Progressismo

Eu, Apolítico – De por que ainda sou bastante cético em relação ao projeto Escola sem Partido

Não é mistério para nenhum de meus leitores mais antigos que, em relação ao projeto anti-doutrinação Escola sem Partido, sou, no mínimo, bastante cético. Atualmente, porém, minhas razões para esse ceticismo são um tanto diferentes daquelas de quando escrevi sobre o Escola sem Partido pela primeira vez. Com a empolgação de uma direita retranqueira e burra em relação a esse projeto, creio que é a hora ideal para mostrar o porquê de meu ceticismo.

1- O projeto é defendido por meio de moralismo barato

Talvez o único ser humano de direita que eu conheço que esteja defendendo o projeto Escola sem Partido de modo político, por ver nele um excelente meio para o fim que é proteger alunos de um abuso como a doutrinação escolar, se chame Luciano Ayan, blogueiro bastante citado por aqui.

Luciano, porém, se esquece de um detalhe bastante importante, isto é, que os principais porta-vozes desse projeto têm sido justamente direitistas que, a cada 10 posts sobre política, fazem questão de escrever em 13 que só estão se movimentando por causa da absoluta necessidade, ou, mais bizarro ainda, que não gostam de política, como se fosse moralmente aceitável ficar dizendo isso. Essa, aliás, é a mesma direita puritana que, ao mesmo tempo em que reclama de um estupro estar sendo politizado, politiza e até partidariza estupros em nome de certo possível candidato à presidência em 2018. São os canalhas que se fingem de puritanos enquanto negam com repúdio veemente justamente o método mais moral e mais pacífico para se derrotar a esquerda: a guerra política.

Por mais que alguns aleguem que este projeto acabará sendo um passo em defesa da liberdade (o que não me convence), duvido muito das intenções de tais moralistas negacionistas puritanos de defender qualquer liberdade que seja, além de, é claro, o fato de frames como “professor não tem que ter liberdade de expressão dentro de sala de aula” serem bradados aos quatro ventos como um grito primal irracional  também não ajudarem muito.

2- O projeto é muito fácil de ser desconstruído

Esse frame, aliás, me leva ao segundo ponto de ceticismo em relação a esse projeto. Até mesmo crianças de 5 anos sabem, ou pelo menos deveriam saber, que, na maior parte das vezes, por mais doloroso que seja para alguns admitir, é a aparência, e não a essência, o que importa na vida cotidiana.

O mesmo princípio pode, facilmente, ser aplicado à política: pouco importa, para a plateia, se o projeto que alguém defende é bom, belo e moral ou, utilizando a metáfora que mais adoro, se a mulher de César é ou não honesta. O que importa ao público é, na verdade, que o projeto que alguém defende pareça bom, belo  e moral ou, com a mesma metáfora, que a mulher de César pareça honesta.

Eis, então, uma das maiores vulnerabilidades do projeto Escola sem Partido: mesmo que Miguel Nagib tenha tido as melhores intenções do mundo, o caso é que é ridiculamente fácil vender às pessoas, mesmo àquelas que nada têm com direita e esquerda, que se trata de um projeto ditatorial, autoritário e, por isso, contrário a todas as noções de liberdade e direitos humanos possíveis, e esta missão se torna ainda mais fácil quando os seus defensores começam a confiar em frases de efeito que, ainda que fossem verdadeiras, seriam péssimas no quesito propaganda, que é o que de fato importa para o momento.

Ao ver o nome do projeto, por exemplo, o esquerdista já ataca com “é um projeto contra a discussão política  na escola”, “é um projeto das elites para alienar o aluno de seus direitos”, “é um autoritarismo do establishment direitista e tucano”, entre outros. Ao ler uma defesa, então, em que se diga que “professor não tem que ter liberdade de expressão em sala de aula”, o ataque fica ainda mais forte com frames do tipo “o professor também tem direito a uma opinião política”, “esses sujeitos são contra a liberdade de expressão” ou, mais forte ainda, “o que esses caras querem é um aluno alienado que reproduza o sistema opressor”.

Todo mundo sabe que, é claro, quem ataca também pode ser atacado, mas a questão é: como contra-atacar esses discursos da esquerda sendo que temos uma direita que ou é omissa por odiar a política ou não toma o mínimo de cuidado com o que fala também porque odeia a política e porque acha que ser honesto e ser um língua de trapo são uma e a a mesma coisa?

3- A direita corre o risco de, mais uma vez, sucumbir pelo seu próprio livro de regras

Ainda em relação ao ódio da direita pela política, é consenso entre todos os homens sensatos que estudam o fenômeno da guerra política que uma das melhores formas de fazer que seu inimigo sofra derrota atrás de derrota e acabe perdendo a guerra é fazê-lo sucumbir pelo seu próprio livro de regras, princípio em que a esquerda é não só mestre, mas fundadora.

