Neo-Ateísmo

Notas Mensais – Setembro de 2014 – Outubro de 2014

Orgulha-se de não ser de esquerda e, portanto, de não idolatrar canalhas. Idolatra Arthur Schopenhauer (que, por mais que seja meu filósofo favorito, foi sim um canalha em vida) e Aldous Huxley (que, segundo o próprio luminoso-mestre deles, pode não ser exatamente um antiesquerdista).


(mais…)

Anúncios

Sobre críticas e delírios

Olá, amigos leitores, e este é mais um de nossos papos.

Bom, depois de algum tempo sem refutar alguma besteira antirreligiosa, encontrei, por intermédio do ilustre amigo Luz Nas Trevas, um texto postado no site da Sociedade Racionalista por um tal Rodrigo Santos (se ele quiser responder, será devidamente ouvido), em que este se propunha a fazer uma Crítica ao fanatismo religioso cristão.

(mais…)

Notas Mensais – Abril 2014 – Maio 2014

A diferença entre religiosos fanáticos e neo-ateus fanáticos é que religiosos fanáticos desejam câncer para quem não segue sua religião, enquanto neo-ateus desejam que, se pegarem câncer, os religiosos não se tratem em hospitais, instituições de origem religiosa, com os mecanismos da ciência, concebida por um bando de catolicões ultrarreligiosos.

(mais…)

Leonardo Sakamoto e o relincho neo-atoa: “Se Deus quiser, o Brasil ainda terá um presidente ateu”

Olá, amigos leitores, este é mais um dos nossos papos juntos, e desta vez vou apresentar-lhes algo mais obsceno do que pornografia zoofílica: o blog do (des)cientista político, jornalista e professor da Progressista Universidade Comunista, digo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Leonardo Sakamoto, cujo Lattes não vale nem a pena procurar.

Sim, é aquele mesmo Sakamoto cuja Filosofia vai desde afirmar que ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal a pregar que, já que as escolhas de produtos dentro da ordem capitalista são limitadas, a liberdade não existe e não há motivo para não se destruir o Capitalismo (eis um: manter o mundo a salvo do Comunismo, mas não é isso que quero discutir aqui). Pena que, se fosse realmente discutir tais pensamentos em toda a sua complexidade, precisaria, além de muitos sacos de vômito, de um livro, e não um artigo.

Sakamoto ostentando “Filosofia” e matando de tédio a estátua de Drummond

Hei, porém, de segurar toda a minha ânsia para apresentar ao leitor algo que, talvez, seja o auge que a filosofia sakamotiana já tenha atingido – e o faço única e exclusivamente porque Flávio Morgenstern, do Implicante, ainda não o fez (e pelo visto não fará, pois esperar um novo artigo em sua página está mais difícil do que acreditar em mula-sem-cabeça).

Desta vez, depois de ficar indignado ao ler em um artigo de Mônica Bérgamo que certo bispo disse acreditar ser natural que um pastor evangélico possa ser Presidente da República no futuro, Sakamoto resolveu assumir de vez seu neo-ateísmo e seu coitadismo antirreligioso e escrever, em algo que se convencionou chamar de artigo, sobre as suas esperanças de ter, no futuro e “se Deus quiser”, um presidente ateu, o que quer que Sakamoto entenda por isso.

O artigo, intitulado Se Deus quiser, o Brasil ainda terá um presidente ateu, começa com tom indignado:

Em resposta à Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo deste domingo (21), o bispo Robson Rodovalho, líder da igreja “Sara Nossa Terra”, afirma que acredita ser natural o país ter um evangélico na Presidência da República no futuro.

Pergunto-me, com toda franqueza, qual seria o problema de o bispo ter essa crença na posse. Afinal, com o crescente número de evangélicos no Brasil, apesar de todas as suas cisões, não é mesmo de se surpreender que um deles ascenda à presidência.

Como, porém, explicação é coisa para os fracos, Sakamoto apenas nos informa que:

Se não me falha a memória, o Brasil teve seu primeiro presidente protestante na figura do presbiteriano Café Filho, que assumiu o país por pouco mais de um ano após o suicídio de Getúlio Vargas, não tendo sido eleito para a função. O ditador Ernesto Geisel era luterano, mas também não foi eleito pelo voto popular. A grande novidade seria um governante protestante que fosse evangélico neopentecostal e suas liturgias da prosperidade e da cura.

Fora o fato de um dos dois presidentes, Café Filho, ter tido, em comparação a seu antecessor e a alguns de seus sucessores, relevância zero para o cenário político brasileiro e de ter sido eleito como vice-presidente quase que na esteira de Getúlio Vargas, e não por ser presbiteriano, e de Geisel não ter papagaiado seu luteranismo por aí, adoraria saber qual é a relevância das “liturgias da prosperidade e da cura” para julgar se alguém será ou não um bom presidente. Estaria Sakamoto tratando todo pentecostal ou neopentecostal como um mero fanático religioso sem cérebro? Ou seria essa uma forma freudiana de projetar a falta de neurônios de Sakamoto em um grupo do qual ele, declaradamente, não gosta?

Café Filho para Sakamoto: “Eu não boto uma hora na lan para ler isso”

Gostaria também de saber qual é a relevância dos dois parágrafos a seguir para o caso:

O número de católicos cai (de 63%, em 2010, para 57%, hoje, segundo o Datafolha) e o de evangélicos não apenas cresce em número (de 24% para 28%), mas também em presença na política partidária. Marina Silva, membro da Assembleia de Deus, hoje está em segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos para a eleição presidencial no ano que vem.

E, se por um lado, há parlamentares evangélicos que vociferam contra a dignidade humana, mas outros que atuam na defesa dos direitos das minorias, mesmo nos casos em que há conflito com sua religião. Da mesma forma que ocorre com muitos católicos.

Aliás, também adoraria saber como Sakamoto se formou em Jornalismo sem, pelo visto, passar por qualquer disciplina de Produção de Textos, pois o segundo parágrafo está deficiente quanto aos elementos de coesão, o que, neste caso, compromete também a coerência. Afinal, qual é a relação entre parlamentares evangélicos que “vociferam contra a dignidade humana” (o que quer que isso signifique na novilíngua sakamotiana), outros que defendem “os direitos das minorias” e a previsão do bispo?

Parece, então, que o mistério continuará, pois o blogueiro “pogrecista” muda completamente de assunto e mostra, de novo, mais indignação:

Além do mais, no fundo, isso não tem importado muito. Uma vez chegando ao poder, independentemente de sua crença, políticos atendem às demandas de grupos religiosos conservadores com vistas à chamada governabilidade ou visando às eleições.

Pena para ele, porém, que exista algo chamado “promessa de campanha”, que os evangélicos e outros conservadores não esquecem, o que deveria acontecer também com todo o eleitorado brasileiro que votou em uma candidata que prometera, em carta aberta, não se movimentar politicamente em prol da legalização do Aborto, mas que o faz praticamente desde que assumiu a presidência.

