Reação

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.

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Eu, Apolítico – Guerra política e moralidade: de como a direita está ainda mais absolutamente errada do que pensávamos

Quando amigos como Luciano Ayan e Roger Scar, e algumas vezes até mesmo este blogueiro de Apoliticamente Incorreto, escrevem textos defendendo que a direita passe a pensar mais estrategicamente  e deixe o puritanismo de lado ainda que por alguns instantes na política, passando a ser jogadora assídua da “guerra política”, não é incomum ver respostas como “mas aí nós estaríamos nos igualando aos esquerdistas!” ou, mais comum ainda, “ah, então o que vocês querem é que a direita vire uma esquerda de sinal trocado!”, no sentido de que jogar a guerra política seria imoral porque a mais experiente jogadora, a esquerda, usaria toda a sua imoralidade no debate político.

Mal sabem os direitistas puritanos políticos do Brasil varonil, aqueles mesmos que vivem a alegar que sabem como o mundo reage, que mais uma vez estão enganados acerca de como o mundo funciona. O caso é que, para qualquer um que tenha maturidade suficiente para encarar o mundo em suas facetas, está mais do que claro que, no fundo, e principalmente no caso brasileiro, a guerra política é, muito possivelmente, a única alternativa de fato moral (ou, no mínimo, moralmente justificável) para se combater o PT ou, em maior escala e de modo mais geral, o esquerdismo. Mais ainda: recusar-se a jogá-la é que é, na verdade, a alternativa mais imoral de todas, ou seja, o real mentiroso moral é o direitista puritano político.

Imoralidade puritana

Por que digo isso? Muito simples. Primeiro, é necessário o leitor saber que parto, por uma questão mais de dialogar na mesma língua do que de crença pessoal, da premissa de que a narrativa mais conhecida da direita sobre a situação brasileira – isto é, aquela que pinta o PT como um partido totalitário que, ao passar do tempo, só recrudescer-se-á ainda mais no poder e piorará a vida do brasileiros – corresponde aos fatos.

Segundo, coloco como premissa, também, algo que muito comumente (e muito coerentemente, diga-se de passagem) ouço de amigos de direita, principalmente no que se refere à questão do Aborto: a de que não existe imoralidade maior e mais atroz do que colocar vidas humanas, especialmente se forem inocentes, em risco por causa de caprichos pessoais.

Terceiro, é necessário nos lembrarmos de que, na absoluta maioria dos casos, métodos, abordagens, táticas e estratégias não são imorais, mas sim moralmente neutros. O método científico, por exemplo, certamente é, sempre foi e sempre será utilizado tanto por pessoas de moralidade ilibada quanto por canalhas e facínoras do naipe de Josef Mengele. Isso se dá exatamente porque o método não é um ente com vida própria, mas sim um instrumento a partir do qual podemos tanto fazer excelentes descobertas quanto protagonizar as piores canalhices.

O mesmo se dá, para ficar em um exemplo que a direita adora defender (e eu também), com relação às armas, pois, ora, assim como um assassino psicótico pode sair matando pessoas pelo simples prazer de matar, também é possível que um cidadão bem intencionado se beneficie da arma para proteger àqueles por quem tem carinho de alguma violência.

Se métodos, abordagens, táticas e estratégias são, pois, moralmente neutros, e se a guerra política é composta principalmente por esses e outros elementos também moralmente neutros, disso se conclui que a guerra política por si só é moralmente neutra, isto é, que pode ser utilizada tanto em benefício do bom, do belo e do moral, assim como é uma arma ótima para defender o mau, o grotesco e o imoral. Tamanho escândalo em relação à mera proposição de se praticá-la, então, é, no mínimo, uma frescurite aguda inadmissível para pessoas que se dizem adultas, responsáveis e centradas.

Se está sendo honesta, o grande erro que a direita tem cometido é muito simples de ser enunciado: se a esquerda joga a guerra política com base na mentira e isso dá certo, é lógico que o problema é a guerra política em si. Não, amigo direitista: se a esquerda se utiliza de uma série de métodos moralmente neutros para espalhar suas canalhices  e é bem sucedida, o problema não está no método, mas na canalhice. Ou seja, e aqui darei uma de ex-astrólogo, o problema não está na guerra política, mas nas mentiras que a esquerda espalha por meio dela sem ser cobrada corretamente por isso, ORA PORRA!

