Gonçalves Dias: “Não chores meu filho, que a vida, a vida é luta renhida. Viver é lutar”

PONDÉ- “Em qualquer hipótese, a graça não depende de um movimento positivo de um grupo. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século XX nos mostrou, é sempre opressivo”

RESPOSTA- Se esse for realmente o pensamento cristão da época, eles entraram então em uma contradição sem precedentes quando se adota hipocrisia como o critério. Movimentos políticos não são válidos, mas prometer “vagas no céu” era válido?

Além disso, os grupos do século XX quase nunca pegaram países em franca expansão. Adicionalmente, generalizações são extremamente perigosas. Afinal, existem vários tipos de opressão, não é, Pondé?

PONDÉ- “Ninguém, em nenhuma teologia da tradição cristã – nem da judaica ou islâmica -, pode dizer-se santo. Nunca. Isso na verdade vem desde Aristóteles: ninguém pode enunciar a própria virtude. A virtude de um homem é enunciada pelos outros homens”

RESPOSTA- Então… O seu argumento teológico tende a ser falacioso para muitas situações, Pondé. Ora, usar um dos pensamentos de Aristóteles, misógino famoso por seu desprezo para com os seres supostamente inferiores (como escravos, mulheres, entre outros), para defender qualquer coisa é muito arriscado. Além disso, ser virtuoso não se iguala a santidade. Existem várias virtudes. Um homem que não enuncia suas virtudes pode perder grandes chances em sua vida por ter se subestimado demais por muito tempo.

Autopromoção de virtudes? Claro, mas com sabedoria.

PONDÉ- “O clero da esquerda, ao contrário, é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês…

Não há contradição interior na moral esquerdista. As pessoas se autointitulam santas e ficam indignadas com o mal dos outros”

RESPOSTA- As razões da esquerda não são tão óbvias, L. Felipe Pondé. Os esquerdistas querem mudanças. Entretanto, recordemos: Os verdadeiros esquerdistas tentam lutar por mudanças. Os outros simplesmente fogem da luta, e esses são na verdade os que se intitulam santos.

PONDÉ- “*Sobre acreditar em Deus* Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo”

RESPOSTA- Perdoe-me, mas acreditar em Deus por mera questão de “elegância” da hipótese de existência do mesmo é um pouco fútil, algo que o senhor tanto critica.

CLARIFICAÇÃO NECESSÁRIA- O autor deste blog é teísta/deísta. Logo, acredito sim em Deus, mas em um Deus diferente daquele das tradições religiosas

PONDÉ- “Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo”

RESPOSTA- Como acreditar em qualquer coisa ou pessoa sem acreditar em si mesmo?

PONDÉ- “Para mim, a religião é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média- querer se meter na vida moral das pessoas.”

RESPOSTA- Uma fonte de hábitos morais que:

A-    Já cometeu vários crimes contra a humanidade

B-    Usou-se da fé humana para construir obras faraônicas

C-    Já guerreou por mais de 2000 anos, sacrificando muitos fiéis, pela causa mundana de expansão religiosa

D-    Impede o laicismo pleno em muitas nações até os dias atuais

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, hoje, um leitor de Filosofia. Agradece a certo amigo físico e católico por ter-lhe puxado a orelha neste post. Também, depois disso, deixou de acreditar tanto em si mesmo, além de entender, mais tarde, o significado filosófico dessa frase pondé-chestertoniana.

 *Publicado originalmente em “O Homem e a Crítica” em 11/11/2011

Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Luiz Felipe Pondé) – Um Resumo

Olá, amigos leitores, como vão vocês? Vamos começar outro daqueles nossos papos?

Hoje, vou falar brevemente com vocês sobre o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ensaio de Ironia, do filósofo e professor da FAAP e da PUC-SP Luiz Felipe Pondé.

Como já adiantei no último post, eu achei esse livro de uma clareza e de uma maestria tão grandes que resolvi não só fazer esse resumo com os pontos principais como também usar esse e outros escritos do Pondé nos meus futuros posts, incluindo aquele que será o segundo post da minha série sobre religião, sobre Agnosticismo.