Digo, aliás, que é muito bom, no atual panorama, que ainda exista alguém capaz, tanto em política quanto em retórica e argumentação, de questionar a inviolabilidade e a inquestionabilidade de certas causas dos progressistas. Sakamoto poderia, então, argumentar, como fez durante um bloco de sua entrevista ao Provocações, que estou tentando esconder meu viés conservador sobre as coisas. Lamentavelmente, de novo para ele, nunca escondi de ninguém, por exemplo, minha favorabilidade à legalização do Aborto, algo que qualquer conservador rejeitaria, com certa razão, peremptoriamente (Apesar disso, assumo, estou reconsiderando essa posição, e já reconsiderei minha posição sobre as religiões e sobre outras histórias que contei no artigo linkado acima).

O que não reconsidero, no entanto, é minha postura contrária à psicopatia de certos progressistas que têm tanta certeza da veracidade de seus dogmas que se acham no direito de julgar como errada toda e qualquer ideia conservadora e todos os que a eles se associem. Pelo visto, Sakamoto é um desses progressistas.

Mas, caros amigos, não pára por aí, pois Sakamoto trouxe, como exemplo do “rabo-preso” entre políticos eleitos e movimentos conservadores, o que chamou de “combate à homofobia por meio da educação”, que, segundo ele:

avançou pouco na atual administração federal, menos por conta da pressão de deputados da bancada evangélica e mais por esse cálculo político.

De fato, adoraria saber quem são esses deputados evangélicos que, pelo visto, não pressionaram o governo por conta do absurdo kit-gay e da ideia estapafúrdia de que uma educação que sequer dá conta de ensinar leitura e cálculo aos aprendizes deveria perder tempo com valores que devem ser aprendidos no ambiente doméstico, pois já saberei em quem não votar nas próximas eleições. Afinal, de “políticos com o rabo preso” e “que posam de imparciais” já estamos cheios, ou, pelo menos, é o que o próprio Sakamoto deixa implícito em seu artigo.

Falando em seu artigo, aliás, eis mais uma informação desconectada do contexto da previsão do bispo:

A pesquisa Datafolha, deste domingo, mostra que os católicos podem ser menos conservadores que os evangélicos em alguns temas (como a adoção por casais do mesmo sexo), mas ainda assim, na resultante final, a nossa sociedade não se coloca de forma progressista com relação aos direitos individuais.

E uma pergunta que não quer calar: Exatamente por qual motivo nossa sociedade – ah, essas entidades sempre misteriosas e nunca bem delimitadas – deveria se posicionar “de forma progressista” ante os direitos individuais? Sakamoto deve se esquecer de que existe o outro lado, o conservador, da política, apesar de ele mentir dizendo que “não tem problemas com blogueiros conservadores”.

Está cansativo, amigo leitor? Pois é, concordo, mas agora é que as coisas ficam interessantes, pois Sakamoto se lembra do que pretendia discutir e afirma que:

Particularmente, ficarei chocado no momento em que o Brasil eleger um presidente declaradamente ateu que não precise esconder isso de seu eleitor com medo que o seu caráter seja, estupidamente, julgado por conta disso.

Ao que parece, o embusteiro progressista parece se esquecer de que, até que se prove o contrário, não existe moral ateia e, portanto, os limites morais de um ateu dependerão única e exclusivamente de seu humor e de sua vontade, o que faz com que a preocupação acerca de seu caráter, apesar de na maioria dos casos exagerada, seja, sim, plausível. Mas, pelo visto, os conhecimentos de Sakamoto sobre Filosofia da Religião são rasteiros e guiados por um senso comunista de espiritualidade (ou seja, materialismo (!!!) dialético aplicado à religiosidade), pois, em seguida, fala que:

(Tenho certeza que FHC e Dilma são, no máximo, agnósticos não-praticantes. Mas tiveram que ajoelhar e dizer amém. E o agnóstico Getúlio Vargas, que tomou o poder através de um golpe, instituiu o ensino religioso nas escolas públicas, em 1931, em nome da governabilidade.)

Primeiro, como ateu agnóstico, gostaria sinceramente de saber como se pratica o Agnosticismo. Será que devo ficar papagaiando “não sei se Deus existe” por aí? Ou será, talvez, que “praticante” seja um rótulo que só se deva dar a quem tem a obrigação de seguir uma série de ritos e dogmas  para se aproximar da divindade?

Segundo, na época do agnóstico Getúlio Vargas, e ainda na nossa, e também em todas as épocas conhecidas, havia uma ligação muito forte entre senso de moralidade e religiosidade – o que não significa que todo ateu é imoral, apenas que não há moral que se sustente baseada em ateísmo-, o que fazia e faz com que muitos educadores, como os que elaboraram a LDB de 1996 (chupa, Sakamoto!), se movimentassem para tornar pelo menos facultativo o ensino religioso em escolas públicas. Oh, estariam então os educadores de 1996 pensando em “governabilidade”?

FHC, o “neoliberal de direita”, não curtiu Agnosticismo e Ateísmo

Sakamoto, porém, prefere continuar com a ladainha progressista e parafraseia o que disse dois parágrafos antes:

O fato é que o Brasil aceitaria mais facilmente alguém que acredita em Deus mesmo com uma fé diferente da sua do que alguém que não acredita ou não tem certeza disso.

E o fato é também que o Brasil tem boas razões para isso, e elas se chamam Joseph Stalin e Mao Tsé-Tung. Para Sakamoto, no entanto:

No dia em que isso ocorrer, creio que atingiremos a maturidade como democracia. 

Isso porque, é óbvio, maturidade democrática tem tudo a ver com as pessoas descartarem completamente a moral que aprenderam e começarem a trocar o minimamente certo apreço dos evangélicos pelas causas cristãs pela muito duvidosa conduta de ateus (na verdade, provavelmente neo-ateus, mas finjamos que os eleitos não defecarão pela boca sobre as religiões) acerca de assuntos morais. É, de fato, não consigo entender tanta complexidade filosófica, também expressa quando diz que:

Não porque ateus são melhores, longe disso.

(Btw, Tio Stalin curtiu esse seu quase-deslize.)

Por fim, Sakamoto volta ao velho blá-blá-blá de militante progressista e diz que isso seria melhor

pelo fato de que teremos compreendido que, se o governante zelar pela dignidade e igualdade de direitos de todas as crenças, sua fé pessoal é tão importante quanto o time de futebol pelo qual torce.

Pena, porém, que democracia não se resume a igualdade de direito das crenças nem a progressismos baratos. Faz parte da democracia, também, a organização política e a conquista do eleitorado. Se um ateu apresentar propostas atraentes e não for um prosélito antirreligioso (que deve ser o que Sakamoto entende por ateu), não sei se nossa população realmente o tiraria do bolo. Aliás, qualquer palavra sobre isso é mera especulação e, até que se prove o contrário, reclamação vazia progressista.

