Rede Globo

A Mulher do Ano e de um futuro inevitável

Anitta foi eleita a “Mulher do Ano” por uma revista masculina da Globo. A reação foi rápida: “É um absurdo!”, “A professora que morreu salvando seus alunos é que deveria ser a mulher do ano!”, “Perguntei ao motorista do ônibus: a que ponto chegamos?”, entre outras frases esperadas vindas do brasileiro médio.
O caso é que, sobre Anitta ser eleita a mulher do ano, não, não é um absurdo. O grande problema é outro: é muito lindo e muito nobre querer que a professora Heley Batista, morta em um incêndio em uma creche para salvar alguns de seus alunos, fosse eleita a mulher do ano, mas é quase certo que pelo menos metade das pessoas que a estão querendo naquele prêmio sequer lembravam da sua existência antes desse anúncio, posto que, lamentavelmente, Heley tornou-se mais uma notícia trágica em um ano que, se torcido, expeliria um Mediterrâneo de sangue com tantas mortes e tragédias.
Já Anitta, bem ou mal, é uma celebridade que teve destaque em 2017 (inclusive por ter catapultado Pablo Vittar, outra figura que mobilizou todo tipo de paixões), que está sempre na boca do povo já faz alguns anos justamente por ser a cantora de um ritmo que, seja para ser adorado, seja para ser criticado, está na boca do povo, e que tem um apelo grande justamente com o público da revista que a elegeu, o público masculino.
O que me consola enquanto analista político é que ninguém que eu tenha visto criticou a cantora com termos como “vagabunda”, “puta”, entre outros, pois, aí sim, a situação ficaria muitíssimo desfavorável para os detratores, pois Anitta poderia simplesmente pegar esses comentários, fazer um vídeo com bons frames e posar de vítima e de heroína ao mesmo tempo, ganhando talvez defensores improváveis simplesmente pelo fato de ser ofendida com adjetivos os mais terríveis.
O que alegaram, e que não é mentira, é que o defeito de Anitta tem sido, em seus discursos, transitar em uma linha tênue entre o vazio típico das celebridades e o feminismo (modinha) dominante em termos discursivos redes sociais brasileiras e estrangeiras afora, enquanto tantas outras, incluindo Heley, representariam valores de uma mentalidade menos vazia porque mais elevada.
O problema, amigos, é justamente que pelo menos metade do Brasil transita entre isso. Anitta, ao fim e ao cabo, não é só a mulher do ano, mas também, talvez, a representação do presente e do futuro do Brasil. Ficar com demagogia barata invocando o nome dos que já morreram, por mais heroica que tenha sido a sua morte e por mais méritos que haja nas ações que a levaram a perder a vida, não mudará isso e, pior, se mal feito, poderá até agravar a situação. Poderíamos até ver Heley eleita este ano por qualquer revista, mas até quando conseguiríamos evitar o que, parece, é e será inevitável?
Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Até diria que Gustavo Nogy tem razão, mas ironia tem limite.
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Eu, Apolítico – William Waack e a privacidade: Orwell explica

Nesta semana, o jornalista da Rede Globo, William Waack, não só foi o centro de uma grande polêmica, mas também teve seu nome estampado em várias manchetes na internet após o vazamento de um vídeo em que, segundo seus acusadores, teria proferido comentários racistas sobre um motorista que buzinava na rua em frente à Casa Branca segundos antes de o jornalista iniciar sua cobertura ao vivo das eleições americanas do ano passado.

Partindo dessa polêmica, alguns debatedores internet afora levantaram a seguinte questão: por mais que o que Waack disse seja repulsivo, não é preocupante que, no mundo em que vivemos, até mesmo o que falamos em privado possa ser alvo do escrutínio do público? Mais ainda: será que essas mesmas pessoas que hoje estão achando maravilhoso Waack ser o alvo da ira pública não pensam que podem ser as próximas?

A primeira pergunta, confesso, parece-me bem coerente, mas não creio ter nada a acrescentar à discussão fora o que já tem sido dito redes sociais afora: de fato é preocupante, pois a fluidez da noção de privacidade acarreta medo, insegurança, falta de confiança no outro, etc.

A segunda questão, por sua vez, é certamente bem mais interessante, pois até mesmo aceitar as duas respostas possíveis requer, por razões diferentes, uma maturidade (ou talvez um cinismo, como prefiram) à qual o debatedor brasileiro ainda não se acostumou, já que, também por várias razões, recusa-se a aceitar a vida como ela é e, principalmente, as pessoas como elas são.

