Paulo Ghiraldelli Jr.

Eu, Apolítico – O IPEA, o estupro, o feminismo e os óbvios ululantes mais-que-rodriguianos

NELSON-RODRIGUES

Na imagem (créditos a http://www.luizberto.com/), Nelson dizendo o que todo esquerdista já deveria ter ouvido.

O saudoso autodeclarado reacionário Nelson Rodrigues, em uma sua entrevista para o também jornalista ilustre Otto Lara Rezende, afirmou, com sabedoria, que “o jovem é o cretino fundamental”, isto em uma época em que a completa decadência cultural do Brasil (indo, na esquerda, de Antônio Cândido a Gregório Duvivier) ainda não havia ocorrido, mas já começava, como os dois jornalistas bem percebem ao relatarem que de elogio “reacionário” virara um xingamento, enquanto “revolucionário” se tornara um elogio mais forte do que, lulisticamente falando, nunca antes na história deste país. Só posso imaginar agora qual seria a reação de nosso ilustríssimo dramaturgo ao saber quantos jovens realmente caíram na conversa de certo órgão governamental sobre “a cultura do estupro” com uma pesquisa agora clarividentemente estuprada.

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Espírito de Aniversário 2.0

Sim, amigos leitores, hoje é o aniversário deste que vos fala. O único presente que espero de vós, porém, é que continuem a dar a vossa valorosa audiência, como o fazem já há 3 anos, desde “O Homem e a Crítica”, e que, se possível, também tragam novos leitores para este blog.

Resolvi, então, fazer como no ano passado e dar-lhes, eu mesmo, uma série de presentes, de recomendações, seja de leituras ou de vídeos,  sobre alguns temas relevantes para a sociedade. Sem mais delongas, vamos às recomendações.

PT, Mensalão e outras esquerdices

O primeiro dos temas, certamente, é o recém-terminado julgamento do Mensalão, talvez o maior projeto de poder já revelado até esta data. Para uma série de boas análises, recomendo, além do tradicional blog do Reinaldo Azevedo, os textos do Implicante Flávio Morgenstern sobre todo o caso. Ei-los:

Blog do Reinaldo Azevedo

Advogado de Delúbio diz que mensalão foi união pelo bem do Brasil. Ele pode ocupar o STF – Implicante

Breve análise da defesa dos mensaleiros – Implicante

Dias Toffoli e os palavrões contra Noblat – Implicante

Mensalão: coincidências, loucura e método – Implicante

Dirceu  solta rojões. Hora de FINALMENTE entender o que foi o mensalão – Implicante

O mensalão não foi um caso de corrupção. O mensalão é uma mentalidade – Implicante

Frei Betto: “O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder” – Implicante

Recomendo, também, sobre o mesmo tema, a série de debates promovida pela revista VEJA sobre o julgamento do Mensalão, série esta que, coincidentemente, acabou ontem, 21/03/2014, pouco mais de uma semana após o fim do julgamento. Linkarei apenas o 60º e último debate, mas também recomendo, fortemente, o 39º, o 56º e o 57º, em que se vê, muito claramente, que se trata, definitivamente, de um projeto de poder, não de mero caso de corrupção (o que já seria grave).

Já quanto aos desmandos do atual governo lulo-dilmopetista, recomendo a entrevista do ex-Secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., ao Roda Viva, em que este expõe um pouco do esquema de assassinato de reputações que acabou investigando e do qual foi vítima, em especial ao final de sua passagem pelo segundo governo Lula (2007-2010).

A Imprensa, a Rede Globo e a surpresa ghiraldelliana

O próximo tema que quero abordar nas recomendações é o papel da mídia na sociedade e os limites da liberdade desta mesma mídia de transmitir e divulgar informações. Para este fim, farei algo que, ao meu leitor habitual, soará estranho: Recomendarei um artigo muito bom do intérprete de Rorty Paulo Ghiraldelli Jr. (!!!), já criticado mais de uma vez por essas bandas, sobre a relação entre os universitários e a Rede Globo de Televisão, cotidianamente achincalhada por aqueles, sendo colocada como um instrumento para espalhar informações superficiais.

Para argumentar com o leitor sobre a necessidade desta leitura, pontuo que Ghiraldelli faz um teste que, apesar de não-científico, apresenta resultados muito interessantes sobre o quão sólidos estão, na mente de universitários brasileiros, alguns dos conceitos necessários para se entender, por exemplo, o Jornal Nacional. Apesar, então, de partirmos de premissas diferentes, creio que eu e Ghiraldelli, neste ponto, acabamos por concordar em gênero e número.

Também recomendo um próprio artigo, cujo título é “Mídia, Superficialidade e Liberdade”, que já foi transposto do finado “O Homem e a Crítica” para este blog. Nesse artigo, abordo alguns erros da nossa atual mídia, mas mostro que, apesar de sua superficialidade na maior parte das questões, não é a censura a solução para esse problema. Também o recomendo porque, creio, foi muito pouco lido até agora, apesar de ter sido, em minha opinião, um de meus melhores artigos.

Seguem abaixo, então, os referidos artigos:

Não entende o JN, mas faz pose – Paulo Ghiraldelli Jr.

Eu, Apolítico – Mídia, Superficialidade e Liberdade

A Marcha da Família – “O Retorno”

O último tema escolhido por mim foi a famosa “Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo – O Retorno” (reafirmo, como sempre, que este “O Retorno” não serve nem em título de filme do Batman, quanto mais para um evento sério), que acontecerá, coincidentemente, no dia de hoje, o que, como o leitor imagina pelo artigo que escrevi sobre a tal Marcha, deve me deixar extremamente feliz.

No tocante a este assunto, recomendo, além de meu próprio artigo, os dois artigos já citados neste blog escritos por Luciano Henrique Ayan e um artigo mais recente do amigo Francisco Razzo, que decidiu, por hora, investir um tanto mais em seu blog pessoal (o que, apesar de ser um seu leitor no Ad Hominem, considero ótimas novas), em que expõe como existe, na verdade, uma dissonância entre o real conservadorismo e os objetivos dos marchantes. Aqui estão, então, todos os artigos linkados:

A militância “Luísa Mell” do militarismo de direita – A sorte está lançada – Apoliticamente Incorreto

Por que não apoio “Marcha da Família” e muito menos pedidos por volta dos militares – Luciano Ayan

Mais motivos para eu ser contra os pedidos por “volta de militares” – Luciano Ayan

A ameaça totalitária e os fantasmas ideológicos – Francisco Razzo

Extras

Apesar de não serem relacionados a nenhum dos temas acima, não posso deixar o meu leitor sem uma série de recomendações de boas leituras, seja para a fruição, seja para a compreensão filosófica mais apurada.