A direita, por exemplo, vive insistindo no fato de que a alegação de que existem vários saberes é uma bobagem sem tamanho e que o saber que de fato importa é aquele do qual o professor tem posse. A esquerda, pois, dá um golpe de mestre e, enquanto aparentemente tenta desconstruir essa ideia, se utiliza dela para incutir na cabeça de jovens o ideal esquerdista, já que, até um jovem descobrir que, muitas vezes, um professor é nada além de um cretino com um papel na mão, ele já foi convencido pela autoridade do professor de que só o ideal esquerdista presta e, mesmo quando descobrir o exposto acima sobre professores, abrirá uma exceção e considerará aquele professor que o influenciou como, na verdade, uma grande pessoa e um cidadão bem intencionado.

A questão é: se até mesmo com leis implícitas de conduta a esquerda faz este trabalho, imaginem, então, se derem a ela a oportunidade de tirar professores de escola acusando-os de doutrinadores por meio de um projeto de lei? Não seria mais produtivo, pois, a direita se utilizar das leis defendidas pela própria esquerda, como as leis contra assédio moral, abuso de autoridade e injúria (que são, provavelmente, a imensa maioria dos casos que o novo projeto cobriria), e fazer os esquerdistas sucumbirem pelas próprias regras que tanto adoram, ao invés de instituir mais uma lei para um Estado já inchado de leis autoritárias e retrógradas?

4- O projeto, muito provavelmente, seria rigorosamente inútil

Por fim, se o projeto não for um golaço contra da direita, poderá ser, também, um pênalti batido na trave. Digo isto porque, não raro, vejo direitistas mostrando casos de doutrinação explícita que, segundo eles, seriam impedidos pelo projeto, já que professor e escola teriam de responder judicialmente por sua conduta.

Em um caso recente, por exemplo, um professor deu zero em uma questão a uma garota porque esta atacara o socialismo em sua prova como resposta à seguinte pergunta:

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de gênio para perceber que, no mínimo, o professor se arriscou demais ao frasear a questão desse jeito, e que seria muito fácil manter a “doutrinação” sem correr riscos de receber reclamações. Poderia, por exemplo, ter proposto o seguinte enunciado:

Muitos teóricos alegam que o capitalismo fundamenta  a lógica imoral da exclusão. O texto acima corrobora ou refuta essa afirmativa? Justifique.

No caso, além de ter tornado a pergunta bem mais impessoal (ou seja, acusá-lo de ser um anticapitalista ferrenho já seria bem mais difícil), o professor também deixaria muito mais difícil que sua aluna desse a resposta que deu, já que teria inevitavelmente que se basear na coletânea fornecida pela prova e, se não o fizesse, fugiria ao proposto e teria zero. Lógico, poder-se-ia alegar que a coletânea em si já está viciada, mas, para acusar quem quer que seja de doutrinação, seria necessário um exame da prova completa, em que o professor poderia, sem muita dificuldade, disfarçar bem seu posicionamento colocando dois ou três autores antiesquerdistas em outras questões.

Lembrem-se, também, de que esta possibilidade dada por mim talvez seja uma das mais inocentes possíveis a serem pensadas, já que estamos lidando com especialistas em manipulação linguística. Pensam mesmo, portanto, que a esquerda seria tão burra a ponto de não pensar em formas de relativizar essa lei e torná-la inútil?

Sem mais para o momento, meritíssimos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ficou tempo demais em Letras para acreditar que leis podem derrotar a esquerda sozinhas.

A cultura de estupro em 50 tons de… vermelho

Sempre que há um caso de estupro, como a recente barbárie envolvendo 33 excrementos contra uma moça no Rio de Janeiro, vemos os crápulas da esquerda totalitária brasileira emplacando, contra um direita burra e retranqueira, a narrativa de que a principal culpada por esse tipo de crime é, na verdade, a cultura de estupro criada pela sociedade patriarcal para oprimir as mulheres.

Invariavelmente, os babacas puritanos da direita se concentram em negar o fato de que existe, sim, uma cultura de estupro no Brasil. Os verdadeiros responsáveis por ela, na verdade, são justamente os que mais dizem combatê-la, isto é, são os mentirosos morais da esquerda brasileira.

São esses canalhas, afinal, que instrumentalizam o crime e que, ao relativizá-lo e ao lutarem por penas mais brandas enquanto desviam o foco com safadezas discursivas do pior tipo, como “menos cadeias, mais escolas” ou, pior ainda, “só o negro e o pobre serão presos”, deixam mulheres, negros, gays e várias outros grupos minoritários à mercê das maiores atrocidades e dos maiores atentados contra a vida e a dignidade humanas.

São esses imundos, afinal, que bradam contra a possibilidade de legítima defesa por parte das próprias vítimas, vomitando desculpas canalhas e apostando em uma futurologia cretina com absurdos como “se liberarem as armas, isso aqui vira filme de faroeste americano” e “se o brasileiro tiver arma em casa, até briga de trânsito será pretexto para matar”.

