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Eu, Apolítico – O que poderá significar a decisão de Bolsonaro de não participar de debates no primeiro turno das Eleições 2018?

Não é segredo para alguém minimamente consciente sobre o atual panorama político brasileiro (ou mesmo para alguém com acesso às redes sociais e aos “memes” nestas abundantes) que, há alguns dias, o presidenciável Jair Bolsonaro anunciou sua decisão de não participar dos debates do primeiro turno, promovendo, no horário desses debates, bate-papos via internet com seus eleitores.

A reação da internet, após essa declaração, foi até um tanto boba, pois tudo o que foi feito, em grande parte das páginas e dos sites sobre política, foi criar os famigerados “memes” sobre essa situação, como se o humor barato da “zueira” fosse a melhor forma de fazer análise política. No mais famoso deles, acusa-se Bolsonaro de incoerência, pois, apesar de o deputado federal do Rio de Janeiro constantemente afirmar que “o soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde”, ele próprio teria sido pusilânime ao fugir de debates, ou seja, dos equivalentes políticos às batalhas em uma guerra.

Fora o fato de esse tipo de incoerência não necessariamente ser o fator a impedir um presidenciável de ganhar eleições, vide a campanha de Dilma, em 2010, quando esta, mesmo sendo notoriamente favorável à legalização do Aborto (tema muito mais caro aos brasileiros do que os debates eleitorais), renunciou publicamente a esse posicionamento em nome de uma politicamente lucrativa parceria com a chamada “bancada evangélica”, o problema é que qualquer análise baseada puramente em “memes” de internet tende a ser tola, infantil, bizarra e incompleta, o que é totalmente inadequado para questões de relevância nacional a curto, médio e longo prazos.

Para evitar, pois, tamanha falta de seriedade e de responsabilidade na análise política, cabe-nos colocar em pauta a seguinte questão: o que poderá significar essa decisão do deputado federal do Rio de Janeiro de não participar dos debates do primeiro turno das Eleições 2018?

Primeiro, é possível afirmar que toda a análise desse caso depende de uma espécie de tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples. Muitos eleitores de Bolsonaro, afinal, para defender esse movimento político do “mito”, vêm alegando que Lula, em 2006, e Dilma, em 2010, também não teriam participado de debates no primeiro turno (Dilma, na verdade, chegou a participar de alguns), o que os leva a pensar que adotar esse mesmo movimento, independente de o que mais seja feito durante a campanha, levaria o presidenciável automaticamente ao posto executivo mais importante do Brasil em janeiro de 2019.

O caso, no entanto, é que, ao contrário do que pensam os eleitores de Bolsonaro, evitar os debates não foi sequer o principal elemento da estratégia política do PT para as eleições de 2006 e 2010, e sim uma parte integrante, mas talvez não essencial (no caso de Lula), dessa estratégia.

Ora, amigo leitor, pensemos em conjunto: fôssemos nós os responsáveis pela campanha de algum candidato considerado favorito em todas as pesquisas eleitorais, ou mesmo em grande parte delas, por que o forçaríamos a se expor a diversos debates com candidatos com 1% das intenções de voto, em especial se sabemos que nosso candidato defende pessoalmente ideias consideradas polêmicas (Lula e Bolsonaro) ou não tem habilidades retóricas as melhores (Dilma e Bolsonaro), arriscando-nos a perder alguns votos em algum golpe de mestre de outro candidato? Não seria melhor, neste cenário, deixar os outros candidatos se digladiando enquanto preparamos nosso presidenciável para debater com um candidato em específico, já conhecendo profundamente suas estratégias e até sua linguagem corporal?

Mais ainda: por que deixaríamos nosso candidato, por melhor que seja seu desempenho nesses debates do primeiro turno, fornecer qualquer material a nossos adversários, posto que é prática comum na democracia a exposição distorcida ou não dos discursos de um candidato em um debate pela campanha de outro candidato? Por que igualaríamos a disputa ao invés de dar à nossa campanha a vantagem de usar contra os candidatos mais próximos ao nosso o material que eles nos forneceriam em debate?

