Pragmatismo Político

De como voltei ao esquerdismo graças ao Pragmatismo Político e ao Diário do Centro do Mundo

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Amigo leitor, deves ser tão bem memoriado de tão leitor e tão leitor de tão bem memoriado a ponto de se lembrar que, alguns posts atrás, te prometi contar sobre como se havia dado o meu processo de evasão das fileiras da esquerda, o que ocorreu há mais ou menos dois anos. Entretanto, de repente e não mais que de repente, depois de escrever conto de fadas antiesquerda, depois de ridicularizar figuras como Leonardo Sakamoto e Cynara Menezes, depois de até mesmo “recortar” livros de Lobão e Nelson Rodrigues, dois dos mais notáveis membros da direita hidrófoba deste país, devo confessar-lhes que fui arrebatado, religiosamente falando, após ler um dos posts mais recentes do Pragmatismo Político, extraído do Diário do Centro do Mundo, em que o brilhante Kiko Nogueira nos expõe toda a hipocrisia e a inépcia desses que se dizem “a nova direita brasileira”.

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Notas Mensais – Abril 2014 – Maio 2014

A diferença entre religiosos fanáticos e neo-ateus fanáticos é que religiosos fanáticos desejam câncer para quem não segue sua religião, enquanto neo-ateus desejam que, se pegarem câncer, os religiosos não se tratem em hospitais, instituições de origem religiosa, com os mecanismos da ciência, concebida por um bando de catolicões ultrarreligiosos.

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Eu, Apolítico – A Marcha do Fracasso – Da série “Eu avisei”

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / A Marcha do fracasso retumbante – Este blogueiro sobre os resultados do tema deste post.

Já deve ser mais do que fato notório para os amigos leitores que, de fato, a super-hiper-mega-ultra-blaster-conservadora Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo: O Retorno – e nunca é demais frisar, pela cinquentésima vez, que colocar “O Retorno” em um título de uma marcha dita séria já é, per se, um tiro no pé, visto que esta indicação não é adequada nem em filmes do Batman – foi, na verdade, em homenagem ao hino da pátria que estes ultraconservadores dizem defender, um fracasso retumbante (diga-se de passagem, retumbantíssimo).

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A Gaiola dos Loucos (Ou: A volta do preconceito do Pragmatismo Político) (Ou ainda: Rachel Sheherazade e o ceticismo seletivo progressista)

Quem acompanha este blogueiro há mais ou menos um ano deve se lembrar de um texto do mês de setembro do ano passado sobre o preconceito do Pragmatismo Político, site democrático até a página três e progressista até o mais amargo fim, contra o humorista Danilo Gentili. Naquela situação, relatei como um suposto preconceito contra nordestinos de Gentili seria, na verdade, inexistente e mero pretexto para que o site propusesse, para ele, a censura para que não mais falasse sobre o que realmente lhes incomodava, que era a situação de Cuba, ilha que, segundo o Pragmatismo e seus seguidores, não foi reduzida à mais absoluta miséria e sim elevada quase ao status de paraíso terrestre – isto porque, além de falar em paraíso ser “ateofobia”, o único país, para os falsos pragmatistas, que talvez pudesse chegar a esse status é, obviamente, a K.Oreia da Morte, ops, digo, a Coreia do Norte.

Na ocasião, imaginei, sinceramente, que aquele seria o limite de desonestidade a que poderia chegar o progressismo brasileiro (isto porque, óbvio, ainda não havia lido os artigos de Leonardo Sakamoto com maior afinco). Para minha surpresa, porém, eis que, graças a um amigo leitor, me chega um comentário do mesmíssimo site sobre um suposto resultado da recente declaração sheherazadiana sobre o caso de um jovem infrator amarrado a um poste. Após tê-lo lido, resolvi que deveria destrinchá-lo e demonstrar, mais uma vez, que ou os progressistas brasileiros são bestas quadradas, ou são pura e simplesmente desonestos intelectuais.

Bialmente falando (aliás, como sempre), vamos, então, aos trabalhos.