Recomendo, portanto, entre outros, o blog pessoal de Gustavo Nogy, outro dos escritores do já citado Ad Hominem. Em seu blog, Nogy pretende abordar, com concisão e brevidade não encontráveis, ao menos por mais algum tempo, neste blog, os mais variados assuntos, indo desde o feminismo até a recomendação dos maiores entre os clássicos da Literatura. Muito provavelmente, em certo ponto, teremos, um com o outro, certas rusgas, mas, enfim, ossos do ofício, e ossos que não o tiram do posto de cronista infinitas vezes melhor do que qualquer cronista que tenha aparecido na grande mídia nos últimos 20 ou 30 anos. Segue o link de seu blog: http://www.gustavonogy.com/

Em segundo lugar, mas não menos importante, recomendo um dos blogs que, creio, está mais subvalorizado internet afora, que é o de meu amigo Antunes Fernandes. Linko-vos, aliás, a um artigo específico e bem recente, intitulado Estupidez é Poder, em que Antunes coloca, na mesa, uma boa hipótese para o porquê de as pessoas, especialmente as massas, aderirem tão fácil a todo tipo de ideologia autoritária ou totalitária em potencial.

Por último, sugiro, a todos os meus leitores, independente de posicionamento político, uma série de livros que andei lendo e que achei, pelos mais diversos motivos, muito interessantes. É possível, também, que venha a comentar sobre algum ou sobre todos estes livros no futuro, e é provável que use algum deles como referência em uma de minhas análises. Segue, então, a lista:

A ética protestante e o “espírito” do Capitalismo – Max Weber

O Nascimento da Tragédia – Friedrich Nietzsche

Ecce Homo – Friedrich Nietzsche

O Sobrinho de Rameau – Denis Diderot

O Filho Natural – Denis Diderot

Jacques, o Fatalista, e seu Amo – Denis Diderot.

That’s all, folks.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Salvou-se do comunismo antes do 20, mas pretende continuar a salvo da direita ao menos até os 60.

 

O dia em que quase dei razão a Paulo Ghiraldelli Jr. (Ou: Muito Antônio para pouca Prata)

Sim, amigos leitores, o título não me deixa mentir: Quase cheguei a dar razão, nesta data, a Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo progressista até a medula que, apesar disso, insiste em dizer que não é “nem de esquerda, nem de direita”. 

Paulo Ghiraldelli Jr. aprendendo que “não é de direita nem de esquerda”

A questão é que, apesar de defender, entre outras coisas, a bizarrice de que se deva ler um filósofo conservador sem considerá-lo como conservador, ou seja, desprezando não só uma parte importante como também ESSENCIAL para entender todo seu pensamento – assim como, para entender o pensamento de um marxista como Sartre, é necessário sempre ter em mente que este parte de premissas marxistas em tudo o que faça filosoficamente. Ghiraldelli, ao jogar isso fora, basicamente propõe, tanto para o conservador quanto para o marxista, uma leitura apenas superficial, não aprofundada -, o filósofo de São Paulo, em um de seus mais recentes artigos, diz, espertamente, que “Não podíamos ter destruído o ensino médio como fizemos.” Pena, porém, que a sensatez do artigo pare por aí. Por que digo isso? É melhor explicar desde o começo.

Homem de Prata, Literatura de Plástico, Filosofia de Latão

Antônio Prata, o relativistinha camarada (mas pode chamar de “cumpanhero”)

Há alguns domingos, o escritor e colunista da Folha de São Paulo Antônio Prata, filho de Mário Prata, escreveu, em parcas e porcas linhas de uma ironia pré-ginasial, que havia “virado à direita“. Como era de se esperar, os que leram reagiram das mais diversas formas, indo desde contestações e apoios de quem não entendeu a ironia a respostas simplesmente brilhantes como a de Rodrigo Constantino. Vendo, porém, que simplesmente não iria conseguir dar sequer um terço de uma resposta digna a seus críticos, Prata preferiu agir como todo bom militante de esquerda e tratou toda sua patuleia, indistintamente, como se ela não tivesse compreendido absolutamente nada de suas geniais pregações marxistas de boteco. Em sua segunda coluna, aproveitou também para, como se vê a seguir, rotular seus oponentes políticos:

“Na crônica de domingo, achei que havia carregado o bastante nas tintas retrógradas para que a sátira ficasse evidente. Descrevi um quadro que, pensava eu, só poderia ser pintado por um paranoico delirante.”

Ou seja, para Prata, quem pintasse o quadro citado em seu artigo de forma alguma poderia estar certo (o que, aliás, contraria até mesmo a lei da probabilidade) e, além disso, seria apenas um conspiracionista maluco. Lamentavelmente, porém, o que o colunista fez foi simplesmente uma revisita a uma das táticas mais filosoficamente escroques da esquerda, tanto brasileira quanto mundial: desmerecer, por meio do ridículo e da ironia, um discurso que sequer apresentam dignamente ao seu leitor. Não, dear Antônio Prata, ser de direita não se resume a ser “politicamente incorreto”, nem a ser “reacionário”. Este tipo de coisa, aliás, seria mais um espantalho, só que do conservadorismo, linha filosófica ainda mais desconhecida a esse tipo de desonesto intelectual.

O problema maior, entretanto, não foi o texto de Antônio Prata. Afinal, como já dito, essa é uma tática velha e facilmente vencível da esquerda: é só mandar a ironia de volta com o dobro de força. O problema maior, aqui, é um dito filósofo querer defender esse tipo de desinformação. No começo de seu artigo, o freireano nos diz que:

” Como filósofo que é também professor, estou acostumado a ter a maior paciência do mundo para explicar as coisas, mas isso em sala de aula. Fora dela, tenho por princípios atender meus leitores, e eles não são estúpidos. Explicar piada, isso não! Isso me deixa não mais com raiva, mas deprimido.”

Sim, Paulo, de fato, o que seria de nós, seus leitores, sem suas filosofices de sempre? Eu mesmo confesso que, se não fosse por você, meu blog teria perdido pelo menos umas 200 visualizações, principalmente porque seria um texto a menos que eu teria destrinchado por estas bandas. Se bem que, se for por esse critério, prefiro Leonardo Sakamoto, que é tão progressista quanto e rende bem mais audiência.

Mas, em seguida, Paulo prefere deixar o quão ofendido está de lado e explica-nos a situação de Prata:

“Antônio Prata fez um artigo irônico, dizendo que havia se convertido à direita, e então usou dos jargões que vemos na imprensa e no senso comum, que caracterizam a direita política. São frases que não raro saem da boca de Reinaldo de Azevedo e seus imitadores (até na filosofia existe agora imitadores dele!). Aquela parafernália toda contra minorias, contra qualquer tipo de Welfare State e, é claro, aquele ódio obsessivo e completamente anacrônico ao tal do comunismo.”

Voltando ao tom de seriedade, o que o Mestre dos Magos da Filosofia Brasileira (porque, sempre que preciso, seu conhecimento filosófico desaparece) faz é, assim como Prata, recriar o mesmo velho e batido espantalho defendido pela esquerda contra a direita. Aliás, muito curiosamente, para quem não é “nem de direita, nem de esquerda”, Paulo comprou muito facilmente duas das premissas mais vendidas pela atual esquerda: A de que social-democracia não é um sistema de bomba-relógio e a de que, como a URSS já caiu e apesar de Cuba e Coreia do Norte ainda se manterem mesmo que porcamente, o comunismo já não existe mais. Gostaria muito de ver, então, qual seria a reação de Paulo em uma reunião do PCO ou do PCB. Ou melhor: Será que ele ou algum dos outros geniais teóricos do progressismo teriam de coragem de encarar um norte-coreano ou um cubano e dizer-lhe, contra toda evidência, que, na verdade, ele vive em um sistema que não mais existe?