Em suma, por que perderíamos a chance de, pelo menos nos primeiros debates do segundo turno, termos uma espécie de “elemento-surpresa” a nosso favor, em especial se a postura de nosso candidato em debates for absolutamente desconhecida pelos outros comitês de campanha? Por que não usar o tempo que perderíamos preparando nosso candidato para debates inócuos e possivelmente pouco influentes no resultado final das eleições (se nenhuma anormalidade ocorrer) para preparar, na verdade, uma campanha capaz de desconstruir os outros candidatos eficientemente?

Se for esse o pensamento de campanha de Bolsonaro, um pensamento bastante estratégico, focado em resultados e não em “mitadas”, ainda que a estratégia seja muito arriscada (pois a vantagem real do presidenciável do PSL pode ser menor do que a das pesquisas, sendo até possível que ele nem sequer seja realmente amplo favorito como pode parecer), sua possível eficiência parece compensar, e muito, os riscos, pois o hoje deputado teria amplas possibilidades de colher bons frutos políticos no futuro.

Como mencionado anteriormente, no entanto, toda essa análise depende da tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples, e é necessário relembrarmo-nos disso à medida que, pelo menos nos últimos anos, Bolsonaro e seus “blue caps” não têm demonstrado grande preocupação com estratégia política efetiva, pois, em diversas ocasiões, o deputado não se esquivou de polêmicas desnecessárias que, de uma forma ou de outra, acabaram por queimar sua imagem com uma parte considerável do eleitorado.

É lógica a possibilidade de essa parcela do eleitorado já ter pouca boa vontade com o deputado federal do Rio de Janeiro, mas fato é que, dos atos políticos de Bolsonaro, podemos extrair não a disciplina tática e a coerência estratégica esperadas para o bom uso da tática do esquivo de debates no primeiro turno, mas sim uma espécie de confiança supersticiosa justamente na força de suas famosas “mitadas” (ou “lacradas de direita”, diriam alguns) como elemento mais do que suficiente para ganhar uma eleição, o que tornaria essa “fuga” aos debates não parte de uma sofisticada estratégia, mas mais uma superstição completamente desconectada de qualquer ação politicamente bem orquestrada.

Nesse caso, o elemento complicador para Bolsonaro não seria nem tanto a sua recusa em participar dos debates, e sim a capacidade política de seus adversários para desconstruí-lo usando também essa recusa como um elemento de desconstrução e de assassinato de sua reputação enquanto político. Nesse sentido, o deputado e seus correligionários devem lembrar-se do mais importante: se subestimarem os oponentes e não agirem estrategicamente, seus adversários agirão e poderão reverter, mesmo com dificuldade, a aparente vantagem considerável de Bolsonaro no período pré-eleitoral.

Afinal, como Bolsonaro e qualquer militar que se preze devem saber, subestimar o inimigo é, muitas vezes, o primeiro passo para a derrota, em especial se este inimigo for um partido que tenha vencido as últimas quatro eleições, em especial as últimas duas, em grande parte graças a seus movimentos táticos magistralmente organizados, ainda que moralmente questionáveis.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Tem consciência de que suas análises políticas podem ser mais furadas do que queijo suíço, mas pelo menos nunca foi pego chamando a Seleção Argentina de 2018 de “poderosa” e “perigosíssima” em textos por aí, muito menos fazendo torcida no lugar de análise política.

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Notas Mensais – Outubro de 2014 – Novembro de 2014

A disputa política no Brasil vai melhorar 200% a partir do momento em que as pessoas aprenderem a diferença entre ser réu em um processo e ser culpado de um crime. Onde há fumaça há fogo, claro, mas nem sempre se trata de um incêndio, conterrâneos tupiniquins. (mais…)

Eu, Apolítico – A eleição, seus nulos e (para variar) mais um erro da direita vitimista

Com o fim das eleições presidenciais de 2014 e mais um fracasso eleitoreiro do Partido Só De Bundões (PSDB), talvez o fenômeno político mais curioso já observado em terras tupiniquins nos últimos anos tenha sido justamente a reação em cadeia de alguns dos eleitores do então candidato presidenciável Aécio Neves, do PSDB, à confirmação da vitória da agora presidenta reeleita Dilma Rousseff, do PT. (mais…)