Exemplificando o que foi dito acima, duas práticas de guerra política por meio das quais a esquerda faz a festa são a rotulação, que consiste em rotular o oponente de acordo com quem ou o que este ataca – por exemplo, colocar publicamente a pecha de “fascistas” em todos aqueles que discordem da agenda totalitária da esquerda -, e o shaming, palavra inglesa que, traduzida ao pé da letra, significaria “envergonhamento”, que é justamente fazer o oponente sentir vergonha e o público sentir vergonha alheia pelo que o oponente defende, deixando-o como alguém que não deve ser seguido nem respeitado – a esquerda se utiliza muito bem desse expediente, por exemplo, com relação a quem ataca o Bolsa Família e outros pilares retóricos do PT.

Raciocine comigo, leitor: se rotulação e shaming são moralmente neutros, isto significa que tanto os bons quanto os maus podem se utilizar deles para conseguirem seus objetivos. Se os direitistas, por exemplo, não só acham como têm absoluta convicção de que os esquerdistas no poder são totalitários, fascistas, canalhas e perigosos, por que não rotulá-los de modo a que as pessoas tenham, no mínimo, a curiosidade atiçada para ouvir mais sobre o porquê de os antiesquerdistas sustentarem esse ponto de vista? Se estão certos de que um projeto de regulamentação de mídia ou de financiamento de artistas chapa-branca são não só um roubo aos cofres públicos como também um insulto ao povo trabalhador, por que, ao invés de ficarem com ironias baratas ou explicações tediosas, não são um pouco mais incisivos e tentam fazer o público enxergar o quão dignas de nojo e de vergonha alheia são essas ideias?

Fica claro, pois, que, de imoral, a guerra política teria muito pouco ou quase nada. Resta saber, então, o porquê de essa alternativa ser, talvez, a única de fato moral para o combate ao totalitarismo, e de seus detratores serem, na verdade, os imorais.

Moralidade antipuritana

Um passo decisivo para se entender em que consiste a guerra política é que esta é quase totalmente retórica, isto é, que se trata de uma guerra em que as armas só seriam de fogo em uma última instância quase inimaginável. Na guerra política, o que se pode perder mais comumente é capital político e reputação, além de podermos salvar milhões de vidas sem disparar um tiro sequer, enquanto que, em guerras comuns, o que se perde é quase sempre justamente milhões de vidas.

Passar a jogar guerra política, então, vai exatamente na direção do princípio moral de muitos direitistas, já que, além de não colocar vidas em risco por meros caprichos pessoas, ajudará a salvar diversas pessoas do poder tirânico do Estado e de sua capacidade de ceifar vidas como se fossem meros números. É, portanto, o método mais moral possível, já que não só deixa a vida fora de risco como também a protege dos que a querem instrumentalizar.

A direita brasileira, porém, tem ido justamente na contramão da moralidade, pois tem apelado a três métodos (e se dividido, com isso, em três grupos) que variam desde a ineficiência criminosa até o descarte explícito de vidas humanas, passando também pela omissão criminosa.

No primeiro grupo, temos aqueles que esperam a esquerda aprontar das suas e, sem hesitar, denunciam o plano imoral e assassino da esquerda de dominação mundial. Até que isso daria certo, não fosse o fato de que esses estorvos confundem denúncia com sensacionalismo barato e trazem total descrédito ao que dizem, o que o torna um método arriscado e ineficiente, sendo esta uma ineficiência que, ao deixar espaço livre para os totalitários, dar-lhes-á poder cada vez maior e porá a vida de pessoas em risco, tornando-se uma ineficiência criminosa.

No segundo grupo, temos os omissos, aqueles que, por causa de sua alta moralidade e alta cultura, preferem ler os clássicos a se envolver nesse “mundo sujo” da política. Creio que nem preciso dizer mais nada sobre como isso coloca a própria vida dos omissos e as vidas inocentes alheias em risco, certo?

