Política

Eu, Apolítico – O que poderá significar a decisão de Bolsonaro de não participar de debates no primeiro turno das Eleições 2018?

Não é segredo para alguém minimamente consciente sobre o atual panorama político brasileiro (ou mesmo para alguém com acesso às redes sociais e aos “memes” nestas abundantes) que, há alguns dias, o presidenciável Jair Bolsonaro anunciou sua decisão de não participar dos debates do primeiro turno, promovendo, no horário desses debates, bate-papos via internet com seus eleitores.

A reação da internet, após essa declaração, foi até um tanto boba, pois tudo o que foi feito, em grande parte das páginas e dos sites sobre política, foi criar os famigerados “memes” sobre essa situação, como se o humor barato da “zueira” fosse a melhor forma de fazer análise política. No mais famoso deles, acusa-se Bolsonaro de incoerência, pois, apesar de o deputado federal do Rio de Janeiro constantemente afirmar que “o soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde”, ele próprio teria sido pusilânime ao fugir de debates, ou seja, dos equivalentes políticos às batalhas em uma guerra.

Fora o fato de esse tipo de incoerência não necessariamente ser o fator a impedir um presidenciável de ganhar eleições, vide a campanha de Dilma, em 2010, quando esta, mesmo sendo notoriamente favorável à legalização do Aborto (tema muito mais caro aos brasileiros do que os debates eleitorais), renunciou publicamente a esse posicionamento em nome de uma politicamente lucrativa parceria com a chamada “bancada evangélica”, o problema é que qualquer análise baseada puramente em “memes” de internet tende a ser tola, infantil, bizarra e incompleta, o que é totalmente inadequado para questões de relevância nacional a curto, médio e longo prazos.

Para evitar, pois, tamanha falta de seriedade e de responsabilidade na análise política, cabe-nos colocar em pauta a seguinte questão: o que poderá significar essa decisão do deputado federal do Rio de Janeiro de não participar dos debates do primeiro turno das Eleições 2018?

Primeiro, é possível afirmar que toda a análise desse caso depende de uma espécie de tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples. Muitos eleitores de Bolsonaro, afinal, para defender esse movimento político do “mito”, vêm alegando que Lula, em 2006, e Dilma, em 2010, também não teriam participado de debates no primeiro turno (Dilma, na verdade, chegou a participar de alguns), o que os leva a pensar que adotar esse mesmo movimento, independente de o que mais seja feito durante a campanha, levaria o presidenciável automaticamente ao posto executivo mais importante do Brasil em janeiro de 2019.

O caso, no entanto, é que, ao contrário do que pensam os eleitores de Bolsonaro, evitar os debates não foi sequer o principal elemento da estratégia política do PT para as eleições de 2006 e 2010, e sim uma parte integrante, mas talvez não essencial (no caso de Lula), dessa estratégia.

Ora, amigo leitor, pensemos em conjunto: fôssemos nós os responsáveis pela campanha de algum candidato considerado favorito em todas as pesquisas eleitorais, ou mesmo em grande parte delas, por que o forçaríamos a se expor a diversos debates com candidatos com 1% das intenções de voto, em especial se sabemos que nosso candidato defende pessoalmente ideias consideradas polêmicas (Lula e Bolsonaro) ou não tem habilidades retóricas as melhores (Dilma e Bolsonaro), arriscando-nos a perder alguns votos em algum golpe de mestre de outro candidato? Não seria melhor, neste cenário, deixar os outros candidatos se digladiando enquanto preparamos nosso presidenciável para debater com um candidato em específico, já conhecendo profundamente suas estratégias e até sua linguagem corporal?

Mais ainda: por que deixaríamos nosso candidato, por melhor que seja seu desempenho nesses debates do primeiro turno, fornecer qualquer material a nossos adversários, posto que é prática comum na democracia a exposição distorcida ou não dos discursos de um candidato em um debate pela campanha de outro candidato? Por que igualaríamos a disputa ao invés de dar à nossa campanha a vantagem de usar contra os candidatos mais próximos ao nosso o material que eles nos forneceriam em debate?

