Religião

Algumas razões pelas quais abandonei o ateísmo militante

Motivado pelo amigo Pirula em seus dois vídeos recentes sobre a questão da Cristofobia, que é mais uma derivada dos recentes embates entre militantes cristãos e militantes LGBT, decidi compartilhar com o leitor alguns pensamentos sobre por que motivos abandonei o ateísmo militante que caracterizou alguns dos meus escritos nos primórdios (ou nem tanto) de meu antigo blog, agora vivo novamente, O Homem e a Crítica.

Vendo alguns dos comentários, selecionei alguns pontos do pensamento ateísta militante para destrinchar neste texto. Vamos a eles.

Da tirania do livre-pensamento

Um ponto estranhíssimo do atual ateísmo militante é expresso em um dos comentários:

“O Brasil por ser um país bastante atrasado e manipulado pela crenças cristã, poderá levar vários séculos até a maioria se tornar livre pensadores.” (sic)

Dou enfoque à última expressão. Desconfio que, ao escrever seu comentário, o indivíduo não percebeu o real peso da expressão “livre pensador”, que pode ter dois significados, pelo menos, diferentes: ou se trata de um pensamento realmente livre e independente, ou se trata de pensamento antiteísta puro e simples. Neste caso, usa-se um hífen e se nomeia o sujeito adepto desta corrente como livre-pensador.

Dado o nível de conhecimentos sobre a língua pátria por parte do comentador, considerarei a expressão como ambígua e a interpretarei de duas formas.

Se o caso for o primeiro, o comentador em questão (e não é nem de longe o único de sua espécie, como é possível ver em quase todos os posts de páginas como a ATEA) está simplesmente iludido ou está sendo deliberadamente desonesto, posto que qualquer um que conheça o mínimo sobre psicologia das massas* sabe que uma das características mais marcantes das massas (ou, como diria nosso sociólogo de bar, da “maioria”) é justamente a do pensamento massificado, automatizado e, mais ainda, manipulado (!) por uma série de pilantras aos quais confiaram, quando não seu voto, sua mente e sua vida. Sempre haverá, pois, crenças que manipulam países, mesmo que essas crenças não tenham qualquer fundo religioso.

Assim sendo, falar em “maioria” e “pensamento independente” ao mesmo tempo é, se não ingenuidade ou desprezo à lógica, recorrer ao que Orwell descreve em seu fantástico “1984” como “duplipensamento”, isto é, defender duas crenças contraditórias ao mesmo tempo para ganhar, com ambas, poder político.

Livre pensamento por parte da maioria é, pois, uma ilusão, seja em sentido freudiano (ou seja, algo que se deseja mesmo sem saber se é possível ou verdadeiro ou não), seja em sentido orwelliano.

Se o caso for de antiteísmo, a análise fica ainda mais simples, pois o que temos é só um esboço da tirania mental de uma minoria de ateus militantes contra uma maioria que, por diversos motivos, entre eles a própria tendência das massas à barbárie quando deixadas sem guia, PRECISA de religião em sua vida.

Nada diferente, portanto, do que os setores religiosos mais extremistas propõem. Só mais utópico ou, como desconfio, mais desonesto.

A confusão entre Estado e sociedade: os laicistas contra-atacam

Também é perturbador o número de ateístas militantes que vêm apelando sem dó nem piedade (e, mais ainda, sem vergonha) ao argumento de que, como o Estado é laico, o papel das religiões, principalmente das majoritárias, na política deveria ser minimizado ou mesmo tornado completamente nulo e inexistente.

Esses mesmos sedizentes guardiões da racionalidade, porém, estão apenas brigando contra os fatos, pois, em uma sociedade moldada por dogmas religiosos cristãos e, em menor extensão, por dogmas de outras religiões, é simplesmente impossível que a religião nunca influencie na política.

É uma questão axiológica: é claro que tomamos nossas decisões e agimos baseados nos valores que carregamos conosco, e isso, no caso, não só inclui como também faz se destacarem valores religiosos ou antirreligiosos. Se consideramos também política como inerente ao homem enquanto ser social, ou seja, que todo ato é um ato político, é só juntar dois mais dois e somar quatro ou, melhor dizendo, perceber que, mesmo muito indiretamente, a influência religiosa em todo tipo de decisão política é inescapável.

Outros preferem propor uma falsa questão, que é a de que há uma bancada cristã, mas não uma bancada de outras religiões. Ora, além de não estar proibido que alguém se candidate em nome de uma comunidade religiosa específica** e de qualquer lei que privilegie descaradamente uma religião poder ser dada como inconstitucional, a real questão é: por que as outras religiões ainda não se organizaram nesse sentido?

É claro que, em tese, um deputado deveria representar todos. O problema, porém, é que quem quer representar todos, em política, acaba representando nenhum. É mera questão de prioridade. Ou, sei lá, de saber cobrar os próprios direitos sem criminalizar estratégias políticas que não sejam ilegais.

Mitofobia

Por fim, outro traço que percebi no ateísmo militante é o desprezo pelo aspecto mitológico das religiões, tratando mitologias como meros conjunto de fábulas que os pais contam aos filhos antes de dormir para forçá-los à obediência.

Também segundo essas pessoas, seria justamente o apego ao pensamento baseado no mito, e mais especificamente nos mitos de origem abraâmica (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), que teria  deixado o país à margem quando o assunto é desenvolvimento social.

Economicamente falando, nada é mais simplista e mais batido do que atribuir a um aspecto ideológico isolado as falhas de um sistema político todo, sendo que esse “argumento” simplesmente desconsidera que a maior economia mundial e um dos países mais desenvolvidos do mundo até hoje é justamente o extremamente puritano (ou seja, extremamente apegado à mitologia cristã) Estados Unidos da América, além da anglicana Inglaterra, das católicas Espanha e França e, historicamente, do império romano pagão e do império persa zoroastrista, entre outros.

Por outro lado, filosoficamente falando, já se incorre em um erro ao se desprezar o conceito de mitologia. Mitologia, na verdade, não é “conjunto de contos de fada para contar ao seu filho antes de dormir para mantê-lo obediente” ou “mentiras para manipular o povo”, mas um conjunto de narrativas de valor moral que servem de guia para a conduta dos indivíduos de determinada sociedade em que, antes, tudo o que havia era o abismo para o qual, se olharmos em excesso, nos absorverá de modo inescapável e terrível, o que não é benéfico para qualquer sociedade que queiramos examinar.

Aliar-se a quem divulga as três falácias aqui citadas só pode, portanto, servir como atestado de desonestidade intelectual.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Há uma grande chance de passar a ser chamado de “ateofóbico”  ou de “cristão” pela esquerda ateísta imbecil depois desse texto. Como ateu, só pode agradecer pelos elogios.

*Recomendo o livro de Freud, “A psicologia das massas e a Análise do Eu”, para quem quiser se aprofundar um pouco mais sobre o assunto. Posteriormente, “As Origens do Totalitarismo”, de Hannah Arendt, é não só recomendável como fundamental.

** Poucos sabem ou parecem saber, mas o conceito de Estado laico se refere a decisões administrativas e legislativas a serem tomadas, e não à mera participação política em si. O indivíduo religioso tem, pois, pleno direito à participação política. Ou a esquerda “democrática” quer tornar inelegível 90% da população?

Sobre críticas e delírios

Olá, amigos leitores, e este é mais um de nossos papos.

Bom, depois de algum tempo sem refutar alguma besteira antirreligiosa, encontrei, por intermédio do ilustre amigo Luz Nas Trevas, um texto postado no site da Sociedade Racionalista por um tal Rodrigo Santos (se ele quiser responder, será devidamente ouvido), em que este se propunha a fazer uma Crítica ao fanatismo religioso cristão.

(mais…)

Leonardo Sakamoto e o relincho neo-atoa: “Se Deus quiser, o Brasil ainda terá um presidente ateu”

Olá, amigos leitores, este é mais um dos nossos papos juntos, e desta vez vou apresentar-lhes algo mais obsceno do que pornografia zoofílica: o blog do (des)cientista político, jornalista e professor da Progressista Universidade Comunista, digo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Leonardo Sakamoto, cujo Lattes não vale nem a pena procurar.

Sim, é aquele mesmo Sakamoto cuja Filosofia vai desde afirmar que ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal a pregar que, já que as escolhas de produtos dentro da ordem capitalista são limitadas, a liberdade não existe e não há motivo para não se destruir o Capitalismo (eis um: manter o mundo a salvo do Comunismo, mas não é isso que quero discutir aqui). Pena que, se fosse realmente discutir tais pensamentos em toda a sua complexidade, precisaria, além de muitos sacos de vômito, de um livro, e não um artigo.

