Política

Por que não falo de libertarianismo?

O leitor atento deve ter notado, há muito, que, até hoje, 17 de janeiro de 2017, este blogueiro que vos digita, quer em “O Homem e a Crítica”, quer neste “Apoliticamente Incorreto”, pode ter até citado libertários em alguns textos, mas nunca se dignou a escrever um artigo sobre o tema.

Eu poderia dizer, é claro, que, apesar de achar livre-mercado uma patacoada sem tamanho, não tenho conhecimento suficiente para escrever sobre as ideias libertárias em geral por falta de interesse mesmo, tanto que, até hoje, só li A Desobediência Civil, As seis lições e A Anatomia do Estado entre livros considerados libertários.

O caso, porém, é outro. O que me impede em absoluto de falar de libertarianismo são frases como a que cito abaixo, que li em uma discussão de Facebook na página de certo analista político cuja maior característica é o olavismo:

“A união de 2 ou mais indivíduos é uma união socialista.”

Na mente de um sujeito desses, é óbvio que a relação entre pai e filho, entre namorado e namorada ou mesmo entre um par de amigos só pode ser, por lógica (!), uma relação socialista (!!). Para não ser um socialista, então, segundo esse grande pensador que precisa permanecer anônimo e intocado pelo bem da humanidade, é preciso livrar-se do instinto gregário (!!!) e, agregado a ele, das emoções e dos mecanismos biológicos que nos fazem querer criar vínculos com pessoas, pois todo vínculo com outrem é socialismo puro (!!!!).

Ainda bem que nenhum leitor me cobrou nem me criticou, ainda, por não escrever um texto sobre esse tema. Se a crítica vier, a única resposta que poderei dar é mostrar esse artigo e dizer-lhe: “É desse tipo de gente que você quer falar? Você deveria ter vergonha de sequer dar ouvidos a uma galera dessa.”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Teme que, daqui a alguns anos, o Star Wars se torne um filme libertário e crie o lema “não venha para o lado anarcocapitalista da Força, senão viramos socialistas.”

Eu, Apolítico – Baboseira boa é baboseira morta

Após a recente morte de 60 detentos em um presídio em Manaus, veio novamente à tona o velho discurso segundo o qual “bandido bom é bandido morto”. Sendo eu um defensor declarado da Pena Capital para crimes hediondos, certamente concordo com essa frase em gênero e em número, não é, amigo leitor?

Pois é. Para quem me conhece, é evidente que só uma resposta é possível de ser imaginada: não, não concordo, e penso, inclusive, que a direita brasileira deve descartar esse discurso ou alterá-lo parcialmente o mais rápido possível, por mais que pareça ser um discurso muito popular.

Resta, com isso, uma pergunta: mas por quê?

Diga-me como defines e eu te direi quem és

O problema que me soa mais óbvio nessa frase é o da definição das duas palavras que compõem o seu centro semântico.

Primeiro, de que “bandido” se fala exatamente nesse lema? A não ser para uma mente muito perturbada, de todo e qualquer infrator penal não pode ser, já que teríamos de punir com morte desde o ladrão de galinhas até homicidas e estupradores, o que tornaria o sistema punitivo brasileiro um dos mais injustos e desproporcionais do mundo.

Parece-me, na verdade, que, quando a maioria dos adeptos desse discurso o reverberam por aí, pensam, é claro, em criminosos hediondos, como estupradores e homicidas. O caso, porém, é que, da frase em si, não é possível nem obrigatório extrair essa informação específica, e fato é que, na maioria das vezes, tanto adeptos como detratores desse discurso pensarão nele a partir do que está escrito/dito, e não do que possa ter sido o pensamento de quem o veiculou.

Segundo, “morto” por quem, caras pálidas? Pelo Estado, após um julgamento no qual serão garantidos direitos como presunção de inocência, dúvida favorável ao réu, direito à defesa e ao amplo contraditório, recursos e outros mais que compõem o chamado “devido processo legal”, ou por qualquer um que, sedizente adepto da justiça, resolva fazê-la pelas próprias mãos sem julgamento algum e com presunção de culpa para o acusado?