Enfim, era isso, amigos leitores. Sei que o artigo ficou cansativo, mas isso se deu porque refutei parágrafo por parágrafo de um autor que, pelo visto, acha que retórica e prolixidade andam juntas. Digo sinceramente que, se tivesse escrito o texto sem o 2º, o 3º, o 4º, o 5º e o 6º parágrafos, teria sido bem mais convincente.

Aproveito, também, para convocar outros ateus, dentre eles o libertário Luciano Takaki, o conservador de direita Renan Felipe dos Santos, o liberal de centro-direita Rogério Jorge da Silva Figueiredo e o conservador de esquerda Luz nas Trevas, além de eu mesmo, para se candidatarem, no futuro, à presidência do país. Ou será que a religião de Sakamoto, o marxismo heterodoxo, não lhe permitiria votar em quem põe em dúvida aquilo que ela prega? Se não for o caso, agradeço pelo voto antecipadamente.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e diletante da Filosofia. Acha que a lei deveria punir mais seriamente o crime de lesa-inteligência.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 30/07/2013

O Mínimo que Bernardo Lopes precisa saber para não ser um Idiota – O show de falácias de um Lanterna Verde

É, meus amigos, finalmente vou encarar um dos membros da semi-famosa Tropa Lanterna Verde, que é, basicamente, uma congregação de neo-ateus (e um cristão moderadíssimo, Alexandre Mansinho, um dos poucos membros lúcidos da Tropa, apesar de menos lúcido do que deveria) cuja raiva pela religião, como típico de todo neo-ateu, ultrapassa o limite do razoável e os motiva a fazerem vídeos em que igualam “agredir gays” a “não permitir casamento civil igualitário” ou em que sugerem que a existência de anti-militância contra movimentos sociais é fruto pura e simplesmente da intolerância de alguns de seus membros, e não da própria natureza segregatória desses movimentos.

É também uma característica comum a quase todos (senão a todos) esses membros o ódio patológico pela figura de Olavo de Carvalho, que, segundo eles, a partir do momento em que se torna um best-seller em um país que NÃO LÊ, também se torna uma ameaça bem maior do que a mentalidade totalitária do PT ou até mesmo que os próprios religiosos que tanto combatem.

Enfim, considerando isso, não é de se surpreender, então, que venham, desses membros, ataques contra a figura do filósofo (baseados, como quase todo ataque conhecido a Olavo, no famoso “diz-que-me-diz”ou em uma ou outra falha esporádica do filósofo em assuntos QUE NÃO SÃO FILOSÓFICOS), sendo o mais recente deles produzido pelo “Nerd Cético”, também conhecido por Bernardo Lopes, um dos líderes dessa congregação neo-ateísta.

Neste ataque, intitulado “O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota”, em óbvia paródia ao conhecido livro homônimo de Olavo, obra esta que o cético de boteco, em hangout posterior ao seu vídeo (não me lembro em que ponto, creio que pouco antes do 40º minuto), admite não ter lido, Bernardo faz uma série de afirmações muito interessantes de serem analisadas, além de dar provas,em seu vídeo, de que não leu mesmo a obra, visto que este está estruturado de maneira completamente divergente daquela, cujo título sequer foi escolhido por Olavo, mas pelo editor, Felipe Moura Brasil, não com intenções dogmáticas, mas como uma espécie de provocação ao leitor, e, em especial, ao leitor acostumado à literatura (se é que é digna deste nome) politicamente correta.

Estes detalhes mais profundos sobre o livro em si, entretanto, pretendo abordar em outra oportunidade, pois o que me interessa é, realmente, analisar as falácias de Bernardo. Vamos, então, aos trabalhos.

Bernardo como deseducador retórico

A primeira das 14 frases (de analfabeto funcional) que o neo-ateu posta é a seguinte:

“1- Ad hominem não é argumento”

Certa feita, em um de seus vídeos, o famoso Conde (cuja vida intelectual por hora se limita a xingar muito Francisco Razzo de “conservador em torre de marfim”) disse, sobre Yuri Grecco, outro dos líderes da manada de céticos de boteco, que este tinha uma “cultura de wikipédia”. Pelo visto, nem essa Bernardo consegue ter, visto que, até mesmo na tripudiada Wikipédia, lê-se que “uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega.”

Isto significa que, sendo o ARGUMENTUM (frise-se: ARGUMENTUM) ad hominem uma falácia, isto não o exclui, mas sim o inclui no rol dos argumentos, apesar de logicamente inválidos. O que Bernardo faz, então, é pura e simples distorção da realidade e demonstração de completo desconhecimento de qualquer estudo mais apurado sobre as retóricas grega e latina.

Esta, porém, é apenas a ponta do iceberg. Em seguida, nosso nada ilustre lanterna verde brasileiro, pensando ter descoberto a América, afirma que:

“2- Professor precisa ser formado”

Com isto, sem perceber, Bernardo coloca como mentirosas as carreiras de grandes literatos brasileiros como Machado de Assis, jornalista SEM FORMAÇÃO, e Guimarães Rosa, diplomata SEM FORMAÇÃO. O cético também descarta a existência intelectual de Mário Ferreira dos Santos, filósofo brasileiro sem formação e, quiçá, um dos maiores comentadores já existentes da obra de Nietzsche (um fato para quem tenha lido Assim Falava Zaratustra na versão prefaciada e comentada pelo filósofo brasileiro), que também NÃO TINHA FORMAÇÃO em Filosofia (Aliás, Nietzsche, se formos analisar, seria hoje formado no que chamaríamos de um curso de Letras, ou, talvez, de Letras Clássicas).

Quanto ao professor, este tipo de imbecilidade só é proferida por dois tipos de pessoas: Os que acham que formação é documento (e, não, não é, só é para áreas técnicas, o que não é o caso, por exemplo, de Filosofia ou Letras) ou os que, como dito em outro post meu, veem a educação pela ótica mussoliniana e, portanto, fascista. Aliás, que me perdoem os leitores, mas minto, pois há um terceiro tipo: aqueles que, por não terem passado por uma licenciatura, não conhecem as bizarrices intelectuais a serem aceitas pelos futuros professores, que, muitas vezes, só se capacitam para dar aulas dando aulas, e não “por formação”.

Tudo isto, entretanto, é apenas a primeira seção das bizarrices de um dito cético. Agora é que a coisa começa a pegar fogo.

Bernardo como mitômano

Um mitômano, como creio que sabem os amigos leitores e o próprio “nerd cético”, é aquele que, de tanto mentir (e mentir com convicção), passa a crer na própria mentira. Parece ser isto o que acontece com Bernardo nas afirmações seguintes, distorções descaradas do pensamento de Olavo espalhadas por seus desafetos, dentre eles o próprio Bernardo:

“3- Vermelho é só uma cor”

Segundo o nosso genial cientista político, vermelho passou a ser apenas o que antes do comunismo era, ou seja, uma cor primária. Pois é, espero que os membros do PCB, do PSTU, do PCO e do próprio PT não o ouçam dizer isto, nem as duas próximas frases, ainda mais absurdas.