No terceiro grupo, temos os estorvos que adoram lamber um coturno ou que não aguentam God of War no nível Médio, mas querem porque querem uma “revolução civil democrática” ou uma “intervenção militar constitucional que salvará o Brasil desses comunas malditos”.  Traduzindo: não só estão pondo vidas humanas em risco como também expressam claramente o desejo de ver um banho de sangue que inclui pais de família civis e/ou militares ocorrendo para “solucionar os problemas do Brasil”. É tão patético e ao mesmo tempo tão repugnante que, creio, também nada mais precisa ser dito, certo?

Se tudo isto que foi posto não conseguir convencer a direita brasileira, ou pelo menos os mais relevantes e mais ativos de seus membros, de que é muito mais moral incutir na mente das pessoas que canalhas são canalhas do que meramente ficar fazendo denúncias sensacionalistas, omitir-se ou propor um banho de sangue como solução para os problemas brasileiros,  nada mais convence. De qualquer maneira, senhores, agradeço pela vossa atenção e, à inglesa, I rest my case.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não duvidaria se fosse mais moral do que muito moralista por aí.

A sarjeta deles e a nossa: Dalrymple Revisited

Ousado, irônico, cáustico, pessimista, incisivo, demolidor, todos estes e vários outros adjetivos não só podem como devem ser usados ao se descrever o psiquiatra e crítico cultural britânico Theodore Dalrymple, cuja obra Podres de Mimados já foi alvo de análise por estas bandas.

Se a obra em que Dalrymple foge de sua especialidade textual (os artigos com temáticas cotidianas) e toma mais de 200 páginas para desnudar o sentimentalismo barato da esquerda totalitária que se diz “progressista”  já é digna de aplausos enfáticos de pé, o que poderíamos esperar a mais de uma obra como A Vida na Sarjeta: O Círculo Vicioso da Miséria Moral, em que são apresentados ao leitor justamente artigos do psiquiatra sobre os mais variados temas cotidianos?

Respondo: poderíamos e deveríamos esperar muito mais daquele que sempre alia brilhantismo estilístico, honestidade intelectual, argumentação farta e retórica habilidosa e ferina. No livro em questão, o escritor britânico precisa de 22 curtos e dinâmicos capítulos para provocar o leitor com um relato chocante e impiedoso sobre a miséria moral, cultural, espiritual e intelectual que, segundo o autor, grassa na Grã-Bretanha.

Sem meias palavras, Dalrymple apresenta, por meio dos abundantes casos de seus pacientes, os efeitos da retórica criminosa dos progressistas em várias áreas, em especial nos assuntos moralidade e segurança pública, mas sem deixar de lado a educação e a cultura em sua sólida argumentação.

Sua argumentação em A Vida na Sarjeta é tão solidamente construída que até mesmo um anticonservador declarado, como este blogueiro que vos digita, não pode desprezar nem mesmo os pontos em que o crítico cultural se utiliza brilhantemente dos fatos, sem distorcê-los, para explicar e corroborar certas ideias que, no Brasil, seriam consideradas conservadoras, entre elas a defesa da moralidade familiar e da religiosidade enquanto formadora de uma vida social coesa e sadia, além do ataque brilhante à megalomania dos defensores do “Estado de Bem Estar Social indiscriminado”, como Dalrymple o descreve e o revela.

Sociólogos, criminologistas (estudiosos das causas e da origem do crime, muito comuns na Inglaterra), intelectuais esquerdistas, relativistas culturais em geral (incluindo educadores) e até mesmo policiais contaminados pelo multiculturalismo têm suas ideias e ações escrutinadas em um livro que, dada a profusão de argumentos, só não convence um leitor extremamente cético e só não esclarece aquele já enviesado à esquerda que dirá, como sempre, tudo o que diz sobre qualquer produção antiesquerdista, isto é, que é um produto do imperialismo burguês fascista para deslegitimar as causas sociais, ou alguma outra canalhice totalitária do gênero.