Neste post, porém, vou, basicamente, contar, com mais detalhes do que fiz no último post (Espírito Natalino), sobre o que se trata o livro. Como eu já disse lá, esse livro, ao contrário do que o nome pode acabar sugerindo, não é um livro sobre história da filosofia, ou sobre sociologia da filosofia (se isso existe, rs), ou enfim. Como o próprio Pondé diz, o objetivo desse livro (genial) é o de fazer uma crítica voraz aos valores que estão sendo incluídos na nossa sociedade pelo Politicamente Correto, que o Pondé chama “carinhosamente” de Praga PC (ou Praga Politicamente Correta).

Como o livro tem, basicamente, 25 crônicas do filósofo (contando com o Apêndice), contarei apenas as histórias das que mais me chamaram a atenção e listarei as outras ao final deste texto. Ainda assim, insisto, como quase sempre faço nos meus posts, que o leitor não só pode como tem uma visão diferente da minha, o que significa que ele talvez ache outros pontos interessantes do livro que eu não percebi. Portanto, se lerem o livro e gostarem de outra coisa, não hesitem em conversar comigo pelo blog ou por outro meio, pois é possível que eu faça um post com as impressões dos leitores sobre o livro. Também há algumas crônicas sobre as quais falarei apenas no segundo “Dialeticando com Luiz Felipe Pondé”, por uma questão de propósito, mas isso vocês entenderão logo que verem o estilo que terá esse post.

Enfim, hora de começar. Antes disso, porém, quero fazer uma ressalva IMPORTANTÍSSIMA. Se você é o tipo de cara que tem a mente tão infectada pelas ideias de “esquerda” (frise-se as aspas) a ponto de achar que simplesmente discordar do modus operandi do movimento LGBT é ser homofóbico, por exemplo, por favor, não perca seu tempo lendo esse livro nem perca o meu tempo comentando comigo que o Pondé é racista, antissemita, anti-islâmico, homofóbico, ateofóbico ou todo esse mimimi, porque ele não é. Inclusive, ele reafirma seu completo asco a piadinhas de cunho racista ao longo do livro, sempre dizendo que elas são a maior prova de “falta de educação doméstica”.

O primeiro escrito sobre o qual quero falar é o segundo na ordem do livro e se chama Aristocracia – Os poucos melhores carregam o mundo nas costas (lembrando que cada um desses títulos que vou listar são os dos capítulos, não dos textos especificamente). Aqui, o filósofo nos presenteia com a concepção original do termo “aristocracia”, que seria o governo não dos mais ricos, mas sim dos melhores, dos mais virtuosos, e que, na verdade, a culpa de esse tipo de governo não dar certo foi exatamente a persistência dos mais ricos em corromper esse ciclo da virtuosidade.

Apesar de eu achar essa ideia um pouco utópica, ela é importante para entender o fatality que o Pondé dá nos “democratas” no terceiro escrito, chamado A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas. Nesse texto, Pondé, ao mesmo tempo em que admite ser a democracia a forma “menos pior” de se governar, pois é a que traz um certo equilíbrio que deixa a busca pela virtude mais acirrada, critica duramente não só o “espírito democrático” e esquerdista criado por marxistas e roussenianos para colocar o povo como santo e digno de toda a glória, mas também a ideia de que todos são absolutamente iguais e que, portanto, têm as mesmas capacidades de opinar sobre as coisas com autonomia, o que, ao falar que a democracia, ao invés de criar conhecimento, criou a opinião pública, Pondé mostra ser uma mentira deslavada.

Porém, é uma outra coisa que Pondé fala que faz esse capítulo digno de nota. A citação que vou colocar a seguir é, sem dúvida, a que marca o espírito não só desse capítulo como do livro todo. Segundo Pondé:

“Uma coisa que salta aos olhos é a tentativa de chamar qualquer um que critique a democracia de   antidemocrático. A sensibilidade democrática é ‘dolorida’, qualquer coisa ela grita. Mas não me engano com ela: esse ‘grito’ nada mais é do que a tentativa de impedir críticas que reduzam a vocação também tirânica que a democracia tem como regime ‘do povo’. O ‘povo’ é sempre opressor, Rousseau e Marx são dois mentirosos. […] Quando aparece politicamente, é para quebrar coisas. O povo adere fácil e descaradamente (como aderiu nos séculos 19 e 20) a toda forma de totalitarismo. Se der comida, casa e hospital, o povo faz qualquer coisa que você pedir. Confiar no povo como regulador da democracia é confiar nos bons modos de um leão à mesa. Só mentirosos e ignorantes têm orgasmos políticos com o ‘povo’.”