Esta, entretanto, é apenas uma parte do erro ghiraldelliano. A outra, por incrível que pareça, é mais capciosa de perceber à primeira visão.

Paulo Freire para estressados 

Não podíamos ter destruído o ensino médio como fizemos.”

Sim, leitor, é hora de voltar à frase das primeiras linhas do texto. Desta vez, no entanto, é hora de colocar a citação completa:

Não podíamos ter destruído o ensino médio como fizemos. Mas fizemos isso. Entre outros, o resultado é que temos, hoje, jornalistas que podem advogar a barbárie e serem levados a sério, e quando um articulista mais sofisticado como Prata lança uma piada, um número grande de leitores do jornal (meu Deus, trata-se do leitor da Folha!) é incapaz de perceber o ridículo do discurso da direita, e então acha que realmente alguém que não é o militante estereotipado, pode falar seriamente o texto bárbaro.”

Eis a prova definitiva de que “de boas intenções, o inferno está cheio” (se existir o inferno, óbvio, que deve ser perto da sede de algum DA). Ao mesmo tempo em que fala o óbvio ao dizer que o Ensino Médio não poderia, de forma alguma, estar como está, o esotérico da UFRRJ destila todo seu esquerdismo contra o que convencionou, sem explicação prévia, chamar de direita, e ainda chamou erradamente, pois a maioria dos pontos ali trata mais do eixo conservador-liberal-progressista do que de esquerda-centro-direita, reiterando o ponto de vista de Prata de que apenas o que a esquerda ou o que os progressistas – aquelas pessoas que, como diria Flávio Morgenstern em um de seus artigos sobre Leonardo Sakamoto, são de esquerda mas não admitem – falam é que pode ser considerado como pronunciável. A noção de pluralidade política de Paulo e de Prata é  de dar inveja a qualquer Stalin.

O relevante para esta parte, todavia, vem no final do artigo, quando o Mestre dos Magos da UFRRJ, do alto de seu esoterismo barato, afirma peremptoriamente que:

“Sinceramente, caso o professor da escola pública não volte a ganhar um salário que dê para ele viver, não vamos ter nenhum outro mecanismo para evitar a barbárie a que estamos chegando.”

Cabe, aqui, uma explicação: Ghiraldelli é, sem nenhum pudor, um dos que defendem a baboseira materialista dialética e doutrinária aplicada à educação pelo ainda mais esotérico Paulo Freire, teórico que, como previsível, é conhecido pelo quê? Bingo, pelo seu marxismo mais do que declarado! (E, ainda assim, Ghiraldelli “não tem ideologias”. Imagino se tivesse.)

Isto significa que, apesar de nossa sistema já ser obviamente freireano e de NÃO DAR CERTO (o que foi provado já em outros países de métodos similares), o filósofo de São Paulo ainda pretende iludir seus leitores ao dizer que, na verdade, o problema é exclusivamente financeiro. Lamentavelmente, para ele, o maior pedagogo brasileiro desde a Proclamação da República, Arthur Rizzi Ribeiro, já demonstrou aqui, por a + b + c + todo o alfabeto que isto é, na verdade, um grande embuste. Como bem dito por Arthur:

“Apesar de concordar que investimento na educação e pragmatismo no que tange a “passar os conteúdos” são extremamente necessários, penso que Ghiraldelli nos dá a entender que é “só isso que falta”. Com isso, ele acaba por nos passar algo que detesto, que é uma perspectiva DINHEIRISTA da educação, como se investir e equipar escolas fosse justamente o que falta à nossa educação.”

O detalhe é que, como bem posto pelo pedagogo guaçuíense:

 

“Ghiraldelli passa a noção de que o sucesso educativo passa diretamente pela política, e que apenas pagando o salário direitinho, e ensinando o proposto, “everything’s gonna be ok!”. Paulo, no entanto, não parece estar disposto a rever o mais importante, justamente aquilo que na educação antecede a política, a sua filosofia.”

E isto se dá, principalmente, porque, para rever esta filosofia, e rever sua própria filosofia educacional, Paulo se veria forçado a tirar  máscara e admitir, de uma vez por todas, que seu antigo marxismo, na verdade, ainda não saiu dele. Isto, no entanto, quod erat demonstratum (como queríamos demonstrar), pode ser provado, na verdade, em quase qualquer um de seus artigos ou mesmo já na primeira metade do artigo aqui analisado.

Sobre o autor: Octavius é graduando em Letras, mas caminha, ocasionalmente, pelas bandas da Filosofia. Acreditaria no “poder redentor” e na “função social” da educação, mas parou de acreditar em histórias da carochinha há muitos anos. Quis dar uma “guinada à esquerda”, mas leu o artigo de Antônio Prata e voltou ao ceticismo.

Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 11/11/2013

Eu, Apolítico – A imbecilidade do Desarmamentismo Civil (Ou: O “filósofo” da cidade de São Paulo, o pai da Psicanálise e as estatísticas de mesa de bar)

Já há um bom tempo, venho observando e relatando, por estas bandas, as “genialidades” pronunciadas e/ou escritas pelo ilustríssimo “filósofo da cidade de São Paulo” (e isso porque outros muito mais ilustres, como Miguel Reale e Mário Ferreira dos Santos, também lá viveram e filosofaram), Paulo Ghiraldelli Jr., dentre elas a de que se deve ler um conservador sem considerá-lo conservador, ou seja, sem se atentar, justamente, às premissas filosóficas de que parte para dizer A ou B, a de que um filósofo de verdade só pode ser assim considerado se apoiar todo tipo de manifestação por mais imatura e provavelmente infrutífera que seja, e, finalmente, e talvez a maior de todas, a genialidade de dizer que todo o problema da escola pública se resume a dinheiro, e não, também, ao óbvio erro, inerente a toda e qualquer pedagogia progressista, de, ao invés de querer formar um cidadão capaz de  exercer alguma função técnica que lhe permita, então, não se tornar refém do acaso e de qualquer patrão, digamos, menos “generoso”, querer que o cidadão saia da escola “crítico”, ou, em linguagem de pessoas normais, desejoso de transformar a realidade e a sociedade sem nem mesmo conhecê-las (e muito menos entendê-las) a fundo.

Mário Ferreira tentando achar a “filosofia da cidade de São Paulo” de Ghiraldelli

Quando acho, porém, que a vastíssima erudição do ilustre “filósofo” chegou ao seu limite, eis que ele me surpreende e escreve um artigo sobre a questão do Desarmamento Civil, intitulado, por ele, de A arma faz xixi na mão de criança, em que coloca, dentro e fora de seu artigo, uma série de pontos interessantes para o crivo de um cético, ou pelo menos de um cético em formação, como este que vos fala. Então, como diria o grande poeta pós-moderno brasileiro Pedro Bial, “aos trabalhos”. Hora de analisar a posição de Guiraldelli¹ sobre a questão das armas no Brasil.