Torna-se acessório mencionar, também, que, fora certos detalhes, quase todas as vezes em que a palavra “ingleses” aparece, esta poderia ser trocada por “brasileiros”, como no trecho abaixo:

“É um erro supor que todos os homens, ou ao menos todos os ingleses, queiram ser livres. Ao contrário, se a liberdade acarretar responsabilidade, muitos não querem nenhuma das duas. Felizes, trocariam a liberdade por uma segurança modesta (ainda que ilusória). Mesmo aqueles que dizem apreciar a liberdade ficam muito pouco entusiasmados quando se trata de aceitar as consequências dos atos. O propósito oculto de milhões de pessoas é ser livre para fazer, sem mais nem menos, o que quiserem e ter alguém para assumir quando as coisas derem errado.” (p. 27, E a Faca Entrou…)

Dalrymple, pois, consolida, na opinião deste blogueiro, o rótulo que não lhe fora dado em escrito anterior mas que, definitivamente, merece agora: essencial. E bem menos chato do que o tedioso Roger Scruton de O que é conservadorismo.

Octavius  é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera ter de ler Roger Scruton pior do que ver Filipe Luís na lateral esquerda da seleção.

The Brazilian Conservative – Diálogos da blogosfera

“Ei, cara, você viu a nova desses progressistas superpolitizadores defensores da sociedade de controle?”

“Não, velho, não vi. Sabe como é, detesto política, então nem procuro mais me atualizar quanto ao que quer que seja disso. Mas, vá lá, tu é meu brother, então abro uma exceção. Qual é a nova?”

“Mano, eles reclamaram de um comercial da Doritos só porque humanizaram um feto, tratando-o como o bebê que ele de fato é. Que pessoal mais maluco…”

“Putz, cara, é verdade, essa galera da esquerda está cada vez mais pirada. Tudo bem que a gente sempre condenou o pensamento estratégico em termos de política como uma imoralidade inadmissível e que eles estão se aproveitando disso para nos fazer parecer contraditórios porque adoramos um comercial em que esse tipo de pensamento é elevado ao cubo, mas daí a reclamar de um comercial inocente já é demais.”

“Na  boa, essa galera não se toca que não é belo e moral eles ficarem fazendo política com tudo? Por que eles têm sempre que politizar todas as causas que nós não quisemos politizar por causa de nossa moralidade mais elevada?”

“E o que eles fazem com grupos minoritários, então? Só porque a gente não se mostra tão solidário quanto deveria às minorias, eles vão lá e cooptam esses grupos para ganhar mais votos e poder! Isso pode até ser um movimento estratégico óbvio em política, mas tamanha imoralidade não pode ser imitada por pessoas com tão elevado senso de moral e civilidade quanto nós!”

“Pois é, e eles nem ligam quando a gente fala que o indivíduo é a menor minoria que existe! Um disparate! Tudo bem que eu mesmo já te disse muitas vezes que argumentos lógicos não convencem ninguém, mas a gente não pode descer ao nível deles e tentar mexer com as emoções da galera para reverter o dano que eles fizeram à alta cultura e ao senso de proporções do brasileiro.”

“Isso mesmo. Nosso reino é o reino dos céus. É só sermos piedosos e seguirmos as leis de nosso senhor que nada de mal vai acontecer com a gente, mesmo que todo o poder político, esse poder vão e terreno, esteja nas mãos deles.”

Gloria in Excelsis Deo, irmão!”

“Ainda assim, uma reclamação tão leviana não pode ficar sem resposta. Você sabe que eu não curto mesmo política, então não tenho ideia de como responder a uma coisa dessas. O que você vai fazer?”

“Ah, meu amigo, eu já sei. Vou escrever um texto indignado com como o brasileiro não entende que essa imoralidade faz parte de um plano maior da esquerda para instituir uma sociedade de controle…”

“Mas não é isso mesmo que o brasileiro comum quer? Eu mesmo já conversei com um monte de gente que quer a volta da ditadura e que rejeita essas ideias de Estado-mínimo que a gente defende.”

“Bobagem. Você está se deixando levar pelo estereótipo da esquerda. O povo é conservador, só que ainda precisa que alguns iluminados lhe expliquem que reacionário não é ofensa e que quem superpolitiza a vida pode até ganhar poder e dinheiro inclusive para fazer o que quiser contra o povo, mas não ganha em termos de liberdade interior, que é o que importa.”

“Ah, é mesmo, perdão, acho que eu fiquei tempo demais sem ler nada dos nossos colegas. Continue.”