Em suma, por que perderíamos a chance de, pelo menos nos primeiros debates do segundo turno, termos uma espécie de “elemento-surpresa” a nosso favor, em especial se a postura de nosso candidato em debates for absolutamente desconhecida pelos outros comitês de campanha? Por que não usar o tempo que perderíamos preparando nosso candidato para debates inócuos e possivelmente pouco influentes no resultado final das eleições (se nenhuma anormalidade ocorrer) para preparar, na verdade, uma campanha capaz de desconstruir os outros candidatos eficientemente?

Se for esse o pensamento de campanha de Bolsonaro, um pensamento bastante estratégico, focado em resultados e não em “mitadas”, ainda que a estratégia seja muito arriscada (pois a vantagem real do presidenciável do PSL pode ser menor do que a das pesquisas, sendo até possível que ele nem sequer seja realmente amplo favorito como pode parecer), sua possível eficiência parece compensar, e muito, os riscos, pois o hoje deputado teria amplas possibilidades de colher bons frutos políticos no futuro.

Como mencionado anteriormente, no entanto, toda essa análise depende da tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples, e é necessário relembrarmo-nos disso à medida que, pelo menos nos últimos anos, Bolsonaro e seus “blue caps” não têm demonstrado grande preocupação com estratégia política efetiva, pois, em diversas ocasiões, o deputado não se esquivou de polêmicas desnecessárias que, de uma forma ou de outra, acabaram por queimar sua imagem com uma parte considerável do eleitorado.

É lógica a possibilidade de essa parcela do eleitorado já ter pouca boa vontade com o deputado federal do Rio de Janeiro, mas fato é que, dos atos políticos de Bolsonaro, podemos extrair não a disciplina tática e a coerência estratégica esperadas para o bom uso da tática do esquivo de debates no primeiro turno, mas sim uma espécie de confiança supersticiosa justamente na força de suas famosas “mitadas” (ou “lacradas de direita”, diriam alguns) como elemento mais do que suficiente para ganhar uma eleição, o que tornaria essa “fuga” aos debates não parte de uma sofisticada estratégia, mas mais uma superstição completamente desconectada de qualquer ação politicamente bem orquestrada.

Nesse caso, o elemento complicador para Bolsonaro não seria nem tanto a sua recusa em participar dos debates, e sim a capacidade política de seus adversários para desconstruí-lo usando também essa recusa como um elemento de desconstrução e de assassinato de sua reputação enquanto político. Nesse sentido, o deputado e seus correligionários devem lembrar-se do mais importante: se subestimarem os oponentes e não agirem estrategicamente, seus adversários agirão e poderão reverter, mesmo com dificuldade, a aparente vantagem considerável de Bolsonaro no período pré-eleitoral.

Afinal, como Bolsonaro e qualquer militar que se preze devem saber, subestimar o inimigo é, muitas vezes, o primeiro passo para a derrota, em especial se este inimigo for um partido que tenha vencido as últimas quatro eleições, em especial as últimas duas, em grande parte graças a seus movimentos táticos magistralmente organizados, ainda que moralmente questionáveis.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Tem consciência de que suas análises políticas podem ser mais furadas do que queijo suíço, mas pelo menos nunca foi pego chamando a Seleção Argentina de 2018 de “poderosa” e “perigosíssima” em textos por aí, muito menos fazendo torcida no lugar de análise política.

Anúncios

Macartismo à brasileira (não, não é o que você está pensando)

Mais de uma vez, li, redes sociais afora, a seguinte pergunta: se chamar alguém de nazista é ofensivo e se o regime comunista foi ainda mais letal do que o nazismo em número de mortos,  por que chamar alguém de comunista não soa tão ofensivo assim para a maioria das pessoas?

É óbvio que a falta de conhecimento histórico do brasileiro médio e a habilidade de propaganda política dos defensores da extrema-esquerda influem, e muito, para essa diferença na percepção do grande público, mas há uma ponderação a ser feita: a própria direita poderia ter evitado esse desnível, mas não o fez ou por falta de consciência política, ou por falta de vontade.

Explico: quantas pessoas vocês veem, diariamente, empreendendo discussões como “o sistema econômico nazista está ou não destinado ao fracasso?” ou “que mecanismos levam pessoas a acreditarem no possível sucesso do nazismo?”? Quantos memes vocês veem chamando um nazista de “ingênuo utópico” ou de “inocente útil”? Quantas piadas do tipo “ain, o nazismo dá certo, sim, você é que não aguenta a vida em um campo de concentração” vocês leem por aí?