PS: Isto não significa, é lógico, que tudo que tem vermelho é comunista, mas o próprio Olavo não disse isso até que se prove o contrário.

“4- Comunismo respira com aparelhos”

“5- Teorias da conspiração sem fundamentos são papo furado”

Aqui, também, Bernardo demonstra seu completo desconhecimento de tudo que se refere a comunismo e mesmo ao livro que parodia, pois, em um dos artigos lá constantes, Olavo nos mostra um trecho das memórias de George Soros (se bem me lembro), em que este se declara um internacionalista a todo custo, inclusive ao custo de financiar movimentos comunistas por todo o mundo.

Do mesmo modo, ao reclamar de “teorias conspiratórias”, Bernardo também demonstra não ter o menor conhecimento sobre o Foro de São Paulo, cujas atas estão disponíveis na internet para qualquer um que queira examiná-las. De fato, concordo com o dito cético quanto a teorias conspiratórias sem fundamento (um pleonasmo, diga-se de passagem). Mas esta teoria, de conspiratória, nada tem.

“6- AIDS não é teoria da conspiração”. 

Mais mentirosa, porém, é a frase acima, sobre a qual apenas pergunto ao nosso amigo cético (que, segundo seu próprio companheiro de tropa, Maestro Bogs, deveria, por definição, procurar as evidências daquilo que diz): Quando Olavo afirmou isso? Em que contexto? Com quais intenções? Para quem?

Para um cético, nosso amigo é um bom mitômano. Hora de mudar de assunto, no entanto e pelo menos momentaneamente, visto que as falácias bernardianas têm muitas subdivisões.

Reductio ad absurdum

“7- Combustíveis fósseis existem”

“8- Reconheça seu erro”.

Em seguida, nas frases acima, Bernardo, como todo aquele que, assim como seus companheiros, sente medo patológico por Olavo, aproveita-se de duas falhas momentâneas e que nada têm a ver com Filosofia propriamente dita para, então, tentar, porcamente, reduzir o filósofo campinense à condição de idiota.

Para quem muito falou sobre falácias na primeira frase, porém, é estranho que o “nerd cético” (que, como vemos, de cético nada tem) seja um adepto tão fervoroso (característica que não combina com o ceticismo) da redução ao absurdo, ou reductio ad absurdum, falácia em que se pega o que o oponente falou de impróprio (ao menos aparentemente) e se usa como motivo para ridicularizar todo o seu pensamento. Mais uma vez, uma simples consulta ao artigo sobre falácias da Wikipédia é mais do que suficiente, pois, lá, lemos que:

“É importante observar que o simples fato de alguém cometer uma falácia não invalida toda a sua argumentação […] A falácia invalida imediatamente o argumento no qual ela ocorre, o que significa que só esse argumento específico será descartado da argumentação, mas pode haver outros argumentos que tenham sucesso”.

Pelo visto, então, e até que se prove o contrário, está claro que nem mesmo cultura wikipédica há em Bernardo. O mais grave, entretanto, ainda está por vir. Voltemos, então, à mitomania.

O império contra-ataca – A volta das mentiras que não foram

Voltando, então, à mitomania, vemos um claro exemplo de mentira e distorção na nona falácia bernardiana:

“9- Gays não são superpoderosos”

Ao dizer isso, Bernardo afirma, logo em seguida, que “Não existe ditadura gay”. De fato, não existe, nem Olavo disse isso. Isto não significa, entretanto, que a preocupação deva deixar de existir, especialmente porque, em nome das “minorias” (o que quer que isso signifique, pois eu mesmo achei que entendesse essa palavra dentro da língua progressista, mas não entendo), está se calando até mesmo um humorista cuja audiência sequer chega a 5 pontos no auge. Isto fora, como bem explicado por Flávio Morgenstern, o minarquista uspiano, a hipersensibilização, um dos fenômenos mais comuns na democracia socialista brasileira, em que se blinda as minorias de todos os lados sem mesmo consultar-lhes sobre isso, criada em torno dos gays pela famigerada PLC 122. Ou seja, não existe ditadura gay… ainda.

Mais bizarra, porém, é a próxima afirmação:

“10 – Cristãos NÃO SÃO COITADINHOS”

Esta afirmação, por si só, seria o óbvio ululante, visto que nenhum grupo é coitadinho, pois, a não ser no caso de pessoas com graves deficiências mentais, não existem coitadinhos (a não ser na cabeça de um rousseauniano). O que se segue, porém, é o absurdo. Bernardo afirma, sem citar qualquer fonte histórica, que o Cristianismo “mais perseguiu do que foi perseguido”.

Caro Bernardo, vamos deixar as coisas bem claras: Por mais ateu que eu seja ou por mais neo-ateu que você seja, negar os 300 anos de perseguição romana-pagã aos cristãos e os mais de 1300 anos de perseguição muçulmana a cristãos no Oriente Médio, perseguição esta que dura até hoje (isto fora a perseguição no Japão, na China e nos países comunistas e ex-comunistas), e, com base nisso, afirmar que cristãos mais perseguiram do que foram perseguidos não é  nada mais do que mentira pura e simples, e mentira das mais deslavadas. Parece, então, que não é só seu ouvinte que precisa aprender muito para não ser idiota, não?

“11- Viva a Revolução Francesa!”

Falando ainda em Cristianismo, o “nerd cético”, então, reproduz a mentira mais deslavada de todos os tempos, também reproduzida por seu comparsa Yuri Grecco e refutada por Conde, a de que nossos valores morais atuais existem graças à revolução francesa. Quanto a isto, não há muito o que falar fora do já dito por Conde: Ao afirmar que liberdade, justiça e igualdade foram introduzidas pela Revolução Francesa, afirma-se também, categoricamente, que estes conceitos não eram sequer discutidos antes desse período. Isso não só se desmente lendo OS FILÓSOFOS INSPIRADORES da Revolução (Diderot, Rousseau e Voltaire) como também qualquer obra clássica grega ou latina, nas quais se discute muitos conceitos melhor do que qualquer Foucault ou Ponty por aí.

Há, porém, o que se indagar quanto à frase em si: Como um cético pode vir com a cara mais deslavada do mundo dizer que tem orgulho de uma Revolução que, em poucos meses, ceifou mais de 40 mil vidas com a guilhotina? (17 mil só durante o Terror)

Após isto, Bernardo vem com a mesma apelação do item 9:

“12- Marx não tem superpoderes”

De fato, Marx não é superpoderoso, assim como Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes e Kant também não eram. Detalhe: Estes cinco foram, talvez, os filósofos mais influentes da história, tendo influenciado inclusive o modus vivendi dos homens posteriores a eles (Aristóteles na Grécia e em Roma e nas ciências por muitíssimos séculos, Agostinho e Tomás na era Medieval, Descartes e Kant na Modernidade). Tem certeza, então, ó CÉTICO, de que Marx está morto?