“Daí eu vou cagar bibliografia com um monte de livros que eu sei que ninguém vai ler mesmo, misturando obras clássicas com as teorias daquele nosso professor e de outros colegas nossos de curso, escrever com uma sintaxe confusa e arcana e terminar com uma pergunta ou frase de efeito.”

“Genial, cara. A esquerda vai tremer na base com esse texto cheio de discussões elevadas que não são acessíveis aos escravos do poder e do cotidiano como eles. Manda ver que eu compartilho logo depois de você.”

“Você sabe que eu não ligo para o meu público mesmo, mas te agradeço, porque o que importa é divulgar essa mensagem que pode até parecer prolixa e vitimista por parte daqueles que, como eu, não gostam de política, mas é, na verdade, a forma que encontrei de fugir e de ir contra a corrente desse mar de superficialidade que é a discussão política no Brasil.”

Senso comum? Não, meus amigos, muito pior do que isso. É um senso que, de comum, não tem nada.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando ouve falar em conservadorismo brasileiro, saca logo a pena da galhofa.

Eu, Apolítico – Canal Livre e o Politicamente Correto: três anos depois, o que sobrou? (Ou: Ensaio sobre o Politicamente Correto)

Pela enésima vez, estive revendo o debate sobre o Politicamente Correto promovido pelo Canal Livre com a participação do filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, mais conhecido por escrever o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia e menos conhecido por ter passado a escrever, mais ou menos desde a época em que ocorreu o supracitado debate (abril/maio de 2013), livros que são melhores peças detratoras contra Pondé do que qualquer crítica genérica, tediosa e nonsense do típico esquerdista tupiniquim.

Sendo considerado por alguns um marco em termos de debate sobre a praga PC, é uma entrevista a que se deve assistir com atenção, posto que nos revela muita coisa, mas apenas se formos procurar que conclusões políticas podemos tirar desse episódio e de tudo o que se seguiu depois, desde manifestações até eleições, passando, é claro, pelo lado internet do debate político.

Hora, portanto, de palpitar sobre como analisar não apenas nem tanto a discussão canal livresca em si, mas principalmente o próprio Politicamente Correto, sua ascensão e suas implicações atuais.

Primeiro, e talvez, por incrível que pareça, muitíssimo importante, já passou da hora de se admitir que, definitivamente, nenhum programa de entrevista da televisão brasileira merece ser o palco de qualquer debate com valor político.

Falo isto não só por o Canal Livre ser, como é evidente há muito tempo para todos aqueles detentores do mínimo de sensibilidade televisiva, um sonífero dos mais potentes, mas também pelo fato de as discussões por lá parecerem de uma natureza tão genérica e tão vaga que, como efeito provavelmente indesejado, podem aumentar ainda mais o desinteresse das pessoas por qualquer tema abordado pelos entrevistadores.

O problema, na verdade, é que o programa da Rede Bandeirantes não é uma aleatória exceção, mas uma infeliz regra na televisão brasileira, apenas levando-a ao extremo da chatice e do tédio por sua forma, como já mencionado, que cura qualquer insônia.

Qualquer telespectador brasileiro percebe, outrossim, que o problema também transparece no conteúdo. Convidados com caras que inspiram tédio e com falas mais mortalmente tediosas ainda (Pondé, aliás, é rara exceção), perguntas visivelmente escritas para adular o convidado ou para confrontá-lo de forma muito indireta e muito insossa, entrevistadores pouco dispostos a sair da vulgaridade genérica e superficial que se esperaria de uma conversa de jantar familiar de quarta na pizzaria, não em uma entrevista sobre política, tudo isso e mais um pouco, no fim, só contribui para o fingimento de que não se está barateando o debate enquanto tudo o que se está fazendo, de fato, é torná-lo mais tedioso do que a polêmica sobre o cara que quebrou uma placa do Youtube ou do que o vídeo do Pirula sobre o incêndio no Museu da Língua Portuguesa.

Se existe algo a se fazer nesses programas, o que deve ser feito é aprofundar o uso de frames, ao invés de, como na maior parte das vezes os entrevistadores desejam, se ficar argumentando sobre tecnicalidades às quais, no fim, ninguém presta atenção (com razão, diga-se de passagem).