Respondo: nenhuma, nenhuma, mil vezes nenhuma. Afinal, não é sem razão que, quando lidamos com um sujeito que defenda, ainda que de longe, o ideário nazista,  não o tratamos como um ignorante, como um inocente útil ou como um debatedor digno de nossos ouvidos e de nosso respeito, e sim como o que de fato é, ou seja, como o apologista de uma filosofia genocida, canalha, monstruosa, totalitária, imunda, abominável, nojenta e portadora de um discurso tão odioso que sequer pensar na possibilidade de debatê-lo já nos causa raiva e espanto. Parafraseando o sonífero, digo, o filósofo conservador Roger Scruton, não é que, para nós, o nazismo deu errado, é que o nazismo é errado.

Enquanto isso, até mesmo os comunistas mais extremistas, inclusive aqueles que defendem abertamente qualquer tipo de genocídio em favor da “revolução”  ou de alguma canalhice do gênero, são tratados como mera chacota ou, pior ainda, como interlocutores dignos de um debate respeitoso de ideias. Quando se faz isso, o resultado na mente das pessoas, mesmo que inconscientemente, é óbvio: ora, mas por que “comunista” deveria ser uma ofensa se, no máximo, um comunista é um ingênuo defensor de uma filosofia mais justa e igualitária impossível de ser aplicada na prática? Por que rejeitar o comunismo, de novo parafraseando Scruton, se esse sistema só deu errado, mas não é errado?

I rest my case.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Que comunista precisa de amigos com uma direita tão agradável assim?

Bolsominions x Facebook: um convite… à reflexão política

Nos últimos dias, não é raro ler, Facebook afora, reclamações de seguidores do deputado federal do RJ e possível presidenciável em 2018, Jair Bolsonaro, sobre o fato de que, aparentemente, não seria mais possível convidar, nessa rede social, pessoas para curtirem a página do deputado, enquanto os convites às páginas de outros políticos, em especial à de certo candidato com só nove dedos, estariam completamente liberados.

Os chamados “bolsominions”, então, não tiveram dúvidas: depois de terem espalhado a narrativa de que haveria uma espécie de acordo entre Mark Zuckerberg e a extrema-esquerda brasileira para que o Facebook privilegiasse a visualização, por parte de seus usuários brasileiros, de posts de páginas com caráter esquerdista ou ultraesquerdista, os autodeclarados conservadores passaram a acusar a rede social não só de privilegiar certos candidatos, mas principalmente de censuras contra outros, ou, melhor dizendo, contra outro, que é justamente Bolsonaro.

Para rebater essas críticas, e temendo que a esquerda se utilizasse de um possível engano da direita para rotular os direitistas novamente como “fake news”, algumas pessoas de dentro da própria direita explicaram que, na realidade, é bastante possível que não se trate de censura a qualquer candidato, e sim de alguns fãs de Bolsonaro terem se utilizado do mecanismo do convite inadequadamente ou de a própria página ter postado algum tipo de conteúdo inadequado, quebrando algumas regras estabelecidas pelo Facebook, o que impediria, por algum tempo, novos convites para mais pessoas curtirem a página do deputado.

O caso, no entanto, é que ninguém ainda falou sobre a real questão desse impedimento de convites para a página de Jair Bolsonaro, que é a seguinte: ainda que toda a narrativa da direita brasileira esteja certa e que de fato haja o tal acordo supracitado, a censura a Bolsonaro até é possível, mas é bastante improvável.

Digo isso porque, como todos sabem, censurar o outro lado de maneira tão explícita pode trazer consequências bastante indesejáveis para o censor, ainda que não houvesse qualquer tipo de rede social para a divulgação mais veloz de informações. Caso voltemos a episódios recentes da história brasileira, a própria extrema-esquerda sofreu censura, de diversas formas, tanto explícitas como implícitas, entre o período que compreende o regime militar brasileiro pré-Sarney (1964-1985).

Mesmo que um militante mais fanático do militarismo considere que essa censura tenha sido justificada e justa, o fato inegável é que, após o fim da ditadura militar, não só a esquerda brasileira não sumiu do mapa como também voltou ao cenário político e cultural com igual ou maior força do que antes por diversas razões, sendo que uma delas certamente foi o fato de, até hoje, a extrema-esquerda brasileira se vitimizar, com e sem razão, por ter sofrido essa censura.