Por fim, mais uma distorção:

“13- Geocentrismo = caô”

E Olavo nunca disse o contrário. Do que eu saiba, aliás, o que Olavo diz, e que está CERTO, é que não existem provas cabais para se provar a teoria heliocêntrica ou qualquer outra teoria sobre o Universo, pois isto não é verificável para humanos.

ADENDO: Pouco depois desse post, Olavo esclareceu a situação de vez dizendo que não é porque se rejeita uma hipótese que se aceita, necessariamente, a contrária, o que é uma regra elementar de lógica. O cético, pelo visto, porém, ainda precisa aprender o que é isso.

E mais uma distorção e uma mostra de desconhecimento:

“14- Nunca houve ditadura comunista no Brasil.”

Nem é isso que se diz. O que se diz é que, sem a intervenção militar, o risco de um golpe era iminente. Ou será que não era, apesar de a esquerda já estar armada no Brasil da época, do apoio cubano e soviético e de todo o cenário de caos no país com as guerrilhas? Investigue, “cético”, investigue.

Vemos, então, que, para um cético, Bernardo tem muitas certezas, e que, para um nerd, falta estudo. Poderíamos dizer, então, que, como cético, Bernardo é um neo-ateu medíocre, e, como debatedor, Bernardo é um estudante mediano de Ensino Fundamental. Como contestador de Olavo, então, o “nerd cético” teria muito futuro como sósia de Emir Sader.

NOTA: Não espero resposta a este post, mas, caso ela venha, será apreciada como qualquer outra foi em oportunidades anteriores.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, melhor do que muitos “céticos”, caminha pela estrada da Filosofia. É ateu e até acreditaria piamente no fim da religião como panaceia mundial, mas deixou de crer nessas histórias da carochinha há algum tempo. Faria sátira de O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota, mas, ao contrário de Bernardo Lopes, leu o livro em questão.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 25/12/2013

PS: Quem vier com a conversa de um dos comentadores desse post no outro blog de que “só refutei a frase, e não o que ele disse” não terá seu comentário excluído (pois só o faria se o comentário fosse uma ofensa pura e simples), mas será convidado a enfiar o objeto que prefira no próprio orifício anal.

Inocência, Renúncia e um Festival de Besteiras

A Presunção de Inocência, um dos principais pilares da justiça penal brasileira, consiste em fazer com que o réu de qualquer julgamento, por qualquer crime, não precise provar sua inocência, deixando o ônus da prova de sua culpa (ou seja, de provarem que o réu é culpado) com a acusação. Assim sendo, podemos resumir esse princípios, também um dos que alicerçam o Estado Democrático de Direito, na famosa frase “todos são inocentes até que se prove o contrário”. Disso deriva também o famoso princípio “in dubia pro reo”, ou seja, em caso de dúvida no julgamento, deve-se inocentar o réu ou favorecê-lo de alguma maneira.

Hein? Não entendeu nada, leitor? Afinal, por que eu fiz esse (porco) resumo de um princípio jurídico, se nem estudante de Direito sou? É isso que eu vou tentar explicar agora.

Para explicar o porquê da explicação do começo do post, é preciso lembrá-los de que, além de eu ser um dos maiores defensores desse princípio em qualquer caso (pois considero as “emoções”, em certos tipos de julgamento, extremamente nocivas ao bom desenrolar do julgamento em si), eu já falei sobre este tema aqui neste blog, sendo a postagem, que se chamava Justiça e o Brasileiro: Pouco a ver, a segunda e última participação que o meu “alter ego cronista” fez por aqui.

Enfim, se vocês consultarem o post, que é de péssima qualidade literária para uma “crônica”, verão, de qualquer jeito, a minha posição sobre o assunto bem claramente, ou seja, que eu defendo, como já disse antes, que qualquer réu, mesmo os que mais nos causam raiva pela natureza de seus crimes, tenham o direito à defesa e à pressuposição de inocência.

Mas, por que estou dizendo tudo isso? De fato, devo dizer que os amigos leitores entenderam perfeitamente o meu propósito e responderam positivamente ao post. Porém, eu achei que isso se desse porque, como quem leu aquele post eram pessoas esclarecidas, esse esclarecimento trouxe-lhes a maturidade para não me tacar pedras. Pensei, portanto, que as pessoas “esclarecidas”, que dizem ser maioria na Internet, todas soubessem da necessidade de existência e aplicação desse princípio.

No entanto, após ver alguns comentários em um vídeo do vlogger Yuri Grecco (Eu,Ateu), percebi que minha tese estava completamente errada. Acho que não preciso dizer aos meus leitores que Yuri Grecco tem o costume de criticar a religião tradicional, certo? Pois é, exatamente por isso que no título deste post tem a palavra “renúncia”. Leitores, o que aconteceu ainda neste mês com essa palavra?

Exatamente, a renúncia do Papa Bento XVI. Pouco após a notícia ter sido divulgada, o “famoso” vlogger ateu (neo-ateu, melhor dizendo) resolveu ir lá e descer a lenha na figura do Sumo Pontífice. Não quero discutir, entretanto, os argumentos do Yuri, pois outro vlogger, o famoso Conde Loppeux de La Villanueva, já discutiu isso perfeitamente. O que quero discutir, de fato, é o festival de besteiras que eu li dos seguidores do Dawkins brasileiro e até mesmo de fontes literalmente acadêmicas.

A primeira coisa de que ouvi falar, mas não no vídeo do vlogger neo-ateu, foi que “a renúncia do Papa, por este ter demonstrado fraqueza, compromete o dogma católico da infalibilidade papal”. Surpreendentemente, o autor dessa frase é o mais “formado” dos que disseram besteiras. Cabe explicar aqui que a infalibilidade papal não se refere à figura do Papa em si (ou seja, no nosso caso, do ser humano Joseph Ratzinger). Se fosse isso,” não seria infalibilidade papal, seria invencibilidade papal” (Assim Falava Emerson Oliveira). No caso, esse dogma se refere única e exclusivamente a questões teológicas, ou seja, a questões de fé.

Explicando melhor, se o Papa tivesse um ataque de loucura ou de amnésia completa de tudo que conhece sobre ciência e dissesse, com viés científico, que a Terra é triangular, qualquer católico teria o direito de corrigi-lo, pois o Papa não o disse como questão de fé, exatamente porque, a não ser por certos grupos criacionistas extra-Igreja, a Igreja Católica não se foca nesse tipo de questão. No entanto, se o Papa disser, com um viés teológico (ou seja, da fé), que o adultério é o pior pecado a ser cometido pelo verdadeiro cristão, esses mesmos católicos deverão simplesmente acatar o que diz o Sumo Pontífice, pois foi a ele revelada a palavra divina sobre o assunto.