Sakamoto ostentando “Filosofia” e matando de tédio a estátua de Drummond

Hei, porém, de segurar toda a minha ânsia para apresentar ao leitor algo que, talvez, seja o auge que a filosofia sakamotiana já tenha atingido – e o faço única e exclusivamente porque Flávio Morgenstern, do Implicante, ainda não o fez (e pelo visto não fará, pois esperar um novo artigo em sua página está mais difícil do que acreditar em mula-sem-cabeça).

Desta vez, depois de ficar indignado ao ler em um artigo de Mônica Bérgamo que certo bispo disse acreditar ser natural que um pastor evangélico possa ser Presidente da República no futuro, Sakamoto resolveu assumir de vez seu neo-ateísmo e seu coitadismo antirreligioso e escrever, em algo que se convencionou chamar de artigo, sobre as suas esperanças de ter, no futuro e “se Deus quiser”, um presidente ateu, o que quer que Sakamoto entenda por isso.

O artigo, intitulado Se Deus quiser, o Brasil ainda terá um presidente ateu, começa com tom indignado:

Em resposta à Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo deste domingo (21), o bispo Robson Rodovalho, líder da igreja “Sara Nossa Terra”, afirma que acredita ser natural o país ter um evangélico na Presidência da República no futuro.

Pergunto-me, com toda franqueza, qual seria o problema de o bispo ter essa crença na posse. Afinal, com o crescente número de evangélicos no Brasil, apesar de todas as suas cisões, não é mesmo de se surpreender que um deles ascenda à presidência.

Como, porém, explicação é coisa para os fracos, Sakamoto apenas nos informa que:

Se não me falha a memória, o Brasil teve seu primeiro presidente protestante na figura do presbiteriano Café Filho, que assumiu o país por pouco mais de um ano após o suicídio de Getúlio Vargas, não tendo sido eleito para a função. O ditador Ernesto Geisel era luterano, mas também não foi eleito pelo voto popular. A grande novidade seria um governante protestante que fosse evangélico neopentecostal e suas liturgias da prosperidade e da cura.

Fora o fato de um dos dois presidentes, Café Filho, ter tido, em comparação a seu antecessor e a alguns de seus sucessores, relevância zero para o cenário político brasileiro e de ter sido eleito como vice-presidente quase que na esteira de Getúlio Vargas, e não por ser presbiteriano, e de Geisel não ter papagaiado seu luteranismo por aí, adoraria saber qual é a relevância das “liturgias da prosperidade e da cura” para julgar se alguém será ou não um bom presidente. Estaria Sakamoto tratando todo pentecostal ou neopentecostal como um mero fanático religioso sem cérebro? Ou seria essa uma forma freudiana de projetar a falta de neurônios de Sakamoto em um grupo do qual ele, declaradamente, não gosta?

Café Filho para Sakamoto: “Eu não boto uma hora na lan para ler isso”

Gostaria também de saber qual é a relevância dos dois parágrafos a seguir para o caso:

O número de católicos cai (de 63%, em 2010, para 57%, hoje, segundo o Datafolha) e o de evangélicos não apenas cresce em número (de 24% para 28%), mas também em presença na política partidária. Marina Silva, membro da Assembleia de Deus, hoje está em segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos para a eleição presidencial no ano que vem.

E, se por um lado, há parlamentares evangélicos que vociferam contra a dignidade humana, mas outros que atuam na defesa dos direitos das minorias, mesmo nos casos em que há conflito com sua religião. Da mesma forma que ocorre com muitos católicos.

Aliás, também adoraria saber como Sakamoto se formou em Jornalismo sem, pelo visto, passar por qualquer disciplina de Produção de Textos, pois o segundo parágrafo está deficiente quanto aos elementos de coesão, o que, neste caso, compromete também a coerência. Afinal, qual é a relação entre parlamentares evangélicos que “vociferam contra a dignidade humana” (o que quer que isso signifique na novilíngua sakamotiana), outros que defendem “os direitos das minorias” e a previsão do bispo?

Parece, então, que o mistério continuará, pois o blogueiro “pogrecista” muda completamente de assunto e mostra, de novo, mais indignação:

Além do mais, no fundo, isso não tem importado muito. Uma vez chegando ao poder, independentemente de sua crença, políticos atendem às demandas de grupos religiosos conservadores com vistas à chamada governabilidade ou visando às eleições.

Pena para ele, porém, que exista algo chamado “promessa de campanha”, que os evangélicos e outros conservadores não esquecem, o que deveria acontecer também com todo o eleitorado brasileiro que votou em uma candidata que prometera, em carta aberta, não se movimentar politicamente em prol da legalização do Aborto, mas que o faz praticamente desde que assumiu a presidência.

Digo, aliás, que é muito bom, no atual panorama, que ainda exista alguém capaz, tanto em política quanto em retórica e argumentação, de questionar a inviolabilidade e a inquestionabilidade de certas causas dos progressistas. Sakamoto poderia, então, argumentar, como fez durante um bloco de sua entrevista ao Provocações, que estou tentando esconder meu viés conservador sobre as coisas. Lamentavelmente, de novo para ele, nunca escondi de ninguém, por exemplo, minha favorabilidade à legalização do Aborto, algo que qualquer conservador rejeitaria, com certa razão, peremptoriamente (Apesar disso, assumo, estou reconsiderando essa posição, e já reconsiderei minha posição sobre as religiões e sobre outras histórias que contei no artigo linkado acima).

O que não reconsidero, no entanto, é minha postura contrária à psicopatia de certos progressistas que têm tanta certeza da veracidade de seus dogmas que se acham no direito de julgar como errada toda e qualquer ideia conservadora e todos os que a eles se associem. Pelo visto, Sakamoto é um desses progressistas.

Mas, caros amigos, não pára por aí, pois Sakamoto trouxe, como exemplo do “rabo-preso” entre políticos eleitos e movimentos conservadores, o que chamou de “combate à homofobia por meio da educação”, que, segundo ele:

avançou pouco na atual administração federal, menos por conta da pressão de deputados da bancada evangélica e mais por esse cálculo político.

De fato, adoraria saber quem são esses deputados evangélicos que, pelo visto, não pressionaram o governo por conta do absurdo kit-gay e da ideia estapafúrdia de que uma educação que sequer dá conta de ensinar leitura e cálculo aos aprendizes deveria perder tempo com valores que devem ser aprendidos no ambiente doméstico, pois já saberei em quem não votar nas próximas eleições. Afinal, de “políticos com o rabo preso” e “que posam de imparciais” já estamos cheios, ou, pelo menos, é o que o próprio Sakamoto deixa implícito em seu artigo.

Falando em seu artigo, aliás, eis mais uma informação desconectada do contexto da previsão do bispo:

A pesquisa Datafolha, deste domingo, mostra que os católicos podem ser menos conservadores que os evangélicos em alguns temas (como a adoção por casais do mesmo sexo), mas ainda assim, na resultante final, a nossa sociedade não se coloca de forma progressista com relação aos direitos individuais.

E uma pergunta que não quer calar: Exatamente por qual motivo nossa sociedade – ah, essas entidades sempre misteriosas e nunca bem delimitadas – deveria se posicionar “de forma progressista” ante os direitos individuais? Sakamoto deve se esquecer de que existe o outro lado, o conservador, da política, apesar de ele mentir dizendo que “não tem problemas com blogueiros conservadores”.

Está cansativo, amigo leitor? Pois é, concordo, mas agora é que as coisas ficam interessantes, pois Sakamoto se lembra do que pretendia discutir e afirma que:

Particularmente, ficarei chocado no momento em que o Brasil eleger um presidente declaradamente ateu que não precise esconder isso de seu eleitor com medo que o seu caráter seja, estupidamente, julgado por conta disso.

Ao que parece, o embusteiro progressista parece se esquecer de que, até que se prove o contrário, não existe moral ateia e, portanto, os limites morais de um ateu dependerão única e exclusivamente de seu humor e de sua vontade, o que faz com que a preocupação acerca de seu caráter, apesar de na maioria dos casos exagerada, seja, sim, plausível. Mas, pelo visto, os conhecimentos de Sakamoto sobre Filosofia da Religião são rasteiros e guiados por um senso comunista de espiritualidade (ou seja, materialismo (!!!) dialético aplicado à religiosidade), pois, em seguida, fala que:

(Tenho certeza que FHC e Dilma são, no máximo, agnósticos não-praticantes. Mas tiveram que ajoelhar e dizer amém. E o agnóstico Getúlio Vargas, que tomou o poder através de um golpe, instituiu o ensino religioso nas escolas públicas, em 1931, em nome da governabilidade.)

Primeiro, como ateu agnóstico, gostaria sinceramente de saber como se pratica o Agnosticismo. Será que devo ficar papagaiando “não sei se Deus existe” por aí? Ou será, talvez, que “praticante” seja um rótulo que só se deva dar a quem tem a obrigação de seguir uma série de ritos e dogmas  para se aproximar da divindade?