Rachel Sheherazade, a Batman da cidade de São Paulo… Ou será que não?

Já antes do começo de sua reportagem – escrita, aliás, pelo jornalista neo-ateísta Paulo Lopes, que, pelo visto, tem péssima noção do paragrafar na língua portuguesa -, abaixo do título, os pragmáticos de botequim colocam algo interessante ao dizerem que o discurso sheherazadiano surtiu efeito e que os linchamentos com as próprias mãos se proliferaram. Não é difícil, para qualquer um que conheça previamente as posições do site sobre a própria jornalista (e sobre qualquer um que tenha a empáfia de discordar das posições dos “pragmáticos”), perceber que, obviamente, houve, ali, uma atribuição direta de responsabilidade a Rachel Sheherazade pelo suposto aumento de linchamentos públicos, ou seja, que houve, até que se prove o contrário, imputação de crime à jornalista do SBT.

Ocorre, porém, que eu, ao contrário de boa parte da chamada “nova direita” (da qual, orgulhosamente, não faço parte), não curto muito brincar de processar pessoas, apesar de isto estar dentro dos trâmites democráticos. Prefiro, como sabem, brincar com e ironizar o meu interlocutor, ainda mais quando se mostra inepto.

Digo isto porque, já na imagem que usam de Rachel, há uma legenda interessantíssima em que é dito que “Jornalista Rachel Sheherazade defendeu em horário nobre a justiça feita pelas próprias mãos”. Para delírio dos nossos sofistas do progressismo, entretanto, sua interpretação da fala de Sheherazade não é única, muito menos a mais provável. Como já dito por estas bandas, essa interpretação seria até crível e digna de respeito, não fosse o fato de que a jornalista do SBT disse claramente que a legítima defesa se dá apenas porque (ou, matematicamente falando, se e somente se) estamos em uma sociedade SEM Estado e com estado de violência endêmico. Não é preciso ser gênio para saber, contudo, que nossa sociedade, ao contrário da fala de Sheherazade, não  é sem Estado, mas sim com um Estado omisso, que foi do que Rachel reclamou. Afinal, se ela realmente quisesse defender pura e simplesmente justiça com as próprias mãos, por que teria citado, em tom de clara apreensão, a negligência e a ausência do Estado na questão da criminalidade? Seria Rachel, então, sádica de querer, ao mesmo tempo e mesmo que a segunda fosse desnecessária, a justiça estatal e a justiça com as próprias mãos?

Aliás, muito curiosamente, é justamente uma frase da reportagem que pode ser usada para defender Sheherazade e para mostrar, de fato, que o que disse não era uma defesa aos justiçamentos, mas uma reclamação contra a falta de eficiência estatal. Segundo o próprio Pragmatismo Político, “Em entrevistas, Sheherazade confirmou o que dissera em rede nacional, afirmando que, diante da falência das instituições oficiais de segurança, é legítima a reação das pessoas”. Estaria mesmo Sheherazade desejosa, então, da falência das instituições para que a muito menos eficiente (e muito mais suscetível a enganos) “justiça com as próprias mãos” tomasse conta?

Isto, no entanto, ainda nem é o mais interessante. Prossigamos com a defesa.

O mistério das estatísticas e a transparência do óbvio ululante

Agora no começo da reportagem, para corroborar seu ponto de vista sobre como Rachel Sheherazade é totalmente culpada pela proliferação dos linchamentos,  os William James cegos, surdos, mudos e mancos de uma perna afirmam, categoricamente, que:

Desde que justiceiros agrediram a paulada um jovem negro acusado de assalto, amarrando-o nu a um poste, no Rio, há 20 dias, aumentaram no país o número de chacinas de pessoas suspeitas de terem cometido crime. Antes, havia quatro linchamentos por semana e, agora, a média é de um por dia.

