Rachel Sheherazade

De como voltei ao esquerdismo graças ao Pragmatismo Político e ao Diário do Centro do Mundo

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Amigo leitor, deves ser tão bem memoriado de tão leitor e tão leitor de tão bem memoriado a ponto de se lembrar que, alguns posts atrás, te prometi contar sobre como se havia dado o meu processo de evasão das fileiras da esquerda, o que ocorreu há mais ou menos dois anos. Entretanto, de repente e não mais que de repente, depois de escrever conto de fadas antiesquerda, depois de ridicularizar figuras como Leonardo Sakamoto e Cynara Menezes, depois de até mesmo “recortar” livros de Lobão e Nelson Rodrigues, dois dos mais notáveis membros da direita hidrófoba deste país, devo confessar-lhes que fui arrebatado, religiosamente falando, após ler um dos posts mais recentes do Pragmatismo Político, extraído do Diário do Centro do Mundo, em que o brilhante Kiko Nogueira nos expõe toda a hipocrisia e a inépcia desses que se dizem “a nova direita brasileira”.

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Notas Mensais – Abril 2014 – Maio 2014

A diferença entre religiosos fanáticos e neo-ateus fanáticos é que religiosos fanáticos desejam câncer para quem não segue sua religião, enquanto neo-ateus desejam que, se pegarem câncer, os religiosos não se tratem em hospitais, instituições de origem religiosa, com os mecanismos da ciência, concebida por um bando de catolicões ultrarreligiosos.

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Em defesa da revista VEJA e da “imprensa direitista-psdbista-conservadora-reaça-fascista-cristã”

Vejista-direitista-psdbista-cristão-reaça-conservador-fascista-racista-machista-homofóbico-patriarcalista-transfóbico-ateofóbico em um típico momento de proposição da censura às vozes da esquerda nacional.

Vejista-direitista-psdbista-cristão-reaça-conservador-fascista-racista-machista-homofóbico-patriarcalista-transfóbico-ateofóbico em um típico momento de proposição da censura às vozes da esquerda nacional.

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Eu, Apolítico – O IPEA, o estupro, o feminismo e os óbvios ululantes mais-que-rodriguianos

NELSON-RODRIGUES

Na imagem (créditos a http://www.luizberto.com/), Nelson dizendo o que todo esquerdista já deveria ter ouvido.

O saudoso autodeclarado reacionário Nelson Rodrigues, em uma sua entrevista para o também jornalista ilustre Otto Lara Rezende, afirmou, com sabedoria, que “o jovem é o cretino fundamental”, isto em uma época em que a completa decadência cultural do Brasil (indo, na esquerda, de Antônio Cândido a Gregório Duvivier) ainda não havia ocorrido, mas já começava, como os dois jornalistas bem percebem ao relatarem que de elogio “reacionário” virara um xingamento, enquanto “revolucionário” se tornara um elogio mais forte do que, lulisticamente falando, nunca antes na história deste país. Só posso imaginar agora qual seria a reação de nosso ilustríssimo dramaturgo ao saber quantos jovens realmente caíram na conversa de certo órgão governamental sobre “a cultura do estupro” com uma pesquisa agora clarividentemente estuprada.

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Notas Mensais – Fevereiro 2014 – Março 2014

Olavettes 1

Em certa divulgação do meu blog, há um sujeito que fala que não debate com abortistas, no caso, eu. Fora a imbecilidade intrínseca ao termo “abortista”, sobre a qual falarei posteriormente, e fora o fato de ser impossível saber se alguém é “abortista” ou não antes de se debater com o cidadão em questão (ou seja, que esse sujeito pode ter debatido com “abortistas” sem nem saber), acho que devo passar, logo, minha ficha aos que queiram ter motivos para não debater comigo: Sou “abortista”, “eutanasista”, “cotista” – apenas racial e apesar de não ter nem chegado perto de precisar de qualquer Cota, mas um dia também explico isso direito, ou seja, paciência, leitor direitista -, corinthiano, apolítico, anti-direitista, anti-esquerdista, ateu anti-neo-ateísta, armamentista, defensor da Pena de Morte, contrário à Prisão Perpétua, agnóstico quanto ao casamento gay e à adoção de crianças por casais gays (apesar de tender a defender mais do que a rejeitar ambas as propostas), agnóstico a parte das premissas da teoria do Preconceito Linguístico, contrário a outra parte das premissas da mesma teoria, anti-anarquista, anti-libertário AO EXTREMO, existencialista e parcialmente diderotiano e nietzscheano, além de acreditar que educação, a partir de certo ponto da vida, deva ser facultativa e de passar perto, muitas vezes, do niilismo e do ceticismo. Ah, e, sim, uso uma foto de anime não só porque curto o anime, mas para ver quantos idiotas usá-la-ão como argumento contra a minha pessoa e em prol de sequer considerar meus argumentos.

E você, aí, se fiando apenas no “abortista”.