Segundo, na época do agnóstico Getúlio Vargas, e ainda na nossa, e também em todas as épocas conhecidas, havia uma ligação muito forte entre senso de moralidade e religiosidade – o que não significa que todo ateu é imoral, apenas que não há moral que se sustente baseada em ateísmo-, o que fazia e faz com que muitos educadores, como os que elaboraram a LDB de 1996 (chupa, Sakamoto!), se movimentassem para tornar pelo menos facultativo o ensino religioso em escolas públicas. Oh, estariam então os educadores de 1996 pensando em “governabilidade”?

FHC, o “neoliberal de direita”, não curtiu Agnosticismo e Ateísmo

Sakamoto, porém, prefere continuar com a ladainha progressista e parafraseia o que disse dois parágrafos antes:

O fato é que o Brasil aceitaria mais facilmente alguém que acredita em Deus mesmo com uma fé diferente da sua do que alguém que não acredita ou não tem certeza disso.

E o fato é também que o Brasil tem boas razões para isso, e elas se chamam Joseph Stalin e Mao Tsé-Tung. Para Sakamoto, no entanto:

No dia em que isso ocorrer, creio que atingiremos a maturidade como democracia. 

Isso porque, é óbvio, maturidade democrática tem tudo a ver com as pessoas descartarem completamente a moral que aprenderam e começarem a trocar o minimamente certo apreço dos evangélicos pelas causas cristãs pela muito duvidosa conduta de ateus (na verdade, provavelmente neo-ateus, mas finjamos que os eleitos não defecarão pela boca sobre as religiões) acerca de assuntos morais. É, de fato, não consigo entender tanta complexidade filosófica, também expressa quando diz que:

Não porque ateus são melhores, longe disso.

(Btw, Tio Stalin curtiu esse seu quase-deslize.)

Por fim, Sakamoto volta ao velho blá-blá-blá de militante progressista e diz que isso seria melhor

pelo fato de que teremos compreendido que, se o governante zelar pela dignidade e igualdade de direitos de todas as crenças, sua fé pessoal é tão importante quanto o time de futebol pelo qual torce.

Pena, porém, que democracia não se resume a igualdade de direito das crenças nem a progressismos baratos. Faz parte da democracia, também, a organização política e a conquista do eleitorado. Se um ateu apresentar propostas atraentes e não for um prosélito antirreligioso (que deve ser o que Sakamoto entende por ateu), não sei se nossa população realmente o tiraria do bolo. Aliás, qualquer palavra sobre isso é mera especulação e, até que se prove o contrário, reclamação vazia progressista.

Enfim, era isso, amigos leitores. Sei que o artigo ficou cansativo, mas isso se deu porque refutei parágrafo por parágrafo de um autor que, pelo visto, acha que retórica e prolixidade andam juntas. Digo sinceramente que, se tivesse escrito o texto sem o 2º, o 3º, o 4º, o 5º e o 6º parágrafos, teria sido bem mais convincente.

Aproveito, também, para convocar outros ateus, dentre eles o libertário Luciano Takaki, o conservador de direita Renan Felipe dos Santos, o liberal de centro-direita Rogério Jorge da Silva Figueiredo e o conservador de esquerda Luz nas Trevas, além de eu mesmo, para se candidatarem, no futuro, à presidência do país. Ou será que a religião de Sakamoto, o marxismo heterodoxo, não lhe permitiria votar em quem põe em dúvida aquilo que ela prega? Se não for o caso, agradeço pelo voto antecipadamente.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e diletante da Filosofia. Acha que a lei deveria punir mais seriamente o crime de lesa-inteligência.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 30/07/2013

Inocência, Renúncia e um Festival de Besteiras

A Presunção de Inocência, um dos principais pilares da justiça penal brasileira, consiste em fazer com que o réu de qualquer julgamento, por qualquer crime, não precise provar sua inocência, deixando o ônus da prova de sua culpa (ou seja, de provarem que o réu é culpado) com a acusação. Assim sendo, podemos resumir esse princípios, também um dos que alicerçam o Estado Democrático de Direito, na famosa frase “todos são inocentes até que se prove o contrário”. Disso deriva também o famoso princípio “in dubia pro reo”, ou seja, em caso de dúvida no julgamento, deve-se inocentar o réu ou favorecê-lo de alguma maneira.

Hein? Não entendeu nada, leitor? Afinal, por que eu fiz esse (porco) resumo de um princípio jurídico, se nem estudante de Direito sou? É isso que eu vou tentar explicar agora.

Para explicar o porquê da explicação do começo do post, é preciso lembrá-los de que, além de eu ser um dos maiores defensores desse princípio em qualquer caso (pois considero as “emoções”, em certos tipos de julgamento, extremamente nocivas ao bom desenrolar do julgamento em si), eu já falei sobre este tema aqui neste blog, sendo a postagem, que se chamava Justiça e o Brasileiro: Pouco a ver, a segunda e última participação que o meu “alter ego cronista” fez por aqui.

Enfim, se vocês consultarem o post, que é de péssima qualidade literária para uma “crônica”, verão, de qualquer jeito, a minha posição sobre o assunto bem claramente, ou seja, que eu defendo, como já disse antes, que qualquer réu, mesmo os que mais nos causam raiva pela natureza de seus crimes, tenham o direito à defesa e à pressuposição de inocência.

Mas, por que estou dizendo tudo isso? De fato, devo dizer que os amigos leitores entenderam perfeitamente o meu propósito e responderam positivamente ao post. Porém, eu achei que isso se desse porque, como quem leu aquele post eram pessoas esclarecidas, esse esclarecimento trouxe-lhes a maturidade para não me tacar pedras. Pensei, portanto, que as pessoas “esclarecidas”, que dizem ser maioria na Internet, todas soubessem da necessidade de existência e aplicação desse princípio.

No entanto, após ver alguns comentários em um vídeo do vlogger Yuri Grecco (Eu,Ateu), percebi que minha tese estava completamente errada. Acho que não preciso dizer aos meus leitores que Yuri Grecco tem o costume de criticar a religião tradicional, certo? Pois é, exatamente por isso que no título deste post tem a palavra “renúncia”. Leitores, o que aconteceu ainda neste mês com essa palavra?

Exatamente, a renúncia do Papa Bento XVI. Pouco após a notícia ter sido divulgada, o “famoso” vlogger ateu (neo-ateu, melhor dizendo) resolveu ir lá e descer a lenha na figura do Sumo Pontífice. Não quero discutir, entretanto, os argumentos do Yuri, pois outro vlogger, o famoso Conde Loppeux de La Villanueva, já discutiu isso perfeitamente. O que quero discutir, de fato, é o festival de besteiras que eu li dos seguidores do Dawkins brasileiro e até mesmo de fontes literalmente acadêmicas.

A primeira coisa de que ouvi falar, mas não no vídeo do vlogger neo-ateu, foi que “a renúncia do Papa, por este ter demonstrado fraqueza, compromete o dogma católico da infalibilidade papal”. Surpreendentemente, o autor dessa frase é o mais “formado” dos que disseram besteiras. Cabe explicar aqui que a infalibilidade papal não se refere à figura do Papa em si (ou seja, no nosso caso, do ser humano Joseph Ratzinger). Se fosse isso,” não seria infalibilidade papal, seria invencibilidade papal” (Assim Falava Emerson Oliveira). No caso, esse dogma se refere única e exclusivamente a questões teológicas, ou seja, a questões de fé.

Explicando melhor, se o Papa tivesse um ataque de loucura ou de amnésia completa de tudo que conhece sobre ciência e dissesse, com viés científico, que a Terra é triangular, qualquer católico teria o direito de corrigi-lo, pois o Papa não o disse como questão de fé, exatamente porque, a não ser por certos grupos criacionistas extra-Igreja, a Igreja Católica não se foca nesse tipo de questão. No entanto, se o Papa disser, com um viés teológico (ou seja, da fé), que o adultério é o pior pecado a ser cometido pelo verdadeiro cristão, esses mesmos católicos deverão simplesmente acatar o que diz o Sumo Pontífice, pois foi a ele revelada a palavra divina sobre o assunto.

Fica simples, então, ver que quem falou besteira sobre a infalibilidade papal ou esqueceu de tudo o que aprendeu na Academia, ou palpitou em assunto que não conhecia. Mesmo assim, em se tratando de um acadêmico, fica difícil justificá-lo, pois até mesmo na internet, em discussões religiosas, uma das primeiras coisas que alguém aprende ao discutir com um católico (e coisa que nem a famigerada ATEA do Facebook deixa de saber) é exatamente o real sentido do dogma da infalibilidade papal.