São esses lixos humanos, afinal, os campeões em culpabilizarem a vítima de crime pela agressão sofrida, sendo até surpreendente que ainda não tenham se aventurado a defender figuras como Suzane von Richthofen e o casal Nardoni depois de terem defendido do modo mais asqueroso possível figuras tão abjetas como o estuprador Champinha e de terem relativizado até mesmo os atos do PCC e do Comando Vermelho como mera “reação do oprimido contra o opressor”.

É, em suma, essa a verdadeira cultura de estupro, essa que aparece não em 50 tons de cinza, mas em 50, em 500, em 5000, enfim, nos mais variados tons de vermelho.

É a esquerda, enfim, mantendo-se fiel com louvor à sua tradição genocida, utilizando-se, desta vez, não apenas da violência como meio de obter poder, mas também da mentira moral e da canalhice institucionalizadas.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Será que é tão difícil assim para a direita escrever textos simples e diretos como o artigo acima?

Eu, Apolítico – De como a barbárie no Rio de Janeiro mostra que a direita precisa ser mais inteligente, mais direta e menos retranqueira

Uma barbárie, leitor. Esse é o adjetivo mais leve que se pode usar para descrever o que aconteceu com uma jovem de 16 anos, vítima de um estupro coletivo por parte de 33 canalhas, de 33 lixos humanos que ainda tiveram a ousadia repugnante de divulgar tamanho crime nas redes sociais como se estivessem divulgando um ato de heroísmo ou mesmo um fato banal e cotidiano.

Horas depois, já choviam mensagens as mais variadas. Alguns, naturalmente, dando toda a solidariedade à família e à vítima, que, independente de sua vida pregressa ao acidente, passou por um trauma inimaginável sobre o qual piadas são moralmente inadmissíveis. Outros, os de esquerda, mais oportunisticamente, aproveitaram a ocasião para fazer política e divulgar aos quatros ventos, mais uma vez, a narrativa de que haveria uma cultura de estupro no Brasil, cultura esta que teria sido uma das causas de tamanha calamidade.

Por fim, há ainda os da direita, que, divididos em três grupos e determinados a cumprir mais uma vez papéis ridículos na política, fazem qualquer sujeito com pelo menos dois neurônios ativos no cérebro querer chorar ao ler tantas bobagens. No fim, o que a barbárie no Rio de Janeiro mostra   é, na verdade, o que muitos deveriam já saber: que a direita precisa ser mais inteligente, mais direta e menos retranqueira.

A direita precisa ser mais inteligente porque só mesmo burrice pode explicar o fato de alguém ainda se arriscar a ser o palhaço da turma e fazer piada com um caso tão grave, desrespeitando qualquer noção de moralidade conhecida. Adivinhe, amigo leitor, quem se dispôs a cumprir esse papel de um ridículo e de uma canalhice inigualáveis?

Precisa ser mais direta porque continua apostando, como sempre, em textos longos, prolixos, chatos e detalhistas para tentar emplacar o seu discurso, sendo que, além de ser um discurso tremendamente fraco em termos retóricos (sério mesmo que ainda estão tentando convencer a internet a ser contra a esquerda com a conversa de que esta é imoral? Faz-me dormir), é muito mais fácil colocar qualquer discurso na boca do povo com algumas frases de efeito bem postas em um parágrafo curto do que com dezenas  de argumentos em um ensaio filosófico que ninguém lerá.

Precisa ser, principalmente, menos retranqueira, porque, em política, via de regra, quem ganha é quem ataca, e não quem defende. Trocando em miúdos, dizer que não existe cultura do estupro no Brasil e que a direita defende as mulheres é, por mais incrível que isso possa parecer, rigorosamente inútil.

Útil, leitor direitista, é atacar a esquerda, chamando-lhe de “mentirosa” e “canalha” para baixo constantemente, não com moralismos baratos ou com factoides, mas acusando-a do que ela faz e xingando-a do que ela é: como mentora intelectual de esse e vários outros estupros que aconteceram, acontecem e ainda acontecerão, isto é, como a mentora intelectual da real cultura de estupro, aquela em que estupradores fazem o que querem e saem ilesos graças a um sistema penal ridiculamente brando e em que, ainda, chegam até a ser defendidos por totalitários que, em nome do partido, colocarão mulheres e todas as outras minorias em risco.

Ou é isso, ou é a barbárie sendo aceita e até endossada por uma direita que, de tanto se dizer moralmente pura enquanto se omite ou erra de modo criminoso, tem se mostrado mais poluída do que muito devasso declarado por aí.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa que,  se Argel Fucks treinasse a direita brasileira politicamente, esta seria um pouco mais ofensiva. Considera esse um péssimo sinal.

Eu, Apolítico – Guerra política e moralidade: de como a direita está ainda mais absolutamente errada do que pensávamos

Quando amigos como Luciano Ayan e Roger Scar, e algumas vezes até mesmo este blogueiro de Apoliticamente Incorreto, escrevem textos defendendo que a direita passe a pensar mais estrategicamente  e deixe o puritanismo de lado ainda que por alguns instantes na política, passando a ser jogadora assídua da “guerra política”, não é incomum ver respostas como “mas aí nós estaríamos nos igualando aos esquerdistas!” ou, mais comum ainda, “ah, então o que vocês querem é que a direita vire uma esquerda de sinal trocado!”, no sentido de que jogar a guerra política seria imoral porque a mais experiente jogadora, a esquerda, usaria toda a sua imoralidade no debate político.