Neste último caso, aliás, o que passaria a diferenciar, no Brasil, o civilizado do bárbaro? Seria mesmo uma decisão acertada deixar  a justiça nas mãos de um povo que deu conta de reeleger Lula e Dilma? Que aceitou quase sem resistência intelectual alguma o discurso de que não há diferença significativa entre pequenas e grandes corrupções? Que não só não vê problema, como também chega a achar louvável, compartilhar notícias falsas no Facebook para apoiar ou achincalhar uma causa ou uma pessoa? É a cultura desse povo que deve estar refletida nas leis? O que nos diferenciaria, neste caso, dos facínoras que já grassaram mundo afora?

Diga-me como defines e eu te direi que respostas receberás

Associado a esse problema das definições malfeitas, temos a seguinte situação: é muito fácil fazer um sujeito que adota o lema “bandido bom é bandido morto” passar vergonha em público ou em privado ou ter de se defender prolongadamente (e, lembrem-se, via de regra, na vida política, quem ataca ganha).

Se o sujeito, por exemplo, é fanático por alguma político de passado e/ou presente controverso, é só perguntar: “mas e o seu político predileto? Se bandido bom é bandido morto, então, por causa de a, b e c, ele também seria morto”, objeção à qual um jogador político experiente responderia fácil, dizendo “sim, seria, e não há problema nisso. Parece, na verdade, é que você é quem tem motivos para temer esse cenário e para defender bandido”.

Como, porém, os adeptos desse discurso são os mesmos puritanos que acham a guerra política imoral, o que fariam seria só uma longa e prolixa defesa de suas ideias (dando um ponto ao oponente) ou, pior ainda, uma relativização malfeita do malfeito do ídolo em questão, aumentando as chances de o debatedor passar vergonha e ter de se retratar e/ou ter em cima de si os rótulos de “cego”, “hipócrita” ou “fanático”, além de poder ser frameado como alguém que considera que “bandido POBRE e bom é bandido morto”.

O outro grande frame já foi, inclusive, utilizado “semidiretamente” por mim neste artigo, que é o uso do shaming (“envergonhamento”, em português) com frases como “você deveria ter vergonha de defender a barbárie/ essas ideias retrógradas”. Conecte-se esse rótulo a alguém que viva afirmando publicamente o desprezo aos direitos humanos e será impossível rebater e reverter esse tipo de acusação sem tomar um dano político irreparável (que ocorrerá, é claro, mesmo se o sujeito estiver calado).

Aliás, falando em direitos humanos…

Diga-me como discursas e eu te direi o quão errado és

O problema final do “bandido bom é bandido morto” é que, unido a ele, vem o discurso mais canalhamente burro de todos: o do desprezo aos direitos humanos.

Leitor amigo, coloquemos as cartas na mesa: se você despreza direitos como vida, liberdade e presunção de inocência, você é, no mínimo, um babaca e, no máximo, um sujeito perigoso com o qual pessoas racionais e civilizadas não deveriam sequer trocar palavra, quanto mais ideias.

Se você não os despreza, porém, adivinha? Você é um defensor dos direitos humanos, oras. O caso, na verdade, é que não lhe agrada, assim como não me agrada, o atual discurso esquerdista totalitário e psicopata que infecta essa área das relações humanas.

A solução para isso? Contra-atacar culturalmente e fazer, progressivamente, a esquerda perder terreno nos direitos humanos. Os culpados pela situação atual? A direita omissa e politicamente preguiçosa que, nos últimos anos, só soube produzir, em termos de direitos humanos, baboseiras como “bandido bom é bandido morto”. Como dito no título deste artigo, a melhor resposta a isso é: baboseira boa é baboseira morta.

Octavius é professor, antiolavette, graduando em Letras e polemista medíocre. Provavelmente desrespeitou os direitos humanos e os “direitas” desumanos nesse artigo, mas, até o momento, não se arrepende.

Eu, Apolítico – Sobre rótulos e imoralidades

Proponho ao leitor uma reflexão. Imagine, amigo leitor, que você, na verdade, vive na Alemanha pré-nazista, em que Hitler ainda não havia chegado ao poder, mas já flertava seriamente com essa possibilidade. Por algum motivo, você sempre desconfiou dos resultados do projeto de Hitler, achando que todo aquele discurso e toda a narrativa nazista seriam, na verdade, só um pretexto para genocídios, censuras, antissemitismo e tudo aquilo que já deveria ser passado em um mundo civilizado.

Um amigo seu, porém, acabou de perder o emprego e está vendo as contas e as dificuldades familiares se acumularem. Sendo um cara mais emotivo do que racional, esse seu amigo ouve um discurso do canalha totalitário em questão e começa a dar sinais cada vez mais claros de estar se tornando um defensor fervoroso de uma ideologia que, para você, só pode gerar tristeza e desespero, inclusive para o seu próprio amigo.

