Relativismo

Dessacro – Os Ensaios Profanos – De volta ao relativismo total… ou a coisa pior

Ao leitor sempre imparcial que reclamou do primeiro dos ensaios, este então parecerá um sacrilégio completo, posto que desta vez me inspiro claramente em autores de viés antiesquerdista como Flávio Morgenstern (vide o título) e Olavo de Carvalho para desmascarar mais um comportamento sacralizado pelos cretinos de nossa era.

De críticos literários renomados a estudantes de Ciências Sociais emaconhados, de “filósofos” anticonservadores de boteco a estudantes de Letras enfeitiçados pela retórica de vigaristas de cátedras as mais variadas, o que mais se ouve é que devemos, sempre, relativizar nossos valores para, juntos, lutarmos contra o sistema opressor e construirmos o mundo melhor.

Ao olho menos treinado, parece que esse discurso não poderia ser mais perfeito. Quem, afinal, não quer minimizar a opressão que sofre ou mesmo a dor que pode vir a sofrer por empatia com a opressão contra outrem? Quem, além deste ensaísta, não crê na possibilidade de um mundo melhor?

O problema, contudo, é que uma análise em maior profundidade nos faz notar que há no mínimo três problemas com a fala relativista:

1- de coerência interna do discurso

2- de coerência do discurso com a realidade

3- de coerência dos atos do emissor do discurso com o discurso defendido

Começo analisando bem brevemente o terceiro ponto, que comumente chamamos de hipocrisia.

Por mais que se possa dizer, corretamente, que a hipocrisia do defensor de uma causa não a invalida (aplique-se, aqui, a mesma lógica do ensaio anterior), é no mínimo indício de sua invalidade que nenhum defensor do relativismo total consiga se despir de seus próprios preconceitos quando confronta o outro.

O militante ateísta e multiculturalista mais aguerrido, por exemplo, se esquecer de “relativizar” quando, no Brasil, acha absurdo qualquer religioso declarado, especialmente cristão, ser eleito para uma cadeira no Congresso.

Da mesma forma, o cristão tolerante a todos age de maneira muito estranha ao repudiar fortemente aqueles a quem não-cristãos (!) chamam de fundamentalistas cristãos, fora dezenas de outros casos de falso relativismo total que são denunciados, às mancheias, pela direita facebookiana – e quando dependemos desta para algo, meus amigos, puta que lhos paralho, a coisa está feia.

Esse estranhamento, porém, é facilmente explicável quando analisamos os dois primeiros pontos.

O primeiro ponto faz referência à lógica interna desse discurso, isto é, ao fato de que o discurso relativista contradiz a si mesmo logicamente.

A análise a ser feita é bem simples: ora, se o alvo do dito relativista total é construir o mundo melhor e/ou o melhor dos mundos, isto significa que para ele há, neste mundo, elementos a serem corrigidos, ou seja, elementos piores (ué, mas e a história de “tudo é relativo”?) que precisam ser trocados pelo que é, pasmem, melhor (!).

Do mesmo modo, quem tem como meta o combate à opressão só pode enxergar nela um mau valor, a não ser pelo duplipensamento argutamente descrito por Orwell, posto que não se combate valores considerados bons ou indiferentes, o que por si só já desmonta a fraude da inexistência de valores objetivamente melhores do que outros.

Isto nos leva ao segundo e derradeiro ponto: que o discurso relativista contradiz a própria realidade, seja a realidade objetiva, seja a realidade social, construída a partir das necessidades das comunidades humanas organizadas.

Primeiro, mesmo que não haja forma de se medir objetivamente quais são os melhores valores – e há, já que nenhuma sociedade conhecida permite ou legitima a priori o homicídio injustificado, por exemplo -, a própria pedida dos relativistas para que analisemos os fatos de acordo com seu contexto revela exatamente que consideram (muito) melhor analisar com contexto do que analisar sem contexto. Ou seja, há, no mínimo, um valor melhor a se seguir, ainda que análise social não seja feita por todos.

Segundo, sociedade nenhuma funciona ou sobrevive relativizando tudo. Por isso foi necessário, aos regimes que descartaram o divino, sacralizar o Estado. E por isso, também, nossos relativistas anti-opressão, nossos quadrados redondos, ainda fazem um silêncio quase sepulcral em relação ao que eles próprios chamariam de “ateofobia”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Jura que “sejerá menas” quando encontrar um relativista total de fato. Acha, porém, que contar com isso é o mesmo que declarar a crença em quadrúpedes sem encéfalo.

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