Fica simples, então, ver que quem falou besteira sobre a infalibilidade papal ou esqueceu de tudo o que aprendeu na Academia, ou palpitou em assunto que não conhecia. Mesmo assim, em se tratando de um acadêmico, fica difícil justificá-lo, pois até mesmo na internet, em discussões religiosas, uma das primeiras coisas que alguém aprende ao discutir com um católico (e coisa que nem a famigerada ATEA do Facebook deixa de saber) é exatamente o real sentido do dogma da infalibilidade papal.

Mas, enfim, essa não é a besteira que me preocupa exatamente porque teve um monte de gente que a refutou e porque não foi imputada nenhuma grave acusação criminal ao Papa. As besteiras que me preocupam são, de fato, aquelas que dão rótulo criminoso ao atual chefe de Estado do Vaticano. É valendo-se do fato de Ratzinger ser chefe desse país que alguns relembram os casos de pedofilia noticiados pela mídia e acusam Ratzinger de “acobertar pedófilos”, coisa injustificável para alguém que teria “poderes absolutos” dentro do Estado do Vaticano.

Com relação a isso, doo caracteres para Mário Sabino (se bem me lembro, corrijam-me se estiver errado) falar sobre o caso em seu Especial, chamado “COMO UM RAIO DIVINO”, sobre a renúncia do Papa, feito para a revista VEJA em sua 2309ª Edição, que foi tornada pública em 20 de Fevereiro de 2013. Sabino diz:

São principalmente três as razões da amargura de Bento XVI, no que concordamos mais argutos vaticanistas da Itália. Em primeiro lugar, ele se sentiu abandonado por cardeais, bispos e padres em sua disposição de dar um basta nos recorrentes casos de pedofilia que conspurcam a Igreja. O corporativismo foi mais forte que o Papa. Isso ficou claro em 2010, na Irlanda. Descobriu-se que milhares de crianças haviam sido abusadas por sacerdotes, entre 1996 e 2009, com o silêncio cúmplice dos bispos. Bento XVI escreveu uma Carta Pastoral aos católicos da Irlanda, conclamando-os a reagir e censurando os bispos do país por terem acobertado os pedófilos. Inúmeros processos foram abertos no Vaticano, mas nenhum corre com a celeridade devida. Conferências episcopais de outras nações também se fizeram de surdas aos apelos papais, para grande angústia de Bento XVI, que tinha no combate à pedofilia uma cláusula vital de seu pontificado” (grifos meus)

Desse trecho, podemos extrair que, de fato, as duas acusações (de acobertar pedofilia e de poder ter feito mais  contra esses padres) não fazem sentido, pois, como bem disse o repórter, além de ser o combate à pedofilia o foco de Bento XVI, os pedófilos em questão estavam na Irlanda e, fora o fato de faltarem todas as provas contra eles (impedindo a excomunhão e uma prisão imediata), o Papa também nada poderia fazer, pois os pedófilos estavam em um país que, se bem me lembro, não pôde extraditá-los para o Vaticano (para responder ao processo) exatamente por eles serem nascidos na Irlanda. Fora isso, é justamente o fato de a anti-Pedofilia ser a bandeira principal de Bento XVI que contradiz a acusação de ele querer, por algum motivo, ser conivente com a pedofilia.

Mas, como eu disse, meu foco e minha preocupação aqui são o fato de, por questões puramente ideológicas, as pessoas se esquecerem de que até seus inimigos políticos têm o direito à defesa. Com o Papa, que não chega a esse nível, não deve ser diferente, mesmo se fosse ele diretamente o “pedófilo-réu”.

Bom, há também a acusação de o papa ter sido um nazista, mas, sobre isso, deixo a refutação por conta do meu já citado amigo Emerson Oliveira. Porém, antes de finalizar, acho que, já que abordei a questão, devo dar também minha opinião sobre a renúncia de Ratzinger. Sendo bem sucinto (mas bem sucinto mesmo), não me importo muito com essa renúncia no campo religioso, pois não sou católico. O que me preocupa, de fato, foram as besteiras ditas por gente altamente qualificada, algumas das quais refutei aqui.

Aliás, a situação dos nossos “filósofos” e “intelectuais” anda tão boa que foi justamente o comentário brevíssimo do comentarista esportivo (!!) Neto (!!!), dos Donos da Bola – BAND, tido como um anti-intelectual, que acabou sendo o melhor  tanto em termos de precisão quanto em termos de profundidade teológica (!!!!!!!). Neto, de fato, não precisou adquirir grande conhecimento acadêmico para perceber, melhor que muitos ditos acadêmicos, que, como ele mesmo disse, “o Papa renunciou por humildade, por conhecer seus limites, e isso, ao contrário do que fazem muitos aí que nem sabem do que falam, é um exemplo a ser seguido”. E, quando o melhor comentarista político sobre um assunto é Neto, meus amigos, isto significa que, claramente, algo não vai bem.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, olaviano-platonicamente falando, estudante diletante da arte dos “amantes do espetáculo da verdade”. Já deve ter visto as piadinhas de associação de católicos a práticas de Pedofilia mais do que trocou de meias. Imagina, então, como seria se “calúnia” fosse levada a sério no Brasil.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 21/02/2013

“Dialeticando” com Luiz Felipe Pondé

NOTA: Este post foi publicado ainda antes de minha saída do Comunismo e do Neo-ateísmo (que eu julgava ser “deísmo”). Algumas posições aqui, então, parecerão, ao meu leitor habitual, um tanto estranhas e vergonhosas. Sim, tenho, hoje, vergonha deste texto, mas ele será essencial para entender uma série que iniciei ano passado e ainda pretendo continuar. Mas, enfim, quem quiser pode e deve lê-lo.

PS: Sim, quando digo que fui comunista dos 16 aos 18 anos, falo sério, como os que lerem isto até o fim (se tiverem estômago) verão.

Caros leitores, fãs e até mesmo apreciadores intermitentes deste blog. Vou dar uma explicação sobre o título deste post já de antemão. Meses atrás, tive a oportunidade de ler nas Páginas Amarelas da revista VEJA uma entrevista com Luiz Felipe Pondé, filósofo brasileiro, colunista do jornal Folha de São Paulo e professor da Faap e da PUC- SP. Porém, mesmo com pontos de vista interessantes, ouso discordar desse filósofo. Por isso, o título desta postagem. Farei uma dialética (oposição de ideias) com esse pensador por meio de respostas a alguns dos vieses dele e até mesmo a algumas partes da introdução dada por VEJA. Enfim, boa leitura.