Mas, enfim, essa não é a besteira que me preocupa exatamente porque teve um monte de gente que a refutou e porque não foi imputada nenhuma grave acusação criminal ao Papa. As besteiras que me preocupam são, de fato, aquelas que dão rótulo criminoso ao atual chefe de Estado do Vaticano. É valendo-se do fato de Ratzinger ser chefe desse país que alguns relembram os casos de pedofilia noticiados pela mídia e acusam Ratzinger de “acobertar pedófilos”, coisa injustificável para alguém que teria “poderes absolutos” dentro do Estado do Vaticano.

Com relação a isso, doo caracteres para Mário Sabino (se bem me lembro, corrijam-me se estiver errado) falar sobre o caso em seu Especial, chamado “COMO UM RAIO DIVINO”, sobre a renúncia do Papa, feito para a revista VEJA em sua 2309ª Edição, que foi tornada pública em 20 de Fevereiro de 2013. Sabino diz:

São principalmente três as razões da amargura de Bento XVI, no que concordamos mais argutos vaticanistas da Itália. Em primeiro lugar, ele se sentiu abandonado por cardeais, bispos e padres em sua disposição de dar um basta nos recorrentes casos de pedofilia que conspurcam a Igreja. O corporativismo foi mais forte que o Papa. Isso ficou claro em 2010, na Irlanda. Descobriu-se que milhares de crianças haviam sido abusadas por sacerdotes, entre 1996 e 2009, com o silêncio cúmplice dos bispos. Bento XVI escreveu uma Carta Pastoral aos católicos da Irlanda, conclamando-os a reagir e censurando os bispos do país por terem acobertado os pedófilos. Inúmeros processos foram abertos no Vaticano, mas nenhum corre com a celeridade devida. Conferências episcopais de outras nações também se fizeram de surdas aos apelos papais, para grande angústia de Bento XVI, que tinha no combate à pedofilia uma cláusula vital de seu pontificado” (grifos meus)

Desse trecho, podemos extrair que, de fato, as duas acusações (de acobertar pedofilia e de poder ter feito mais  contra esses padres) não fazem sentido, pois, como bem disse o repórter, além de ser o combate à pedofilia o foco de Bento XVI, os pedófilos em questão estavam na Irlanda e, fora o fato de faltarem todas as provas contra eles (impedindo a excomunhão e uma prisão imediata), o Papa também nada poderia fazer, pois os pedófilos estavam em um país que, se bem me lembro, não pôde extraditá-los para o Vaticano (para responder ao processo) exatamente por eles serem nascidos na Irlanda. Fora isso, é justamente o fato de a anti-Pedofilia ser a bandeira principal de Bento XVI que contradiz a acusação de ele querer, por algum motivo, ser conivente com a pedofilia.

Mas, como eu disse, meu foco e minha preocupação aqui são o fato de, por questões puramente ideológicas, as pessoas se esquecerem de que até seus inimigos políticos têm o direito à defesa. Com o Papa, que não chega a esse nível, não deve ser diferente, mesmo se fosse ele diretamente o “pedófilo-réu”.

Bom, há também a acusação de o papa ter sido um nazista, mas, sobre isso, deixo a refutação por conta do meu já citado amigo Emerson Oliveira. Porém, antes de finalizar, acho que, já que abordei a questão, devo dar também minha opinião sobre a renúncia de Ratzinger. Sendo bem sucinto (mas bem sucinto mesmo), não me importo muito com essa renúncia no campo religioso, pois não sou católico. O que me preocupa, de fato, foram as besteiras ditas por gente altamente qualificada, algumas das quais refutei aqui.

Aliás, a situação dos nossos “filósofos” e “intelectuais” anda tão boa que foi justamente o comentário brevíssimo do comentarista esportivo (!!) Neto (!!!), dos Donos da Bola – BAND, tido como um anti-intelectual, que acabou sendo o melhor  tanto em termos de precisão quanto em termos de profundidade teológica (!!!!!!!). Neto, de fato, não precisou adquirir grande conhecimento acadêmico para perceber, melhor que muitos ditos acadêmicos, que, como ele mesmo disse, “o Papa renunciou por humildade, por conhecer seus limites, e isso, ao contrário do que fazem muitos aí que nem sabem do que falam, é um exemplo a ser seguido”. E, quando o melhor comentarista político sobre um assunto é Neto, meus amigos, isto significa que, claramente, algo não vai bem.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, olaviano-platonicamente falando, estudante diletante da arte dos “amantes do espetáculo da verdade”. Já deve ter visto as piadinhas de associação de católicos a práticas de Pedofilia mais do que trocou de meias. Imagina, então, como seria se “calúnia” fosse levada a sério no Brasil.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 21/02/2013

Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Luiz Felipe Pondé) – Um Resumo

Olá, amigos leitores, como vão vocês? Vamos começar outro daqueles nossos papos?

Hoje, vou falar brevemente com vocês sobre o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ensaio de Ironia, do filósofo e professor da FAAP e da PUC-SP Luiz Felipe Pondé.

Como já adiantei no último post, eu achei esse livro de uma clareza e de uma maestria tão grandes que resolvi não só fazer esse resumo com os pontos principais como também usar esse e outros escritos do Pondé nos meus futuros posts, incluindo aquele que será o segundo post da minha série sobre religião, sobre Agnosticismo.

Neste post, porém, vou, basicamente, contar, com mais detalhes do que fiz no último post (Espírito Natalino), sobre o que se trata o livro. Como eu já disse lá, esse livro, ao contrário do que o nome pode acabar sugerindo, não é um livro sobre história da filosofia, ou sobre sociologia da filosofia (se isso existe, rs), ou enfim. Como o próprio Pondé diz, o objetivo desse livro (genial) é o de fazer uma crítica voraz aos valores que estão sendo incluídos na nossa sociedade pelo Politicamente Correto, que o Pondé chama “carinhosamente” de Praga PC (ou Praga Politicamente Correta).

Como o livro tem, basicamente, 25 crônicas do filósofo (contando com o Apêndice), contarei apenas as histórias das que mais me chamaram a atenção e listarei as outras ao final deste texto. Ainda assim, insisto, como quase sempre faço nos meus posts, que o leitor não só pode como tem uma visão diferente da minha, o que significa que ele talvez ache outros pontos interessantes do livro que eu não percebi. Portanto, se lerem o livro e gostarem de outra coisa, não hesitem em conversar comigo pelo blog ou por outro meio, pois é possível que eu faça um post com as impressões dos leitores sobre o livro. Também há algumas crônicas sobre as quais falarei apenas no segundo “Dialeticando com Luiz Felipe Pondé”, por uma questão de propósito, mas isso vocês entenderão logo que verem o estilo que terá esse post.

Enfim, hora de começar. Antes disso, porém, quero fazer uma ressalva IMPORTANTÍSSIMA. Se você é o tipo de cara que tem a mente tão infectada pelas ideias de “esquerda” (frise-se as aspas) a ponto de achar que simplesmente discordar do modus operandi do movimento LGBT é ser homofóbico, por exemplo, por favor, não perca seu tempo lendo esse livro nem perca o meu tempo comentando comigo que o Pondé é racista, antissemita, anti-islâmico, homofóbico, ateofóbico ou todo esse mimimi, porque ele não é. Inclusive, ele reafirma seu completo asco a piadinhas de cunho racista ao longo do livro, sempre dizendo que elas são a maior prova de “falta de educação doméstica”.

O primeiro escrito sobre o qual quero falar é o segundo na ordem do livro e se chama Aristocracia – Os poucos melhores carregam o mundo nas costas (lembrando que cada um desses títulos que vou listar são os dos capítulos, não dos textos especificamente). Aqui, o filósofo nos presenteia com a concepção original do termo “aristocracia”, que seria o governo não dos mais ricos, mas sim dos melhores, dos mais virtuosos, e que, na verdade, a culpa de esse tipo de governo não dar certo foi exatamente a persistência dos mais ricos em corromper esse ciclo da virtuosidade.

Apesar de eu achar essa ideia um pouco utópica, ela é importante para entender o fatality que o Pondé dá nos “democratas” no terceiro escrito, chamado A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas. Nesse texto, Pondé, ao mesmo tempo em que admite ser a democracia a forma “menos pior” de se governar, pois é a que traz um certo equilíbrio que deixa a busca pela virtude mais acirrada, critica duramente não só o “espírito democrático” e esquerdista criado por marxistas e roussenianos para colocar o povo como santo e digno de toda a glória, mas também a ideia de que todos são absolutamente iguais e que, portanto, têm as mesmas capacidades de opinar sobre as coisas com autonomia, o que, ao falar que a democracia, ao invés de criar conhecimento, criou a opinião pública, Pondé mostra ser uma mentira deslavada.