O complexo de Freud e a deslegitimação preventiva do oponente

Antes, porém, de irmos à análise do artigo em si, cabe a mim explicar porque havia dito que há pontos interessantes a serem analisados mesmo fora do artigo de Ghiraldelli. Para isso, recorro ao já citado por estas bandas blog Ceticismo Político, cujo dono, Luciano Henrique Ayan, é, reconhecidamente, um especialista em desnudar estratégias de propaganda política, fraudes e muitas outros elementos mais que estão inseridos no contexto das disputas políticas como as conhecemos (e até como não as conhecemos).

Lá, há, no mínimo, dois posts que descrevem, com precisão, duas das táticas usadas pelo “filósofo” são-paulino paulistano não só no artigo aqui analisado como também em outros, entre eles o Onze tópicos sobre o energúmeno, em que o professor da UFRRJ (por enquanto), antes de começar, nos avisa, sobre o energúmeno, que:

Você pode encontrá-lo em vários lugares. Mas sei que se vier me ofender, é porque o encontrou no espelho.

Da mesma forma, no fim do artigo sobre desarmamento, Ghiraldelli nos alerta, com um Post Scriptum sucedido apenas por um ponto, e não por dois-pontos, como se esperaria de qualquer pessoa que dominasse as regras de pontuação do próprio idioma, que:

essa questão da posse de arma irá fazer alguns virem aqui apenas para agredir.

Eis, então, o momento para a primeira entrada de Ayan. Em um seu post do início de Abril do ano passado, o investigador de fraudes conversa com o leitor sobre a “deslegitimação do oponente de forma preventiva”, técnica em que, segundo Ayan, o que se faz é “um ataque duplo, em que o primeiro ataque é baseado em rotinas para infligir dano ao outro lado, e o segundo ataque, em paralelo, para atacar e tirar a legitimidade de um possível revide.”, ou seja, em que se diz, como no caso dos artigos de Ghiraldelli, que quem vier a “ofendê-lo” – o que, para Paulo, parece significar apenas expressar qualquer discordância, dada a maneira como modera, a seu bel-prazer e com um critério que, no mínimo, faz a balança pesar a seu favor sempre, os comentários dos leitores que vão contrapor o que ele diz – não o fará por causa do tom jocoso com que o “filósofo” se dirige a seus adversários (e veremos isso mais adiante), mas sim porque é “energúmeno”, incivilizado, barbaresco, inculto, sem bom ensino médio, “autodidata” (o que, para Ghiraldelli, é uma ofensa pior do que o comportamento de Maria do Rosário quanto à violência, sobre o qual ele, até agora, nada disse), etc.

Pena, para o “filósofo”, que todos esses xingamentos (ou não) que usa não são mais do que puras suposições sobre as vidas de seus comentaristas ou mesmo fruto de leitura mental, e que, no reino da lógica, ainda é permitido discordar de “filósofos”, pois não são os títulos de alguém que definem a veracidade do que este venha a dizer, mas sim a coerência de suas ideias não só internamente como também com o mundo exterior.

Há, porém, um segundo truque a ser desmascarado antes de partirmos para o exame das ideias do “filósofo da cidade de São Paulo”. Ainda no Post Scriptum sucedido de um ponto e não de dois-pontos, após começar a desqualificação preventiva de todos os que venham a discordar dele, Ghiraldelli completa:

É que quando eu ponho pingos nos “is”, os mais imaturos me veem como pai disciplinador, e ficam doidos para se comportarem como adolescentes rebeldes. O desejo de posse de arma talvez mostre um Édipo mal equacionado, pessimamente elaborado.

Aqui, então, além da desqualificação barata, vemos um típico caso do freudianismo, também relatado por Ayan, técnica esta em que as teorias do pai da Psicanálise são usadas, sem maiores provas, como argumentos para desqualificar o oponente. No caso, o que Ghiraldelli usa é a contestadíssima teoria do Complexo de Édipo para dizer não só que seus detratores não tiveram, como costuma afirmar, “o bom ensino médio”, mas também que sua psique, durante a infância, foi perturbada por alguma sorte de eventos envolvendo as figuras paterna e materna. Obviamente, só falta a Ghiraldelli lembrar que, ao contrário do que pode parecer ao retoricista incauto, a psicanálise, assim como qualquer teoria científica, psicológica, sociológica, literária, filosófica e o escambau a quatro, não prescinde de comprovação, ou seja, que é necessário, para que um argumento de fundo psicanalítico valha, que ou o argumentador a prove verdadeira, ou a plateia a aceite, previamente, como verdadeira, o que, considerando o número de opositores a Dr. Freud, não parece ser o caso.

“Porra, Ghira, não força, cara” – Dr. Freud sobre os psicanalismos histriônicos ghiraldellianos

Dito isto, encerro, por aqui, a parte dos truques extra-artigo usados por Ghiraldelli. É tempo, então, de passar à análise do artigo em si.

Enlouquecendo Ghiraldelli: Contra as estatísticas, não há argumentos… Será? E onde estão as estatísticas?

Na introdução de seu artigo, Ghiraldelli, de cara, já dá seu primeiro salto metafísico:

Algumas pessoas acreditam que de posse de uma arma de fogo elas estarão seguras diante da violência urbana. O problema que elas não percebem é que possuindo uma arma de fogo elas estarão logo integradas às estatísticas de aumento da violência urbana.

Ou seja, para Ghiraldelli, o simples fato de portar uma arma de fogo levará, necessariamente, uma pessoa para as estatísticas de aumento da violência urbana. Pena, porém, que não existe como saber se uma pessoa não só quererá usá-la – para quais fins, francamente, não sei, pois o “filósofo” nada explica sobre como pessoas sem motivos fortes para usar uma arma necessariamente irão usá-la – como se realmente precisará da arma em alguma situação. Afinal, não se pode prever, com exatidão total, se quem será assaltado necessariamente portará uma arma de fogo, visto que não é possível prever quem será vítima de assalto.

Ghiraldelli, porém, cita um dado interessante já nesse primeiro parágrafo: as estatísticas. É nelas que ele, então, confia no parágrafo seguinte, quando afirma que:

As melhores estatísticas brasileiras mostram correlações que, em resumo, nos dão quatro informações: a posse da arma de fogo não aumenta a segurança do cidadão; a arma de fogo do cidadão tem um caminho fácil, que é a mão de bandido; a arma de fogo nas mãos do cidadão, tendo ele dito que sabe atirar ou não, aumenta a probabilidade dele ferir pessoas inocentes; a posse da arma de fogo envolve quem a utiliza em situações jurídicas (e outras) tão terríveis que, não raro, muitos dos que fazem uso dela acabam por se arrepender.

Primeiro, cabe perguntar: O que seriam “as melhores estatísticas”? Seriam aquelas que corroboram com o que afirma Ghiraldelli, ou aquelas levantadas por institutos com real credibilidade no assunto?