Por que não sou um analista de discurso? – Versão abreviadíssima

Podem me acusar, nesta minha nova fase de blogueiro da “extrema-direita”, de várias coisas, menos de eu já ter dito que era um “analista do discurso”, o que não direi em um futuro tão próximo, por uma questão muito simples: Para qualquer um que tenha cursado pelo menos dois anos de Letras com o mínimo de seriedade, não é difícil ouvir, já nas primeiras aulas sobre a Análise do Discurso, que esta, ao contrário da Linguística Textual, não é uma área que tem como enfoque, no momento da análise, o indivíduo em si, mas sim, vulgarmente falando, “as classes”. Ora, se eu questiono até mesmo a existência de classes (ou melhor, de pessoas como meras categorias de pensamento, entre elas a dicotomia imbecil “opressor” x “oprimido”), como vou aceitar e partir dos pressupostos de uma área que tem como premissa básica a existência de classes e, muitas vezes, a existência dicotômica de classes?

Da diferença entre o Socialismo e a Social-democracia

Uma coisa deve ser esclarecida: É lógico que existe uma grande diferença entre o Socialismo e a Social-democracia. No Socialismo, a divisão igual da miséria entre as pessoas é forçada. Na Social-democracia, a divisão igual da miséria entre as pessoas ainda é forçada, mas sob o pretexto de “democratizar o acesso à renda” ou alguma variação disso.

Sheherazade e a direita – Uma clarificação

Quando escrevi o segundo ou terceiro dos meus posts sobre Rachel Sheherazade (porque sei que já a havia citado no meu post sobre o Carnaval, mas não me lembro se a citei antes ou depois disso), ou seja, o texto em que ponho em dúvida sua nomeação como a “musa da direita”, obviamente não pelo “musa”, mas pelo “da direita”, não tive, em momento algum, a intenção de dizer que Rachel NÃO É de direita, nem de papagaiar que não se deva defender Rachel quando se concorda com o que ela diz (ou criticá-la quando for necessário TAMBÉM).

O que quis fazer, ali, foi um questionamento à “nova direita brasileira” e à sua mania de chamar de “conservador” ou “de direita” qualquer um que faça um comentário sequer que vá contra alguma causa progressista, mesmo sem saber sequer se o novo direitista é mesmo de direita e se tem noção do que significa ser de direita e ser de esquerda.

Além disso, mesmo com a recente declaração dela de que está mais à direita do que à esquerda – o que, a rigor, não significa nada, pois eu mesmo também posso ser considerado como alguém que está mais à direita do que à esquerda e ainda assim quero que a direita e a esquerda morram, como visões políticas, juntas e abraçadas de preferência -, minha principal dúvida ainda persiste: Afinal, será que a jornalista do SBT encontraria o mesmo apoio da direita se ela tivesse, ao contrário, confirmado que está mais à esquerda do que à direita, ou mesmo que é, na verdade, ferrenhamente de esquerda? Quantos desses defensores da liberdade de expressão e da civilização ocidental defenderiam o direito à voz de Sheherazade com a mesma fervorosidade?

Diderotismos 2

Se Diderot estiver certo e um discurso for tão mais poderoso quanto menos palavras tiver (o que, por corolário, torna o silêncio o discurso mais poderoso), então o absoluto silêncio dos então “revolucionários de 13” sobre o crime cometido pelos Black Blocs contra mídia será, sem dúvida, bem mais esclarecedor do que os pronunciamentos intermináveis dos mesmos “revolucionários”, na época, sobre os objetivos de sua revolta.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Ainda espera pelo chororô conservador contra suas citações de iluministas.

Carnaval, uns Delírios

NOTA: Este texto foi originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 2013 e, como verão se compararem com a outra versão, um tanto editado. Esta edição, porém, foi apenas para dar ao texto maior fluidez e para cortar citações não mais pertinentes. O quarto link infelizmente não mais está disponível, mas poderão entender o texto sem prejuízos pois a argumentação deste e do terceiro link são parecidíssimas, sendo uma em texto e outra em texto e imagem. Também minha visão sobre a educação estatal, como bem sabem, também mudou, mas isto é papo para uma possível versão 2015 desse mesmo post. Enfim, vamos ao texto.

Carnaval, uns Delírios

Caro leitor, imagine que você está na internet e que te mandam estes dois vídeos, este texto e esta imagem com texto:

http://www.youtube.com/watch?v=VN6Kr5jFogY
http://www.youtube.com/watch?v=7lc_IZPwG4E
http://mipolifonia.blogspot.com.br/2012/02/texto-do-danilo-gentili-sobre-o.html
http://www.facebook.com/photo.php?fbid=520899121295983&set=a.297879746931256.90538.297869120265652&type=1&theater

Viram? Se sim, quero perguntar-lhes algo: Qual é a semelhança e qual é a diferença entre essas 4 argumentações? É o que vou tentar explicar neste post.

Bom, olá, amigos leitores. Como perceberam, resolvi começar este post de uma forma diferente, também porque é um post inusitado neste blog e porque é um post que talvez leve este blogueiro a perder a fidelidade de muitos de vocês, e vão saber o porquê em breve. Mas, para isso, tenho que  primeiro responder a pergunta que fiz a vocês.