Mal sabem os direitistas puritanos políticos do Brasil varonil, aqueles mesmos que vivem a alegar que sabem como o mundo reage, que mais uma vez estão enganados acerca de como o mundo funciona. O caso é que, para qualquer um que tenha maturidade suficiente para encarar o mundo em suas facetas, está mais do que claro que, no fundo, e principalmente no caso brasileiro, a guerra política é, muito possivelmente, a única alternativa de fato moral (ou, no mínimo, moralmente justificável) para se combater o PT ou, em maior escala e de modo mais geral, o esquerdismo. Mais ainda: recusar-se a jogá-la é que é, na verdade, a alternativa mais imoral de todas, ou seja, o real mentiroso moral é o direitista puritano político.

Imoralidade puritana

Por que digo isso? Muito simples. Primeiro, é necessário o leitor saber que parto, por uma questão mais de dialogar na mesma língua do que de crença pessoal, da premissa de que a narrativa mais conhecida da direita sobre a situação brasileira – isto é, aquela que pinta o PT como um partido totalitário que, ao passar do tempo, só recrudescer-se-á ainda mais no poder e piorará a vida do brasileiros – corresponde aos fatos.

Segundo, coloco como premissa, também, algo que muito comumente (e muito coerentemente, diga-se de passagem) ouço de amigos de direita, principalmente no que se refere à questão do Aborto: a de que não existe imoralidade maior e mais atroz do que colocar vidas humanas, especialmente se forem inocentes, em risco por causa de caprichos pessoais.

Terceiro, é necessário nos lembrarmos de que, na absoluta maioria dos casos, métodos, abordagens, táticas e estratégias não são imorais, mas sim moralmente neutros. O método científico, por exemplo, certamente é, sempre foi e sempre será utilizado tanto por pessoas de moralidade ilibada quanto por canalhas e facínoras do naipe de Josef Mengele. Isso se dá exatamente porque o método não é um ente com vida própria, mas sim um instrumento a partir do qual podemos tanto fazer excelentes descobertas quanto protagonizar as piores canalhices.

O mesmo se dá, para ficar em um exemplo que a direita adora defender (e eu também), com relação às armas, pois, ora, assim como um assassino psicótico pode sair matando pessoas pelo simples prazer de matar, também é possível que um cidadão bem intencionado se beneficie da arma para proteger àqueles por quem tem carinho de alguma violência.

Se métodos, abordagens, táticas e estratégias são, pois, moralmente neutros, e se a guerra política é composta principalmente por esses e outros elementos também moralmente neutros, disso se conclui que a guerra política por si só é moralmente neutra, isto é, que pode ser utilizada tanto em benefício do bom, do belo e do moral, assim como é uma arma ótima para defender o mau, o grotesco e o imoral. Tamanho escândalo em relação à mera proposição de se praticá-la, então, é, no mínimo, uma frescurite aguda inadmissível para pessoas que se dizem adultas, responsáveis e centradas.

Se está sendo honesta, o grande erro que a direita tem cometido é muito simples de ser enunciado: se a esquerda joga a guerra política com base na mentira e isso dá certo, é lógico que o problema é a guerra política em si. Não, amigo direitista: se a esquerda se utiliza de uma série de métodos moralmente neutros para espalhar suas canalhices  e é bem sucedida, o problema não está no método, mas na canalhice. Ou seja, e aqui darei uma de ex-astrólogo, o problema não está na guerra política, mas nas mentiras que a esquerda espalha por meio dela sem ser cobrada corretamente por isso, ORA PORRA!

Exemplificando o que foi dito acima, duas práticas de guerra política por meio das quais a esquerda faz a festa são a rotulação, que consiste em rotular o oponente de acordo com quem ou o que este ataca – por exemplo, colocar publicamente a pecha de “fascistas” em todos aqueles que discordem da agenda totalitária da esquerda -, e o shaming, palavra inglesa que, traduzida ao pé da letra, significaria “envergonhamento”, que é justamente fazer o oponente sentir vergonha e o público sentir vergonha alheia pelo que o oponente defende, deixando-o como alguém que não deve ser seguido nem respeitado – a esquerda se utiliza muito bem desse expediente, por exemplo, com relação a quem ataca o Bolsa Família e outros pilares retóricos do PT.

Raciocine comigo, leitor: se rotulação e shaming são moralmente neutros, isto significa que tanto os bons quanto os maus podem se utilizar deles para conseguirem seus objetivos. Se os direitistas, por exemplo, não só acham como têm absoluta convicção de que os esquerdistas no poder são totalitários, fascistas, canalhas e perigosos, por que não rotulá-los de modo a que as pessoas tenham, no mínimo, a curiosidade atiçada para ouvir mais sobre o porquê de os antiesquerdistas sustentarem esse ponto de vista? Se estão certos de que um projeto de regulamentação de mídia ou de financiamento de artistas chapa-branca são não só um roubo aos cofres públicos como também um insulto ao povo trabalhador, por que, ao invés de ficarem com ironias baratas ou explicações tediosas, não são um pouco mais incisivos e tentam fazer o público enxergar o quão dignas de nojo e de vergonha alheia são essas ideias?