VEJA- “Seja na sua coluna semanal da Folha de S.Paulo, seja em livros como o recém-lançado “O Catolicismo Hoje (Benvirá)”, ele sabe se comunicar com o grande público sem baratear suas ideias”

RESPOSTA- Justos os elogios desprendidos a esse filósofo pela revista. Todavia, há uma ideia um tanto vaga no excerto: Para essa mídia, o que seria um “barateamento de ideias?”. Todos sabemos das opiniões de VEJA. Porém, falar em “barateamento de ideias” torna-se até mesmo sofismático quando não se define parâmetros para tal.

VEJA- “Pondé é um crítico da dominância burra que a esquerda assumiu sobre a cultura brasileira”

RESPOSTA- Absolvam-me os críticos capitalistas a esse suposto regime de esquerda, mas devo discordar e afirmar categoricamente que a cultura brasileira não tende para a esquerda, e sim para a direita. Uma das maiores preocupações da esquerda relaciona-se com o acesso à cultura para todos. Afinal, parafraseando uma música de Gilberto Gil, os proletários têm direito à educação e cultura, o que é uma pregação esquerdista.

Enquanto isso, a cultura (ou a negligência exercida por alguns governos para com a mesma) quando transformada em instrumento de dominação (o caso brasileiro) e de segregação social, torna-se direitista.

O máximo que se pode alegar sobre a cultura brasileira é que a mesma é populista. Porém, por mais que alguns sofistas teimem com essa ideia, o Populismo representa muito pouco da verdadeira esquerda. Seria uma pseudo-esquerda.

E, além disso, é muito difícil ter uma dominância cultural esquerdista em um país que tem asco à esquerda, mesmo sem conhecê-la.

LUIZ FELIPE PONDÉ- “*Um jantar inteligente* É uma reunião na qual há uma adesão geral a pacotes de ideias e comportamentos. Pode ser visto como a versão contemporânea das festas luteranas na Dinamarca do século XIX, que o filósofo Soren Kierkegaard criticava por sua hipocrisia. Esse vício migrou de um cenário no qual o cristianismo era a base da hipocrisia para uma falsa espiritualidade de esquerda. Como a esquerda não tem a tensão do pecado, é pior do que o cristianismo”

RESPOSTA- Até a parte em Itálico, uma resposta muito informativa. Porém, a partir do ponto em itálico, essa resposta virou uma falácia completa.

Primeiro: Espiritualidade de esquerda? Caro filósofo, existe grande diferença entre a esquerda genuína e a demagogia. Apontar que a hipocrisia migrou do cristianismo (alegação que para alguns é uma meia verdade) para uma falsa espiritualidade de esquerda sem argumentação é um sofisma completo.

Segundo: Pondé, colocar o cristianismo acima da esquerda por causa da tensão do pecado sem fazer ponderações necessárias é uma inverdade, para dizer o mínimo. Afinal, o pecado pode tanto ajudar quanto atrapalhar. Lembre-se que vivemos em um mundo o qual precisa urgentemente de ações, e não de pregações. E pondere também que, enquanto a esquerda propõe mudanças radicais que se executadas podem beneficiar a muitos, o cristianismo propõe paciência e esperança, algo dificílimo em um mundo tão desigual e pobre para muitos.

LUIZ FELIPE PONDÉ- “A esquerda é menos completa como ferramenta cultural para produzir uma visão de si mesma. A espiritualidade de esquerda é rasa. Aloca todo o mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis que estão salvando o mundo por andar de bicicleta”

RESPOSTA- Lembre primeiro, caro professor, que a espiritualidade deve ficar a cargo de religiões e (principalmente) de doutrinas filosóficas. Apesar de religião e política terem uma intrínseca relação por serem duas das coisas mais importantes para o ser, a mistura das duas (seja em governos teocráticos ou quando as religiões são usadas para justificar guerras e outros atos) sempre trouxe resultados catastróficos. Não é preciso voltar muito tempo na história para presenciar tal fato. (Exemplo: O Tribunal do Santo Ofício, apoiado por vários reis durante a era medieval e moderna).

Outro fator reside na típica falácia das supostas pregações de esquerda. Primeiro: a esquerda prega realmente que o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Porém, a mesma corrente ideológica também prega que os trabalhadores não devem ser omissos com relação a esse mal, e por isso devem unir-se e agir politicamente para mudar tal quadro.

E, não, a esquerda ainda não tem pregações relacionadas ao meio ambiente.

PONDÉ- “Não há um pensamento alternativo à tradição de Rousseau, Hegel e Marx. Tenho um amigo que é dono de uma grande indústria e cuja filha estuda em um colégio de São Paulo que nem é desses chiques de esquerda. É uma escola bastante tradicional. Um dia, uma professora falava da Revolução Cubana, como se esse fosse um grande tema. Ela citou Che Guevara, e a menina perguntou: “Ele não matou muita gente?”. A professora se vira para a menina e responde: “ O seu pai também mata muita gente de fome”. O que autoriza um professor a usar esse tipo de argumento é o status quo que se instalou também nas escolas, e não só na universidade. O infantilismo político dá vazão e legitima esse tipo de julgamento moral sumário”

RESPOSTA- Tchê, tchê, tchê, quanta falácia junta.

Pondé, não sei se vivemos na mesma sociedade sinceramente. O que possibilitou tal julgamento não foi qualquer tipo de “infantilismo político”. O que possibilita esse e outros julgamentos é a sociedade em si. Ora, como você mesmo disse, uma menina estuda em um colégio tradicional e de boa qualidade. Quantos outros desejariam a mesma sorte, mas não podem tê-la, já que a sociedade e o sistema exigem demais de quem mal tem o que comer e pouco recompensam a exigência?

Ainda que involuntariamente, você culpa o próprio brasileiro pela situação do país. O grande problema do pensamento brasileiro é a recusa por revoluções. Durante o período Joanino, e até mesmo em outros, só ouvi falar em duas verdadeiras revoluções que ganharam adesão popular, mesmo que insuficiente: A Conjuração Baiana de 1798 e a Insurreição Pernambucana de 1817. Esse é o problema. Seja por piedade, desesperança ou misericórdia pela vida alheia, o povo brasileiro recusa-se a lutar pelos seus direitos, mesmo pacificamente. Por isso, muitos pensadores brasileiros não conseguem enxergar revolucionários como Che Guevara fora da visão de um mero criminoso. Che Guevara lutou… E o Brasil devia seguir o exemplo. Não falo de luta para instalar qualquer regime político. Falo de luta por mudanças, por maior seriedade e menor monopolização da política brasileira por algumas famílias.

A pobreza do povo dá vazão a esse tipo de julgamento. Então, não, infantilismo político pouco tem a ver com isso.

PONDÉ- “O mundo das ciências humanas, em que há pouco dinheiro e se faz pouca coisa, é dominado pela esquerda aguada. Há muito corporativismo e a tendência geral de excluir, por manobras institucionais, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da historia, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel hoje cabe às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígenes, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora. Eu detesto política como redenção.”