Diante dessa situação, você tem duas opções: ou você simplesmente deixa um bom amigo traçar o seu caminho e cometer um grave erro de que se arrependerá depois, ou você tenta convencê-lo de que dar suporte à narrativa nazista é um erro que não deve cometer.

Para qualquer pessoa normal que ache que sua cabeça estará em risco, é óbvio que a primeira opção é de uma imoralidade tão grande que sequer se deve flertar com ela. O leitor inteligente, portanto, partirá para a segunda opção, e tentará convencer seu amigo, um sujeito altamente guiado pelas sensações e pelas emoções, a não cometer um terrível erro.

Em uma situação como essas, é claro, há diversas formas de convencer as pessoas, mas quero que o leitor escolha entre as duas principais que vemos, considerando, sempre, as características desse amigo. Leitor, para convencer o amigo em questão, o que você acha melhor: ir simplesmente refutando racionalmente um a um os argumentos nazistas ou rotular os adeptos do Nazismo (entre os quais o seu amigo ainda não se inclui) pelo que de fato são, isto é, racistas, egoístas, genocidas e ditadores?

Se escolheu a primeira opção, leitor, imagine que você precisa convencer esse seu amigo da forma mais rápida possível, para que ele, ainda que não se filie à ideologia que você quer, se mantenha bem longe do Nazismo. Ainda acha a primeira opção tão viável?

Creio que, diante desses fatos, os leitores mais sensatos, de qualquer grupo ideológico, em especial o da direita conservadora que se diz antitotalitária e que alega haver um projeto totalitário em curso no Brasil, responderiam nos dois casos com as segundas opções, que são as únicas opções viáveis e morais a serem exercidas.

Pergunto, então: se vocês não achariam imoral rotular uma ideologia totalitária como o Nazismo, e se vocês consideram de fato que a esquerda brasileira abraça um projeto totalitário de poder, por que tanta recusa em rotular a esquerda como de fato creem que ela merece ser rotulada?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se rotular fosse crime, já teria pegado prisão perpétua. Se ser omisso politicamente fosse crime, a direita brasileira já estaria há muito tempo na fila de espera da cadeira elétrica.

Eu, Apolítico – Triste começo da direita que não conversa com as pessoas

Tenho acompanhado, recentemente, um canal de Youtube chamado Charisma on Command, cujo nome já dá metade da explicação sobre seu propósito: é, em poucas palavras, um canal destinado a dar dicas aplicáveis no cotidiano sobre como podemos ser mais carismáticos e mais bem sucedidos em nossas interações sociais, entre elas, mas não só, as interações políticas.

Uma das dicas mais valiosas dadas por Charlie Houpert, apresentador do canal, é: quando quiser a atenção e o apoio das pessoas para uma causa, procure contar histórias sobre indivíduos concretos, em especial quando sofrem por não terem tido certa oportunidade, em vez de se prender a estatísticas gigantescas ou a ameaças abstratas e, muitas vezes, intangíveis para o homem comum.

Por exemplo, se você quer que João se una ao seu partido político preferido, é mais eficaz contar a João a história de José, que foi vítimas das políticas de governo empregadas pela facção rival, do que apelar ao fato de que 50 mil pessoas com as quais João provavelmente não tem relação foram vítimas dessas políticas, ou ainda para a imoralidade dessas políticas.

Para saber que histórias são mais efetivas, porém, é preciso conhecer o interlocutor e/ou a plateia com quem estamos lidando, e isso pode ocorrer de várias formas, sendo a principal delas o diálogo e, em especial, a parte em que sabemos ouvir o que os outros pensam, querem, apoiam, repudiam e, principalmente, teme.

A esquerda, sem dúvida, é mestre nisso, já que até mesmo esquerdistas mirins de 15 ou 16 anos já sabem, ainda que instintivamente, que pessoalizar é bem mais efetivo do que tornar abstrato. Os esquerdistas, pois, podem até falar em “feminismo” ou “direitos LGBT”, mas sabem que, se não colocarem na mesa casos no mínimo plausíveis de pessoas que sofreram pela ausência de um ou de outro, suas chances de convencerem o público estarão altamente comprometidas.