Vê-se, por aí, que os próximos capítulos do livro não serão nada “lights” nas críticas. Mas, é no oitavo capítulo, chamado Os funcionários da educação, do intelecto e da arte, que Pondé destila o máximo de sua crítica aos politicamente corretos. Além de chamar boa parte de seus pares (professores universitários) de pessoas com inteligência mediana (o que eu, como mero estudante, jamais consideraria fazer, a não ser em um caso MUITO extremo), Pondé diz que é por causa da covardia dos medíocres da democracia que o Politicamente Correto sobrevive, pois, por ser uma forma de totalitarismo, dependeria da covardia e da mediocridade, que se referem mais à censura à liberdade de pensamento do que à apatia política propriamente. O filósofo também escracha com quem fala com “propriedade” sobre a “ética”, que ele considera um dos assuntos in voga tanto no meio acadêmico quanto nos “jantares inteligentes” (sobre os quais falarei no próximo post Dialeticando que fizer).

Já no 11º capítulo, chamado Religiões, fundamentalismos e budismo light, o professor da PUC simplesmente “owna” o discurso politicamente correto contra as “religiões opressoras” (Judaísmo e Cristianismo) e anti-“anti-Islamismo”, mostrando que, na verdade, o Islamismo não é metade da beleza que os revolucionários da nova esquerda acham que é. Pondé também detona com os novos budistas de 1 semana, mostrando que o que eles querem, na verdade, não é uma religião, mas sim livrar-se da culpa cristã sem terem que se dizer ateus ou agnósticos, o que seria um “materialismo” extremamente grosseiro.

Alguns outros capítulos de destaque são o 12º (Natureza humana e felicidade), em que Pondé admite o pecado como a melhor forma de examinar o ser humano e critica os que são contrários a se fazer qualquer afirmação sobre a natureza humana, o 13º (A nova hipocrisia social), em que o filósofo critica duramente a infantilização do ser humano promovida pelo politicamente correto com seu discurso ético-moralista, o 16º (Injustiça social, mediocridade e banalidade), no qual Pondé renova suas críticas à ideia democrática de “todos são igualmente capazes de ser inteligentes”, e o 24º escrito (O comércio de ideias), em que o filósofo mostra o quão mau-caráter é o politicamente correto não pelos motivos que eles argumentam, mas sim por proibirem algo que o filósofo considera muito caro para si mesmo e para a humanidade, que é o comércio de ideias, o apresentar ideias que discordem do PC, pois não são “boas ideias”.

Para finalizar, reitero que não é o leitor intransigente que deve ler o livro de Pondé, pois dele nada entenderá a não ser um racismo e uma homofobia que, nos escritos do filósofo, INEXISTEM. Esse é livro para os leitores que pensam, assim como o genial escritor, professor e filósofo, que “ideias não são sempre coisas ‘boas’. Às vezes doem”.

Vou deixar aqui algumas citações interessantes do livro (e o index de capítulos) para aguçar-lhes mais ainda a curiosidade, e encerro por aqui este post. Ficam os meus agradecimentos e o meu forte abraço ao leitor que aguentar ler tudo isso e também ao que procurar tirar suas próprias conclusões sobre o livro, exercendo uma atividade da qual muitas vezes somos privados, seja pela “praga PC” ou por qualquer outra coisa, que é PENSAR.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e estudante autônomo de Filosofia.  Não gostava de Luiz Felipe Pondé por achá-lo excessivamente conservador. Ainda bem que essa fase passou.

