Mises

Ideias não matam pessoas: de como o Grande Irmão orwelliano está mais próximo do que você pensa

Desde tempos em que boa parte da internet brasileira se mobilizava para condenar Rachel Sheherazade no tribunal da história (e, provavelmente, em um tribunal jurídico de fato) por seus comentários acerca de um horrendo caso de justiçamento via linchamento contra um jovem negro no Guarujá, tenho constatado, não com pouco temor, o seguinte: o Grande Irmão orwellianofunga em nossos pescoços, e muitos sabemos que podemos ser os principais responsáveis por isso.

Relembremos: no início do ano passado, tornou-se moda e prova máxima de alta cultura, ao menos nos círculos de esquerda brasileiros, culpar a supracitada jornalista do SBT pelos linchamentos subsequentes naquele período, posto que, em um de seus últimos quadros “Opinião” no Jornal do SBT, teria incitado tais atos com sua fala sobre o caso citado no parágrafo anterior, isto é, supostamente divulgara ideias que seriam as maiores culpas por tão grotescas exibições de barbárie.

Quase simultaneamente, setores da direita brasileira, do alto de seu método político baseado no retrógrado, propuseram a criminalização da apologia ao comunismo e similares no Brasil, argumentando para este fim que o Comunismo matou milhões durante o século XX, além de ser o responsável direto, de acordo com a mesma narrativa, pela derrocada social vivida em terras tupiniquins há algumas décadas.

Se a esquerda quis usar o rigor da lei contra sua opositora na mídia, a direita, pois, não teria motivos para ficar para trás. O caso, contudo, é que as duas, mais uma vez, erraram, e quem pagará o pato, rest assured, somos todos nós.

Legalismo totalitário, um delírio cretino

Ao reclamarem a força da lei contra inimigos, a conversa que ambos os grupos querem inocular de modo já adulto no imaginário coletivo é muito simples: não só as leis devem ser respeitadas, como também são ou deveriam ser os parâmetros morais da sociedade.

Nada, porém, mais falso e mais pérfido. Se as leis fossem nosso parâmetro moral, não seria o brasileiro um ávido combatente da sonegação de impostos e da pirataria de produtos, além de um aguerrido defensor de projetos como a Lei Seca?

Além disso, pelo menos desde “A Desobediência Civil”, de Thoreau, qualquer parvo um pouco mais instruído sabe que há, muitas vezes, leis tão abusivas que respeitá-las seria uma afronta à dignidade humana na Terra.  Que tipo de sociedade, então, querem formar esses legalistas se não as distopias totalitárias que tanto foram o pesadelo de Orwell, Camus, Bradbury, Arendt e muitos outros por tanto terem nos assolado em tempos passados? Como assim não devemos nem podemos desrespeitar as leis que atentam contra os direitos fundamentais de todos?

E, mais importante para este caso que tratamos, como justificar, de uma maneira a não ser a totalitária, a criminalização da mera divulgação de uma ideia dentro de um molde de sociedade que deveria se basear, justamente, na liberdade de expressão e de pensamento?

Pequenas justificativas, grandes cretinices

Do lado da esquerda, há, via de regra (o que, no caso, é o mesmo que “sempre”), um par de justificativas: ou se diz que o discurso de ódio não deve ser contemplado pela liberdade de expressão justamente por incitar o ódio, levando, inevitavelmente, à morte – sendo o ódio, é evidente, uma motivação para a morte -, ou se diz que, assim como todos os direitos, a liberdade de expressão não é nem pode ser um direito absoluto e intocável.

Vamos, primeiro, à segunda justificativa, posto que também a direita se utiliza dela em muitos casos, principalmente, como este blogueiro já testemunhou ocularmente, para ameaçar as pessoas de processo por terem “injuriado” o direitista ou alguém na discussão, ou seja, para defender lateralmente ou diretamente a existência de uma bizarrice como “injúria” em nossos Códigos Penal e Civil.

Ora, afirmar que um direito não é absoluto, fora ser uma obviedade brutal, é só uma justificativa pequena e cretina que pode ser utilizada para diversos fins, desde cercear comportamentos de fato perigosos até remover direitos que deveriam ser pétreos e que são importantes para o bom funcionamento de uma sociedade livre.

Pode-se, por exemplo, evitar a agressão de todos contra todos ao se postular que, não sendo a liberdade de expressão um direito absoluto, não se pode agredir pessoas fisicamente em nome dessa liberdade, já que a integridade física da pessoa humana não deve ser posta em risco sob nenhuma circunstância, ao mesmo tempo em que se pode utilizar esse mesmo postulado e mais algum pretexto do tipo “moral e bons costumes”, “defesa da alta cultura”, “justiça social” ou “defesa dos oprimidos” para relativizar e, posteriormente, instituir a censura como modus operandi para um governo que quase inevitavelmente se tornará, adivinhem, um governo totalitário. Does that ring any bells?

Do lado da direita, há, além da mesma segunda justificativa da esquerda, outra que é pura simbiose com a primeira da esquerda: a de que homicídios dolosos inevitavelmente têm motivações, podendo ser e normalmente sendo estas as ideias, o que as tornaria também responsáveis por assassinatos e inspiraria certos cuidados quanto ao grau de liberdade  que se deve dar à sua divulgação. De novo, does that ring any bells?