Fica claro, pois, que, de imoral, a guerra política teria muito pouco ou quase nada. Resta saber, então, o porquê de essa alternativa ser, talvez, a única de fato moral para o combate ao totalitarismo, e de seus detratores serem, na verdade, os imorais.

Moralidade antipuritana

Um passo decisivo para se entender em que consiste a guerra política é que esta é quase totalmente retórica, isto é, que se trata de uma guerra em que as armas só seriam de fogo em uma última instância quase inimaginável. Na guerra política, o que se pode perder mais comumente é capital político e reputação, além de podermos salvar milhões de vidas sem disparar um tiro sequer, enquanto que, em guerras comuns, o que se perde é quase sempre justamente milhões de vidas.

Passar a jogar guerra política, então, vai exatamente na direção do princípio moral de muitos direitistas, já que, além de não colocar vidas em risco por meros caprichos pessoas, ajudará a salvar diversas pessoas do poder tirânico do Estado e de sua capacidade de ceifar vidas como se fossem meros números. É, portanto, o método mais moral possível, já que não só deixa a vida fora de risco como também a protege dos que a querem instrumentalizar.

A direita brasileira, porém, tem ido justamente na contramão da moralidade, pois tem apelado a três métodos (e se dividido, com isso, em três grupos) que variam desde a ineficiência criminosa até o descarte explícito de vidas humanas, passando também pela omissão criminosa.

No primeiro grupo, temos aqueles que esperam a esquerda aprontar das suas e, sem hesitar, denunciam o plano imoral e assassino da esquerda de dominação mundial. Até que isso daria certo, não fosse o fato de que esses estorvos confundem denúncia com sensacionalismo barato e trazem total descrédito ao que dizem, o que o torna um método arriscado e ineficiente, sendo esta uma ineficiência que, ao deixar espaço livre para os totalitários, dar-lhes-á poder cada vez maior e porá a vida de pessoas em risco, tornando-se uma ineficiência criminosa.

No segundo grupo, temos os omissos, aqueles que, por causa de sua alta moralidade e alta cultura, preferem ler os clássicos a se envolver nesse “mundo sujo” da política. Creio que nem preciso dizer mais nada sobre como isso coloca a própria vida dos omissos e as vidas inocentes alheias em risco, certo?

No terceiro grupo, temos os estorvos que adoram lamber um coturno ou que não aguentam God of War no nível Médio, mas querem porque querem uma “revolução civil democrática” ou uma “intervenção militar constitucional que salvará o Brasil desses comunas malditos”.  Traduzindo: não só estão pondo vidas humanas em risco como também expressam claramente o desejo de ver um banho de sangue que inclui pais de família civis e/ou militares ocorrendo para “solucionar os problemas do Brasil”. É tão patético e ao mesmo tempo tão repugnante que, creio, também nada mais precisa ser dito, certo?

Se tudo isto que foi posto não conseguir convencer a direita brasileira, ou pelo menos os mais relevantes e mais ativos de seus membros, de que é muito mais moral incutir na mente das pessoas que canalhas são canalhas do que meramente ficar fazendo denúncias sensacionalistas, omitir-se ou propor um banho de sangue como solução para os problemas brasileiros,  nada mais convence. De qualquer maneira, senhores, agradeço pela vossa atenção e, à inglesa, I rest my case.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não duvidaria se fosse mais moral do que muito moralista por aí.

De como a adição de Kim Kataguiri aos colunistas da FSP é, de fato, muito reveladora

Como muitos de meus leitores já sabem, foi anunciada há algumas horas a adição de Kim Kataguiri, que já inspirou este texto aqui no blog há quase dois anos, ao time de colunistas do famoso jornal Folha de São Paulo, conhecido por ser alvo de críticas tanto por parte da direita reacionária raivosa quanto da esquerda cretina universitária, posto que seria, para ambas, parte de uma imprensa golpista que agiria contra os interesses do povo brasileiro (há de ser pontuar, é verdade, que, assim como ocorre com a maior parte da imprensa, a FSP não se torna mais digna de crédito por isso, já que, ao invés de encarar seus acusadores de frente, prefere se esconder no discurso “isentista”, mas isto é assunto para outro momento).

Naturalmente, dada a relevância do mais notório porta voz da causa do impeachment, é óbvio que essa entrada de Kataguiri ao time da Folha não passaria impune principalmente entre os nada utópicos colunistas da blogosfera esquerdista. Pouco tempo depois do anúncio feito pela própria Folha, começaram a pulular textos cujo tom seria o de, supostamente, desvelar os mistérios herméticos e apenas acessíveis a um bando de totalitários iluminados sobre o porquê de esse evento ter acontecido.