Porém, é uma outra coisa que Pondé fala que faz esse capítulo digno de nota. A citação que vou colocar a seguir é, sem dúvida, a que marca o espírito não só desse capítulo como do livro todo. Segundo Pondé:

“Uma coisa que salta aos olhos é a tentativa de chamar qualquer um que critique a democracia de   antidemocrático. A sensibilidade democrática é ‘dolorida’, qualquer coisa ela grita. Mas não me engano com ela: esse ‘grito’ nada mais é do que a tentativa de impedir críticas que reduzam a vocação também tirânica que a democracia tem como regime ‘do povo’. O ‘povo’ é sempre opressor, Rousseau e Marx são dois mentirosos. […] Quando aparece politicamente, é para quebrar coisas. O povo adere fácil e descaradamente (como aderiu nos séculos 19 e 20) a toda forma de totalitarismo. Se der comida, casa e hospital, o povo faz qualquer coisa que você pedir. Confiar no povo como regulador da democracia é confiar nos bons modos de um leão à mesa. Só mentirosos e ignorantes têm orgasmos políticos com o ‘povo’.”

Vê-se, por aí, que os próximos capítulos do livro não serão nada “lights” nas críticas. Mas, é no oitavo capítulo, chamado Os funcionários da educação, do intelecto e da arte, que Pondé destila o máximo de sua crítica aos politicamente corretos. Além de chamar boa parte de seus pares (professores universitários) de pessoas com inteligência mediana (o que eu, como mero estudante, jamais consideraria fazer, a não ser em um caso MUITO extremo), Pondé diz que é por causa da covardia dos medíocres da democracia que o Politicamente Correto sobrevive, pois, por ser uma forma de totalitarismo, dependeria da covardia e da mediocridade, que se referem mais à censura à liberdade de pensamento do que à apatia política propriamente. O filósofo também escracha com quem fala com “propriedade” sobre a “ética”, que ele considera um dos assuntos in voga tanto no meio acadêmico quanto nos “jantares inteligentes” (sobre os quais falarei no próximo post Dialeticando que fizer).

Já no 11º capítulo, chamado Religiões, fundamentalismos e budismo light, o professor da PUC simplesmente “owna” o discurso politicamente correto contra as “religiões opressoras” (Judaísmo e Cristianismo) e anti-“anti-Islamismo”, mostrando que, na verdade, o Islamismo não é metade da beleza que os revolucionários da nova esquerda acham que é. Pondé também detona com os novos budistas de 1 semana, mostrando que o que eles querem, na verdade, não é uma religião, mas sim livrar-se da culpa cristã sem terem que se dizer ateus ou agnósticos, o que seria um “materialismo” extremamente grosseiro.

Alguns outros capítulos de destaque são o 12º (Natureza humana e felicidade), em que Pondé admite o pecado como a melhor forma de examinar o ser humano e critica os que são contrários a se fazer qualquer afirmação sobre a natureza humana, o 13º (A nova hipocrisia social), em que o filósofo critica duramente a infantilização do ser humano promovida pelo politicamente correto com seu discurso ético-moralista, o 16º (Injustiça social, mediocridade e banalidade), no qual Pondé renova suas críticas à ideia democrática de “todos são igualmente capazes de ser inteligentes”, e o 24º escrito (O comércio de ideias), em que o filósofo mostra o quão mau-caráter é o politicamente correto não pelos motivos que eles argumentam, mas sim por proibirem algo que o filósofo considera muito caro para si mesmo e para a humanidade, que é o comércio de ideias, o apresentar ideias que discordem do PC, pois não são “boas ideias”.

Para finalizar, reitero que não é o leitor intransigente que deve ler o livro de Pondé, pois dele nada entenderá a não ser um racismo e uma homofobia que, nos escritos do filósofo, INEXISTEM. Esse é livro para os leitores que pensam, assim como o genial escritor, professor e filósofo, que “ideias não são sempre coisas ‘boas’. Às vezes doem”.

Vou deixar aqui algumas citações interessantes do livro (e o index de capítulos) para aguçar-lhes mais ainda a curiosidade, e encerro por aqui este post. Ficam os meus agradecimentos e o meu forte abraço ao leitor que aguentar ler tudo isso e também ao que procurar tirar suas próprias conclusões sobre o livro, exercendo uma atividade da qual muitas vezes somos privados, seja pela “praga PC” ou por qualquer outra coisa, que é PENSAR.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e estudante autônomo de Filosofia.  Não gostava de Luiz Felipe Pondé por achá-lo excessivamente conservador. Ainda bem que essa fase passou.

Capítulos:

Introdução

O politicamente correto e o general Patton

Aristocracia – os poucos melhores carregam o mundo nas costas

A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas

O outro

Romantismo e a natureza

Sexualidade, mulheres e homens

A beleza e a inveja

Os funcionários da educação, do intelecto e da arte

Viajar jamais

A tragédia do keeper (o “bom partido”)

Religiões, fundamentalismos e budismo light

Natureza humana e felicidade

A nova hipocrisia social

Teologia de esquerda ou da libertação

A culpa

Injustiça social, mediocridade e banalidade

Hipocrisia em tempos de guera

Ditadura 

Leitor

Bovarismo

Canalhas cheios de amor

Baianidade

Os “sem iPads” do Reino Unido

O comércio de ideias

Apêndice 

Citações:

“Com a Revolução Francesa e a democracia (que a primeira não criou exatamente porque foi muito mais um regime de terror autoritário), os idiotas perceberam que são em maior número, e de lá para cá todo mundo passou a ter de agradá-los, a fim de ter a possibilidade de existir (principalmente intelectualmente). O nome disso é marketing. Todo mundo que pensa um pouco vive com medo da força democrática (numérica) dos idiotas. O politicamente correto é uma das faces iradas desses idiotas” (A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas)

“Nada é mais temido por um covarde do que a liberdade de pensamento. Toda forma de totalitarismo (o politicamente correto é uma forma de totalitarismo, e essa forma está presente na palavra ‘correto’) sobrevive graças às hordas de inseguros, medíocres e covardes que povoam a educação e o mundo da cultura e da arte” (Os funcionários da educação, do intelecto e da arte)

“A mídia muitas vezes parece uma reunião de centro acadêmico de ciências sociais na forma de simplificar o mundo ao nível de uma menina de 12 anos” (Os funcionários da educação, do intelecto e da arte)

“Até golfinhos conseguem ser ateus, porque o ateísmo é a visão de mundo mais fácil de ter: a vida é fruto do acaso e não tem sentido além dos pequenos sentidos que ‘inventamos’.” (Religiões, fundamentalismos e budismo light)

“Se você quiser acertar numa análise que envolva seres humanos, continue a usar o pecado como ferramente para compreender o comportamento humano: orgulho, ganância, inveja e sexo continuam a mover o mundo (a luta de classes nada mais é do que um caso de ganância e inveja). O culto da ciência como conhecimento seguro do futuro humano sob controle das experiências ‘em laboratório’ degenerou no culto do ser humano como tendo controle do que ele é e do que pode vir a ser. O próprio nascimento do Estado moderno e sua burocracia de controle do cotidiano também marcaram esse processo, na medida em que a experiência da organização da vida carrega em si um sentimento de potência positiva” (Natureza humana e felicidade)

“Dizer coisas coisas como todo índio é legal, pobre é sempre gente boa, gay é sempre honesto, ‘eu não gosto de dinheiro’, quando na realidade todo mundo tem sua dose de miséria, além de vaidade barata, simplifica (como sempre, o pior efeito da praga PC é a burrice que ela cultiva) a natureza humana, nos impedindo de pensar em nós mesmo de modo adulto. […] Fingindo ser contra o mundo do mercado e do dinheiro, o politicamente correto é um dos seus produtos mais vagabundos em termos de qualidade. Entre a felicidade e a autoestima, prefiro o pecado” (Natureza humana e felicidade)

“Todo mundo sabe que a substância última da moral pública é a hipocrisia, por isso quem nega esse fato é em si o primeiro hipócrita” (A nova hipocrisia social)

“Não existe a possibilidade de associarmos ética ou moral aos princípios de marketing, como se faz hoje em dia. E o politicamente correto é uma forma de marketing político e ético”. (A nova hipocrisia social)

“Ninguém precisa de Nietzsche para matar Deus, basta chamar um teólogo da libertação.” (Teologia de esquerda ou da libertação)

“A canalhice sempre pagou bem nesse mundo, e o politicamente correto é uma das novas formas de canalhice que assolam o mundo da cultura, da academia e da mídia”. (Canalhas cheios de amor)

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 27/12/2012. O leitor entenderá com a republicação de outros posts.

De Cara com o Fera – Resposta a PH, o Lobo liberal de esquerda

Boa noite, amigos leitores, e este é mais um dos nossos papos aqui pelo blog.