Muito estranhamente (e de modo quase igual a certo “filósofo” por aí), o site não apresenta qualquer fonte direta dessas estatísticas, sendo a única referência indireta e vinda de uma reportagem da Folha de São Paulo (ué, mas esse não era um jornal de “extrema-direita”?) em que foi entrevistado um sociólogo (ao qual voltarei  em breve) segundo o qual houve esse aumento em relação às estatísticas anteriores. Mais estranhamente ainda, esse mesmo sociólogo, de nome José de Souza Martins, também não cita, ao menos segundo a própria reportagem da Folha, a origem dessa estatística e da estatística anterior, o que significa que a informação usada tanto pela FSP quanto pelo Pragmatismo Político é: a) De fonte duvidosa ou b) Sem fonte alguma.

Ainda mais esquisito, entretanto, é o fato de o próprio site se esquecer de que, além de estatísticas precisarem ser, de fato, atualizadas com frequência razoável (aliás, de quando eram as estatísticas anteriores mesmo?), nem tudo o que está nelas é confiável, porque, muitas vezes, até mesmo a coleta de estatísticas pode ser perturbada ou adulterada por motivos de força maior. Será mesmo, então, que havia tão poucos linchamentos ocorrendo Brasil afora? Será que esse aumento, também, foi tão grande assim? Não poderia, também, a divulgação desses linchamentos ter aumentado? Além disso, se, como dizem adiante, Martins cataloga linchamentos, qual é seu método e qual seu alcance e sua eficácia? Ou será, ainda, que o ceticismo que esses progressistas dizem defender perante as informações dadas pela “grande mídia” não é, na verdade, de uma seletividade que beira ao asqueroso?

A cara de William James ao ler o site exemplo de Pragmatismo no Brasil. Sobre o caso, a única declaração de James foi: "Pragmatismo teu cu".

A cara de William James ao ler o site exemplo de Pragmatismo no Brasil. Sobre o caso, a única declaração de James foi: “Pragmatismo teu cu”.

Para tentar, mesmo assim, ainda fazer um de seus supostos mestres (ou serão pragmáticos por algum outro motivo?), William James, parar de se revirar no túmulo, os pragmáticos vão ao ponto em que em tese são especialistas e tentam chegar ao lado prático de toda a questão. Citam, primeiro, uma fala do já citado sociólogo:

“O sociólogo José de Souza Martins, que documenta linchamentos há 20 anos, disse estar preocupado, porque “a sociedade civil está ficando progressivamente descontrolada”.”

Mas, ora, sociólogo, se o senhor não tivesse dito isto, eu juro, em absoluto, que nunca teria percebido. Imagine, a sociedade civil brasileira está perdendo o controle, mas que teoria da conspiração. Só por termos mais de 50 mil homicídios e de 50 mil estupros ao ano enquanto o governo tenta pôr a culpa nas armas que o cidadão não mais tem? Foi um exagero seu, sem dúvida.

Em seguida, os neo-pragmáticos de banheiro exageram, novamente, no óbvio ao citarem o presidente da OAB de Goiás, Henrique Tibúrcio:

O presidente da OAB de Goiás, Henrique Tibúrcio, admitiu que a população se sente insegura, “mas ela não pode fazer Justiça com as próprias mãos”.

Também juro a vocês, amigos leitores, que, se não fosse o Pragmatismo Político ter colocado essa fala do presidente da OAB goiana, eu nunca saberia que justiçamentos não podem ser executados, sob pena de prisão, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo democrático. Sinceramente, desculpem, mas são muitas novidades para a minha pobre cabeça (ou, ao menos, assim aparenta pensar o site) digerir em um só dia.

Vou, então, acabar o artigo citando o deputado do PSOL Ivan Valente (que, em termos de amor a fundamentos da democracia, só deve perder mesmo para seu companheiro de partido Jean Wyllys) e destacando a parte em que o mesmo prova, ironicamente, a inocência até que se prove o contrário de Sheherazade:

Ivan Valente, líder do partido na Câmara dos Deputados, disse que a jornalista “simplesmente deu razão aos vingadores que fizeram justiça com as próprias mãos, em torturar, porque a polícia para ela está desmoralizada, a Justiça não opera e é necessário voltar ao velho Oeste”. (Inocentação prévia em azul, e para bom entendedor meia legenda e algumas linhas deste mesmo texto já bastam)

Só posso esperar, então, que eu não seja o próximo alvo de Valente, muito menos do Pragmatismo Político. Imaginem só se tivesse que “provar minha inocência” com a dificuldade imposta por estes dois. Com certeza, teria de pedir embargos infringentes ao Supremo, não acham?