Depois de terem visto os links que indiquei, fica fácil a vocês perceber a semelhança entre eles: todos atacam com ferocidade uma festa muito famosa no Brasil, o Carnaval. De fato, essa mesma festa deve ser um dos únicos alvos tanto de conservadores quanto de liberais e progressistas. Enquanto estes a atacam por razões principalmente políticas,  os segundos a atacam principalmente por razões de presença do Estado na vida do indivíduo e os primeiros não podem defendê-la por razões morais.

Tudo isso, porém, eu explicarei no momento mais oportuno. Afinal, não respondi ainda aos amigos leitores qual era a diferença entre os links que mostrei. No caso, a diferença entre todos eles é que estão criticando um mesmo objeto por linhas argumentativas diferentes, ou seja, são quatro argumentações diferentes para atacar o Carnaval.

Eu poderia muito bem simplesmente deixar esses links aí e dizer: “Bravo, heróis da nossa mídia e do nosso facebook! Voto em vocês!”. Mas, como o amigo e fiel leitor sabe, não faz muito o meu estilo me render ao que a maioria pensa, especialmente porque sou cético à capacidade do brasileiro de escolher um posicionamento sobre um assunto após muito refletir (é inclusive esse meu ceticismo ao brasileiro que me faz defender a existência de religiões e outras coisas, mas isso eu explico em momento mais oportuno), assim como não acredito que os argumentadores dos links sejam  incontestáveis no tema. Assim, neste post, farei uma coisa que pouquíssimos até hoje ousaram fazer, seja dentro das redes sociais, seja fora delas: defender o Carnaval.

Antes, porém, de começarmos, o bom senso manda que eu preste alguns esclarecimentos ao amigo leitor. Primeiro, quero deixar bem claro que, apesar de eu ter dito que sou cético à capacidade do brasileiro enquanto massa de escolher uma posição sobre um assunto após reflexão criteriosa, isso não significa que você, caro leitor anti-Carnaval, não possa ter escolhido esse posicionamento após uma boa reflexão. Inclusive, desconfio das capacidades do brasileiro, mas confio na de meus leitores que, pasmem, são todos brasileiros (ironias da vida, não?).

Também quero deixar claro, como sempre tento fazer, que não é porque eu discordo desses argumentos que eles estão errados. Aliás, confesso, conheço aos montes grandes argumentadores anti-Carnaval vindos de todas as posições dos espectros político e religioso. O que quero dizer aqui é que não acredito ser o dono da verdade, nem acredito que haja argumento irrefutável nessa questão, especialmente porque, como diz meu grande amigo Francisco Razzo, do Ad Hominem, argumentos são construídos pela falha razão humana.

Por fim, quero dizer que não advogo em causa própria, ou seja, que não sou um grande pulador de Carnaval. Por que digo isso? Porque percebo que é muito comum, tanto entre conservadores quanto entre liberais e progressistas, desmerecer os argumentos do oponente  ou ridicularizá-lo dizendo que ele está “argumentando em causa própria”. Mesmo assim, não pular o Carnaval com frequência não me faz inepto para falar sobre essa questão, pois o que conta, muitas vezes, é o ceticismo ante as informações recebidas. Portanto, espero que nenhum espertinho venha me jogar esses dois argumentos na cara, também porque, se os jogar, confesso, não responderei por mim, pois o nível de cretinice de quem faz isso é absurdamente alto.

Bom, como diria o ilmo (ilustríssimo) Pedro Bial, aos trabalhos. Vou começar discutindo o primeiro link, que é o que tem um vídeo da famosa âncora do SBT, Rachel Sheherazade (beijo e me liga, Rachelzita,rsrsr /brinks), “falando a verdade” sobre o Carnaval em si. Dizem, inclusive, que ela foi demitida depois disso, o que, convenhamos, é uma afronta clara à liberdade de expressão. Por mais que eu discorde de Sheherazade em certos pontos, acho benéfico que pelo menos existam pessoas como ela na mídia, pois geram o mais importante para o debate democrático das ideias, que é um novo ponto de vista a ser debatido.

Mas, não vim aqui para falar sobre Democracia, mas sim para desmentir alguns argumentos que julgo falsos sobre o Carnaval. Então, vamos começar. Primeiro, a jornalista reclama do fato de as pessoas dizerem que o Carnaval é genuinamente brasileiro, já que este, de fato, e como ela bem apontou, foi “inventado” durante a Era Vitoriana inglesa. O detalhe a que Sheherazade não se atenta é que existe uma outra interpretação para essa fala, interpretação essa que eu, inclusive, vejo com mais frequência entre as pessoas do povo.

No caso, chamam o carnaval de “genuinamente brasileiro” não levando em conta a sua origem, mas sim o fato de ser uma festa que destaca atributos típicos do brasileiro comum, como a alegria e a animação nela onipresentes. Seria o mesmo que dizer, 30 ou 40 anos atrás, que o Natal é uma festa tipicamente brasileira não levando em conta sua origem histórica, mas sim o fato de que este realça um valor que, na época, era muito importante ao brasileiro, que é a união da família e a própria família (não vou discutir se é importante hoje, e provavelmente demorarei muito para fazer isso). Assim, não creio que quem diga que o Carnaval é tipicamente brasileiro esteja querendo cometer uma fraude histórica ou enganar o povo, mas sim que fala isso baseado na identificação que existe entre alguns atributos do brasileiros e a essência do Carnaval.