O fato é que a justificativa simbiótica parece sensata e sua lógica, pois, indefectível, mas há um pequeno problema que nem direita nem esquerda conseguem responder: se há uma relação tão determinista entre ser exposto a uma ideia, tomá-la para si como verdade absoluta e promover assassinatos em seu nome, como explicar que nem todos os (aliás, talvez a grande maioria dos)  que se declaram adeptos de barbaridades  ideológicas atentem contra a vida humana em algum momento?

Tal situação fica transparente ao notarmos, por exemplo, que há muitos que se declaram comunistas nas universidades e  propagam essa ideologia até no seu modo mais virulento mas que, ainda assim, não tem qualquer registro em sua ficha criminal, e isto em uma sociedade com graves problemas jurídicos como é a brasileira.

A justificativa e seu consequente temor, portanto, se mostram muito distantes da realidade, o que os deslegitima como bons argumentos para a proibição de divulgação de quaisquer enunciados, por mais que nos soem como bárbaros e por mais que as ideias ali contidas, se aplicadas (e, claro, a aplicação deve ser impedida pelos meios corretos), aviltem contra a dignidade humana.

A metonímia maldita… ou será bendita?

Há, porém, uma justificativa para esse temor (isso, lógico, para os que não o usam justamente para ganhar mais e mais poder), e esta se encontra não tanto nos regimes totalitários ou em ideias desumanizadoras, mas na linguagem que usamos para descrevê-los.

Quando vamos descrever, por exemplo, o regime de Adolf Hitler, ou melhor, suas atrocidades, dizemos que “o Nazismo matou x milhões de pessoas”. Da mesma forma, trabalhamos com os regimes de Stalin, Mao, Fidel Castro, entre outros, e da mesma maneira estamos nos acostumando a trabalhar  com as ideias aviltantes. Quem nunca ouviu falar, por exemplo, que “machismo mata” ou “o racismo segrega”?

É óbvio que tais metonímias (isto é, tais tomadas da parte pelo todo ou do todo pela parte) são benéficas em termos de propaganda, já que muitas vezes evitam que as pessoas adiram a essas ideias e as usem como baliza para atrocidades. O problema, entretanto, é quando essa metonímia que transita entre o bendito e o maldito vai para o seu lado maldito, ou seja, é tomada como fiel descrição da realidade.

Explico: por mais que seja excelente dizer que “o Comunismo e o Nazismo mataram milhões” para evitar que mais pessoas se tornem adeptas dessas ideologias nefastas, é necessário lembrar que quem matou não foram as ideias em si, mas indivíduos que a elas eram fiéis e que as usaram como pretextos morais, ideológicos, políticos, culturais e até mesmo científicos (!) para cometerem suas barbaridades sem por elas assumirem nenhuma responsabilidade exatamente por saberem que, com vários outros fazendo o mesmo, ninguém iria procurar a resposta complicada, mas a simples, culpando ideias por atos.

É importante frisar, mesmo assim, que não existe relação necessária entre as afirmações “x ideia foi usada como pretexto para algum fim” e “x ideia foi deturpada” (isto é, não sou certos políticos de esquerda para fingir que acredito, em prol da luta pelo poder e pela hegemonia, que Marx foi deturpado), assim como afirmar que uma ideia foi usada como pretexto para uma finalidade não significa negar que esta deve ser combatida  dentro da sociedade e, de preferência,  expurgada da mente das massas.

Sobre como se deve preferir Mises ao Grande Irmão

Resta, então, a questão final deste artigo: como combater as ideias desumanizadoras sem apelar ao poder das leis e, com isso, deixar ao Estado o mínimo de poder possível sobre a mente das pessoas, seguindo fielmente a citação de Thoreau de que “o melhor governo é aquele que menos governa”?

Muito simples. É só seguir o conselho que nos lega o economista austríaco Ludwig von Mises em um dos capítulos de seu famoso “As Seis Lições”, livro que, por incrível que me parecia antes de lê-lo, contém mais palavras de sensatez do que de insensatez. Segundo Mises, e segundo qualquer pessoa com o mínimo de juízo, “faz-se necessário combater as más ideias”. O economista, porém, ao contrário da maioria dos que se dizem sensatos, também nos lembra de que “ideias, e somente ideias, podem iluminar a escuridão. As boas ideias devem ser levadas às pessoas de tal modo que elas se convençam de que essas ideias são  as corretas, e saibam quais são as errôneas”.

Se me é permitido, entretanto, quero completar Mises, já que o austríaco se esqueceu de avisar a seus leitores  o que em verdade vos aviso agora, amigos leitores: é necessário desconfiar de qualquer sujeito que tema ideias a ponto de querer censurá-las e que, por conseguinte, argumente que devam ser utilizados outros meios para iluminar a escuridão. Tal sujeito, via de regra, quererá, em algum momento, ser o Grande Irmão a ser cultuado. E o problema é que o Grande Irmão, temo, se aproxima cada vez mais.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre.  Pensa seriamente que, se censura convencesse alguém, deveria ser usada contra seus defensores.

Eu, Apolítico – Ensaio sobre a não-resolução de problemas políticos (Ou: Por que sou Apolítico?)

Muitos dos meus leitores, senão todos, diversas vezes me questionam sobre o porquê de eu me declarar um Apolítico, baseando-se, em especial, no argumento de que ou a apolitização é impossível (pois qualquer ato seria político), ou é uma tolice sem tamanho, pois, platonicamente falando, isto forçaria o apolítico, por definição, a aceitar ser governado por qualquer mula, até mesmo por Sakamotos, Sáderes, Duvivieres e outras mulas stricto sensu.

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