A primeira resposta é: não, de fato essas pessoas não pensam que podem ser as próximas, quer porque superestimam demais a própria “esperteza” e pensam que nunca serão pegas, quer porque se consideram tão virtuosas que nunca sequer passariam perto de pensar nas palavras erradas, quanto mais de dizê-las. Ou seja, em outros termos, são hipócritas, por mais cruel que isso possa parecer.

Já a segunda resposta só pode ser bem entendida com uma analogia com o genial romance distópico 1984, de George Orwell. No final do livro, após ser capturado junto com sua amante, Júlia, o protagonista Winston, então membro do Partido, confronta seu torturador, O’Brien, membro de um escalão mais alto do que o seu, e lhe pergunta o porquê de ele apoiar o partido incondicionalmente se sabia (como dissera antes a Winston) que um dia seria ele o torturado.

As palavras de O’Brien são devastadoras para o leitor, mas não deixam de fazer sentido: o importante, em resumo, não era o indivíduo, por maior que fosse seu posto, e sim a busca pelo poder e pelo controle do pensamento alheio, que eram os ideais reais do Partido. Qualquer sacrifício em nome da causa seria, pois, uma honra, e não um motivo de desespero.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica ao caso Waack: sim, os que hoje lincham Waack publicamente por algo detestável que disse em privado têm plena consciência de que podem ser os próximos, mas o que importa é que a causa que defendem prospere no fim das contas, não importando quantos deverão ser sacrificados para isso acontecer.

Não é, pois, que essas pessoas não entendam que esse tipo de abalo à noção de privacidade tende a levar a uma sociedade de controle do pensamento, e sim que esses linchadores virtuais querem que isso ocorra. Ou seja, em outros termos, são militantes, por mais cruel que isso possa parecer. Orwell explica.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Já achava a expressão “coisa de preto” abominável bem antes de isso virar militância política massificada.

Espírito de Aniversário 2.0

Sim, amigos leitores, hoje é o aniversário deste que vos fala. O único presente que espero de vós, porém, é que continuem a dar a vossa valorosa audiência, como o fazem já há 3 anos, desde “O Homem e a Crítica”, e que, se possível, também tragam novos leitores para este blog.

Resolvi, então, fazer como no ano passado e dar-lhes, eu mesmo, uma série de presentes, de recomendações, seja de leituras ou de vídeos,  sobre alguns temas relevantes para a sociedade. Sem mais delongas, vamos às recomendações.

PT, Mensalão e outras esquerdices

O primeiro dos temas, certamente, é o recém-terminado julgamento do Mensalão, talvez o maior projeto de poder já revelado até esta data. Para uma série de boas análises, recomendo, além do tradicional blog do Reinaldo Azevedo, os textos do Implicante Flávio Morgenstern sobre todo o caso. Ei-los:

Blog do Reinaldo Azevedo

Advogado de Delúbio diz que mensalão foi união pelo bem do Brasil. Ele pode ocupar o STF – Implicante

Breve análise da defesa dos mensaleiros – Implicante

Dias Toffoli e os palavrões contra Noblat – Implicante

Mensalão: coincidências, loucura e método – Implicante

Dirceu  solta rojões. Hora de FINALMENTE entender o que foi o mensalão – Implicante

O mensalão não foi um caso de corrupção. O mensalão é uma mentalidade – Implicante

Frei Betto: “O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder” – Implicante

Recomendo, também, sobre o mesmo tema, a série de debates promovida pela revista VEJA sobre o julgamento do Mensalão, série esta que, coincidentemente, acabou ontem, 21/03/2014, pouco mais de uma semana após o fim do julgamento. Linkarei apenas o 60º e último debate, mas também recomendo, fortemente, o 39º, o 56º e o 57º, em que se vê, muito claramente, que se trata, definitivamente, de um projeto de poder, não de mero caso de corrupção (o que já seria grave).

Já quanto aos desmandos do atual governo lulo-dilmopetista, recomendo a entrevista do ex-Secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., ao Roda Viva, em que este expõe um pouco do esquema de assassinato de reputações que acabou investigando e do qual foi vítima, em especial ao final de sua passagem pelo segundo governo Lula (2007-2010).