E quanto à direita? Quanto a eles, que dizem ter ressurgido no Brasil, tudo aponta para um triste (re)começo, já que 8 entre cada 10 direitistas apelam, de forma chata e monótona, a uma moralidade abstrata pela moralidade abstrata ou a um arcano livre-mercado em vez de mostrarem, com casos no mínimo plausíveis, como a ausência de algum dos dois piorou a vida de um indivíduo que tinha/tem planos, sonhos, ambições e desejos, ou seja, alguém com que se pode ser solidário.

É, em suma, o triste começo da direita que não conversa com as pessoas. Que se acha mestre em economia, mas que é reprovada com nota 3, no máximo, em Marketing. Que despreza a política em nome de ideais excessivamente rebuscados e, portanto, intangíveis à maioria, nos campos moral e estético. Que não sabe contar uma história. Que, enfim, só não terá um triste fim pior do que o de Policarpo Quaresma não por suas próprias forças, mas se o adversário enfraquecer demais a ponto de sequer reagir, o que, adivinhem?, não acontecerá.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando ouve algum liberal falando em livre-mercado, saca logo sua arma: um travesseiro. Anda pagando de Youtuber no canal Eu Apolítico.

Boas (ou más) novas: Apoliticamente Incorreto também no Youtube

Bom dia, boa tarde, boa noite.

Por uma série de motivos, que variam desde conveniência até certa curiosidade, achei por bem expandir o número de plataformas para que o leitor possa aproveitar (ou não) o conteúdo de Apoliticamente Incorreto sem ter de ficar lendo páginas e mais páginas de texto.

Agora, sob o nome de “Eu Apolítico“, o blog também estará no Youtube de uma forma bem simples: o que eu não achar que possa articular em um texto será articulado por mim por meio da fala e postado como uma espécie de podcast que pode ser ouvido pelo espectador onde melhor lhe aprouver.

Os assuntos? Os mesmos de sempre: política, futebol, filosofia, literatura ou o que quer que venha à minha cabeça no momento.

Os idiomas do canal? Português (língua nativa) e inglês (língua na qual dizem que sou fluente. Espero que estejam certos).

A frequência de postagem? Quando me der na telha.

O tom? O mesmo de sempre, ou seja, quem conhece o blog conhece o canal.

Até a próxima e nos encontramos por aí, seja no WordPress, seja no Youtube.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette, polemista medíocre e, agora, vlogger. Sabe que o canal terá no máximo três vídeos, mas não vê problema nisso.

Eu, Apolítico – Isento? Nunca!

Durante os últimos quatro anos em que estive na internet, justamente meus primeiros na blogosfera, fui chamado, com razão, de muitas coisas: irresponsável, arrogante, comunista (até meados de 2012), olavette (até meados de 2014), presunçoso, torpe, polemista medíocre, entre outros.

Sinto, porém, que, nos últimos tempos, vem ocorrendo, comigo, o que ocorreu hoje quando engatei brevíssima discussão com Flávio Morgenstern acerca de seu mais recente artigo. Quero dizer, com isso, que, assim como o autor analista político conservador, muitos vêm ou me acusando de “falso isento” (ou, como no caso de Morgen, de “isento” no sentido de “frouxo político”) ou me elogiando (bem mais raro, admito) como alguém que tem buscado criticar os dois lados de modo isento.

O caso, contudo, é que as cartas precisam ser postas à mesa: não, eu não sou isento. E mais: também não quero sê-lo.

Antes de tudo, é preciso definir o que se entende por “isento”. No contexto aqui abordado, deve-se entender por “isento” aquele que disserta sobre qualquer tipo de assunto de modo desinteressado, descompromissado, sem se comprometer com qualquer dos lados nem (e julgo isto como o mais importante) preferir qualquer um dos lados.

Lendo a maioria de meus últimos textos tanto na blogosfera quanto Facebook afora, muitos diriam que, nesse sentido, não haveria escapatória, isto é, que eu seria um isento ou, como acusou o blogueiro conservador, um frouxo político que se diz um “isento” por motivos os mais variados. O problema, porém, é que as aparências enganam e que, pelo visto, muitos não conseguem diferenciar ação ou discurso de pensamento, ou, melhor dizendo, não conseguem diferenciar o que alguém diz ou faz de suas reais ideias ao se esquecerem de que nem tudo pode ou deve ser dito em todos os contextos.