Em outras palavras, os esquerdistas brasileiros hoje, por causa do que seus antecessores passaram em termos de censura, carregam uma arma política poderosíssima para usarem sempre que necessário ou sempre que útil: a narrativa, independentemente do grau de verdade que carregue consigo, do mártir, daquele adepto de uma ideologia que, ao espalhar ideais divergentes daqueles dos donos do poder em uma determinada época, foi censurada de várias maneiras, inclusive tendo vários de seus fiéis mortos, o que só fortalece a narrativa da transformação em mártir e da vitimização.

Para ilustrar, analise-se o caso da Inconfidência Mineira e de Tiradentes: mesmo que o movimento tivesse um caráter duvidoso, com objetivos políticos escusos, o simples fato de um de seus membros ter se transformado em símbolo de uma repressão injusta já tornaria até hoje o movimento da elite cultural mineira da época, na visão de várias pessoas, praticamente imune a qualquer tipo de crítica, mesmo às críticas justas. Imagine, então, quando esse movimento luta por causas aparentemente legítimas. É o baú da felicidade de qualquer marqueteiro político profissional ou não.

Além disso, leitor amigo, até mesmo uma criança de 3 anos conhece o poder da vitimização, quer quando estiver certa, quer quando estiver errada, quem dirá adeptos de uma ideologia (no caso, o ultraesquerdismo) cujo único propósito é a obtenção de poder político estatal justamente por meio de narrativas que levem os seus membros aos cargos mais altos de uma nação. Se consideramos tudo isso, qual seria a lógica de os esquerdistas arriscarem entregar de bandeja uma narrativa poderosíssima justamente para um inimigo político cujo potencial de crescimento eleitoral ainda aparenta ser alto?

Mais ainda: com a possibilidade de os esquerdistas espalharem notícias de teor negativo, verdadeiras ou não, sobre Bolsonaro em qualquer rede social em questão de segundos, ou seja, de assassinarem até com certa facilidade a reputação do possível presidenciável, por que arriscar tudo com uma estratégia que daria armas ao deputado do RJ? Por que adotar a censura quando se pode adotar uma estratégia política talvez ainda mais imoral, mas certamente mais segura, que é o assassinato de reputações?

Resumindo, como queríamos demonstrar, é lógico que todo esse problema com os convites pode ser na verdade uma tentativa de censura a Bolsonaro, mas é improvável que a extrema-esquerda brasileira cometesse um erro tático tão primário. Afinal, no espectro político do Brasil, não são os esquerdistas que abertamente desprezam a estratégia política a ponto de se recusarem terminantemente sequer a analisar as posturas do outro lado, quem dirá a adotá-las se necessário, certo?

Octavius é graduado em Letras, professor e polemista medíocre. Apesar de não levar ditados populares a ferro e fogo, ainda mantém a mínima esperança de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” seja válido.

Eu, Apolítico – Os dois motivos por que Bolsonaro não ganhará para presidente em 2018

Desde antes mesmo do impeachment de Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil, muitos começavam a pensar nas eleições de 2018, especulando os futuros presidenciáveis possíveis e viáveis, indo de figuras como João Dória Jr., um então novato na política, até o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja presença na política brasileira vem de longa data.

Um dos presidenciáveis, no entanto, obteve e continua obtendo o maior destaque, tornando-se uma das figuras mais debatidas Brasil afora: Jair Messias Bolsonaro, menos conhecido como deputado federal pelo Rio de Janeiro e mais conhecido pelos entreveros em que se envolve(u) com figuras como Maria do Rosário e Jean Wyllys.

Odiado por muitos e amado por tantos outros, o deputado federal do Rio passou até mesmo a ser chamado de “mito” internet afora, vendo, em pouco tempo, sua popularidade crescer como nunca antes em sua extensa carreira política como parlamentar.

Vários de seus adoradores, aproveitando-se do fato de Bolsonaro até o momento não ter sido implicado em escândalos de corrupção (em especial, nos mais destacados), cravaram: o “mito” ganhará em 2018 porque é honesto. Outros tantos, adoradores ou não, analisaram a figura de Bolsonaro e seus discursos e concluíram: Bolsonaro tem grandes chances em 2018, e provavelmente ganhará, porque representa o povo.