Capítulos:

Introdução

O politicamente correto e o general Patton

Aristocracia – os poucos melhores carregam o mundo nas costas

A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas

O outro

Romantismo e a natureza

Sexualidade, mulheres e homens

A beleza e a inveja

Os funcionários da educação, do intelecto e da arte

Viajar jamais

A tragédia do keeper (o “bom partido”)

Religiões, fundamentalismos e budismo light

Natureza humana e felicidade

A nova hipocrisia social

Teologia de esquerda ou da libertação

A culpa

Injustiça social, mediocridade e banalidade

Hipocrisia em tempos de guera

Ditadura 

Leitor

Bovarismo

Canalhas cheios de amor

Baianidade

Os “sem iPads” do Reino Unido

O comércio de ideias

Apêndice 

Citações:

“Com a Revolução Francesa e a democracia (que a primeira não criou exatamente porque foi muito mais um regime de terror autoritário), os idiotas perceberam que são em maior número, e de lá para cá todo mundo passou a ter de agradá-los, a fim de ter a possibilidade de existir (principalmente intelectualmente). O nome disso é marketing. Todo mundo que pensa um pouco vive com medo da força democrática (numérica) dos idiotas. O politicamente correto é uma das faces iradas desses idiotas” (A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas)

“Nada é mais temido por um covarde do que a liberdade de pensamento. Toda forma de totalitarismo (o politicamente correto é uma forma de totalitarismo, e essa forma está presente na palavra ‘correto’) sobrevive graças às hordas de inseguros, medíocres e covardes que povoam a educação e o mundo da cultura e da arte” (Os funcionários da educação, do intelecto e da arte)

“A mídia muitas vezes parece uma reunião de centro acadêmico de ciências sociais na forma de simplificar o mundo ao nível de uma menina de 12 anos” (Os funcionários da educação, do intelecto e da arte)

“Até golfinhos conseguem ser ateus, porque o ateísmo é a visão de mundo mais fácil de ter: a vida é fruto do acaso e não tem sentido além dos pequenos sentidos que ‘inventamos’.” (Religiões, fundamentalismos e budismo light)

“Se você quiser acertar numa análise que envolva seres humanos, continue a usar o pecado como ferramente para compreender o comportamento humano: orgulho, ganância, inveja e sexo continuam a mover o mundo (a luta de classes nada mais é do que um caso de ganância e inveja). O culto da ciência como conhecimento seguro do futuro humano sob controle das experiências ‘em laboratório’ degenerou no culto do ser humano como tendo controle do que ele é e do que pode vir a ser. O próprio nascimento do Estado moderno e sua burocracia de controle do cotidiano também marcaram esse processo, na medida em que a experiência da organização da vida carrega em si um sentimento de potência positiva” (Natureza humana e felicidade)

“Dizer coisas coisas como todo índio é legal, pobre é sempre gente boa, gay é sempre honesto, ‘eu não gosto de dinheiro’, quando na realidade todo mundo tem sua dose de miséria, além de vaidade barata, simplifica (como sempre, o pior efeito da praga PC é a burrice que ela cultiva) a natureza humana, nos impedindo de pensar em nós mesmo de modo adulto. […] Fingindo ser contra o mundo do mercado e do dinheiro, o politicamente correto é um dos seus produtos mais vagabundos em termos de qualidade. Entre a felicidade e a autoestima, prefiro o pecado” (Natureza humana e felicidade)

“Todo mundo sabe que a substância última da moral pública é a hipocrisia, por isso quem nega esse fato é em si o primeiro hipócrita” (A nova hipocrisia social)

“Não existe a possibilidade de associarmos ética ou moral aos princípios de marketing, como se faz hoje em dia. E o politicamente correto é uma forma de marketing político e ético”. (A nova hipocrisia social)

“Ninguém precisa de Nietzsche para matar Deus, basta chamar um teólogo da libertação.” (Teologia de esquerda ou da libertação)

“A canalhice sempre pagou bem nesse mundo, e o politicamente correto é uma das novas formas de canalhice que assolam o mundo da cultura, da academia e da mídia”. (Canalhas cheios de amor)

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 27/12/2012. O leitor entenderá com a republicação de outros posts.