RESPOSTA- Pergunto ao filósofo qual o erro do suposto “novo pensamento esquerdista”. A não ser que a lógica capitalista pregue a mulher sendo oprimida somente porque quer, índios e aborígenes como mais perigosos se comparados aos homens brancos e que todo imigrante ilegal faz-se ilegal por ser mau-caráter, devendo por tal motivo ser deportado de volta ao próprio país, no qual provavelmente ocorrem “regimes de esquerda” os quais deprivam seus habitantes de qualquer oportunidade.

PONDÉ- “O cristianismo, que é a religião hegemônica no Ocidente, fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. É uma espiritualidade riquíssima, pouco conhecida por causa do estrago feito pelo secularismo extremado”

RESPOSTA- Secularismo do qual os cristãos da Idade Média são culpados, e que até hoje infecta a mente de muitos.

Além disso, já que o senhor se manifesta contra a hipocrisia alheia, caro pensador, peço-lhe que responda, sem hipocrisia, se acha possível que o trabalhador, o qual trabalha muitas vezes 12 horas por dia, de segunda a sexta, correndo o risco de ser demitido por qualquer deslize e ao mesmo tempo pensando em como estão seus familiares em casa, possa ter motivação para se preocupar com qualquer espiritualidade.

O trabalhador, qualquer que seja sua área, merece mais. Antes de exigir intelectualidade e busca por espiritualidade, reformas trabalhistas são essenciais.

PONDÉ- “Ao lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é frágil, fraco”

RESPOSTA- Primeiro, L. Felipe Pondé, creio ser contraditório defender categoricamente a espiritualidade riquíssima de uma religião e ao mesmo tempo admitir a vocação repressora institucional da mesma. O espírito é ilimitado. Colocar barreiras institucionais a ele é prova de falta de espiritualidade.

Segundo, você não aponta uma virtude cristã com a última frase. Aponta sim um problema. Até hoje, nem as religiões nem as ciências conseguiram provas perenes dos verdadeiros limites do homem. Só é frágil e fraco o homem que quer ser frágil e fraco. Discordarei de uma frase do escritor português Fernando Pessoa parcialmente. Todo homem é sim uma ilha. Afinal, toda ilha tem seus mistérios. Um dos mistérios do homem reside em suas capacidades.

Logo, falar em homem frágil e fraco é pensar de modo obsoleto e falacioso.

PONDÉ- “As redenções políticas não tem isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que acho brega. Essa visão do homem sem responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder”

RESPOSTA- A esquerda nunca afirmou que o homem não tem responsabilidades morais. Existe diferença entre culpar instituições e livrar os homens de qualquer responsabilidade, seja social, política ou até mesmo moral.

PONDÉ- “Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. É um conceito complexo e fugidio”

RESPOSTA- Claro, um conceito complexo e fugidio o qual desmerece completamente os esforços humanos e seus progressos e que foi usado como uma fonte de motivação para a repressão cristã aos pensamentos divergentes, a qual durou mais de 1000 anos.

PONDÉ- “Não se sabe se alguém é capaz de ganhar a graça por seus próprios méritos, ou se é Deus na sua perfeição que concede a graça”

RESPOSTA- Meu caro, falar em méritos em uma época medieval na qual meros questionamentos tornavam-se razões para a morte é um pouco contraditório. Ter mérito não é se omitir. Ter mérito é lutar. Afinal, como diriam alguns dos versos da Canção dos Tamoios, de Gonçalves Dias: “Não chores meu filho, que a vida, a vida é luta renhida. Viver é lutar”

PONDÉ- “Em qualquer hipótese, a graça não depende de um movimento positivo de um grupo. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século XX nos mostrou, é sempre opressivo”

RESPOSTA- Se esse for realmente o pensamento cristão da época, eles entraram então em uma contradição sem precedentes quando se adota hipocrisia como o critério. Movimentos políticos não são válidos, mas prometer “vagas no céu” era válido?

Além disso, os grupos do século XX quase nunca pegaram países em franca expansão. Adicionalmente, generalizações são extremamente perigosas. Afinal, existem vários tipos de opressão, não é, Pondé?

PONDÉ- “Ninguém, em nenhuma teologia da tradição cristã – nem da judaica ou islâmica -, pode dizer-se santo. Nunca. Isso na verdade vem desde Aristóteles: ninguém pode enunciar a própria virtude. A virtude de um homem é enunciada pelos outros homens”

RESPOSTA- Então… O seu argumento teológico tende a ser falacioso para muitas situações, Pondé. Ora, usar um dos pensamentos de Aristóteles, misógino famoso por seu desprezo para com os seres supostamente inferiores (como escravos, mulheres, entre outros), para defender qualquer coisa é muito arriscado. Além disso, ser virtuoso não se iguala a santidade. Existem várias virtudes. Um homem que não enuncia suas virtudes pode perder grandes chances em sua vida por ter se subestimado demais por muito tempo.

Autopromoção de virtudes? Claro, mas com sabedoria.

PONDÉ- “O clero da esquerda, ao contrário, é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês…

Não há contradição interior na moral esquerdista. As pessoas se autointitulam santas e ficam indignadas com o mal dos outros”

RESPOSTA- As razões da esquerda não são tão óbvias, L. Felipe Pondé. Os esquerdistas querem mudanças. Entretanto, recordemos: Os verdadeiros esquerdistas tentam lutar por mudanças. Os outros simplesmente fogem da luta, e esses são na verdade os que se intitulam santos.

PONDÉ- “*Sobre acreditar em Deus* Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo”

RESPOSTA- Perdoe-me, mas acreditar em Deus por mera questão de “elegância” da hipótese de existência do mesmo é um pouco fútil, algo que o senhor tanto critica.

CLARIFICAÇÃO NECESSÁRIA- O autor deste blog é teísta/deísta. Logo, acredito sim em Deus, mas em um Deus diferente daquele das tradições religiosas

PONDÉ- “Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo”

RESPOSTA- Como acreditar em qualquer coisa ou pessoa sem acreditar em si mesmo?

PONDÉ- “Para mim, a religião é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média- querer se meter na vida moral das pessoas.”

RESPOSTA- Uma fonte de hábitos morais que:

A-    Já cometeu vários crimes contra a humanidade

B-    Usou-se da fé humana para construir obras faraônicas

C-    Já guerreou por mais de 2000 anos, sacrificando muitos fiéis, pela causa mundana de expansão religiosa

D-    Impede o laicismo pleno em muitas nações até os dias atuais

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, hoje, um leitor de Filosofia. Agradece a certo amigo físico e católico por ter-lhe puxado a orelha neste post. Também, depois disso, deixou de acreditar tanto em si mesmo, além de entender, mais tarde, o significado filosófico dessa frase pondé-chestertoniana.

 *Publicado originalmente em “O Homem e a Crítica” em 11/11/2011