Depois, a jornalista fala que, por ser atualmente um grande negócio para as elites financeiras, o Carnaval deixou de ser popular. O detalhe é que não há a mínima relação entre uma coisa e outra. Para o Carnaval deixar de ser uma festa do povo, duas coisas precisariam acontecer: o povo teria de perder o interesse e a identificação com a festa e o Carnaval teria de ser, literalmente, privatizado, ou, melhor dizendo, tomado do povo pelos ricos. Eu, porém, não sei que razões os ricos teriam para tirar o Carnaval do povo, especialmente porque é um dos poucos tipos de entretenimento ainda acessíveis a praticamente toda a população e, inclusive, aos próprios ricos. Mas, não imagino outra forma de o Carnaval deixar de ser popular. Nesta questão, no entanto, eu admito que estou bem aberto a ouvir outras explicações.

Bom, prosseguindo, não vou discutir por enquanto o terceiro argumento de Sheherazade, sobre financiamento público do Carnaval, pois é um argumento que deixarei para discutir ao comentar o segundo link que postei. Assim, vamos ao quarto argumento. Aqui, Rachel mostra sua indignação com as músicas que deixam de ser tocadas no Carnaval. Segundo ela, troca-se a boa música (que ela não define, mas que eu suponho serem, para ela, músicas de artistas como Caetano, Chico Buarque ou até mesmo Roberto Carlos, por exemplo) por hits do momento, o que é um absurdo. Para derrubar esse argumento, preciso apenas fazer duas perguntas ao leitor que acha que essa reclamação procede. Amigo leitor, se você estivesse em um concerto de música clássica, creio que não começaria a pedir ou a colocar um funk ou um hit do axé-music para tocar no volume máximo, não é? Afinal, a ocasião não permite isso. Essa linha de pensamento, convenhamos, está certíssima. Mas então, caro amigo, por que é que você dá razão a esse argumento da Sheherazade, que quer porque quer fazer com que o povo, as pessoas comuns, sejam moralmente obrigadas a ouvir, em uma festa POPULAR, canções que não estão “na boca do povo”?

É a mesmíssima coisa. Não quero dizer com isso que eu sou um inimigo da boa música (apesar de confessadamente sentir medo de quem se diz um defensor da “música boa que não existe hoje” por diversos motivos). Quero simplesmente dizer que é a ocasião quem faz a música, ou seja, que assim como não existe nexo em querer tocar um hit do axé-music em um concerto de música clássica, não existe nexo em querer colocar o alto da sofisticação musical e literária em uma festa destinada ao povão.

Por agora, é suficiente dizer que, sim, eu quero que as pessoas tenham acesso ao melhor da nossa cultura. Porém, temos de lembrar que não é para obter cultura que as pessoas vão a festas como o Carnaval, mas sim para ter entretenimento. Isso não significa que não se possa inserir um pouco de cultura nesse entretenimento, mas sim que uma festa, exatamente por não ter esse objetivo, não é o lugar mais adequado para se falar sobre cultura, ou sobre filosofia, ou qualquer outra arte mais erudita. Isso pode ser feito, sem problemas nem prejuízos, na escola ou na universidade, que são lugares bem mais propícios à disseminação do conhecimento, ao menos em tese.

Prosseguindo, Rachel faz, talvez, a reclamação mais pertinente do seu vídeo inteiro quando comenta sobre todo o aparato médico e policial à disposição no Carnaval para “bebuns valentões que brigam com todo mundo”, enquanto, para o cidadão comum, nada há. Mesmo assim, não posso concordar com seu ponto de vista totalmente, pois, ao que me parece, a âncora fez uma correlação no mínimo estranha. Talvez eu tenha lido mal sua fala, mas soa como se o fim do Carnaval fosse resolver um problema que ocorre no Brasil desde antes da existência do Carnaval, que é a incompetência generalizada do poder público na gestão dos serviços públicos mais básicos, como saúde e segurança.

Não se resolve isso, no entanto, cancelando festas, mas sim com uma postura politicamente ativa, com cobrança e fiscalização dos que nos representam nas câmaras municipais e  no Congresso. Sim, eu sei que isso é clichê, mas é a solução que todos veem mas ninguém se propõe a tentar executar. Porém, o fato de a minha proposta ser clichê não muda as coisas. Afinal, sejamos sinceros, dizer que o fim do Carnaval por si só iria ajudar em qualquer coisa nas questões que a âncora do SBT bem apontou é o mesmo que dizer que votar nulo nas eleições municipais, estaduais e federais vai ajudar a acabar com a corrupção no Brasil, quando o efeito, neste caso, pode inclusive ser o contrário.

Enfim, depois disso, Sheherazade fala que dizer que os pequenos comerciantes lucram no Carnaval é besteira, pois, se dependessem deste para o resto do ano, passariam fome, e, portanto, o Carnaval é só prejuízo para todos e lucro para as grandes empresas. O detalhe é que esses comerciantes não vendem seus produtos só durante essa festa, eles vendem seus produtos também durante essa festa. Quando se diz que os comerciantes pequenos lucram, não se fala que eles viveriam só com o dinheiro do Carnaval, mas sim que, no mês do Carnaval, sua renda aumenta um pouco.