A Imprensa, a Rede Globo e a surpresa ghiraldelliana

O próximo tema que quero abordar nas recomendações é o papel da mídia na sociedade e os limites da liberdade desta mesma mídia de transmitir e divulgar informações. Para este fim, farei algo que, ao meu leitor habitual, soará estranho: Recomendarei um artigo muito bom do intérprete de Rorty Paulo Ghiraldelli Jr. (!!!), já criticado mais de uma vez por essas bandas, sobre a relação entre os universitários e a Rede Globo de Televisão, cotidianamente achincalhada por aqueles, sendo colocada como um instrumento para espalhar informações superficiais.

Para argumentar com o leitor sobre a necessidade desta leitura, pontuo que Ghiraldelli faz um teste que, apesar de não-científico, apresenta resultados muito interessantes sobre o quão sólidos estão, na mente de universitários brasileiros, alguns dos conceitos necessários para se entender, por exemplo, o Jornal Nacional. Apesar, então, de partirmos de premissas diferentes, creio que eu e Ghiraldelli, neste ponto, acabamos por concordar em gênero e número.

Também recomendo um próprio artigo, cujo título é “Mídia, Superficialidade e Liberdade”, que já foi transposto do finado “O Homem e a Crítica” para este blog. Nesse artigo, abordo alguns erros da nossa atual mídia, mas mostro que, apesar de sua superficialidade na maior parte das questões, não é a censura a solução para esse problema. Também o recomendo porque, creio, foi muito pouco lido até agora, apesar de ter sido, em minha opinião, um de meus melhores artigos.

Seguem abaixo, então, os referidos artigos:

Não entende o JN, mas faz pose – Paulo Ghiraldelli Jr.

Eu, Apolítico – Mídia, Superficialidade e Liberdade

A Marcha da Família – “O Retorno”

O último tema escolhido por mim foi a famosa “Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo – O Retorno” (reafirmo, como sempre, que este “O Retorno” não serve nem em título de filme do Batman, quanto mais para um evento sério), que acontecerá, coincidentemente, no dia de hoje, o que, como o leitor imagina pelo artigo que escrevi sobre a tal Marcha, deve me deixar extremamente feliz.

No tocante a este assunto, recomendo, além de meu próprio artigo, os dois artigos já citados neste blog escritos por Luciano Henrique Ayan e um artigo mais recente do amigo Francisco Razzo, que decidiu, por hora, investir um tanto mais em seu blog pessoal (o que, apesar de ser um seu leitor no Ad Hominem, considero ótimas novas), em que expõe como existe, na verdade, uma dissonância entre o real conservadorismo e os objetivos dos marchantes. Aqui estão, então, todos os artigos linkados:

A militância “Luísa Mell” do militarismo de direita – A sorte está lançada – Apoliticamente Incorreto

Por que não apoio “Marcha da Família” e muito menos pedidos por volta dos militares – Luciano Ayan

Mais motivos para eu ser contra os pedidos por “volta de militares” – Luciano Ayan

A ameaça totalitária e os fantasmas ideológicos – Francisco Razzo

Extras

Apesar de não serem relacionados a nenhum dos temas acima, não posso deixar o meu leitor sem uma série de recomendações de boas leituras, seja para a fruição, seja para a compreensão filosófica mais apurada.

Recomendo, portanto, entre outros, o blog pessoal de Gustavo Nogy, outro dos escritores do já citado Ad Hominem. Em seu blog, Nogy pretende abordar, com concisão e brevidade não encontráveis, ao menos por mais algum tempo, neste blog, os mais variados assuntos, indo desde o feminismo até a recomendação dos maiores entre os clássicos da Literatura. Muito provavelmente, em certo ponto, teremos, um com o outro, certas rusgas, mas, enfim, ossos do ofício, e ossos que não o tiram do posto de cronista infinitas vezes melhor do que qualquer cronista que tenha aparecido na grande mídia nos últimos 20 ou 30 anos. Segue o link de seu blog: http://www.gustavonogy.com/

Em segundo lugar, mas não menos importante, recomendo um dos blogs que, creio, está mais subvalorizado internet afora, que é o de meu amigo Antunes Fernandes. Linko-vos, aliás, a um artigo específico e bem recente, intitulado Estupidez é Poder, em que Antunes coloca, na mesa, uma boa hipótese para o porquê de as pessoas, especialmente as massas, aderirem tão fácil a todo tipo de ideologia autoritária ou totalitária em potencial.