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista não-remunerado e estudante não-sistemático da Filosofia. Desgastar-se-ia um pouco mais com a inépcia da nova direita, mas, pelo visto, ainda precisará de algum tempo exclusivamente para a inaptidão filosófica dos progressistas. Ao ler certos pragmáticos, porém, só pode ficar se perguntando: “Pirsi, Jeimes, pq fisero iso?”

O preconceito do Pragmatismo Político (et caterva) contra Danilo Gentili (1)

Que há muito tempo venho criticando órgãos de mídia e “intelectuais” de esquerda, não é nenhuma novidade para o sempre fiel amigo leitor. Há algo, porém, que pode, de fato, ser-lhe novidade: o mais completo mau-caratismo por parte de blogs progressistas na hora de falar sobre humor, associando toda e qualquer piada da qual esses articulistas não gostam à palavra “preconceito”, tentando, com isso, censurar o humorista que a profere.

Desta vez, a vítima foi o humorista Danilo Gentili, ex-repórter do CQC e agora comandante da tripulação do Agora é Tarde (AET), composta também por Roger, vocalista do Ultraje a Rigor e também vítima frequente desse tipo de ataque e deste ataque em específico, feito pelo site Pragmatismo Político, já criticado neste blog em outras oportunidades.

Danilo Gentili, o “preconceituoso” apresentador da BAND

Para não ficarmos na enrolação, vamos ao enredo deste drama comunista, porque, como se sabe, o drama burguês é para “miguxos reaças” (o que quer que isso signifique) e para manés como Anton Tchekhov e Luigi Pirandello – apesar de eu duvidar muito de que nossos amigos progressistas tenham a capacidade para compreender este tipo de peça.

Danilo Gentili e o inexplicado preconceito

Indo sem mais pestanejar aos fatos, o ocorrido foi que Gentili tocou em um ponto caro a esse tipo de gente: os médicos cubanos recém-chegados ao Brasil pelo programa Mais Médicos. Sim, caro leitor, ao contrário do que falaram, isso não tem nada a ver com mais ou menos nordestinos, mas sim com a sacralidade inquestionável de todos os atos da ditadura marxista dos Castro, que vem destruindo a ilha há mais de 50 anos.

No caso, Gentili fez a seguinte piada…

e cometeu um grave erro, pois deu brecha para o discurso vitimista dos progressistas ao falar apenas uma palavra: NORDESTE. Quando citou esta palavra e colocou, em seguida, palavras como “fome” e “trio elétrico”, Danilo virou prato cheio para a autopromoção dos novos heróis da pátria. No subtítulo da reportagem do Pragmatismo Político, lemos, já de início, que:

Apresentador da TV Bandeirantes destila preconceito contra nordestinos e cubanos. Para Gentili, o Nordeste é um lugar sem energia elétrica, sem água e sem comida.

Para ver como este trecho é mentiroso, é só ouvir o primeiro pedaço da piada de Gentili:

Um apagão afetou boa parte do Nordeste. Digo “boa parte” porque nem todas as cidades lá têm energia elétrica… (destaque meu)

Como vemos no trecho destacado, nem de longe o apresentador do AET afirma que “O Nordeste não tem energia elétrica, água e comida”. O que ele diz é que algumas cidades no Nordeste não tem energia elétrica, e isso, por mais que doa aos ouvidos frágeis dos progressistas, é fato, pois se aplica não só ao Nordeste, como a todo o Brasil, em que, em vários lugares, realmente falta o acesso à eletricidade e mesmo a comida e a água, citadas ao longo da piada.