Isso pode parecer um tanto tolo, ou demagógico, mas, amigo leitor, exerçamos a empatia aqui. Ponhamo-nos no lugar desses comerciantes. Imaginemo-nos ganhando, nos meses normais, 1500 reais por mês, e, no mês de Carnaval, ganhando 2000 reais. Apesar de parecer pouca, essa diferença de 500 reais pode ajudar o comerciante de várias maneiras, afinal, talvez sejam 500 reais a mais para a reforma de sua casa, ou para trocar o seu carro, ou até mesmo para fazer algum reparo necessário na loja. Não estou querendo usar a falácia do apelo à emoção aqui, não me levem a mal. O que quero dizer é que, apesar de não parecer, esse dinheiro que eles ganham a mais e que nós achamos pouco talvez seja justamente a soma de que precisavam para realizar alguma ambição pessoal, ou até mesmo uma soma que os ajude a realizar algum sonho mais tarde.

Assim sendo, de fato, eu concordo com a ilustre jornalista quando ela afirma, corretamente,  que as grandes empresas terão muito mais lucro do que os pequenos comerciantes, mas o detalhe é que, com ou sem Carnaval, os lucros dos grandes não deixarão de aumentar, pois há outros modos de conseguirem isso. Já os lucros dos pequenos, aqueles 500 reais que eu citei, por exemplo, esses poderão, no fim de contas, fazer muita falta. Percebemos, então, que, por mais que o grosso dos lucros  fique com as maiores empresas, isso não faria o fim do Carnaval ser mais benéfico, pois estaríamos tirando o lucro (e talvez até alguma chance de ascensão social e de ganho de clientes “vitalícios”) dos micro-empresários. Considero, então, que, nesse caso, o fim do Carnaval traria mais prejuízo do que lucro à maioria da população.

Por fim, Rachel argumenta do mesmo jeito que o fazem o terceiro e o quarto links que relacionei. Assim, prefiro deixar para discutir esse lado mais “clínico” da questão quando discutir os argumentos expostos nos links supracitados.

Vamos, então, ao segundo vídeo, produzido pelo Cauê Moura, vlogger que ficou famoso após um enfrentamento judicial com o cantor Latino. Basicamente, e como o amigo leitor pôde assistir, o argumento de Cauê Moura, com certeza muito menos sofisticado e abrangente do que os três minutos falados pela âncora do SBT, basicamente é este: devemos acabar com o Carnaval para investir em coisas mais importantes para todos, como educação e saúde. Inclusive, é partindo do caso do prefeito de Niterói, que resolveu investir na saúde a verba que gastaria no Carnaval, que Cauê Moura monta toda a sua argumentação, apelando para o senso de empatia do brasileiro ao dizer que quem reprova a atitude do prefeito provavelmente nunca passou pelo SUS.

De fato, a lógica do vlogger, à primeira vista, é imbatível. Devo dizer que eu concordo totalmente com ele quando diz que devemos dar atenção especial à educação e à saúde, áreas-chave para o desenvolvimento das nações. Frisem bem, caros leitores, que eu disse “dar atenção”, não “investir mais”. Por que fiz isso? Porque a falha do argumento do Cauê Moura reside em colocar que o problema principal das duas áreas supracitadas é falta de investimento.

Quanto à saúde, não vou argumentar, pois não tenho nenhum conhecimento da área. Porém, se algum leitor meu for um profissional das Ciências da Saúde, tome a liberdade de me apresentar alguns dados ou experiências que corroborem ou refutem minha ideia. Mas, como alguém já iniciado na área da Educação, posso dizer, com certa convicção, que o problema não é falta de investimento. Aliás, os dois problemas não tem a ver com a falta de dinheiro para investir, mas sim com como o dinheiro é investido e com o fato de haver alguns desvios de verba antes de esta chegar aos diretores das escolas e universidades. Ou seja, o problema não é a falta da verba, mas sim o desvio dessa verba e o investimento contínuo em uma estrutura altamente burocrática (é ponto pacífico entre quase todos os educadores que os gastos com burocracia educacional são muito grandes para um país como o Brasil) e atrasada do ponto de vista metodológico.

Outro dado interessante de se lembrar é que, ao contrário do que parece, existe uma verba específica para investimentos nessas áreas, que são PRIORITÁRIAS, ou seja, repassa-se verba primeiro para a educação, saúde e segurança, e só depois para outros setores. Fica, então, evidente que, de fato, o problema não é a falta de verba, e que adicionar mais verba sem mudar os investimentos e sem fiscalizar o uso dessas verbas não adianta de nada.

Assim, termino minha argumentação sobre o segundo link. Vou agora argumentar sobre o terceiro link, que apresenta um texto, muito divulgado Facebook afora, de autoria do humorista Danilo Gentili, e sobre o quarto link, uma imagem de uma página conservadora que exerce seu direito democrático de lutar pela preservação dos valores tradicionais cristãos (e, sim, repito isso, pois parece que as pessoas não estão entendendo a nada sutil diferença entre conservadorismo e ser anti-minorias, mas, enfim, né?). Como a linha de argumentação dos dois links é praticamente igual, vou refutá-los de uma vez só.