Por último, sugiro, a todos os meus leitores, independente de posicionamento político, uma série de livros que andei lendo e que achei, pelos mais diversos motivos, muito interessantes. É possível, também, que venha a comentar sobre algum ou sobre todos estes livros no futuro, e é provável que use algum deles como referência em uma de minhas análises. Segue, então, a lista:

A ética protestante e o “espírito” do Capitalismo – Max Weber

O Nascimento da Tragédia – Friedrich Nietzsche

Ecce Homo – Friedrich Nietzsche

O Sobrinho de Rameau – Denis Diderot

O Filho Natural – Denis Diderot

Jacques, o Fatalista, e seu Amo – Denis Diderot.

That’s all, folks.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Salvou-se do comunismo antes do 20, mas pretende continuar a salvo da direita ao menos até os 60.

 

Eu, Apolítico – Mídia, Superficialidade e Liberdade

Globo: A gente finge que não quer ver por aqui

Já há algum tempo, venho notando uma relação no mínimo curiosa entre militantes ideológicos de todos os tipos e as chamadas “grandes mídias”, representadas, em especial, pela tão ofendida e injuriada Rede Globo de Televisão. O que acontece é que os mesmos que acusam as mídia tradicionais de serem tendenciosas e de manipularem os fatos – o que, convenhamos, é logicamente impossível, pois o que se pode mudar não é o fato ocorrido, mas a visão que dele se tem – não hesitam, todavia, em seguir quase dogmaticamente pseudo-filósofos que só fazem incitar o ódio entre classes, cientistas políticos que chamam de “povo” menos de 2% da população e/ou jornalistas cuja capacidade intelectual se limita a dar-lhes a capacidade de escrever imbecilidades como “Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal” (e isso tudo sem descer a minudências).

Mais estranha, entretanto, é a aceitação sem análise prévia de posições tomadas pela mídia quando esta promove ataques claramente superficiais contra pessoas ou instituições odiadas por esse tipo de palpiteiro calhorda. Acha que estou exagerando ou “manipulando os fatos”, amigo leitor? Vejamos, então, se não foste “vítima” (e as aspas aí estão porque não acredito em vítimas no processo intelectual, mas isso explico em outra ocasião) da superficialidade da mídia, ou talvez de seus próprios dogmatismos e fundamentalismos.

Os Nascituros e o Aborto da inteligência brasileira

Creio não lhe ser difícil, leitor antenado e cético, lembrar-se do famoso e polêmico Estatuto do Nascituro, a que a blogosfera progressista et caterva apelidou, no auge de sua genialidade, de “Bolsa-Estupro” (só se for o estupro intelectual contra os progressistas e ideólogos de butique, talvez o único estupro aceitável) por causa do que constava no 13º artigo do já citado projeto, em que, pelo que se falava, a mulher praticamente ganharia para ser estuprada, o que até fez com que muitos “jênios pogrecistas e liberaus” ironizassem e propusessem que brasileiras fingissem terem sido estupradas para poderem ganhar “um dinheiro fácil”.

Ao me recordar de que, mesmo para poder abortar, uma mulher precisaria levar consigo um exame de corpo de delito comprovando o estupro, percebi que a história estava ligeiramente estranha e resolvi, por conta própria, investigar mais sobre o estatuto, facílimo de achar na internet (e já linkado acima). Eis, então, que me deparo com o famoso artigo, que dispõe o seguinte:

Art. 13. O nascituro concebido em decorrência de estupro terá assegurado os seguintes direitos, ressalvados o disposto no Art. 128 do Código Penal Brasileiro:

I – direito à assistência pré-natal, com acompanhamento psicológico da mãe;

II – direito de ser encaminhado à adoção, caso a mãe assim o deseje.

§ 1º Identificado o genitor do nascituro ou da criança já nascida, será este responsável por pensão alimentícia nos termos da lei.

§ 2º Na hipótese de a mãe vítima de estupro não dispor de meios econômicos suficientes para cuidar da vida, da saúde do desenvolvimento e da educação da criança, o Estado arcará com os custos respectivos até que venha a ser identificado e responsabilizado por pensão o genitor ou venha a ser adotada a criança, se assim for da vontade da mãe.

Nada entendeu, amigo leitor? Vamos, portanto, por partes:

Primeiro: A lei NÃO PROÍBE a vítima de estupro de recorrer ao Aborto, pois diz que o direito do feto à vida é inviolável fora o que consta no Art. 128 do CP, que justamente regulamenta as situações em que o Aborto é permitido.

Segundo: Sabem quanto dinheiro a mãe do nascituro receberá? Se receber – pois, enquanto nascituro, a criança precisa mais de exames e acompanhamento constante, o que, como disposto nos artigos anteriores, será oferecido gratuitamente pelo Estado, do que de dinheiro propriamente -, será uma quantia ínfima, pois todos os serviços ali listados são públicos e, portanto, gratuitos, o que permite que o gasto para manter a criança com vida seja mínimo. Assim sendo, não, não passa sequer perto de uma bolsa-estupro.