Lembram-se daquele artigo que escrevi sobre a entrevista de Sua Excelência, o Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), a Antônio Abujamra no Provocações? (Links para a entrevista: aqui, aqui e aqui). Pois é, um pouco depois de eu ter publicado esse artigo, meu nobre amigo PH Wolf disse-me que faria uma resposta a ele. Pedi, então, que a postasse como comentário (ou comentários) no supracitado artigo para que pudéssemos promover, depois de muito tempo, um novo debate entre mim e um leitor do blog, coisa que só havia acontecido uma vez no post sobre a entrevista de Luiz Felipe Pondé à revista VEJA em 2011 – texto este que, confesso, me arrependi de escrever, apesar de ter-me dado inspiração para uma série (em andamento) no blog.

Ocorreu que, depois de alguns dias e contratempos, incluindo o fato de perder a primeira versão de sua resposta, e de eu não mais esperar por esta, o Lobo liberal de esquerda colocou, em meu blog, seis comentários detalhados com suas críticas  a meu artigo (começa aqui) e com muitos pontos interessantes extra-artigo sobre os quais quero comentar. Resolvi, então, replicar em forma de post no blog com aquele velho esquema de refutação que comecei a usar em um dos posts sobre a renúncia de Bento XVI.

Vamos, então, aos trabalhos. Antes, porém, de começarmos, devo avisá-los de que estou debatendo com um bissexual e com alguém que diz ter acompanhado o trabalho do deputado em quem, hoje, votaria. Sabem o que quer dizer isso, amigos leitores? NADA. Mesmo que ele declaradamente estivesse militando em causa própria, ou seja, se fosse um wyllysiette, isso em nada desmereceria sua resposta, pois não é o fato de alguém militar em causa própria que desmerece seus argumentos. O que, sim, desmerece uma causa ou uma argumentação é usar-se da mentira ou da censura para defendê-la.

Digo isto porque, apesar de dever ser algo óbvio, muitas pessoas, tanto conservadoras quanto liberais, utilizam-se desse argumento mentiroso para desequilibrar o oponente e/ou para desmerecer seus argumentos. O detalhe é que, como diria algum filósofo cínico, se bem me lembro, “a verdade é a verdade até nos lábios de um louco”. Não sei se chegaremos aqui à verdade, mas espero, sim, que cheguemos ao melhor entendimento.

Enfim, voltando ao pertinente para este – e não outros – post, Wolf começa sua resposta:

Finalmente um artigo aqui nessa página que mexeu com os meus brios o suficiente para demandar uma longa resposta minha. Para alguém que costuma detonar opiniões preguiçosas com veneno e provocações certeiras, sempre embasado na mais indefectível lógica (independentemente de eu concordar ou não com as conclusões), esse artigo me decepcionou.


Confesso que, apesar dos pesares, esta parte me deixou particularmente feliz, pois significa que, ao contrário do que penso, consigo provocar pelo menos uma ou duas pessoas de modo a fazê-las reagir, seja para cumprimentar-me, seja para refutar-me. Isto, porém, é irrelevante. O que é relevante é a razão pela qual Wolf reagiu, que é a seguinte:


Aqui o que se vê é um veneno genérico, pouco mais do que um festival de xingamentos preconceituosos (nenhum deles homofóbico, é preciso dizer, é sempre no estilo “esquerda = autoritário” ou “ex BBB = burro, fútil, intelectófobo”), rancores de uma má vontade Olavodecarvalhiana e questões colocadas com o mesmo tipo de opinião preguiçosa que tanto costuma criticar. Definitivamente não é o seu estilo.

Eis, nesta parte, o primeiro erro. Apesar de eu ter colocado as palavras “BBB” e “intelectófobo” – termo este que não pode ser associado necessariamente à burrice e à futilidade, pois não é a complexidade de um raciocínio a única razão pela qual se deve apreciá-lo, o que significa que este “salto de fé” foi do Lobo liberal, não meu -, nunca fiz essa correlação apontada, pois não examinei todos os ex-BBBs para saber se são fúteis e burros ou não. Aliás, sequer disse que Wyllys é burro, exatamente porque não acredito em burrice em política. Acredito, sim, em utilitarismo egoísta e em preguiça de pensar, mas isto não vem ao caso.

Do mesmo jeito, também não coloquei relação de sinonímia entre esquerda e autoritarismo, exatamente porque estou rebatendo as objeções de um LIBERAL DE ESQUERDA. Reclamei, sim, do autoritarismo politicamente correto que Wyllys representa, aquele que coloca como “fascista” e “retrógrado” o que não lhe agrada, mas é óbvio que, como um ex-marxista e como um estudante autônomo (na medida do possível, frise-se) de Filosofia, é minha obrigação saber que há esquerda, e esquerda inteligente, fora desse e de outros tipos de autoritarismo. Convenhamos, no entanto, que esse tipo de pessoa é rara tanto na internet quanto na vida real brasileiras (rsrs).

Este, porém, foi só um prelúdio. Em seguida, o poeta carioca reclama de que

A análise já começa fazendo uma correlação entre a reclamação sobre uma juventude não-politizada (não é nada, não é nada, mas é bom frisar que a entrevista foi gravada antes que as manifestações tomassem conta do país) e o seu posicionamento contrário à bancada evangélica na política, querendo dar a entender que o próprio deputado sofreria, em certo ponto, do mesmo problema, como se fosse um hipócrita. 

E não retiro essa acusação, pois, baseando-me em uma análise feita por um amigo sociólogo comum a ambos (se eu estiver certo), vejo esta bancada como a representação da politização, ou melhor, da vontade de participar ativamente da política, por parte de um setor da população, e um setor representativo demograficamente, que é o dos evangélicos.

É lógico que, como ateu e como alguém que tende mais a posturas liberais do que a posturas conservadoras em costumes, tenho uma série de discordâncias com os evangélicos e seus representantes, mas, ao contrário de Sua Excelência, eu parei de tentar fazer deles monstros morais e passei a debater um pouco mais honestamente sobre diversos assuntos, coisa que o ilustre deputado também deveria fazer, pois democracia não se resume apenas a permitir a existência de uma bancada evangélica – que, sim, pode e, nas atuais circunstâncias, deve existir e ser ativa, especialmente por serem o último bastião de oposição ao politicamente correto e seu autoritarismo progressista -, mas também a respeitar quem dela faz parte e ouvir, sem ataques baratos e apelações medíocres, seus argumentos, algo que, em várias entrevistas, Jean Wyllys deixou de fazer ao chamá-los, por várias vezes, de “extremistas fundamentalistas”.

(Aliás, acusações veladas abundam nesse artigo. Praticamente todo final de parágrafo são conclusões exageradas, beirando o declive escorregadio, tiradas a partir das colocações de Jean Wyllys dando a entender que ele é um fascista esquerdocrata e totalitário, como se defender suas posições com veemência fosse o equivalente a não tolerar opiniões contrárias)

Primeiro que eu trocaria “esquerdocrata” por “esquerdopata”, mas tudo bem, essa eu deixo passar.

Segundo, Wolf fala em declive escorregadio, mas não dá sequer um exemplo disso. Uso aqui, então, o princípio amplamente divulgado por Hitchens (apesar de este desrespeitá-lo muitas vezes durante sua vida intelectual): O que pode ser afirmado sem evidências pode ser descartado sem evidências.

Terceiro, fato, quem defende veementemente uma opinião não é um totalitário. Agora, que chamar alguém de fascista, acobertador de pedófilos e assassino só porque este é o líder espiritual de uma instituição que não se curva aos argumentos wyllysianos é um indício, ah, meu amigo, isso é. E isso não é “respeito à diversidade”, Wolf. Chame do que quiser, menos de “respeito” e similares.

O Lobo, então, prossegue:

Segue-se então toda uma ladainha sobre o que seria o Estado Laico e porque a posição de Jean Wyllys seria contraditória.

Ladainha, convenhamos, que é VERDADEIRA. Aliás, só seria ladainha se fosse falso, oras.

Ora, por mais que a sua definição seja correta, Jean Wyllys sabe muito bem disso.

E eu sei que ele sabe, por isso o achincalho. Isso se chama guerra política, meu amigo, e deve-se desmascarar mentirosos antes que eles façam das suas mentiras as verdades, mesmo que, como Wyllys dá a entender sobre si mesmo, não creiam em verdades absolutas.

Tanto que a oposição que ele faz à agenda da bancada evangélica é feita pelos trâmites democráticos.

Do que eu saiba, incitar o ódio contra um grupo numeroso da população que segue uma instituição que não concorda com os argumentos pró-gay não está nesses trâmites. E, sim, como se vê na reportagem que linkei parágrafos acima, ele faz isso sim.

Ele sabe muito bem que os deputados ali eleitos não exercem suas prerrogativas de forma ilegal, e suas divergências são de caráter ideológico, não religioso. Ele discorda radicalmente das posições e decisões da bancada evangélica, da mesma forma que a bancada evangélica discorda ideologicamente da bancada homossexual.