Basicamente, tanto Danilo quanto a Reage Brasil apelam para todas as consequências ruins que o Carnaval traz. O problema de ambos os links, porém, é inferir, assim como fez Sheherazade, que, sem o Carnaval, nada do que listam (consumo de drogas, disseminação de DSTs et cetera) aconteceria. O fato é o seguinte: o Carnaval é só mais uma desculpa para dirigir bêbado, para usar drogas, para transar com qualquer pessoa e para abortar. Assim sendo, cortar a desculpa não vai eliminar a transgressão. Aliás, a única coisa que será feita é tirar o lucro de pequenos comerciantes e a renda das pessoas que vivem para o Carnaval e que muitas vezes dependem do dinheiro que o governo e que a própria iniciativa privada investem em trios e escolas de samba pelo resto do ano, já que o trabalho recomeça tempos depois do Carnaval. Ou seja, além de não ajudar em nada a recuperar os valores da nossa sociedade, vamos trazer prejuízos a milhares que muitas vezes usam a época do Carnaval para mudar definitivamente de vida e trabalhar a sério.

Ainda assim, como argumento comigo um velho amigo, é fato que, se formos seguir essa lógica, teremos de liberar o tráfico de todas as drogas, pois há famílias vivendo do dinheiro do tráfico. A falha desse argumento, no entanto, é que, além de colocar no mesmo patamar trabalhadores honestos com traficantes declarados, podemos, no Carnaval, impedir alguns danos por meio da melhora da fiscalização (que, junto com a nova e mais rígida Lei Seca, fazem os números de acidentes de trânsito caírem gradualmente ano a ano, como mostram algumas notícias) e da segurança dos eventos, e, depois dele, controlar ou reverter os possíveis danos. Afinal, nada impede que uma mulher prestes a abortar seja convencida do contrário, e que uma pessoa que pegou uma DST se cure ou que possa aprender a lição ao viver sob remédios fortíssimos. Já no caso das drogas, não há como reverter os danos, que acabam sendo ainda maiores tanto ao dependente quanto à família e até mesmo ao cidadão comum, que pode ter sua carteira usada para financiar cada vez mais o tráfico.

Além disso, como eu já disse, não é acabando com o Carnaval que os valores retornarão, mas sim fazendo o trabalho constante de cultivá-los nas pessoas desde a infância. Afinal, convenhamos, muito dificilmente uma pessoa que está convicta de seus valores vai desviar-se deles. Mas, para inserir esses valores nas crianças, não se deve aplicar a lógica crente-burra e censora, que é aquela que diz “porque papai do céu quis e pronto”,  mas sim a lógica crente-esclarecida, explicando para a criança que, se ela cometer os desvios X e Y, vai sofrer, no mundo físico, as consequências W e Z, e, no mundo transcendental, as consequências A e B.

Por fim, refuto dois argumentos do Gentili, um sobre cortar semana ociosa para gerar renda, o que é uma besteira, visto que o brasileiro já é um dos povos que mais trabalha no mundo e que, no caso, o fim do Carnaval iria tirar muita renda até mesmo do próprio Estado, e outro sobre melhorar a imagem do Brasil no exterior. Neste último caso, eu diria que não há muito o que fazer, pois acabar com o Carnaval não vai fazer com que quem está interessado em passar uma imagem errada do Brasil para o exterior deixe de passá-la, pois há várias outras formas de fazer isso. A única solução que vejo para o caso seria regular o conteúdo que as mídias podem divulgar, mas, vamos ser sinceros, caros leitores, quase ninguém é maluco de querer isso, e Danilo e eu, suspeito, menos ainda.

O problema desse tipo de argumentação de Gentili, de Sheherazade e dos outros não é, então, que exista mais gente sendo contrária ao Carnaval por motivações superficiais. O problema é que, para esse tipo de discurso ser usado para dar poder ao Estado de cercear as liberdades individuais, não seria muito difícil, principalmente quando um dos discursos propõe, justamente, a proibição da festividade. Não se deve, porém, proibi-lo, pois não é tapando os ouvidos às discordâncias que se adquire a maturidade necessária para, justamente, filtrar o que se considera bom e o que se considera uma reflexão profunda sobre determinada questão. Afinal, convenhamos, amigos leitores, não somos petralhas, certo?

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, estudante diletante da Filosofia e, de vez em quando, apesar de apolítico, analisa a Política. Após este texto, será conhecido, provavelmente, como “amoral” por setores da direita conservadora, como “positivista” por libertários e como “populista” por parte da esquerda progressista. Diante de gente tão iluminada, porém, só pode mesmo agradecer por tamanhos elogios.