Segundo a esquerda brasileira, essa adição do principal organizador do MBL ao time de colunistas da Folha seria, pois, reveladora. No caso, revelaria a estratégia maléfica da imprensa golpista de adicionar mais uma nulidade antipetista (como se ser antipetista fosse, por si só, de uma imoralidade imperdoável) para povoar o cérebro das pessoas comuns com clichês liberais e conservadores.

De fato, de uma coisa não tenho como discordar: tal evento é, de fato, revelador, só que, para realmente ler o que dizem suas entrelinhas, é preciso ir para além da narrativa canalha em que a esquerda insiste em fingir acreditar – e seria preciso ser muito inocente para realmente acreditar que militantes políticos experientes realmente creem nas besteiras que pregam.

Da transparência totalitária da esquerda

A primeira revelação legada a nós por esse evento de grande significância política é, sem dúvida, que a esquerda brasileira está cada vez menos fazendo questão de esconder suas intenções nada nobres. Ora, qualquer um que não seja afetado por crenças totalitárias sabe que, por mais que se ache que alguns “outrens” estão defendendo besteiras, escrever artigos em profusão tentando incutir na mente alheia que isto é o fim do mundo é, no mínimo, de uma ausência de senso de proporções perturbadoras, além de poder ser classificado, outrossim, como mau-caratismo, totalitarismo dentro do armário, canalhice, histeria, entre outros.

Só se surpreende com essa atitude esquerdista, porém, justamente aquele que faz questão de nada estudar acerca da guerra política e das implicações não só de aceitá-la como real mas também de nela participar ativamente.

É óbvio, por exemplo, que, por mais que se possa alegar a existência (factual) dos chamados “idiotas úteis”, qualquer militante um pouco mais articulado (e, sim, eles existem aos montes) tem perfeita consciência do que foi dito anteriormente. A implicação se escolher o caminho da militância é, contudo, exatamente omitir esse dado da realidade quando se for fazer propaganda política em prol da causa a ser alcançada.

Chamar, então, militantes altamente experientes de “inocentes”, “iludidos” ou, ainda pior, “utópicos”, é dar-lhes a faca e o queijo na mão para que façam o público de gato e sapato, jogando-o, inclusive, contra aqueles arrogantes que ofereceram piedade ao militante quando deviam, na verdade, tê-lo rotulado impiedosamente, como sempre reitera o amigo Luciano Ayan.

Tudo isso posto, não se pode afirmar que há algo de novo no front esquerdista. Os lefties brasileiros só estão, afinal, jogando e cumprindo muito bem seus papéis. Preocupante, porém, são as revelações que já deveriam estar óbvias quanto àqueles que se recusam a jogar: os direitistas brasileiros.

Da persistente inépcia política da direita

Nos comentários ao próprio post de Kim Kataguiri comemorando um grande feito para um rapaz de 19 anos é que as revelações sobre a direita brasileira aparecem aos montes, apesar de já estarem visíveis a qualquer ser humano mais atento há muito tempo.

Primeiro, pelo número de ataques que Kim recebe de pessoas declaradamente direitistas, ainda que de vertente diferente, fica visível que a direita não só não tem como também faz questão de não ter nenhum senso de urgência política.

Digo isso porque, por mais que se repudie as declarações de Kim na internet sobre alguns gurus espirituais da direita reacionária, esquecer que quem está no poder é a esquerda e que Kim, até que se prove o contrário, será mais uma tão desejada (pela direita) voz antiesquerdista na imprensa e, além disso, passar a gastar uma energia contra o líder do MBL que poderia ser melhor aproveitada contra os ideólogos que de fato exercem o poder neste país é, no mínimo, perder um tempo que, segundo a própria direita, tanto reacionária quanto não-reacionária, é inadmissível perder.

Se há rusgas a serem resolvidas contra Kim, estas devem ser deixadas pelos direitistas para depois que cumprirem sua meta principal, ou então viverão eternamente alimentando pequenas brigas enquanto a esquerda acumulará mais e mais poder.

Segundo, e igualmente importante, pelo número de pessoas que alegam que o líder do MBL estaria, na verdade, “mostrando sua verdadeira face” ou “se vendendo ao inimigo”, fica patente que, definitivamente, a direita brasileira ainda não entendeu que, quando o assunto é militância política, um aliado que não foi acusado de nada muito perturbador à moralidade comum é inocente até que se prove o contrário.

Mesmo que se deteste com todas as forças a mídia brasileira, não é possível negar que, ao tentar um espaço no colunismo de um grande jornal, um militante político, além de estar simplesmente tentando ganhar, pelas vias democráticas, um espaço midiático para a sua causa, também não está cometendo crime ou imoralidade alguma. Não é legítimo, no fim das contas, que um cidadão procure defender publicamente causas que não atentem contra as noções mais básicas de dignidade humana? Se o impeachment se encaixa nesse quesito (ou seja, se é uma causa legítima), e sendo Kim Kataguiri conhecido por defender o impeachment, que inclusive pode acabar sendo bem útil a todo antiesquerdista a curto prazo, por que não adotar uma postura similar à de nossa justiça e conceder que in dubio pro reo (na dúvida, a  favor do réu)?