Segundo, chamar qualquer jornalista brasileiro, tirando raríssimas exceções, de politicamente incorreto atualmente é uma piada de extremo mau gosto. Pior ainda em se tratando de certo ex-membro do Castelo Rá Tim Bum, membro hoje mais conhecido por ter sido dispensado de um programa que, de ícone do politicamente incorreto e do humor ácido contra os governantes – rótulos, aliás, altamente questionáveis, pois me parece, vendo com os olhos do Octavius de 2016, ter sido apenas mais um dentre tantos casos de isentismo artificial que pululam na imprensa brasileira -, passou a ser considerado, em seus anos de crepúsculo, a simbiose perfeita entre a praga PC e a “rebeldia” chapa-branca presente, atualmente, em 99 de cada 100 esquerdistas brasileiros.

Acorrentados por um código moralista até parecido com um puritanismo, só que dez vezes pior, o que os jornalistas brasileiros de maneira geral vêm fazendo é, justamente, apertar ainda mais suas correntes, garantindo que os que nunca os quiseram livres possam agir com ainda mais tranquilidade, correndo risco praticamente zero de terem confrontados e desmascarados seus esqueletos totalitários dentro do armário (ou nem tão dentro assim).

Em terceiro lugar, redefinir o termo “politicamente correto” é vital, seja para análises filosóficas, seja para debates políticos. Deve estar claro que digo, com isto, que definir o politicamente correto como uma doutrina que divide o mundo em opressores e oprimidos  e que busca controlar a linguagem em todas as suas formas alegando defesa dos oprimidos não é errado, mas que o fato é que, se houve algo de positivo nas justiçadas sociais de 2015, foi a revelação explícita parcial por parte dos próprios adeptos da praga PC do real intento daqueles que buscam elevar o nível de politicamente correto na atmosfera a patamares ainda mais humanamente intoleráveis.

O segredo está na palavra “empoderamento”. Alegam os justiceiros que o 1984 internetês que promovem mira “o empoderamento das minorias”, sendo a minoria da vez variável dependendo do tipo de militante com quem nos defrontamos.

Cínicos! E tolos os crentes em qualquer intenção sincera por parte dessas pessoas.

De fato, a história muito recente (de 2013 para cá) nos mostra que o objetivo do politicamente correto é mesmo o empoderamento. Pobres minorias, porém, que estão sendo mero diversionismo para esconder que os únicos empoderados, no fim,  serão na realidade os totalitários (chamá-los “aprendizes” seria inadequado, pois há muito passaram desse nível) que, por meio da politização extrema do cotidiano e da censura progressiva da linguagem, atualmente buscam o poder sem dó nem piedade alguma daqueles de cujos dramas reais eles estão se apropriando levianamente.

O politicamente correto, portanto, deve passar a ser definido como “doutrina de natureza cínica e totalitária que, por meio do apelo a uma questionabilíssima dicotomia opressor/oprimido, do controle da linguagem com pretensões evidentes de censura e da superpolitização do cotidiano, pretende empoderar psicopatas aproveitadores de dramas de minorias para tomar-lhes a voz enquanto dizem representá-las enquanto representam nada além do próprio desejo megalomaníaco pelo poder”.

Falando em um dos pontos dessa definição, o cotidiano superpolitizado, chega o quarto e último resquício do morníssimo debate do Canal Livre em maio do 2013: talvez já tenha até passado um pouco do tempo, mas ainda é possível, e vital, diminuir ao máximo as reclamações despropositadas sobre a superpolitização do cotidiano e descobrir formas de utilizá-la justamente contra seus mentores, os politicamente corretos.

Afinal, por mais desagradável que seja a alguém envolver-se na política, o risco de desdenhá-la exatamente durante essa era de praga PC é, justamente, entregar a própria cabeça e a própria liberdade de bandeja aos megalomaníacos do momento.

Denunciar tal megalomania por si só, aliás, não basta nem adiantará a curto prazo, posto que o júri será composto, em grande e relevante parte, precisamente por crias dessa superpolitização do cotidiano.

Omitir-se ou restringir-se a lamuriar-se publicamente, pois, igualam-se e têm como único resultado a consequência da omissão: permitir que alguém tome as decisões por vocês, sendo elas, provavelmente, danosas ao omisso, ao chorão e a todos os que por elas pagarão.