Se alguém, por exemplo, que pensasse que uma pessoa diagnosticada com câncer em estágio avançado está “com o pé na cova” não diria a esta pessoa o que de fato pensa, mas algo para consolá-la, isto em uma situação que não envolve qualquer tipo de discussão política, por que não ocorreria o mesmo com políticos quando tentam angariar o apoio da opinião pública, com totalitários que pretendem sutilmente implantar um projeto de poder, com autores de livros de cunho mais sério que obviamente perderão um pouco de sua liberdade para não queimarem o próprio filme ou, mais ainda, com blogueiros em busca de debate?

Isto posto, é preciso delimitar claramente o que de fato penso: sou daqueles que preferem a imensa maioria dos direitistas à imensa maioria dos esquerdistas, mesmo que não lhe agradem qualquer das opções.

Sou daqueles que, ao me deparar com um ateu militante fazendo um escarcéu por causa da mera existência de Marco Feliciano, só pode sentir nojo (porque pena é sentimento reservado aos que de fato são inocentes) de uma pessoa que finge não ver que é muito mais prioritário vigiar o ParTido que há 12 anos está no poder indicando ministros e tentando perverter a democracia do que torrar a paciência de pastores cujo grau de ameaça às instituições democráticas perto desse mesmo ParTido beira zero.

Sou daqueles que, ao verem a galera do pensamento não-binário gravando vídeos em que, por “espírito crítico”, falam que não defendem “nem PT nem PSDB” ou “nem Lula nem Bolsonaro”, como se toda a oposição pudesse ser reduzida ao bundamolismo tucano ou ao reacionarismo bolsonarete, só podem sentir que ou estão lidando com um maluco ou, muito mais provavelmente, com um sujeito cujo senso de moral está tão pervertido que este passa a considerar legítimo fingir que o PSDB é tão virulento quanto o PT ou que Bolsonaro tem de fato tanta influência nos bastidores do poder quanto Lula.

Sou daqueles que, ao lerem os posts de pessoas “nem de esquerda nem de direita” que só compartilham Carta Capital, Caros Amigos e Brasil 247, sentem vontade de vomitar o café da manhã, o almoço e o jantar dos últimos 10 dias tamanha a falta de pudor de pessoas que descaradamente estão jogando, mas que, se encurraladas, dirão apenas que procuram “a verdade longe da manipulação da grande mídia”.

Dizem, entretanto, que D’us mora nos detalhes. E eis o detalhe: eu não consigo ser um dos cegos, intencionais ou não, ao fato de que todas essas práticas à qual demonstrei repúdio fazem parte do jogo político e que, portanto, esperar ou exigir do outro lado o abandono dessas práticas é ou preguiça de fazer política ou pura indigência intelectual.

Não sou, pois, daqueles que acobertam militaristas de 2015 fazendo um silêncio constrangedor quando estes deturpam marchas que, ao menos no papel, nada tem a ver com a infantilidade política e a bizarrice ideológica que é pedir intervenção militar depois de anos e anos de guerra cultural bem travada pela esquerda.

Não sou, outrossim, daqueles que passam a mão na cabeça de criacionistas, de negacionistas do aquecimento global ou daqueles que procuram negar que haja a possibilidade de existir, em qualquer momento, qualquer caso real de racismo, homofobia ou machismo no Brasil, e que se esforçam não para ganhar o voto de negros, gays e mulheres, mas para provar que a narrativa de esquerda não corresponde aos fatos, como se a maioria absoluta da população estivesse ligando para os fatos.

Não sou daqueles, consequentemente, que ainda não entenderam que, citando o próprio Morgenstern em uma de suas palestras, não é argumento a melhor arma de convencimento de pessoas, mas sim os cacoetes mentais disponibilizados a partir dos quais se tentará fazer com que elas raciocinem e passem a ver o mundo.

Em resumo, não sou, pois, isento. O caso é que, não sei se por descrença absoluta em qualquer salvação para a humanidade ou se por achar todo esse papo de “verdade absoluta” tedioso algumas vezes (o que não significa, atenção, negar que existam verdades absolutas, o que contradiria a primeira linha deste parágrafo), não tenho qualquer interesse em saber se uma causa que está sendo defendida no debate político é mais próxima da verdade do que da mentira, ou vice-versa. Obviamente, tenho minhas convicções e procuro, pessoalmente, melhores respostas, mas o que realmente me interessa no debate político não é necessariamente se eu concordo com o lado por alguém defendido, mas que estratégias este mesmo alguém utiliza para se defender.