Por fim, e talvez a mais importante das revelações, esta a ser extraída da acusação recorrente de que Kim não passa de um novo Lindbergh Farias, posto que quis se envolver em política: se a direita de fato pretende derrotar quem quer que seja para colocar em prática um novo projeto de sociedade, o moralismo antipolítico é uma ideia que precisa sumir talvez não das mentes, mas certamente do discurso de direita.

É, afinal, no mínimo irritante ver, a cada página acessada em uma rede social, um sujeito que se declara de direita ou “um defensor da família” (como se esse título, por si só, já o isentasse de críticas) berrando aos quatro ventos que a política é imunda, que um homem de bem deve se afastar dela e, portanto, que nela só existem canalhas.

Sem entrar na distinção morgensterniana, digo, arcana, em termos de debate desnecessária e propagandisticamente contraproducente entre o “método político” e o “método econômico”, é necessário lembrar sempre que, antes de qualquer referência a partidos, sistemas, regimes ou o que mais se queira, uma definição possível para o termo “política” é “a arte do possível”. Disto se extrai que quem nega a política sem distinguir a que “política” se refere, além de ser irritante para uma sociedade que, bem ou mal, anda superpolitizada,  nega que o possível seja um objetivo moralmente válido. O que querem, pois, nossos amigos moralistas de direita? O que os distancia das ideias distópicas esquerdistas? Pensam mesmo que alguém vai seguir o conservadorismo porque, segundo pessoas que negam a política, essa doutrina filosófica é intrinsecamente melhor em termos políticos (!) ?

O que esperar, porém, de pessoas que não conseguem calar os dedos e têm de ir expressar desconfiança  quanto a um até prova em contrário aliado com comentários muito úteis como “estamos de olho!”?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não consegue entender como ensinar as pessoas a não utilizarem mais a palavra “canalha” ajudará a derrubar o PT. Deve ser, porém, porque ainda não conseguiu alcançar o Senso Incomum.

Mensagem de fim de ano: o legado de 2015 ao Brasil, e o que começar a fazer em 2016

Os leitores bem sabem que questões religiosas e morais pouco me interessam, apesar de reconhecer suas relevâncias quando o assunto é manter a coesão social. Não me faria sentido, então, ficar discorrendo longamente acerca da simbologia por trás das festas de fim de ano ou algo do tipo, posto que outros o fazem melhor do que eu e, mais importante, que esse tipo de discussão me causa um sono inenarrável e um tédio inexorável.

Minha mensagem de fim de ano é, pois, essencialmente política, já que considero que o maior legado de 2015 aos brasileiros é, justamente, essencialmente político.

2015, em minha opinião, foi o ano em que se escancararam duas terríveis verdades já visíveis ao analista um pouco menos desatento: a de que o problema dos canalhas totalitários é que sempre encontrarão um jeito de se esquivarem de discutir a realidade e a de que o problema dos tolos não-totalitários é que eles sempre cairão nesse jogo.

Se, para a nossa esquerda, 2015 simboliza o ano em que o feminismo “veio para ficar” nas discussões políticas, o mesmo fenômeno significa, para a direita, mais uma prova de sua total ineficiência quando o assunto é jogar a política, tendo em vista que os canhotos ganharam mais uma arma permanente de desvio de foco quando a situação lhes estiver desfavorável com relação aos fatos.

Afinal, não foi muito difícil para a esquerda totalitária nem tão dentro do armário assim que temos no Brasil desviar, por muitas vezes, o foco em cima da discussão acerca da canalhice perpetrada por certo ParTido governante durante os últimos 13 anos e redirecioná-lo para qualquer evento que quisessem, tenha o evento tido uma relevância de fato muito grande, tenha esta relevância sido grandemente exagerada pela nossa esquerda que, de utópica, não tem nada.

Estatistas e totalitários até o limite do inaceitável, os esquerdistas brasileiros não hesitaram por um minuto em proteger um governo no mínimo altamente questionável em suas decisões e, no máximo, com intenções que fariam qualquer George Orwell se arrepiar em poucos segundos de propaganda partidária.

De pequenas corrupções às mais bizarras justiçagens sociais, o desvio de foco intencional foi tão impecável que, no fim das contas, não seria nenhum exagero dizer que, por mais que o pedido de impeachment contra Dilma Rousseff ainda esteja tramitando no Congresso, foi a esquerda, contra tudo e contra todos, incluindo mais de 80% da população brasileira, a grande vencedora.

De nada serve, porém, parabenizar-lhes pelos méritos. O que é útil, na verdade, é ressaltar, mais uma vez, que a culpa é toda de uma direita que, se se finge de inocente julgando ser possível destronar os canhotos sem jogar a guerra política, exagera demais quando discute politicamente (o que, aliás, nem deveria acontecer: adversário político é alvo de desmascaramento, não de discussão) justamente nos termos em que a esquerda quer, chamando-a de utópica, de inocente iludida, até mesmo de ingênua sonhadora, enquanto os únicos ingênuos são, pelo visto, aqueles que reclamam do oportunismo político da esquerda ao mesmo tempo que se recusam a aprender com ele.