Por mais que eu concorde com a ideia de Bolsonaro de fato representar o povo bem mais do que nossos intelectuais de extrema esquerda (aliás, até uma pedra representaria melhor, mas essa é outra discussão) e que não tenha tido motivos, ainda, para duvidar da probidade do deputado, o caso é que, na realidade, Bolsonaro não ganhará em 2018 por ser honesto e por representar o povo.

Primeiro, afirmar que qualquer candidato ganhará ou perderá alguma eleição por ser honesto ou desonesto é confundir análise política com torcida e pressupor que, como em novelas mexicanas mequetrefes e em historietas da carochinha, o bem sempre vencerá o mal, quando qualquer um com o mínimo senso de observação sabe que, muitas vezes, o bem perde e o mal sai impune ou mesmo ganha, pois a realidade nua e crua vira e mexe não está nem aí para esses conceitos morais.

Segundo, é óbvio que se alinhar aos interesses do povo, até representando-o em termos de discurso, é uma ótima vantagem para um candidato à eleição que seja. O problema, porém, reside no fato de que afirmar “o candidato ‘fulano’ ganhará por representar o povo e seus ideais” pode deixar implícito que os concorrentes não sejam representantes do povo e de seus ideais, o que é pouco provável, já que todos os candidatos, de uma forma ou de outra, têm origem popular.

O fato é que, se ganhar em 2018, Bolsonaro não deverá isso a ser probo ou a representar o povo, mas sim a como se utilizará dessas características para obter o voto e o apoio pós-eleição (afinal, ganhar e levar são coisas diferentes, vide Collor) dos eleitores dos mais diversos estratos sociais.

Adicione-se a isso o fato de, como qualquer analista político minimamente atento à realidade sabe, política ser pouco mais do que um jogo de aparências e uma guerra por outros meios, e poderemos resumir o que foi dito até aqui da seguinte maneira: não basta à mulher de César ser honesta (e representar o povo), ela deve parecer honesta (e representante do povo) e, mais ainda, deve fazer que seus oponentes não destruam (ou desconstruam) sua aparente honestidade (e representatividade popular).

Em outras palavras, por analogia, o caso é que, para ganhar a eleição presidencial em 2018 ou em qualquer outro ano, é quase irrelevante se Bolsonaro é ou não honesto e representante do povo, sendo o mais importante para seus fins que o parlamentar consiga criar e manter, para o Brasil inteiro, a aparência de probidade e de representatividade popular.

Para isso, Bolsonaro deve fazer política. Se ganhar em 2018, será, pois, por um só motivo: fez política de modo mais eficaz do que seus adversários. O resto é maniqueísmo improvável e politicamente infantil, equívoco e confusão, intencional ou não, de análise política com torcida.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Queria ter terminado esse artigo na metáfora que tanto usa, mas preferiu não se arriscar.

Eu, Apolítico – “How to get away with Matei o presidente”: o Pensador e a Guerra Política

Semanas atrás, o famoso cantor de hip-hop e rap, Gabriel, o Pensador (um de meus favoritos, se não o favorito), completou 25 anos de carreira e, assim como na Era Collor, resolveu novamente matar o presidente em seus versos, o que naturalmente causou reações das mais diversas, desde aplausos à esquerda até vaias à direita.

Falando, aliás, em direita, vários adeptos desse lado do espectro político-ideológico enfureceram-se de tal forma com o lançamento dessa parte 2 da canção só após o fim da Era PT (2003-2016) que passaram a acusá-lo, internet afora, de “hipócrita”, “vendido”, “petista”, “petralha”, entre outras acusações que, por terem sido disparadas até contra Reinaldo Azevedo (!) e Diogo Mainardi (!!), podem estar com os dias contados em termos de força retórica.

A análise política, todavia, dessa polêmica do rapper brasileiro independe de saber se é eleitor do PT, do PSOL ou de algum partido similar. Independe, aliás, até mesmo de ouvir a música, também porque há várias outras bem melhores do próprio Gabriel para ouvir: a interessante “Pátria que me pariu”, as divertidíssimas “En la casa”, “Festa da música tupiniquim” e “2345meia78”, a crítica política em “Sem Saúde”, a icônica (na falta de melhor termo) “Cachimbo da Paz”, etc.