É com pesar que digo, porém, que não é Ghiraldelli que pode responder a essas perguntas, porque, infelizmente, em seu texto, ele não mostra nenhuma dessas estatísticas. Um leitor seu, então, lhe pede alguma estatística que possa usar para argumentar contra os armamentistas, mas Ghiraldelli apenas responde que “não faz artigos acadêmicos em blog”². Mas, ora, será que o ilustre “filósofo” não descobriu, até hoje, que é possível inserir links em um post das mais diversas maneiras? Caso leia este meu texto, por exemplo, poderá ver que, ao passar o mouse sobre algumas palavras ou frases (uma delas, inclusive, neste mesmo parágrafo), estas estarão destoando do restante do texto e poderão ser clicadas sobre para levá-lo a outras páginas web afora. Não é preciso, então, escrever qualquer artigo acadêmico para mostrar, ao seu leitor, estatísticas ou links externos. Ou será que, para nosso ilustre “filósofo” paulistano, essa tarefa demandaria excessivo esforço sináptico?

Enfim, deixemos que ele responda depois, pois, agora, Paulo Ghiraldelli continua, em seu texto, subestimando a capacidade de seus adversários e afirmando que:

Essas estatísticas são fáceis de entender, mas há gente que não pode entender estatística. Trata-se de uma matéria do campo matemático, uma área na qual o brasileiro médio sofre. Essa dificuldade com a matemática acoplada a um pensamento conservador, às vezes de forte tendência mágica, alimenta não só tradicionais direitistas, mas também muitos da esquerda.

Fora a citação bizarra do “pensamento mágico” – que, aliás, parece ser algo mais inerente à revolução do que à conservação, pois é aquela e não esta que acredita em mudança súbita da sociedade por meio da força – sem maiores esclarecimentos e a pressuposição de que todo armamentista é “um brasileiro médio” e que, portanto, “não entende  de matemática”, Ghiraldelli, então, chega ao ponto-chave: não basta ter as estatísticas, é preciso compreender as estatísticas. O problema é que, como já dito, NÃO TEMOS, por parte de Ghiraldelli, qualquer estatística para analisar – pergunto-me se seria por medo de que a análise “filosófica” não tenha sido tão bem construída assim, mas deixemos isto para outra ocasião.

Tomo, então, a liberdade de apresentar, eu mesmo, algumas estatísticas – que, aliás, a princípio, parecem corroborar as assertivas ghiraldellianas sobre armas – extraídas de um verdadeiro dossiê da revista VEJA sobre a questão³. , podemos ver que, de fato, a maioria das armas de fogo dos cidadãos caíram na mão de bandidos… no Rio de Janeiro entre 1999 e 2005. E também podemos ver, já no início da reportagem, que, ao contrário do que pressupõe Ghiraldelli ao se fiar nas estatísticas como argumento, “As estatísticas sobre porte e uso de arma de fogo no país são consideradas incompletas e pouco confiáveis por especialistas das áreas de criminalidade e segurança pública.”, havendo apenas pesquisas isoladas falando sobre o assunto e não havendo, sequer, um levantamento confiável de quantas armas existem circulando pelo país.

Isso significa que, até que o “filósofo” prove ao contrário, o que as estatísticas provam, por melhor que sejam interpretadas, é, a priori, nada. O detalhe é que, a posteriori, podemos esboçar algum tipo de interpretação para certos dados apresentados. Podemos perceber, por exemplo, que havendo armas em apenas 3,5% dos domicílios no Brasil, não há, nem de longe, como dizer que é a arma que o cidadão porta que impulsiona a criminalidade no Brasil (e dizer isto, aliás, seria de uma leviandade enorme, pois o tráfico, que financia boa parte das armas de criminosos, não teria sido posto em questão).

Do mesmo modo, não se deve interpretar a grande perda de armas dos cidadãos para bandidos tão literalmente quanto Ghiraldelli fez, posto que é preciso considerar que, ao contrário dos bandidos, o cidadão comum NÃO TEM como desenvolver propriamente as habilidades com as armas nem como manter essas habilidades polidas, já que, fora o Tiro de Guerra, que se frequenta por, no máximo, dois anos, e alguns clubes de tiro que não existem em todos os lugares do Brasil – em minha cidade, por exemplo, talvez apenas os membros de famílias mais ricas saibam da existência de algum-, não existem lugares em que se possa aprimorar as habilidades com armas. Ou seja, não é preciso realmente das estatísticas… para perceber que o cidadão comum (para não falar em “cidadão de bem”, já que a turma progressista é alérgica a essa expressão mesmo quando usada englobando também o proletariado) está, no quesito treinamento, em óbvia desvantagem.

Para outros tópicos, porém, a estatística, de fato, não é necessária, como, por exemplo, no caso de sabermos que a arma de fogo, de fato, NÃO aumenta a segurança do cidadão, isto porque, estando nós em uma sociedade sob domínio de um Estado, a segurança não é algo que depende apenas da vontade e dos recursos de um indivíduo, mas sim da própria competência do Estado em usar o monopólio da violência (sobre o qual voltarei a falar mais no final do texto) para assegurar que seus cidadãos possam encostar a cabeça no travesseiro com o menor medo possível de serem assaltados e/ou mortos durante o sono.

Do mesmo modo, não é preciso de muito esforço sináptico nem de estatísticas para saber que, ao facilitarmos ao cidadão o acesso às armas, estaremos incorrendo no risco de ele ferir inocentes, pois esta é uma consequência mais do que óbvia do que acontece quando é permitido ao cidadão acessar com mais facilidade qualquer objeto que possa levar um ser humano ao óbito, mesmo que esta não seja sua função primordial. Explicando melhor e parafraseando Bene Barbosa, porta-voz do movimento armamentista Movimento Viva Brasil, se formos proibir os cidadãos de ter algo simplesmente porque este algo pode, em algum momento, levar o cidadão a ceifar vidas inocentes, teríamos de proibir, então, até mesmo os automóveis (e teríamos argumentos até melhores, visto que a imaturidade do brasileiro com automóveis é bem mais visível do que com armas, dado o número de mortes por imprudência no trânsito).

Bene Barbosa surpreso com a “filosofia” de Ghira

Também não é preciso de qualquer estatística para perceber que, fazendo ou não uso adequado das armas de fogo, o cidadão se verá envolvido em um imbróglio jurídico de proporções escatológicas, só que isto se dá não porque o problema esteja nas armas, mas sim porque a justiça brasileira, além de extremamente morosa, aparenta, nos últimos tempos, estar ficando cada vez mais bizarra, especialmente quando se vê que, em alguns casos, o literalismo jurídico manda, enquanto, em outros, o que vige é uma interpretação extremamente divergente do que a lei aparenta dizer sobre certo caso.

Vê-se, então, que, para alguém que se crê um grande intérprete não só das estatísticas como também da realidade em que elas se inserem, o “filósofo” está mais é para filodoxo do que para um filósofo propriamente dito. Mais adiante em seu texto, porém, levanta um ponto pertinente ao escrever que:

As coisas começam realmente a ficar preocupantes, especialmente para o filósofo, quando a questão da posse de arma em sociedades como a nossa se apresenta antes de tudo pelo desejo de realmente combater o crime.