Entende, amigo leitor? A questão é que, ao invés de abrir uma discussão com argumentos honestos para se ser contrário a esse estatuto, como, por exemplo, o fato de que, ao colocar o feto como categoria jurídica, torna praticamente impossível a legalização do Aborto e esteriliza ainda mais o debate sobre o tema, tanto a grande mídia quanto a esgotosfera alternativa preferiram bater em espantalho e recorrer às velhas ofensas de sempre aos apoiadores do projeto, dentre elas a de “fundamentalista religioso”, também direcionada aos que apoiaram aquilo (e aquele) sobre o que falarei no próximo tópico, em que nossa mídia inteira demonstrou, por todas as letras do alfabeto, sua superficialidade e desonestidade intelectual.

Direitos Humanos e hipócritas desumanos (ou: Sobre a “Cura Gay” e outras mentiras)

Marco Feliciano “esbanjando homofobia ao propor a Cura Gay”

Sim,  está aí, em uma só imagem com legenda, o maior conjunto de mentiras inventado e disseminado pelas mídias nos últimos 10 ou 15 anos. Se você, que me lê, acreditou sinceramente na história do “homofóbico inFeliciano que propôs a cura gay” e ainda se considera cético, meu amigo, digo que ou está sendo desonesto e já tinha opinião formada de antemão sobre a figura de Marco Feliciano – e, como você acha que ser cético é se posicionar contra a “opressão cristã”,  suponho que deve ter formulado sua genial opinião apenas com base no pentecostalismo declarado do pastor – ou precisa realmente estudar um pouco mais sobre o ceticismo. Bom, enfim, não me preocupo com você, leitor, mas com os fatos. Vamos, então, a eles.

Primeiro, as acusações sobre a homofobia feliciana, que fizeram um bando de neo-ateus e similares semi-letrados desperdiçarem sola de sapato indo ao Congresso Nacional protestar contra um fato já consumado antes mesmo de essas pessoas sequer saberem o significado da sigla CDHM, foram baseadas em frases retiradas descaradamente de seu contexto e em uma homofobia flutuante, que pode significar desde agressões a homossexuais (significado justo) a discordâncias ideológicas contra gays militantes, algo típico da chamada novilíngua, em que se remove ou se ressignifica palavras para restringir o pensamento e a expressão.

Só com isso, já seria possível perceber que, de fato, havia alguma peça que não se encaixava na história de desamor entre neo-ateus + militantes gays e o supracitado pastor. Eis que surge, então, o chamado Projeto de Decreto Constitucional 234 de 2011, ou, trocando em miúdos, a famosa “Cura Gay”, e me faz dar razão total a Feliciano.

O caso é que, além de o PDC não ter sido proposto por Feliciano, mas pelo deputado João Campos, o apelido “Cura Gay” só se justificaria se o projeto em si de fato propusesse algum tipo de tratamento a gays ou se obrigasse psicólogos a  tratá-los, o que não é o caso. Na verdade, o que o PDC 234/11 faz é, simplesmente, como dito já em suas primeiras linhas, sustar a aplicação do parágrafo único do artigo 3º e o artigo 4º, pautando-se no fato de que:

O Conselho Federal de Psicologia, ao restringir o trabalho dos profissionais e o direito da pessoa de receber orientação profissional, por intermédio do questionado ato normativo, extrapolou o seu poder regulamentar.

Ou seja, por mais controverso que fosse o sustar dos dois artigos, isto teria sido feito apenas como correção de um caso em que um órgão do Executivo (CFP) interferiu em ações que eram da alçada do Legislativo. Assim sendo, o nome “Cura Gay” já seria injustificado.

Há, no entanto, um outro argumento sendo usado, e ele toma por base o seguinte parágrafo único do Artigo 3º, sustado pelo PDC 234/11:

Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades

Baseando-se nisso, alguns disseram que o nome está sim justificado, pois, ao anular o parágrafo que fala de cura das homossexualidades, o PDC estaria abrindo um precedente para que esse tipo de procedimento fosse mais uma vez empreendido pela Psicologia e desejado, por exemplo, por pais “homofóbicos” -novamente, o que quer que isto signifique nessa novilíngua plástica e ao mesmo tempo tão restritiva dos militantes progressistas – que quisessem ver seus filhos “se livrando desse mal”.