Eu, Apolítico – Notas antimetódicas sobre o debate que nunca verei

Como vocês leitores sabem, ocorreu ontem o primeiro debate dos presidenciáveis, no qual eu não poderia estar menos interessado e ao qual, portanto, não assisti. Não obstante, dado o número exorbitante de comentários de amigos meus do Facebook praticamente narrando o debate, farei alguns comentários mesmo assim, pois fazê-lo sem ter visto o debate é pura zuera e, neste blog, a zuera não tem limites. (mais…)

Eu, Apolítico – Sobre palavrões, moralismo e irracionalidade

Sim, cari amici, a Copa começou e, com ela, pulularam polêmicas Brasil afora, duas ganhando, até o final deste segundo dia, os maiores holofotes: os xingamentos à presidente da República, Dilma Rousseff, enquanto esta assistia ao jogo de abertura entre Brasil (hexa, já disse) e Croácia, e o garoto (por corolário, menor de idade) black bloc cujo pai o queria fora de uma manifestação anti-Copa em São Paulo. Com o segundo episódio, trabalho em outro texto. Vamos, então, aos trabalhos com o primeiro fato.

(mais…)

Espírito de Aniversário 2.0

Sim, amigos leitores, hoje é o aniversário deste que vos fala. O único presente que espero de vós, porém, é que continuem a dar a vossa valorosa audiência, como o fazem já há 3 anos, desde “O Homem e a Crítica”, e que, se possível, também tragam novos leitores para este blog.

Resolvi, então, fazer como no ano passado e dar-lhes, eu mesmo, uma série de presentes, de recomendações, seja de leituras ou de vídeos,  sobre alguns temas relevantes para a sociedade. Sem mais delongas, vamos às recomendações.

PT, Mensalão e outras esquerdices

O primeiro dos temas, certamente, é o recém-terminado julgamento do Mensalão, talvez o maior projeto de poder já revelado até esta data. Para uma série de boas análises, recomendo, além do tradicional blog do Reinaldo Azevedo, os textos do Implicante Flávio Morgenstern sobre todo o caso. Ei-los:

Blog do Reinaldo Azevedo

Advogado de Delúbio diz que mensalão foi união pelo bem do Brasil. Ele pode ocupar o STF – Implicante

Breve análise da defesa dos mensaleiros – Implicante

Dias Toffoli e os palavrões contra Noblat – Implicante

Mensalão: coincidências, loucura e método – Implicante

Dirceu  solta rojões. Hora de FINALMENTE entender o que foi o mensalão – Implicante

O mensalão não foi um caso de corrupção. O mensalão é uma mentalidade – Implicante

Frei Betto: “O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder” – Implicante

Recomendo, também, sobre o mesmo tema, a série de debates promovida pela revista VEJA sobre o julgamento do Mensalão, série esta que, coincidentemente, acabou ontem, 21/03/2014, pouco mais de uma semana após o fim do julgamento. Linkarei apenas o 60º e último debate, mas também recomendo, fortemente, o 39º, o 56º e o 57º, em que se vê, muito claramente, que se trata, definitivamente, de um projeto de poder, não de mero caso de corrupção (o que já seria grave).

Já quanto aos desmandos do atual governo lulo-dilmopetista, recomendo a entrevista do ex-Secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., ao Roda Viva, em que este expõe um pouco do esquema de assassinato de reputações que acabou investigando e do qual foi vítima, em especial ao final de sua passagem pelo segundo governo Lula (2007-2010).

A Imprensa, a Rede Globo e a surpresa ghiraldelliana

O próximo tema que quero abordar nas recomendações é o papel da mídia na sociedade e os limites da liberdade desta mesma mídia de transmitir e divulgar informações. Para este fim, farei algo que, ao meu leitor habitual, soará estranho: Recomendarei um artigo muito bom do intérprete de Rorty Paulo Ghiraldelli Jr. (!!!), já criticado mais de uma vez por essas bandas, sobre a relação entre os universitários e a Rede Globo de Televisão, cotidianamente achincalhada por aqueles, sendo colocada como um instrumento para espalhar informações superficiais.

Para argumentar com o leitor sobre a necessidade desta leitura, pontuo que Ghiraldelli faz um teste que, apesar de não-científico, apresenta resultados muito interessantes sobre o quão sólidos estão, na mente de universitários brasileiros, alguns dos conceitos necessários para se entender, por exemplo, o Jornal Nacional. Apesar, então, de partirmos de premissas diferentes, creio que eu e Ghiraldelli, neste ponto, acabamos por concordar em gênero e número.