Pena, porém, que a relevância não dura muito (isso sem contar o fato de a única prova de ser filósofo que Ghiraldelli deu até hoje é o título de doutor em Filosofia e algumas interpretações de Rorty e Paulo Freire), pois Ghiraldelli, então, se apoia, novamente, nas estatísticas “bem feitas”:

 Quando as pesquisas são bem feitas, elas assustadoramente exibem que a segurança não é tão prioridade quanto aparece à primeira vista. O brasileiro realmente acredita que ele pode ser um agente de combate ao crime […]

 Mas, como de costume, não apresenta qualquer uma dessas “pesquisas bem feitas” para que o seu leitor possa tirar suas próprias conclusões, o que, aliás, reforça minha tese inicial de que o que Ghiraldelli realmente quer é que concordem com as conclusões dele, apesar de se esforçar homericamente em provar o contrário.

Voltando ao texto, depois dessa ladainha sobre pesquisas, o “filósofo” paulistano tenta voltar à retórica por si própria e afirma, categoricamente, que:

O brasileiro realmente acredita que ele pode ser um agente de combate ao crime, que ele mata o bandido e pronto, está tudo resolvido, ou seja, que não haverá vingança de outros bandidos e que ele não sofrerá nada na própria justiça. 

Primeiro, sem mostrar qualquer pesquisa, como ele disse, “bem feita”, não é justo pedir ao leitor que acredite no que se fala, então, sobre o brasileiro. Segundo, mesmo que Ghiraldelli esteja certo sobre o brasileiro não saber das consequências na justiça, isto se dá porque, simplesmente, o brasileiro não procura, desde cedo, o conhecimento sobre seus direitos e deveres, isto porque NÃO PRECISA deles a não ser em raríssimas ocasiões em que, se for mais afortunado, poderá ter um advogado para tratar de seu caso e, se for pobre, já entrará para o julgamento sem ilusões, mesmo tendo garantidos pela Constituição os seus direitos*. Por fim, o cidadão não pensa que haverá vingança de outros bandidos:

1- Porque o bandido, mesmo que armado, pode não ter outros aliados

2- Porque não há como prever qual bandido é membro de quadrilha ou não.

E, lógico, um cidadão que não tem treinamento constante com armas certamente será presa fácil da possível quadrilha, podendo, então, como diz Ghiraldelli posteriormente, ser colocado, junto com sua família (que, curiosamente, está toda, necessariamente, desarmada, mesmo que haja pelo menos mais um adulto na família), em um inferno. Só que, caso se facilite o acesso às armas por parte do cidadão (visto que elas já são legalizadas, apesar da terrível burocracia necessária para adquirir e manter uma em posse), deve-se, também, facilitar o treinamento deste cidadão e instruí-lo, melhor e mais extensivamente do que fez Ghiraldelli, sobre os riscos e as responsabilidades de andar armado. Porém, aí caímos em outra questão, que é a do monopólio da violência por parte do Estado. Hora, então, de cumprir minha promessa e terminar este texto.

Ghiraldelli, o energúmeno?

Voltando brevemente aos onze tópicos sobre o energúmeno, que Ghiraldelli insiste em definir como todo aquele que não sabe que suas demandas e suas ideias podem se voltar contra ele próprio**, ao responder a um leitor que, pertinentemente, colocou em questão a auto-defesa, Ghiraldelli cita, sem pensar duas vezes, a discussão weberiana sobre o “monopólio da violência” pelo Estado, monopólio este derivado, justamente, do contrato social como descrito por Hobbes e Rousseau. Ou seja, isto significa, na prática, que, pressupondo a concordância de todos sobre a necessidade de regras comuns a todos e de um Estado que garanta a aplicação dessas regras (o que, aliás, pode ser quebrado ao se ver o crescimento até notável no número de libertários, alguns até exageradamente anti-Estado), este mesmo Estado também deveria, necessariamente, ser o único grande portador de todos os meios possíveis para coibir, entre outras coisas, a violência e a criminalidade dentro do seu território.

Ocorre, porém, que, apesar de nobre em princípio, esta ideia pode levar a uma grande falha, à qual o “filósofo da cidade de São Paulo”, pelo visto, não se atentou. Obviamente, por mais que se tente, é impossível que o Estado, sozinho, seja o único que tenha poder para matar ou prender todo aquele que interfira com suas políticas, e isto se dá tanto porque existe o comércio ilegal de armas, instrumentos usados para a violência, quanto porque há os criminosos, que fazem da violência suas principais armas.

Entretanto, existem alguns casos em que o que se forma ou o que se pretende obter não é um Estado Democrático de Direito, uma Monarquia Constitucional, uma República Federativa ou algum desses governos em que se privilegie a liberdade e o poder de escolha dos cidadãos sobre as suas vidas e sobre quem deve administrar os bens comuns por determinado período de tempo, mas sim um Leviatã, uma Monarquia Absoluta, uma República Nazista, um tipo de Estado em que a preocupação é, justamente, controlar o máximo possível a vida dos cidadãos (autoritarismo), quando não todos os aspectos da vida dos cidadãos, incluindo o que estes podem ou não pensar (totalitarismo).

Acontece que, quando um Estado desses se forma, considerando que não se formará sem oposição e sem o mínimo de atritos, é muito perigoso para seus líderes que os cidadãos comuns ou mesmo seus opositores tenham como se defender das arbitrariedades que virão a perpetrar quando dentro do governo. É para evitar esses riscos, então, que esses estatistas procuram o monopólio absoluto de todo e qualquer tipo de instrumento que possa servir para, justamente, deflagrar a violência não apenas contra civis, mas contra o próprio Estado.

Percebe-se, então, que também o “filósofo” deveria repensar um pouco mais toda sua certeza sobre o quão bom é o desarmamento civil e, por corolário, o monopólio da violência por parte do Estado. Afinal, se, como ele disse, um tiro de um cidadão comum “é no mínimo três tiros. Um sai pelo cano, dois pela culatra. Os do cano tiram uma vida de uma vez, os outros dois funcionam como uma longa e tenebrosa tortura capaz de destruir não só o atirador, mas sua família e tudo o mais ao seu redor.”, posso dizer, então, que nenhum tiro também pode ser três tiros ou mais. Resta saber quantos desses tiros serão usados pelo crime e quantos serão usados pelo Estado.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e percorre, ainda timidamente, os caminhos da Filosofia. Se, para ser filósofo, precisar se formar e analisar o mundo como o fazem Ghiraldelli e outros acadêmicos, morrerá feliz se for para sempre chamado de polemista medíocre.

¹ Escrevo o nome do “filósofo” com “u” porque ele, por sua vez, já chegou ao cúmulo de escrever o sobrenome de José Guilherme Merquior com “ch” e com “lch”, transformando o diplomata e ensaísta brasileiro (ou seja, alguém que deveria ser conhecido para um doutor em Filosofia a ponto de saber grafar seu nome sem maiores problemas), assim, em “José Guilherme MerCHior” e em “José Guilherme MeLCHior”, o que deveria fazer, então, até mesmo o leitor mais fanático do “filósofo da cidade de São Paulo” colocar em dúvida as capacidades cognitivas deste. 