Já passou do momento, em suma, de relegar as discussões canal livrescas ao esquecimento e à insignificância de que são dignas e passar a encarar não só a praga PC, mas a própria política, com a mesma maturidade necessária à vida adulta e civilizada.

Será, porém, que a geração “eu não gosto de ser adulto” e suas antecessoras que lhe inculcaram essa ideia serão capazes de realizar tal façanha?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Torce seriamente para que nenhum conservador venha lhe ordenar que “seje menas”, pois não gosta de xingar sua própria plateia desnecessariamente.

Mensagem de fim de ano: o legado de 2015 ao Brasil, e o que começar a fazer em 2016

Os leitores bem sabem que questões religiosas e morais pouco me interessam, apesar de reconhecer suas relevâncias quando o assunto é manter a coesão social. Não me faria sentido, então, ficar discorrendo longamente acerca da simbologia por trás das festas de fim de ano ou algo do tipo, posto que outros o fazem melhor do que eu e, mais importante, que esse tipo de discussão me causa um sono inenarrável e um tédio inexorável.

Minha mensagem de fim de ano é, pois, essencialmente política, já que considero que o maior legado de 2015 aos brasileiros é, justamente, essencialmente político.

2015, em minha opinião, foi o ano em que se escancararam duas terríveis verdades já visíveis ao analista um pouco menos desatento: a de que o problema dos canalhas totalitários é que sempre encontrarão um jeito de se esquivarem de discutir a realidade e a de que o problema dos tolos não-totalitários é que eles sempre cairão nesse jogo.

Se, para a nossa esquerda, 2015 simboliza o ano em que o feminismo “veio para ficar” nas discussões políticas, o mesmo fenômeno significa, para a direita, mais uma prova de sua total ineficiência quando o assunto é jogar a política, tendo em vista que os canhotos ganharam mais uma arma permanente de desvio de foco quando a situação lhes estiver desfavorável com relação aos fatos.

Afinal, não foi muito difícil para a esquerda totalitária nem tão dentro do armário assim que temos no Brasil desviar, por muitas vezes, o foco em cima da discussão acerca da canalhice perpetrada por certo ParTido governante durante os últimos 13 anos e redirecioná-lo para qualquer evento que quisessem, tenha o evento tido uma relevância de fato muito grande, tenha esta relevância sido grandemente exagerada pela nossa esquerda que, de utópica, não tem nada.

Estatistas e totalitários até o limite do inaceitável, os esquerdistas brasileiros não hesitaram por um minuto em proteger um governo no mínimo altamente questionável em suas decisões e, no máximo, com intenções que fariam qualquer George Orwell se arrepiar em poucos segundos de propaganda partidária.

De pequenas corrupções às mais bizarras justiçagens sociais, o desvio de foco intencional foi tão impecável que, no fim das contas, não seria nenhum exagero dizer que, por mais que o pedido de impeachment contra Dilma Rousseff ainda esteja tramitando no Congresso, foi a esquerda, contra tudo e contra todos, incluindo mais de 80% da população brasileira, a grande vencedora.

De nada serve, porém, parabenizar-lhes pelos méritos. O que é útil, na verdade, é ressaltar, mais uma vez, que a culpa é toda de uma direita que, se se finge de inocente julgando ser possível destronar os canhotos sem jogar a guerra política, exagera demais quando discute politicamente (o que, aliás, nem deveria acontecer: adversário político é alvo de desmascaramento, não de discussão) justamente nos termos em que a esquerda quer, chamando-a de utópica, de inocente iludida, até mesmo de ingênua sonhadora, enquanto os únicos ingênuos são, pelo visto, aqueles que reclamam do oportunismo político da esquerda ao mesmo tempo que se recusam a aprender com ele.

Para 2016, pois, se a direita ainda quiser alguma chance de derrotar o totalitarismo que alega ser uma ameaça por parte da esquerda contra os brasileiros, é bom que se afogue, metaforicamente, n’A Revolta de Atlas e passe a seguir um conselho politicamente valioso legado pelo personagem Hank Rearden no início do segundo volume da obra da filósofa russa Ayn Rand.