Como dito antes, eu sei que ele sabe e eu sei quais são as discordâncias dele, só que não lhe é permitido incitar o ódio e difamar grupos simplesmente por ser um defensor das minorias – aliás, ainda bem que o Congresso ainda não se converteu à religião wyllysianista, senão até essa concessão ele teria. Agora, pergunta: Que bancada homossexual? Ué, mas os ativistas LGBTs não são vítimas de difamação por eles, os felicianos e bolsonaros da vida?

A não ser que você esteja sugerindo que essa discordância dos evangélicos seja, por si, homofóbica, nao dá pra esculhambar o posicionamento de Jean Wyllys a respeito de forma tão simplista.

Repito o que disse em todos os parágrafos acima.

Claro que ele lamenta (e eu também, por sinal) que tantos elejam seus representantes pelo simples fato de serem pastores.

E essa lamentação é baseada em provas concretas ou apenas em palpitaria?

Porém, ele reconhece (e eu também, de novo) que faz parte do jogo democrático.

Oh, Wolf, então você chama quem não louva suas ideias de “fascista retrógrado” também? Afinal, do que eu saiba, você REALMENTE reconhece que as divergências fazem parte do jogo democrático e tenta respondê-las com argumentos. Já Wyllys responde, como se vê em vários de seus tweets, entre eles os supracitados e vários outros, com ameaças de processo e com difamações e escárnio. Novamente, democracia também se trata de respeito, e isso Sua Excelência não demonstra em suas declarações.

Eleger alguém por ser da mesma religião (ou do mesmo time de futebol, orientação sexual ou qualquer coisa que não seja um motivo propriamente político) é uma tristeza.

Pena que isto, nobre amigo, nada mais signifique do que um salto de fé, especialmente porque você sequer definiu o que é político. Aliás, se formos pegar a definição propagada pelo sempre sensato filósofo Mário Sérgio Cortella, chegaremos à conclusão de que mesmo o futebol com os amigos é um ato político, pois é um ato de interação com a comunidade. Agora, se vier falando de política como política ideológica, desculpe, mas foi esta que me tornou apolítico e anti-ideológico, e é desta que fujo toda vez que debato, pois ela, por mais que se esforce, é, por essência, um reducionismo drástico e um barateamento do debate de ideias e da busca por soluções para problemas. Por incrível que pareça, do pouco que investiguei, boa parte do “povo” – ah, essa entidade sempre invocada mas também tão pouco delimitada – tem plena consciência disso, mesmo que não use tais termos para demonstrar seu desprezo por “política”.

E esse fenômeno, muito mais do que a possível existência de uma ala da população que efetivamente concorde com as propostas dessa bancada, é sim fruto de uma população não-politizada, de modo que, curiosamente, há mesmo uma relação entre as duas partes da entrevista, quem diria?

E qual seria esta relação é uma coisa  que até agora, confesso, não descobri. O que descobri, porém, é que uma população evangélica que elege pastores evangélicos porque estes defendem ideais EVANGÉLICOS provavelmente o faz por não-politização. Que me desculpe o Wolf, mas este raciocínio é tão fantástico quanto o próximo, que é sobre Gramscismo:

O parágrafo sobre a citação de Gramsci nem merece réplica. Uma coisa que foi colocada como uma declaração de amor à democracia (mudar o que tem que ser mudado de dentro, ou seja, sem desrespeitar os processos democráticos, sem atropelar as leis, através do confronto com opiniões contrárias e pelo convencimento) é interpretado como uma atitude autoritária e de censura. 

Na verdade, uma coisa que foi colocada como forma heterodoxa de revolução – pois Wyllys apenas negou a forma de revolução de Marx e não a revolução em si, que também pode ser cultural -, que é esse espírito de adaptar as instituições às vontades de um grupo político específico, foi interpretada exatamente como isso mesmo. Existe uma tênue diferença entre defender a liberdade e defender a mudança. Na primeira situação, pensa-se antes de tudo em preservar os direitos individuais e a democracia. Já no segundo caso, pode-se pensar em qualquer coisa antes dos direitos individuais e da democracia.

E existe, também, uma grande diferença entre revolução marxista e revolução gramsciana. Nesta, apela-se para o irrealismo de achar que, de alguma forma, é mais leal tirar a liberdade das pessoas do que matá-las em nome de um mundo melhor. Naquela, assume-se os riscos necessários para que “a solução” para os problemas venha, e isso inclui, sim, óbitos. Ou seja, Gramsci é nada mais do que a versão mais pacifista e desleal do Marxismo, mas com uma roupagem “cool” que é capaz de atrair para si pessoas como Wyllys que, ao contrário do que demonstram em seus atos, não querem assumir os riscos de um confronto armado, mas não descartam o confronto cultural. 

Mas, enfim, tudo isto é apenas masturbação mental de ex-marxista. O caso é que, mesmo assim, a fala continua sendo revolucionária e a atitude de Wyllys também. Pena, para Wolf, que, ao contrário do que ele disse, eu não afirmei, em momento algum, que Wyllys estava sendo autoritário ao usar Gramsci. O que eu disse é que os céticos ao Marxismo Cultural deveriam ficar de olhos abertos. E essa afirmação, que me desculpem os que vão me chamar de Olavette, eu banco. Assim como banco, também, o que falarei sobre a fala de Wolf acerca de Wyllys x Clodovil a seguir:

Eis que surge a figura de Clodovil Hernandes. Sem apontar sequer que o nome apareceu por reconhecimento do próprio Jean Wyllys, ao ser apontado por Abujamra como o primeiro deputado assumidamente gay do país, o artigo distorce a fala de Jean Wyllys de forma assombrosa. 

Na verdade, ao contrário do que diz o Lobo liberal, além de ser inútil apontar que Jean Wyllys falou isso em “reconhecimento” – mérito que é completamente destruído por sua posterior defecação oral -, não houve qualquer distorção da fala do deputado. O fato é que, em uma paráfrase, quase exata, o que Wyllys disse foi: “Com todo respeito que eu devo a ele, eu acho que o Clodovil tinha muita ‘homofobia internalizada’, que ele não se gostava como gay e que, por ele, ele seria heterossexual”. O problema com a fala de Wyllys é que este não separou “ser gay” de “ser militante das causas homossexuais”, como, aliás, nunca faz. O detalhe é que, de fato, “dar a bunda” não é ato revolucionário, ou não foi nos últimos, sei lá, 10 mil anos. Revolucionário (e burro) é, sim, chamar quem não ache isso de homofóbico.

O entrevistado lembra ao apresentador que Clodovil, homossexual assumido, veio antes dele, apenas não pregava a luta pelos direitos homossexuais como bandeira pessoal. E isso é verdade mesmo. Clodovil tinha outras prioridades. 

Pena que, para desgosto do nosso amigo liberal, não foi com esse tom que Wyllys falou sobre Clodovil, nem foi apenas isso que falou. Como já dito antes, o que Wyllys fez foi associar a não-militância ao não-amor próprio e à homofobia, sendo que alhos e bugalhos nada tem a ver. 

A chamada “homofobia internalizada” (colocada por Jean Wyllys a título de especulação, tanto que o próprio Abujamra discordou e não houve tentativa de discutir a questão, ficou por isso mesmo) é, simplesmente, fruto de dezenas e dezenas de declarações que o próprio Clodovil deu em sua vida pública, de que muitas vezes sentia repulsa por sua própria homossexualidade, mesmo porque ela confrontava com os valores morais do mesmo. 

Curiosamente, a única declaração de que ouvi falar nesse sentido foi a de que Clodovil não sentia orgulho de ser gay, mas sim de ser quem era, o que não denota homofobia. Como o crítico literário carioca não nos deu maiores detalhes, fiquemos, por hora, com essa declaração, afinal, tio Hitchens tá vendo essa zoera, Wolf, se é que me entende.

Isso não foi colocado como acusação, mas como um simples fato que coloca Jean Wyllys como o primeiro homossexual militante da causa a assumir uma cadeira no congresso.

E, lógico, para exaltar a nobreza do nobre deputado que, sem dúvida, é o maior herói que já existiu no Congresso. Ah, Wyllys, se eu não conhecesse gente dessa laia, eu até comprava.

Aliás, Wolf mesmo parece ter comprado nos trechos seguintes:

Em seguida é examinada a declaração sobre sua dificuldade de se impor como homossexual em um congresso em quase sua totalidade heterossexual (ou heteronormativo, para quem curte o jargão). 

Não curto jargão, mas nem é essa a questão. O que foi discutido, sim, é o ônus de ser um militante da causa gay em um Congresso que, muito curiosamente, vêm se demonstrando cada dia mais aberto a discutir  e a apoiar irrestritamente os militantes gays, a não ser quando, OH, os evangélicos (!!!) apresentam divergências. É, deve ser mesmo uma vida muito difícil para Wyllys ter que conviver com o contraditório. Se chamou um homem velho e até certo ponto passivo de pedófilo homofóbico, imagino o que não diz, em “off”, para seus ilustres colegas felicianos.