² Muito curiosamente, um blog também não precisaria estar condicionado do mesmo modo que um jornal impresso, plataforma na qual, por questões óbvias (leia-se: o impresso), não se pode colocar links tão acessíveis quanto na rede, mas Ghiraldelli, pelo visto, parece pensar que deve escrever como se fosse para um jornal ou revista. Ainda mais curiosamente e, desta vez, ironicamente, é justamente um dos piores escribas da imprensa brasileira, o também “filósofo” Emir Sader, que dá um bom exemplo de como, sim, se pode colocar alguma referência externa em um artigo, quando, ao fim de alguns de seus artigos na Caros Amigos, coloca, bem ou mal, livros que o leitor possa consultar sobre as questões por ele abordadas. Será que nem Emir, então, o “filósofo da cidade de São Paulo” consegue imitar?

³ A você que demerita um artigo pela fonte, só posso mandar ir para a Conchinchina, para não falar algo pior.

* Curiosamente, a escola, tão louvada por Ghiraldelli em seus artigos mais recentes, quase nunca procura inserir o estudante na discussão sobre como procurar os próprios direitos, ou mesmo traz palestrantes que saibam do assunto para discuti-lo com os alunos, mesmo que tenha poder aquisitivo para isso. Ué, mas o problema da escola não era apenas dinheiro, senhor Paulo Ghiraldelli Jr.?


** Ainda sobre este tópico, aliás, é curioso que, em resposta a outro leitor, Ghiraldelli fala que “a civilização vai pelo caminho do desarmamento”, enquanto se esquece de que, como denunciado constantemente pelo jornalista britânico Pat Condell e por outros, a mesma civilização (Leia-se: Europa) também caminha para a islamização, o que, creio que Ghiraldelli saiba, não necessariamente trará apenas bons resultados, especialmente para as minorias que Ghiraldelli defende (porcamente, por sinal). E então, Dr. Paulo Ghiraldelli Jr., qual era aquela conversa sobre civilização e energúmenos mesmo?

Para que serve a filosofia de Paulo Ghiraldelli Jr.?

Olá, amigos leitores, e vamos a mais um de meus, suponho, esperados artigos.

Desta vez, falarei sobre o autodeclarado e formado filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., cujas falácias acerca da “Primavera Brasileira” já desmontei em ocasião anterior e cujas ideias são tão coerentes que, ao mesmo tempo em que defende Cotas Raciais, supervaloriza o vestibular ao usá-lo como principal argumento contra a existência intelectual de Olavo de Carvalho, que, segundo Ghiraldelli, não passou no vestibular – como se isso fizesse ou devesse fazer qualquer diferença para quem defende as Cotas – no hall dos maiores filósofos e jornalistas brasileiros e latinoamericanos de todos os tempos.

Paulo Ghiraldelli fazendo cara de coerência (sqn) (1)

Não venho aqui, entretanto, discutir seus argumentos sobre Cotas (algo que também defendo, chorem amigos direitistas conservadores e liberais, mas outro dia explico e debato isso) ou sua implicância, que desconfio ser provinda de uma frustração amorosa platônica, contra Olavo, mas sim um de seus últimos artigos no portal iG. Desta vez, Ghiraldelli, em um tom entre o canastronismo e a desonestidade intelectual, indaga-se: “Para que serve um filósofo conservador?“. Hora, então, de dar àquilo que se convencionou chamar de artigo talvez a única resposta sensata possível.

O homem que conservava (ou não)

Ao começar seu artigo, Ghiraldelli afirma que 

Só uma girafa com neurônios avariados diria que não vale a pena tentar mudar o mundo. Não precisamos ir onde Judas perdeu as botas para ficarmos insatisfeitos com o que alguns ainda chamam de “status quo vigente”.

Vemos, então, que define um conservador como aquele que defende não valer a pena “mudar o mundo” (o que quer que isto signifique) nem se indispor contra o status quo. Ocorre, porém, que, para azar de Ghiraldelli, há outras pessoas, conservadoras ou não, também formadas em Filosofia ou em outra área das chamadas Ciências Humanas que adotam uma definição, digamos, muito menos simplista e mais coerente – ah, esse problema para a filosofia ghiraldelliana – do que a apresentada pelo professor da UFRRJ. Um desses é Francisco Razzo, filósofo, professor e articulista do blog Ad Hominem, que, em artigo sobre o tema, define os termos “conservador” e “conservadorismo” da seguinte maneira:

um conservador nada mais é do que aquele que pensa a partir da relação plural e histórica entre seres humanos vivos e mortos e com memórias acumuladas num feixe de crenças das quais são suas e partilhadas por outros de sua comunidade. Isto é, caracteriza-se por aquele que nunca pensa a partir de si mesmo e de uma suposta autossuficiência, nem da autossuficiência do coletivo. 

E continua:

A memória, segundo a mentalidade conservadora, é depósito de experiência reais. Portanto, o conservadorismo não tem, em um primeiro momento, nada a ver com ideologias políticas. E, em última instância, limita-se a uma atitude prudente a respeito da relação entre finitude humana e memória histórica. 

Assim sendo, segundo esta definição, conservadorismo nada tem a ver com “não querer mudar o mundo” ou “ficar insatisfeito com o status quo” – lembrando que este, o status quo, tem uma definição tão plástica que, se for critério para chamar alguém de conservador, transformará automaticamente todos em conservadores de alguma forma -, mas sim de levar as experiências humanas passadas em consideração e agir com cautela diante de mudanças políticas ou sociais radicais demandadas por setores da população ou mesmo forçadas pelas circunstâncias. Vemos então que o que Ghiraldelli fez foi bem mais distorcer do que apresentar uma definição coerente da qual se possa partir para uma discussão honesta. 

Ainda assim, essa foi apenas a ponta do iceberg, já que, em seguida, o filósofo de São Paulo infere que, por uma série de fatores estarem atrapalhando o bom andar do “sistema” brasileiro, qualquer defesa ao status quo seria, antes de tudo, um erro filosófico. O detalhe é que, ao contrário do que Ghiraldelli finge pensar, não é porque um sistema apresenta falhas pontuais e reversíveis que deve ser mudado. Aliás, pelo contrário: é justamente a não-total ineficiência do sistema que mantém a população pelo menos parcialmente imunes a crápulas que, aplicando lógica parecida com a de Paulo, mudaram tudo do ruim para o péssimo – e ceifaram milhões de vidas no processo, o que torna a coisa toda ainda mais bestial. O que deve ser feito (ou, pelo menos, o que a prudência aconselhar a fazer) , então,  não é derrubar totalmente o sistema ou desmantelá-lo por meio da cultura, como vem tentando fazer a maior parte dos revolucionários, mas sim consertar essas falhas, o que, de fato, não vai contra qualquer princípio conservador.

O mais interessante do texto de Paulo, porém, ainda está por vir.

Recuperando neurônios

“Você interrompeu o Memórias Póstumas… para isso?”