Ficam mais claras, pois, minhas recentes críticas à direita. Não, não é isentismo. É só descrença quanto à eficiência de choradeira anti-doutrinação marxista e de louvação a milicos, entre outros, enquanto estratégias para o fazer político em si. Isentismo é outra coisa. Dica: as pessoas conhecem como “não sou de esquerda, mas…”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera seriamente que o “didididididi ê” da direita “cheia de manias, toda dengosa” não irá muito longe no passo em que as coisas andam.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – Política para covardes

Conta-se (e lê-se, posto que foi publicado e está no mercado há anos) que, de um debate entre os irrelevantíssimos Mário Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro – o famoso “quem?” que, por algum Sobrenatural de Almeida político, se tornou Ministro da Educação -, surgiu um livro intitulado Política: para não ser idiota.

Nesse livro, ambos discutem irrelevâncias e provam que os únicos reais idiotas, inclusive no sentido clássico invocado por Cortella no início do livro, foram os que, como este ensaísta, perderam tempo lendo tal arrazoado de insignificâncias enquanto poderiam ler Camus, que ensina, em um parágrafo, mais sobre política do que todas as páginas do prolixíssimo livreco.

Ressalto mais de uma vez a completa falta de pertinência do livro porque pretendo fazer deste ensaio o exato oposto ao criticar a política feita não para os não-idiotas, mas para os covardes.

Criticarei, por óbvio, a gentalha “imparcial” do primeiro ensaio, a mesma que, estranhamente, lacra no 13 e idolatra (ou passou a idolatrar) Janine Ribeiro.

Adotando o falso imparcialismo e um fraudulento relativismo “total”, temos talvez alguns dos mais covardes animais políticos de todos os tempos: dizem “combater o preconceito”, mas ficam em silêncio profundo e constrangedor quando perceber que correm o risco de ver o eleitorado se bandear para o outro lado da dicotomia política.

Quando um negro é agredido em seu âmago, por exemplo, os politicamente covardes conseguem fazer o certo não por virtude, mas por esperteza, e partem em sua defesa, pois sabem que apenas um doidivanas ou um mentecapto (além, é claro, de um canalha) deixariam de apoiar a luta contra o racismo. Agem da mesma forma com o machismo e com a homofobia, formando o tripé “analítico” sobre o qual Flávio Morgenstern oportunamente tripudia em seu livro de estreia, Por Trás da Máscara.

Muito curiosamente, mesmo usando o tripé, muitas vezes, como pretexto para a luta antirreligiosa, é justamente no quarto pé, esse ainda apenas no plano do desejo por parte dos esquerdistas, que a porca torce o rabo: o preconceito contra ateus (“ateofobia”, que citei no post anterior).

Como dito no ensaio anterior, é óbvio que sociedade nenhuma sobrevive no relativismo total e que, portanto, algum tipo de mito é sempre necessário, ainda que sejam os mitos da religião com mais adeptos no globo, o estatismo.

Disso deriva uma conclusão óbvia, também expressa anteriormente, de que mesmo Estados ateus apelaram, de uma forma ou de outra, aos mitos (no caso, os mitos do marxismo ou da ramificação racionalista do Iluminismo francês), o que significa que defender a ateização de uma sociedade, por mais que seja “per se” uma péssima ideia, não significa necessariamente defender uma sociedade sem dogmas e, mais ainda, sem obscurantismo.

Só se pode chegar a esta linha de raciocínio, porém, lendo autores sérios, o que boa parte da população sequer cogitaria em seus mais selvagens devaneares filosofástricos.

Adicione-se a isso um Cristianismo preguiçoso que só enfatiza a importância de crer, sem se dizer em que dogmas religiosos, e temos um resultado evidente: o de que martelar contra o preconceito contra ateus sem todo um processo de desconstrução antes poderia ser visto como “apologia ao ateísmo” e, portanto, à descrença coletiva de tudo e ao caos social daí advindo.

É só juntar, pois, dois com dois e perceber que o quatro resultante é a malandragem inerente à política dos covardes, se bem que estes são nobres em comparação aos progressistas.

Seria bom, também, se aqueles que tanto reclamam de a esquerda sequestrar causas conseguissem juntar dois com dois e não pensassem só em patos na lagoa.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Acha que acaba esta série antes da queda do Vasco, da Dilma ou dos dois juntos, mas nada prometerá.