O mais grave, porém, não é essa ridícula distorção da fala do apresentador, mas o que vem na reportagem que se segue a esse subtítulo. Lá, e em muitos dos comentários a ela, acusa-se Danilo Gentili do crime de, OH, preconceito! Mas, como quase toda a acusação dirigida de um progressista a seu alvo, falta algo básico, que é definir claramente do que o réu está sendo acusado, uma das coisas mais elementares quando o assunto é a lei. 

Entretanto, para os progressistas do Pragmatismo Político (e para todos os outros que comentaram ou não), preconceito parece ser não o que de fato é, ou seja, um julgamento apressado – e normalmente negativo, apesar de o termo poder ser usado tanto para o bem quanto para o mal – de um fato ou de um indivíduo sobre o qual nada se conhece ainda. 

Seria preconceito, por exemplo, chamar Olavo de Carvalho de “astrólogo conspiracionista maluco” sem sequer ler seus textos e suas obras, acusar Reinaldo Azevedo de “defensor da teocracia” sem ver sobre o que realmente fala em seus artigos na revista e no site da VEJA ou mesmo dizer que o livre-mercado é a causa da fome no mundo sem sequer entender o que significa “livre-mercado”. Mesmo assim, raras vezes vi algum progressista reclamando publicamente da ação de seus colegas e avisando-os de que estão sendo preconceituosos. 

Reinaldo Azevedo defendendo energicamente a “teocracia”…sqn

Ao invés disso, preferem manter o termo indefinido e usá-lo ao bel prazer contra humoristas ou contra qualquer um que defenda ideias opostas às desses heróis do terceiro milênio. “Preconceito”, então, passa a ser um termo plástico demais e, portanto, além de ser banalizado, torna-se inexplicável e inexplicado.

“Piada” por quê?

Isso, no entanto, ainda não é tudo, amigo leitor. Vejamos o relato do repórter sobre a piada de Danilo Gentili. Segundo ele…

Na ‘piada’, o humorista afirmou que os médicos cubanos, contratados pelo governo federal por meio do programa Mais Médicos, agora estão se sentindo em casa na região, sem água e sem luz.

Para completar a ‘piada’, o vocalista da banda Ultraje a Rigor (banda do talk show apresentado por Gentili), Roger Moreira, afirmou que no Nordeste ‘tem papel higiênico ainda’. O apresentador respondeu que ‘tem comida também’. (destaques meus)

Há alguma coisa de estranho aí, certo? Pois é, foi o uso da palavra “piada” entre aspas, para inferir que o que Danilo faz não é, realmente, humor, mas sim outra coisa, como o já inexplicado e cada vez mais inexplicável “preconceito”. Um recado parecido pode ser visto abaixo, mas, desta vez, com uma explicação, quase miraculosamente, explicitíssima: É do “opressor” que se deve rir, e não do “oprimido”.

E eis o erro de todo esse raciocínio: “Opressor” e “oprimido” são categorias que, para serem aceitas, dependem de uma série de premissas que nos levam, basicamente, a dois principais caminhos: marxismo revolucionário ou marxismo heterodoxo (progressismo). Ou seja, para aceitar que haja um grupo “opressor” e outro “oprimido” na sociedade, além de praticamente banir a categoria “indivíduo” das análises, precisaríamos pressupor que existem classes sociais homogêneas compostas por pessoas com interesses e necessidades rigorosamente iguais e que é sempre quem tem o poder aquisitivo ou as propriedades que está no lado mais forte do conflito (2)

Enfim, trocando em miúdos, por Danilo ter feito a piada “com o grupo errado”, o escrevente deu a si mesmo a permissão de desqualificar todo o processo criativo do apresentador e dos roteiristas do AET. Ora, progressistas, mas isso não é a “coisificação do homem”? Afinal, não foi Danilo, tecnicamente, reduzido a mero objeto usado pela ideologia progressista para ganhar adeptos na luta contra “a opressão”? (termo esse que, também, permanece obscuro).

O leitor, como de praxe, ainda pode fazer, pelo menos, mais uma pergunta: Tem como ficar pior?