Depois de toda porca reflexão sobre a linha conservadora de pensamento e de negar ser uma girafa com os neurônios avariados – o que, aliás, é verdade: uma girafa com neurônios avariados, em comparação a Ghiraldelli, é quase um Machado de Assis quando se trata de cultura e quase uma filósofa clássica quando se trata de coerência -, o Sartre tupiniquim resolve botar as garras de fora e partir para a definição da figura do filósofo conservador. Segundo ele:

Não consigo sair por aí gritando “eis aqui eu, um filósofo conservador, eu não quero mudar nada porque tudo vai bem”. É claro que não vou fazer isso. No entanto, sei muito bem que há quem seja conservador e filósofo. Sei também que uma figura desse tipo não diz encontrar a tal girafa no espelho. Ao contrário, não raro os conservadores se descrevem como “corajosos”, “inteligentes” e, mais recentemente, “democratas”.

E prossegue:

Não raro, um filósofo conservador é bastante verborrágico. Ele tem uma necessidade de estar em todo lugar, fazendo propaganda de seus ideais políticos, mesmo quando diz não gostar de política e de não querer conversar de política. Ele sabe também que entre os não conservadores há os que são profissionais da mudança do mundo, e estes se levam muito a sério. Não é difícil tais profissionais se acreditarem predestinados, com uma missão na Terra. Desse modo, o filósofo conservador não poupa seu discurso de frases de efeito, exageros retóricos e farpas que realmente atingem os mudancistas ou melhoristas ou reformistas ou progressistas ou revolucionários. Ora, essa é a parte pior do conservador, e pode realmente ser deixada de lado, até porque é aquilo que se repete e logo se torna entediante.

E aqui é ápice do curioso, amigo leitor, pois, quando se lê os textos de Ghiraldelli, percebe-se nele e em outros progressistas da mesma laia – ou seja,  “intelectuais” que fingem, por alguma razão que não convém discutir aqui, ter deixado a esquerda para poderem desferir críticas à direita sem qualquer peso na consciência, como se o tivessem antes de deixarem a esquerda – nada mais do que AS MESMAS CARACTERÍSTICAS do “filósofo conservador”. O filósofo de São Paulo, inclusive, é mestre nisso, o que se constata depois de algum tempo lendo (e perdendo neurônios com) seus textos. 

Aliás, minto: no caso de Ghiraldelli, não é apenas uma parte, mas a integralidade de sua filosofia que pode ser deixada de lado. Esta característica, do que eu saiba, não aparece em qualquer filósofo conservador.

“D boas aki observamd vse m compara a Pomba Giradelis Jr.”

O ponto do texto de Ghiraldelli, porém, ainda não foi alcançado. Afinal, para que serve um filósofo conservador?

                     Afinal, para que serve a filosofia… de Paulo Ghiraldelli Jr.?

Ao cabo de seu texto, Ghiraldelli finalmente resolve responder à pergunta de seu título:

Penso que há boas razões para ler um filósofo conservador sem dar muita bola para o que ele fala segundo gostos políticos, e assim ficar mais livre para averiguar o que diz no âmbito propriamente filosófico. Em outras palavras: um filósofo conservador vale ser lido antes como filósofo que como conservador.

Não entendeu, caro leitor? Pois então vamos explicar.

Apesar de o homem ser um animal político (mas não ideológico, frise-se) e, sendo o filósofo um homem, este também não poder ser materializado sem, pelo menos, a mínima ideia de quais sejam as suas concepções políticas, temos, segundo o filósofo de São Paulo, que olhar para o filósofo conservador sem considerá-lo conservador! O detalhe é que, por mais que Ghiraldelli teime, dificilmente se compreenderá  as considerações nietzschenianas sobre o mundo, por exemplo, sem se levar em conta sua preferência pelo mundo da estética do que pelo da política. O mesmo vale para o conceito de liberdade central para a filosofia existencialista de Sartre, que, depois, se tornaria, por algum tempo, um stalinista convicto, rebatido pelo também filósofo, mas absurdista e extremamente politizado, Albert Camus. Como fazer isso, então, com um filósofo conservador?

Isto não significa, é lógico, que devemos anular categoricamente todas as contribuições filosóficas de determinado pensador por seus equívocos em matéria de política, porque, se o fizéssemos – e aqui me utilizo de um exemplo dado pelo já citado Razzo em seu genial artigo A arte da difamação e a grandeza da filosofia, cuja leitura recomendo -, acabaríamos jogando no lixo, por exemplo, as indispensáveis considerações metafísicas de Martin Heidegger simplesmente por este ter, por um período relativamente longo de sua vida, apoiado o Nazismo, a segunda doutrina política com maior número de mortes em sua conta.

O problema é que, no caso do conservadorismo e do filósofo conservador, “não dar muita bola para os gostos políticos” é, sim, o mesmo que anular essa filosofia, pois é justamente em torno de suas ponderações sobre filosofia política que o conservador construirá sua visão sobre outras áreas da Filosofia como a Ética, a Estética, a Antropologia Filosófica, entre outras.

Podemos perceber, então, que, no fundo e no raso, a utilidade da filosofia de Paulo Ghiraldelli Jr., lastimavelmente, é apenas incentivar o olhar superficial e incompleto sobre as filosofias com as quais não concorda. Pelo visto, esquece-se de que ele próprio disse, em sua entrevista para o Provocações, de Antônio Abujamra, que filosofar é, em essência, provocar. Não creio, no entanto, que, em tempos de progressismo quase ditatorialmente imposto, o conservadorismo não sõe como uma deliciosa provocação. Pelo menos a mim, um não-conservador declarado, soa, e quero me deixar provocar enquanto tiver esta liberdade.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e percorre, ainda timidamente, a trilha da Filosofia. Pensou, por algum tempo, que conservadorismo fosse, realmente, apenas querer conservar algo. Daí lembrou que precisaria ler os conservadores para provar isso e viu que, na verdade, a coisa toda era muito mais complexa do que imaginava.

Notas:

(1) Agradeço ao amigo Pérsio Menezes, do peublogg, por seu post, do qual tirei a inspiração para a legenda, sobre um texto de Emir Sader.

Referências Bibliográficas:

GHIRALDELLI JR., P. Para que serve um filósofo conservador? Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-09-28/para-que-serve-um-filosofo-conservador.html&gt;. Acesso em: 29 set. 2013. 

MENEZES, P. Escreve como pensa: Análise 001 – Emir Sader. Disponível em: <http://peublogg.blogspot.com.br/2012/12/forca-e-fraqueza-do-partido-da-midia.html&gt;. Acesso em: 29 set. 2013.

RAZZO, F.A. A arte da difamação e a grandeza da filosofia. Disponível em: <http://www.adhominem.com.br/2013/08/a-arte-da-difamacao-e-grandeza-da.html&gt;. Acesso em: 29 set. 2013. 

RAZZO, F.A. Explicando para os meus netos o que significa ser um conservador. Disponível em: <http://www.adhominem.com.br/2013/08/explicando-para-os-meus-netos-o-que.html&gt;. Acesso em: 29 set. 2013. 

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 29/09/2013