O caso é que, para uma análise política adulta, deve-se começar pela verdade integral dos fatos: não só Gabriel matou o presidente poeticamente e provavelmente escapará ileso, mas também teve e terá tido a ajuda da direita brasileira tanto para o homicídio poético como para escapar das consequências políticas desse ato.

Primeiro, sobre o homicídio poético praticado pelo cantor carioca, Gabriel, o Pensador, só precisaria de um clima político em que Temer fosse tão ou mais odiado do que seus antecessores para compor esse tipo de canção. Seria excelente, por exemplo, que imperasse na mente do brasileiro médio a mentalidade “fora todos, pois são todos igualmente corruptos”, o que daria a qualquer artista o aval (e a licença poética, claro) para atacar com palavras quem quer que fosse o presidente e se sentir moralmente justificado e perdoado para isso.

Creio que nem preciso contar ao leitor, sagaz como sói, o que nossa direita fez: depois do impeachment de Dilma e da ascensão de Temer, a maior parte desses paladinos da moral e justiceiros dos bons costumes entrou de gaiato no navio do discurso “fora todos”, mas não foi ainda expulsa porque vem servindo como bucha de canhão para a militância esquerdista atacar Temer sem dó nem piedade.

Penso ser suficientes, pois, as evidências do porquê de a direita ter ajudado no “assassinato artístico” do atual chefe do Poder Executivo. Ainda assim, por que digo que Gabriel, o Pensador, terá tido a ajuda dessa mesma direita para escapar das consequências de seu crime poético?

É simples, leitor amigo: se “todos são iguais”, mas se é Temer que está no poder justamente no ano em que um cantor completa 25 anos de carreira (marca alcançada por poucos até hoje), qual seria a razão de alguém reclamar por Gabriel escrever especificamente contra Temer? Não seriam, então, esses ataques um ótimo pretexto para o réu (o rapper) tornar a si próprio ao mesmo tempo a pobre vítima dos defensores do presidente, esses hipócritas que têm bandido de estimação (reconhecem isso de algum lugar, amigos de direita?), e o impiedoso juiz da hipocrisia alheia?

Mesmo que o Pensador não tenha qualquer interesse ideológico e que só tenha se aproveitado para voltar ao hall da fama, quem tem mais chance de sair ganhando politicamente: o rapper que pode posar de injustiçado ou os direitistas “apolíticos” que adoram posar de justiceiros dos bons costumes e paladinos da coerência?

Em suma, se Gabriel não honrou seu codinome e de fato escreveu a canção sem fins de guerra política, imaginem o que fará se resolver pensar. Já a direita, se estava pensando quando atacou o rapper após tanto apoiar o “fora todos”, imaginem o que fará se resolver deixar de pensar.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Nunca imaginou que encararia Gabriel, o Pensador, como um exemplo de G-U-E-R-R-A (GUERRA!) política.

Eu, Apolítico – William Waack e a privacidade: Orwell explica

Nesta semana, o jornalista da Rede Globo, William Waack, não só foi o centro de uma grande polêmica, mas também teve seu nome estampado em várias manchetes na internet após o vazamento de um vídeo em que, segundo seus acusadores, teria proferido comentários racistas sobre um motorista que buzinava na rua em frente à Casa Branca segundos antes de o jornalista iniciar sua cobertura ao vivo das eleições americanas do ano passado.

Partindo dessa polêmica, alguns debatedores internet afora levantaram a seguinte questão: por mais que o que Waack disse seja repulsivo, não é preocupante que, no mundo em que vivemos, até mesmo o que falamos em privado possa ser alvo do escrutínio do público? Mais ainda: será que essas mesmas pessoas que hoje estão achando maravilhoso Waack ser o alvo da ira pública não pensam que podem ser as próximas?

A primeira pergunta, confesso, parece-me bem coerente, mas não creio ter nada a acrescentar à discussão fora o que já tem sido dito redes sociais afora: de fato é preocupante, pois a fluidez da noção de privacidade acarreta medo, insegurança, falta de confiança no outro, etc.