O detalhe é que não só é consenso para Psicologia a inutilidade de coagir alguém a se curar ou se tratar, o que seria informado a esses pais pela maioria dos psicólogos, como também, além de a maioria dos psicólogos ser progressista (o que significa que provavelmente vão se recusar, mesmo que possam, a tentar qualquer tipo de cura ou tratamento), o significado de “cura” e “tratamento” não é o mesmo, sendo aquela aplicada a doenças e este a casos de reversão de comportamentos e similares. Tanto por isso, não há cura para a timidez ou para os Transtornos Obsessivos Compulsivos, mas há tratamento para ambos.

Sendo assim, apesar de a proibição de “cura gay” também ter sido sustada por essa medida, o que poderia ser facilmente resolvido com uma reformulação do PDC, como a que sugere Luciano Ayan e que incluiria um foco ainda maior na liberdade de escolha do paciente, o nome “Cura Gay”, assim como toda a campanha da mídia contra a figura de Marco Feliciano, são apenas novos espantalhos.

É perceptível, então, que, fora os jogos e malabarismos linguísticos mais eficazes até que os contidos nos artigos de Noam Chomsky sobre guerra e terrorismo, a superficialidade da mídia continua a mesma de sempre – e, neste caso, até mais perigosa, pois envolve a imagem de um homem público e conhecido.

“Então você quer dizer que os jornalistas brasileiros são melhores sofistas do que eu?”

Mesmo com tudo isso dito, resta ainda uma pergunta crucial: se a mídia pode ser uma fonte tão grande de desinformação e se toda ela o está fazendo, qual seria a razão, então, para prezar valores como a liberdade de imprensa e de expressão das mídias?

Censura, uma falácia

Explico-me: a questão é que, mesmo que eu efetivamente acreditasse que todas as mídias são absolutamente mentirosas – o que é logicamente impossível, visto que é impossível mentir 100% das vezes -, isso não seria nenhuma garantia de que qualquer coisa que eu tenha falado em meu texto seja verdade ou seja uma prova de honestidade, além de não ser a postura intelectual de quem informa o que realmente importa na questão.

O fato é que, meu amigo leitor, para aqueles que defendem suas ideias dogmaticamente, e que não têm disposição mental para exercer o mínimo de ceticismo em relação ao mundo e até mesmo a si mesmos, o que importa não são os fatos, mas sim como os fatos se encaixam às suas próprias ideias. Citando este mesmo artigo como exemplo, haveria pelo menos dois tipos de pessoas em quem nada do que eu dissesse surtiria qualquer efeito: Aquelas que rejeitam sistematicamente qualquer proposição (um pouco mais) conservadora e aquelas que rejeitam sistematicamente qualquer proposição progressista – isto, lógico, excluindo aqueles pouquíssimos que se tornaram dependentes das minhas opiniões e que por elas esperam antes de formarem a própria opinião, mas isto é outra história.

Por que isto aconteceria? Porque, de um lado, haveria pessoas que já estariam condicionadas a rejeitar tudo o que eu tivesse escrito, e, de outro, pessoas que aceitariam todo o escrito apenas porque lhes serve. Tendo em vista isso, e considerando que a grande massa das pessoas opera assim, de nada adianta cobrar da mídia a total honestidade e a profundidade intelectual ao dar uma notícia, pois isso, além de não dar audiência alguma, seria como dizer palavras ao vento.

O que acontece é que meu foco aqui não é na informação dada, mas na interação entre leitor e informação. Ou seja, isto significa que, segundo esta linha de pensamento, o problema não está no informador, mas no informado, e o problema só deixará de existir se o leitor dos textos (e considero, aqui, texto como qualquer unidade coesa e coerente de informação) for exposto aos mais diversos pontos de vista.

Concluindo, por maior e mais inerente que seja a superficialidade das mídias, retirar sua liberdade, ao contrário do que pensam os militantes anti-Globo e outros seres bizarros, como os que propõem a “democratização dos meios de comunicação” (o que quer que isso signifique), não é nem será a solução, pois o problema não está nos textos lidos, mas na preguiça mental e na falta de exercitar o ceticismo de alguns leitores. Eis a razão, portanto, de, na imensa maioria dos casos, a censura não passar de falácia.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, diletantemente, toma a rota da Filosofia. Acreditou em “democratização da mídia” por dois anos e nenhum conto de réis, deixou de acreditar por mais de dois neurônios no cérebro.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 21/08/2013