Também recomendo um próprio artigo, cujo título é “Mídia, Superficialidade e Liberdade”, que já foi transposto do finado “O Homem e a Crítica” para este blog. Nesse artigo, abordo alguns erros da nossa atual mídia, mas mostro que, apesar de sua superficialidade na maior parte das questões, não é a censura a solução para esse problema. Também o recomendo porque, creio, foi muito pouco lido até agora, apesar de ter sido, em minha opinião, um de meus melhores artigos.

Seguem abaixo, então, os referidos artigos:

Não entende o JN, mas faz pose – Paulo Ghiraldelli Jr.

Eu, Apolítico – Mídia, Superficialidade e Liberdade

A Marcha da Família – “O Retorno”

O último tema escolhido por mim foi a famosa “Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo – O Retorno” (reafirmo, como sempre, que este “O Retorno” não serve nem em título de filme do Batman, quanto mais para um evento sério), que acontecerá, coincidentemente, no dia de hoje, o que, como o leitor imagina pelo artigo que escrevi sobre a tal Marcha, deve me deixar extremamente feliz.

No tocante a este assunto, recomendo, além de meu próprio artigo, os dois artigos já citados neste blog escritos por Luciano Henrique Ayan e um artigo mais recente do amigo Francisco Razzo, que decidiu, por hora, investir um tanto mais em seu blog pessoal (o que, apesar de ser um seu leitor no Ad Hominem, considero ótimas novas), em que expõe como existe, na verdade, uma dissonância entre o real conservadorismo e os objetivos dos marchantes. Aqui estão, então, todos os artigos linkados:

A militância “Luísa Mell” do militarismo de direita – A sorte está lançada – Apoliticamente Incorreto

Por que não apoio “Marcha da Família” e muito menos pedidos por volta dos militares – Luciano Ayan

Mais motivos para eu ser contra os pedidos por “volta de militares” – Luciano Ayan

A ameaça totalitária e os fantasmas ideológicos – Francisco Razzo

Extras

Apesar de não serem relacionados a nenhum dos temas acima, não posso deixar o meu leitor sem uma série de recomendações de boas leituras, seja para a fruição, seja para a compreensão filosófica mais apurada.

Recomendo, portanto, entre outros, o blog pessoal de Gustavo Nogy, outro dos escritores do já citado Ad Hominem. Em seu blog, Nogy pretende abordar, com concisão e brevidade não encontráveis, ao menos por mais algum tempo, neste blog, os mais variados assuntos, indo desde o feminismo até a recomendação dos maiores entre os clássicos da Literatura. Muito provavelmente, em certo ponto, teremos, um com o outro, certas rusgas, mas, enfim, ossos do ofício, e ossos que não o tiram do posto de cronista infinitas vezes melhor do que qualquer cronista que tenha aparecido na grande mídia nos últimos 20 ou 30 anos. Segue o link de seu blog: http://www.gustavonogy.com/

Em segundo lugar, mas não menos importante, recomendo um dos blogs que, creio, está mais subvalorizado internet afora, que é o de meu amigo Antunes Fernandes. Linko-vos, aliás, a um artigo específico e bem recente, intitulado Estupidez é Poder, em que Antunes coloca, na mesa, uma boa hipótese para o porquê de as pessoas, especialmente as massas, aderirem tão fácil a todo tipo de ideologia autoritária ou totalitária em potencial.

Por último, sugiro, a todos os meus leitores, independente de posicionamento político, uma série de livros que andei lendo e que achei, pelos mais diversos motivos, muito interessantes. É possível, também, que venha a comentar sobre algum ou sobre todos estes livros no futuro, e é provável que use algum deles como referência em uma de minhas análises. Segue, então, a lista:

A ética protestante e o “espírito” do Capitalismo – Max Weber

O Nascimento da Tragédia – Friedrich Nietzsche

Ecce Homo – Friedrich Nietzsche

O Sobrinho de Rameau – Denis Diderot

O Filho Natural – Denis Diderot

Jacques, o Fatalista, e seu Amo – Denis Diderot.

That’s all, folks.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Salvou-se do comunismo antes do 20, mas pretende continuar a salvo da direita ao menos até os 60.