Racionamento (cubano) e burrice (brasileira)

A resposta, amigo leitor, é sim. Voltando à reportagem, lemos que:

Além do preconceito direcionado à Cuba e ao nordeste brasileiro, Gentili revelou na “piada” o seu desconhecimento sobre a atual realidade cubana em relação à segurança alimentar da sua população.

Eis que chegamos no ponto para o qual toda a discussão se direcionava, e sobre o qual já falei brevemente no início de toda esta querela: a “empáfia” – e uso aspas pois, para pessoas normais, ou seja, aquelas que acreditam na necessidade de haver a liberdade de expressão, não há nenhuma ousadia por parte do ex-CQC – de Danilo ao criticar o Sacro-Império Comuno-Cubânico, comandado pelo guru espiritual-materialista Fidel Castro (e seu irmão, o atual presidente Raul Castro) e mais conhecido como Cuba.

“Daí vocês gritam: FASCISTA! PRECONCEITUOSO!”

Normalmente, seus defensores por aqui são aqueles que, fora o fato de não ativarem mais do que um neurônio de todo o cérebro, simplesmente não conseguem conceber sequer que existam pessoas como Yoani Sanchez, as chamadas “oposições permitidas”, quanto mais reais opositores àquilo que, apesar de todas as evidências em contrário, insistem em chamar de “o paraíso na terra”. Os falsos pragmáticos da política, por sua vez, não fogem à regra, e, para defender os ditadores Castros, alegam que:

Em visita a ilha governada por Raul Castro, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, José Graziano da Silva, reconheceu os esforços do governo cubano para garantir a segurança alimentar da população. Cuba hoje possui uma situação de segurança alimentar próxima a de países desenvolvidos, com um índice de desnutrição menor que 5% da população.

“Cuba é um dos 16 países do mundo que já atingiram a meta da Cúpula Mundial da Alimentação de reduzir pela metade o número absoluto de pessoas com fome. Isso tem sido possível graças à prioridade que o governo tem dado para garantir o direito à alimentação e as políticas que implementou”, afirmou o representante da ONU em maio deste ano.”

O detalhe, amigo leitor, é que o repórter se esquece de mencionar que a única razão pela qual os índices de desnutrição em Cuba são tão baixos é que há o famoso racionamento de comida, um dos milhares de ônus (uma lista interminável de ônus, aliás) do sistema socialista-comunista de governo. Para os que não sabem (ou que preferem ficar sem saber), isto significa que, enquanto no sistema capitalista ou em um sistema não-socialista, filas são formadas, na maioria das vezes, durante o lançamento de algum filme ou de uma novidade tecnológica que todos desejam adquirir, no sistema socialista, formam-se filas e filas de pessoas para pegar a comida para o dia ou para o mês, sem direito à reposição ou a qualquer quantidade a mais de comida, não importa em que circunstâncias.

Analisando, então, a situação com esses dados, pode-se dizer mesmo que, para uma população tão pequena e tão regulada, o governo de Cuba vem sendo, de certo modo, até incompetente, pois sequer consegue manter o controle quando já tem o monopólio de tudo.

Enfim, fica transparente mais uma vez, portanto, o amadorismo do site dos maiores lunaticamente teóricos “pragmáticos” brasileiros, que me levaram ao ponto de defender Danilo Gentili, cujo trabalho como humorista eu aprecio, mas de cujas opiniões, na maioria das vezes, discordo (como quando falou sobre Impostos e sobre Carnaval). Espero que o amigo leitor tenha gostado e que eu não tenha cometido o mesmo “erro” de Danilo, o de ter sido “preconceituoso” contra nordestinos e cubanos.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e frequentemente gosta de se meter em Política. Achava Danilo Gentili uma besta quadrada, mas conheceu, a tempo, o humor dos “oprimidos” da esquerda nacional.

(1) et caterva: Termo em latim que equivale a “e companhia”, “e comparsas”. Normalmente usado com conotação negativa.

(2) Esse erro marxista também se faz presente (e macula) a concepção de “preconceito linguístico”, mas isso explicarei mais claramente quando postar sobre o tema.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 05/09/2013