A segunda questão, por sua vez, é certamente bem mais interessante, pois até mesmo aceitar as duas respostas possíveis requer, por razões diferentes, uma maturidade (ou talvez um cinismo, como prefiram) à qual o debatedor brasileiro ainda não se acostumou, já que, também por várias razões, recusa-se a aceitar a vida como ela é e, principalmente, as pessoas como elas são.

A primeira resposta é: não, de fato essas pessoas não pensam que podem ser as próximas, quer porque superestimam demais a própria “esperteza” e pensam que nunca serão pegas, quer porque se consideram tão virtuosas que nunca sequer passariam perto de pensar nas palavras erradas, quanto mais de dizê-las. Ou seja, em outros termos, são hipócritas, por mais cruel que isso possa parecer.

Já a segunda resposta só pode ser bem entendida com uma analogia com o genial romance distópico 1984, de George Orwell. No final do livro, após ser capturado junto com sua amante, Júlia, o protagonista Winston, então membro do Partido, confronta seu torturador, O’Brien, membro de um escalão mais alto do que o seu, e lhe pergunta o porquê de ele apoiar o partido incondicionalmente se sabia (como dissera antes a Winston) que um dia seria ele o torturado.

As palavras de O’Brien são devastadoras para o leitor, mas não deixam de fazer sentido: o importante, em resumo, não era o indivíduo, por maior que fosse seu posto, e sim a busca pelo poder e pelo controle do pensamento alheio, que eram os ideais reais do Partido. Qualquer sacrifício em nome da causa seria, pois, uma honra, e não um motivo de desespero.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica ao caso Waack: sim, os que hoje lincham Waack publicamente por algo detestável que disse em privado têm plena consciência de que podem ser os próximos, mas o que importa é que a causa que defendem prospere no fim das contas, não importando quantos deverão ser sacrificados para isso acontecer.

Não é, pois, que essas pessoas não entendam que esse tipo de abalo à noção de privacidade tende a levar a uma sociedade de controle do pensamento, e sim que esses linchadores virtuais querem que isso ocorra. Ou seja, em outros termos, são militantes, por mais cruel que isso possa parecer. Orwell explica.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Já achava a expressão “coisa de preto” abominável bem antes de isso virar militância política massificada.

Por que não falo de libertarianismo?

O leitor atento deve ter notado, há muito, que, até hoje, 17 de janeiro de 2017, este blogueiro que vos digita, quer em “O Homem e a Crítica”, quer neste “Apoliticamente Incorreto”, pode ter até citado libertários em alguns textos, mas nunca se dignou a escrever um artigo sobre o tema.

Eu poderia dizer, é claro, que, apesar de achar livre-mercado uma patacoada sem tamanho, não tenho conhecimento suficiente para escrever sobre as ideias libertárias em geral por falta de interesse mesmo, tanto que, até hoje, só li A Desobediência Civil, As seis lições e A Anatomia do Estado entre livros considerados libertários.

O caso, porém, é outro. O que me impede em absoluto de falar de libertarianismo são frases como a que cito abaixo, que li em uma discussão de Facebook na página de certo analista político cuja maior característica é o olavismo:

“A união de 2 ou mais indivíduos é uma união socialista.”

Na mente de um sujeito desses, é óbvio que a relação entre pai e filho, entre namorado e namorada ou mesmo entre um par de amigos só pode ser, por lógica (!), uma relação socialista (!!). Para não ser um socialista, então, segundo esse grande pensador que precisa permanecer anônimo e intocado pelo bem da humanidade, é preciso livrar-se do instinto gregário (!!!) e, agregado a ele, das emoções e dos mecanismos biológicos que nos fazem querer criar vínculos com pessoas, pois todo vínculo com outrem é socialismo puro (!!!!).

Ainda bem que nenhum leitor me cobrou nem me criticou, ainda, por não escrever um texto sobre esse tema. Se a crítica vier, a única resposta que poderei dar é mostrar esse artigo e dizer-lhe: “É desse tipo de gente que você quer falar? Você deveria ter vergonha de sequer dar ouvidos a uma galera dessa.”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Teme que, daqui a alguns anos, o Star Wars se torne um filme libertário e crie o lema “não venha para o lado anarcocapitalista da Força, senão viramos socialistas.”