*Originalmente publicado em “O Homem e a  Crítica” em 14/02/2013

A Gaiola dos Loucos (Ou: A volta do preconceito do Pragmatismo Político) (Ou ainda: Rachel Sheherazade e o ceticismo seletivo progressista)

Quem acompanha este blogueiro há mais ou menos um ano deve se lembrar de um texto do mês de setembro do ano passado sobre o preconceito do Pragmatismo Político, site democrático até a página três e progressista até o mais amargo fim, contra o humorista Danilo Gentili. Naquela situação, relatei como um suposto preconceito contra nordestinos de Gentili seria, na verdade, inexistente e mero pretexto para que o site propusesse, para ele, a censura para que não mais falasse sobre o que realmente lhes incomodava, que era a situação de Cuba, ilha que, segundo o Pragmatismo e seus seguidores, não foi reduzida à mais absoluta miséria e sim elevada quase ao status de paraíso terrestre – isto porque, além de falar em paraíso ser “ateofobia”, o único país, para os falsos pragmatistas, que talvez pudesse chegar a esse status é, obviamente, a K.Oreia da Morte, ops, digo, a Coreia do Norte.

Na ocasião, imaginei, sinceramente, que aquele seria o limite de desonestidade a que poderia chegar o progressismo brasileiro (isto porque, óbvio, ainda não havia lido os artigos de Leonardo Sakamoto com maior afinco). Para minha surpresa, porém, eis que, graças a um amigo leitor, me chega um comentário do mesmíssimo site sobre um suposto resultado da recente declaração sheherazadiana sobre o caso de um jovem infrator amarrado a um poste. Após tê-lo lido, resolvi que deveria destrinchá-lo e demonstrar, mais uma vez, que ou os progressistas brasileiros são bestas quadradas, ou são pura e simplesmente desonestos intelectuais.

Bialmente falando (aliás, como sempre), vamos, então, aos trabalhos.

Rachel Sheherazade, a Batman da cidade de São Paulo… Ou será que não?

Já antes do começo de sua reportagem – escrita, aliás, pelo jornalista neo-ateísta Paulo Lopes, que, pelo visto, tem péssima noção do paragrafar na língua portuguesa -, abaixo do título, os pragmáticos de botequim colocam algo interessante ao dizerem que o discurso sheherazadiano surtiu efeito e que os linchamentos com as próprias mãos se proliferaram. Não é difícil, para qualquer um que conheça previamente as posições do site sobre a própria jornalista (e sobre qualquer um que tenha a empáfia de discordar das posições dos “pragmáticos”), perceber que, obviamente, houve, ali, uma atribuição direta de responsabilidade a Rachel Sheherazade pelo suposto aumento de linchamentos públicos, ou seja, que houve, até que se prove o contrário, imputação de crime à jornalista do SBT.

Ocorre, porém, que eu, ao contrário de boa parte da chamada “nova direita” (da qual, orgulhosamente, não faço parte), não curto muito brincar de processar pessoas, apesar de isto estar dentro dos trâmites democráticos. Prefiro, como sabem, brincar com e ironizar o meu interlocutor, ainda mais quando se mostra inepto.

Digo isto porque, já na imagem que usam de Rachel, há uma legenda interessantíssima em que é dito que “Jornalista Rachel Sheherazade defendeu em horário nobre a justiça feita pelas próprias mãos”. Para delírio dos nossos sofistas do progressismo, entretanto, sua interpretação da fala de Sheherazade não é única, muito menos a mais provável. Como já dito por estas bandas, essa interpretação seria até crível e digna de respeito, não fosse o fato de que a jornalista do SBT disse claramente que a legítima defesa se dá apenas porque (ou, matematicamente falando, se e somente se) estamos em uma sociedade SEM Estado e com estado de violência endêmico. Não é preciso ser gênio para saber, contudo, que nossa sociedade, ao contrário da fala de Sheherazade, não  é sem Estado, mas sim com um Estado omisso, que foi do que Rachel reclamou. Afinal, se ela realmente quisesse defender pura e simplesmente justiça com as próprias mãos, por que teria citado, em tom de clara apreensão, a negligência e a ausência do Estado na questão da criminalidade? Seria Rachel, então, sádica de querer, ao mesmo tempo e mesmo que a segunda fosse desnecessária, a justiça estatal e a justiça com as próprias mãos?

Aliás, muito curiosamente, é justamente uma frase da reportagem que pode ser usada para defender Sheherazade e para mostrar, de fato, que o que disse não era uma defesa aos justiçamentos, mas uma reclamação contra a falta de eficiência estatal. Segundo o próprio Pragmatismo Político, “Em entrevistas, Sheherazade confirmou o que dissera em rede nacional, afirmando que, diante da falência das instituições oficiais de segurança, é legítima a reação das pessoas”. Estaria mesmo Sheherazade desejosa, então, da falência das instituições para que a muito menos eficiente (e muito mais suscetível a enganos) “justiça com as próprias mãos” tomasse conta?

Isto, no entanto, ainda nem é o mais interessante. Prossigamos com a defesa.

O mistério das estatísticas e a transparência do óbvio ululante

Agora no começo da reportagem, para corroborar seu ponto de vista sobre como Rachel Sheherazade é totalmente culpada pela proliferação dos linchamentos,  os William James cegos, surdos, mudos e mancos de uma perna afirmam, categoricamente, que:

Desde que justiceiros agrediram a paulada um jovem negro acusado de assalto, amarrando-o nu a um poste, no Rio, há 20 dias, aumentaram no país o número de chacinas de pessoas suspeitas de terem cometido crime. Antes, havia quatro linchamentos por semana e, agora, a média é de um por dia.