E o conselho, meus amigos, é o seguinte: a hora é de nomear as coisas e os fatos não segundo as conveniências do momento, mas segundo o que são. Ficar dizendo que certo grupo é totalitário e, simultaneamente, tratá-lo meramente como um ingênuo iludido definitivamente deveria fazer qualquer adorador de Rearden e dos outros icônicos personagens ter um infarto.

Falamos, porém, de uma direita infantil e moralista. Bom, pelo menos que, em 2016, eu pare de criar expectativas de que estou discursando para alguém além dos convertidos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Poderia ter intitulado este texto “A Revolta de Octavius”, mas prefere não se misturar tanto assim com liberteens.

Eu, Apolítico – Pequenas corrupções e outras histórias: relato da partidolatria descarada da esquerda totalitária

Em um país dominado cognitivamente pelos embustes retóricos de intelectuais duplipensadores cujo único objetivo parece ser viver para a idolatria e a defesa de certo ParTido, não seria surpreendente se a moral social, justamente uma das instituições que protegem um país de ficar à mercê de morais estatais totalitarizantes,  começasse a ser ao mesmo tempo achincalhada por ser considerada “opressora” e utilizada quando conveniente justamente para proteger certo ParTido supracitado da prestação de contas à população, que é um dever de todo estadista minimamente escrupuloso.

Emblemático, nesse sentido, é o caso das pequenas corrupções. Aproveitando a atmosfera criada por uma oposição tola que ainda não entendeu que casos como o mensalão devem ser descritos como algo para além da corrupção tradicional da política brasileira, uma série de cretinos esquerdistas tidos como intelectuais por outros esquerdistas ainda mais cretinos passaram a apostar alto, e a ganhar, no seguinte discurso: sendo pequenas corrupções, por lógica, também encaixadas como corrupção, e tendo todos os brasileiros as praticado ostensivamente em vida independente de suas motivações e de suas consequências, quem teria moral para reclamar da corrupção governamental sem deixar para trás de si um rastro de hipocrisia?

Para quem une Tico (não, não é o famoso roqueiro chapa-branca) e Teco por dois segundos, não é difícil perceber que a cretinice é tanta que nem resposta polida os defensores desse discurso merecem.

Abandonando, completamente, o senso de proporções, o falso moralismo isentista de esquerda iguala duas espécies cujas diferenças gritantes quase nos fazem duvidar de que pertençam ao mesmo gênero. Descartando desavergonhadamente o fato do abismo que existe entre as consequências das grandes e das pequenas corrupções (a não ser, claro, quando as pequenas são auxiliadas pelas grandes), esses embusteiros da esquerda nada utópica se aproveitam do parvoísmo em termos de política predominante entre as pessoas comuns para emplacar, praticamente sem oposição, esse discurso perverso.

Enfeitiçadas desde sempre por um puritanismo hipócrita que as faz se preocuparem acima de tudo não com a real moralidade, mas com a aparência de moralidade, essas mesmas pessoas comuns ou se retiram do debate político ou passam a abraçar e consagrar a perversa moral desses duplipensadores, disseminando de maneira cada vez mais perturbadora essa ausência  senso de proporções cuja finalidade política é óbvia: consolidar ainda mais o poder e a aura de sacralidade do ParTido na presidência.

Mais óbvia ainda é a fórmula para reverter esse processo: o desmascaramento sistemático e tão rápido e persistente quanto possível dos apologetas dessa canalhice, além da ridicularização dessas personalidades e da divulgação, não apenas uma vez ou outra, mas em profusão até maior do que como a esquerda faz, dos frames de acusação a serem utilizados pelos defensores da sanidade mental geral.

Tudo isso, justamente, servirá para garantir que, no mínimo, os não-esquerdistas continuem sendo não-esquerdistas, isto é, evitando, para a direita, a criação de novos inimigos políticos que, a depender de seus talentos, podem inclusive dificultar as coisas abrindo novas frentes de batalha na guerra política.

Como esperar atitudes tais, contudo, de uma direita que mal passou a namorar a política e já parece querer pular para a parte do divórcio, posto que faz questão de reiterar, sempre que possível, o seu ódio à política?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não consegue levar a sério quem se preocupa mais com as pequenas corrupções do que com a grande corrupção mental e moral promovida por certos intelectuais. Não disse nada, mas, no caso, são os intelectuais de esquerda.