Para 2016, pois, se a direita ainda quiser alguma chance de derrotar o totalitarismo que alega ser uma ameaça por parte da esquerda contra os brasileiros, é bom que se afogue, metaforicamente, n’A Revolta de Atlas e passe a seguir um conselho politicamente valioso legado pelo personagem Hank Rearden no início do segundo volume da obra da filósofa russa Ayn Rand.

E o conselho, meus amigos, é o seguinte: a hora é de nomear as coisas e os fatos não segundo as conveniências do momento, mas segundo o que são. Ficar dizendo que certo grupo é totalitário e, simultaneamente, tratá-lo meramente como um ingênuo iludido definitivamente deveria fazer qualquer adorador de Rearden e dos outros icônicos personagens ter um infarto.

Falamos, porém, de uma direita infantil e moralista. Bom, pelo menos que, em 2016, eu pare de criar expectativas de que estou discursando para alguém além dos convertidos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Poderia ter intitulado este texto “A Revolta de Octavius”, mas prefere não se misturar tanto assim com liberteens.

Eu, Apolítico – Pequenas corrupções e outras histórias: relato da partidolatria descarada da esquerda totalitária

Em um país dominado cognitivamente pelos embustes retóricos de intelectuais duplipensadores cujo único objetivo parece ser viver para a idolatria e a defesa de certo ParTido, não seria surpreendente se a moral social, justamente uma das instituições que protegem um país de ficar à mercê de morais estatais totalitarizantes,  começasse a ser ao mesmo tempo achincalhada por ser considerada “opressora” e utilizada quando conveniente justamente para proteger certo ParTido supracitado da prestação de contas à população, que é um dever de todo estadista minimamente escrupuloso.

Emblemático, nesse sentido, é o caso das pequenas corrupções. Aproveitando a atmosfera criada por uma oposição tola que ainda não entendeu que casos como o mensalão devem ser descritos como algo para além da corrupção tradicional da política brasileira, uma série de cretinos esquerdistas tidos como intelectuais por outros esquerdistas ainda mais cretinos passaram a apostar alto, e a ganhar, no seguinte discurso: sendo pequenas corrupções, por lógica, também encaixadas como corrupção, e tendo todos os brasileiros as praticado ostensivamente em vida independente de suas motivações e de suas consequências, quem teria moral para reclamar da corrupção governamental sem deixar para trás de si um rastro de hipocrisia?

Para quem une Tico (não, não é o famoso roqueiro chapa-branca) e Teco por dois segundos, não é difícil perceber que a cretinice é tanta que nem resposta polida os defensores desse discurso merecem.

Abandonando, completamente, o senso de proporções, o falso moralismo isentista de esquerda iguala duas espécies cujas diferenças gritantes quase nos fazem duvidar de que pertençam ao mesmo gênero. Descartando desavergonhadamente o fato do abismo que existe entre as consequências das grandes e das pequenas corrupções (a não ser, claro, quando as pequenas são auxiliadas pelas grandes), esses embusteiros da esquerda nada utópica se aproveitam do parvoísmo em termos de política predominante entre as pessoas comuns para emplacar, praticamente sem oposição, esse discurso perverso.

Enfeitiçadas desde sempre por um puritanismo hipócrita que as faz se preocuparem acima de tudo não com a real moralidade, mas com a aparência de moralidade, essas mesmas pessoas comuns ou se retiram do debate político ou passam a abraçar e consagrar a perversa moral desses duplipensadores, disseminando de maneira cada vez mais perturbadora essa ausência  senso de proporções cuja finalidade política é óbvia: consolidar ainda mais o poder e a aura de sacralidade do ParTido na presidência.

Mais óbvia ainda é a fórmula para reverter esse processo: o desmascaramento sistemático e tão rápido e persistente quanto possível dos apologetas dessa canalhice, além da ridicularização dessas personalidades e da divulgação, não apenas uma vez ou outra, mas em profusão até maior do que como a esquerda faz, dos frames de acusação a serem utilizados pelos defensores da sanidade mental geral.

Tudo isso, justamente, servirá para garantir que, no mínimo, os não-esquerdistas continuem sendo não-esquerdistas, isto é, evitando, para a direita, a criação de novos inimigos políticos que, a depender de seus talentos, podem inclusive dificultar as coisas abrindo novas frentes de batalha na guerra política.

Como esperar atitudes tais, contudo, de uma direita que mal passou a namorar a política e já parece querer pular para a parte do divórcio, posto que faz questão de reiterar, sempre que possível, o seu ódio à política?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não consegue levar a sério quem se preocupa mais com as pequenas corrupções do que com a grande corrupção mental e moral promovida por certos intelectuais. Não disse nada, mas, no caso, são os intelectuais de esquerda.