Muito estranhamente (e de modo quase igual a certo “filósofo” por aí), o site não apresenta qualquer fonte direta dessas estatísticas, sendo a única referência indireta e vinda de uma reportagem da Folha de São Paulo (ué, mas esse não era um jornal de “extrema-direita”?) em que foi entrevistado um sociólogo (ao qual voltarei  em breve) segundo o qual houve esse aumento em relação às estatísticas anteriores. Mais estranhamente ainda, esse mesmo sociólogo, de nome José de Souza Martins, também não cita, ao menos segundo a própria reportagem da Folha, a origem dessa estatística e da estatística anterior, o que significa que a informação usada tanto pela FSP quanto pelo Pragmatismo Político é: a) De fonte duvidosa ou b) Sem fonte alguma.

Ainda mais esquisito, entretanto, é o fato de o próprio site se esquecer de que, além de estatísticas precisarem ser, de fato, atualizadas com frequência razoável (aliás, de quando eram as estatísticas anteriores mesmo?), nem tudo o que está nelas é confiável, porque, muitas vezes, até mesmo a coleta de estatísticas pode ser perturbada ou adulterada por motivos de força maior. Será mesmo, então, que havia tão poucos linchamentos ocorrendo Brasil afora? Será que esse aumento, também, foi tão grande assim? Não poderia, também, a divulgação desses linchamentos ter aumentado? Além disso, se, como dizem adiante, Martins cataloga linchamentos, qual é seu método e qual seu alcance e sua eficácia? Ou será, ainda, que o ceticismo que esses progressistas dizem defender perante as informações dadas pela “grande mídia” não é, na verdade, de uma seletividade que beira ao asqueroso?

A cara de William James ao ler o site exemplo de Pragmatismo no Brasil. Sobre o caso, a única declaração de James foi: "Pragmatismo teu cu".

A cara de William James ao ler o site exemplo de Pragmatismo no Brasil. Sobre o caso, a única declaração de James foi: “Pragmatismo teu cu”.

Para tentar, mesmo assim, ainda fazer um de seus supostos mestres (ou serão pragmáticos por algum outro motivo?), William James, parar de se revirar no túmulo, os pragmáticos vão ao ponto em que em tese são especialistas e tentam chegar ao lado prático de toda a questão. Citam, primeiro, uma fala do já citado sociólogo:

“O sociólogo José de Souza Martins, que documenta linchamentos há 20 anos, disse estar preocupado, porque “a sociedade civil está ficando progressivamente descontrolada”.”

Mas, ora, sociólogo, se o senhor não tivesse dito isto, eu juro, em absoluto, que nunca teria percebido. Imagine, a sociedade civil brasileira está perdendo o controle, mas que teoria da conspiração. Só por termos mais de 50 mil homicídios e de 50 mil estupros ao ano enquanto o governo tenta pôr a culpa nas armas que o cidadão não mais tem? Foi um exagero seu, sem dúvida.

Em seguida, os neo-pragmáticos de banheiro exageram, novamente, no óbvio ao citarem o presidente da OAB de Goiás, Henrique Tibúrcio:

O presidente da OAB de Goiás, Henrique Tibúrcio, admitiu que a população se sente insegura, “mas ela não pode fazer Justiça com as próprias mãos”.

Também juro a vocês, amigos leitores, que, se não fosse o Pragmatismo Político ter colocado essa fala do presidente da OAB goiana, eu nunca saberia que justiçamentos não podem ser executados, sob pena de prisão, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo democrático. Sinceramente, desculpem, mas são muitas novidades para a minha pobre cabeça (ou, ao menos, assim aparenta pensar o site) digerir em um só dia.

Vou, então, acabar o artigo citando o deputado do PSOL Ivan Valente (que, em termos de amor a fundamentos da democracia, só deve perder mesmo para seu companheiro de partido Jean Wyllys) e destacando a parte em que o mesmo prova, ironicamente, a inocência até que se prove o contrário de Sheherazade:

Ivan Valente, líder do partido na Câmara dos Deputados, disse que a jornalista “simplesmente deu razão aos vingadores que fizeram justiça com as próprias mãos, em torturar, porque a polícia para ela está desmoralizada, a Justiça não opera e é necessário voltar ao velho Oeste”. (Inocentação prévia em azul, e para bom entendedor meia legenda e algumas linhas deste mesmo texto já bastam)

Só posso esperar, então, que eu não seja o próximo alvo de Valente, muito menos do Pragmatismo Político. Imaginem só se tivesse que “provar minha inocência” com a dificuldade imposta por estes dois. Com certeza, teria de pedir embargos infringentes ao Supremo, não acham?

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista não-remunerado e estudante não-sistemático da Filosofia. Desgastar-se-ia um pouco mais com a inépcia da nova direita, mas, pelo visto, ainda precisará de algum tempo exclusivamente para a inaptidão filosófica dos progressistas. Ao ler certos pragmáticos, porém, só pode ficar se perguntando: “Pirsi, Jeimes, pq fisero iso?”