O processo de subalternação das minorias é um fato histórico

Fato, mas o que ele disse é que o Congresso não se acostumou a discutir o país pelo ponto de vista minoritário. Pena, para ele, que o Congresso, desde 1990, pelo menos, é dos representantes do povo que se organizou para lá colocá-los. Se os gays não o fizeram, não é culpa dos congressistas.

em todo lugar, e os homossexuais estão longe de superá-lo, muito mais longe ainda do que os negros e as mulheres, mesmo porque, ao contrário desses últimos, que somam, em oposição a homens e brancos, metade (ou mais) da população brasileira, homossexuais são uma minoria de fato. Não é mimimi do deputado, é o que ele sofre (e vê amigos, companheiros e desconhecidos sofrerem) na pele dia a dia.

Que Wolf me perdoe, mas, além de o conceito de minoria aplicado ser o sociológico, não o numérico, a partir do momento em que, com uma retórica balofa digna dos habitantes da Itaguaí de O Alienista, o deputado acusa o país de homofóbico e se põe na posição de vítima da “sociedade opressora”, é sim mimimi. Afinal, uma coisa é dizer que há atos de Homofobia no Brasil. Outra, por exemplo, é dizer, ou mesmo sugerir, que, por isso, toda a sociedade seja homofóbica. E outra, pior ainda, é banalizar o termo “em nome do mundo melhor”, e o que mais vejo Wyllys fazer são os dois últimos. Este recado vale, também, para o excerto abaixo:

Não como um filme sessão da tarde em que todos dão sinais inequívocos de desrespeito com xingamentos dublados e estereotipados, mas como uma sensação de desconforto constante, sobretudo das alas mais conservadoras da população (e do congresso, não tenha dúvida), para quem a homossexualidade é, ainda, considerada um desvio de caráter, ou mesmo uma abominação.

E a este aqui:

Muitos congressistas, embora não tenham criado esse processo, são responsáveis sim por disseminá-lo, inclusive no Congresso, como se vê em inúmeras declarações de fácil acesso pelo youtube.

Mas, não é aqui que a resposta acaba (e, aliás, ainda demorará um pouco). Wolf também nos diz que

A sua analogia com culpar os ateus pelos crimes de Mao é falsa. Mais correto seria comparar com culpar os Maoístas, mesmo os pacíficos.

Tio Hitchens vai te assombrar, e eu vou te dizer que, pelo contrário, a analogia é válida, pois, além de Mao ser ateu, o que eu disse é fato, pois o processo de subalternação de minorias, como você mesmo disse, é HISTÓRICO, portanto não recente. Além disso, os congressistas, convenhamos, têm zero ou pouca influência sobre o pensamento da população. Francamente, seria mais efetivo e talvez até mais honesto fazer como Gilberto Felisberto Vasconcellos e culpar a telenovela por tudo. Afinal, esta sim, pelo menos em tese, tem um maior alcance e uma maior influência.

Wolf também mostra seu descontentamento com uma outra fala minha e diz que

E chega a ser triste ver aqui o velho argumento de que “há temas mais prioritários, como saúde, educação, etc. Mesmo por que, à parte o uso dessa estratégia batida de se desviar de assuntos concretos delicados, a defesa dos direitos humanos e o combate aos preconceitos é sim parte do tema educação (e segurança pública, tendo em vista os crime de ódio que ainda hoje acontecem com frequência, sobretudo no Brasil Profundo citado pelo deputado, mas – por que será? – não por esse artigo.)

Pois é, concordo, mas, para seu desgosto, Wolf, não foi esse o argumento que usei. O que disse é que o Congresso funciona, sim, na base da representatividade, e que, apesar de deverem sim se preocupar com temas delicados – e nunca neguei que o tema merecesse apreciação, só inferi, assumo, que não é Wyllys o homem que deve ser o propagador dessas discussões, especialmente porque este não sabe discutir com um mínimo de honestidade intelectual, ou pelo menos não aparenta isso -, os congressistas, sem nenhuma voz que os levante, tenderão, naturalmente, a discutir temas mais relevantes para a sobrevivência do país, o que não está necessariamente errado, pois, do que eu saiba, o problema da fome no Brasil, por exemplo, é bem mais relevante do que os pretensos direitos humanos defendidos por Wyllys e por outros da mesma militância. 

Fora isso, e também em resposta ao trecho seguinte:

E educação é o tema seguinte. A educação para a diversidade. Me demorar aqui seria me repetir, basta apontar que aqui está um belo exemplo do que eu falei anteriormente sobre as acusações preconceituosas ao deputado, como se ele fosse averso à diversidade de opiniões, o que não é verdade. 

Além de eu já ter mostrado o sempre válido exemplo do Papa, vale sempre lembrar que, pelo menos na sociedade moderna e contemporânea, a função da educação pública – e isso lhe pode ser confirmado até mesmo pelos mais marxistas da pedagogia – não é brigar “por direitos humanos” ou “por politicamente (in)correto”, mas sim reproduzir o sistema de crenças sociais e científicas e repassá-lo às crianças e aos jovens. Falar que educação inclui algo a mais que isso é salto de fé ou mentalidade revolucionária.

Aliás, falando em educação, o poeta carioca, depois disso, entrou em um ponto muito interessante. Apesar de ter concordado comigo quando rechacei Wyllys por este ter usado o velho truque “o grupo mais odiado da história”, ele reclama da

má vontade do artigo pelo fato de o deputado não trazer “mais do que retórica” para provar sua alegação, como se isso fosse uma falha.

Na verdade, se ele tivesse trazido boa retórica, não reclamaria. Aqui, confesso, esqueci de adjetivar a retórica como “frouxa” e/ou “falaciosa”.

Porém, a reclamação não termina aqui. Wolf também aponta que

o autor do artigo se esquece do contexto linguístico da entrevista. Não se trata de um debate formal. Nem mesmo de um programa de entrevistas formal, como seria no programa da Marília Gabriela, por exemplo. “Provocações” tem um formato que não só não inibe esse tipo de alegação como o estimula. É mister colocar pontos polêmicos e apresentá-los, mesmo quando postos de forma assertiva, como questionamentos, como frases lançadas no ar para se pensar a respeito. Sobretudo como uma porta para que tentemos ver o mundo de outra forma, para que nós, os telespectadores, pensemos, ainda que por um instante, sobre a possibilidade de estarmos errados em nossas certezas mesquinhas, quaisquer que elas sejam. Não há a menor obrigação de se embasar as opiniões ali apresentadas com dados, estatísticas ou o que seja, mesmo por conta da curta duração da entrevista. Quem quiser, que o faça, tudo bem. Mas o programa (e o entrevistado sabe disso muito bem) serve, como o nome diz, para Provocar. E Jean Wyllys dá, para quem se interessar, fortes embasamentos em outras entrevistas e artigos.

Reconheço que este argumento é bom, mas o detalhe é que o Lobo da esquerda se esquece de que há também o contexto extra-linguístico da entrevista. Afinal, esta não foi feita com Seu Zé da Padaria ou Seu Joaquim da Quitanda, mas com um Deputado Federal, com um homem público, cujas afirmações, para todos os efeitos, têm sim muita importância para a sociedade em geral, apesar de sua visibilidade ser menor do que deveria. O caso é que, apesar de ser uma entrevista relaxada e provocante, não custaria nada ao deputado, assim como também não faz nas redes sociais, medir suas palavras e ponderar que, apesar de estar, como diz o próprio entrevistador, “na televisão mais livre do Brasil”, ele ainda está lá como Deputado Federal e como homem influente no debate político público no país

Há, entretanto, outros problemas apontados pelo carioca:

Seguimos então para o que, ao meu ver, é o ponto mais fraco do artigo inteiro. A implicância com o uso do termo “homofobia”, já esboçada no comentário sobre Clodovil. Por onde começar? Vamos à definição do termo que o artigo dá. Homofobia seria apenas o “ódio ou repulsa a homossexuais”. Essa definição de dicionário, além de besta, não é a utilizada pelo deputado em nenhum momento na entrevista.

Quase. O detalhe é que minha implicância não é tanto com o uso do termo, mas, parafraseando nosso amigo Guilherme Tomishiyo em seu brilhante vídeo sobre o artigo de J.R. Guzzo (pena que ele não brilhe no Facebook metade do que o faz em seus vídeos), com a banalização do termo e exatamente com a não-definição do que é Homofobia, o que permite aos seus inimigos políticos que desmascarem suas fraudes e ponham na mesa a sua definição de homofobia, que nada contém de errado apesar da reclamação de Wolf, especialmente porque é uma definição bem mais clara do que a por ele apontada, que seria

algo muito mais amplo. Fala de toda forma de ato ou sentimento discriminatório em relação a homossexuais ou à homossexualidade.

Sorte nossa, no entanto, que Wolf clarifica depois ao dizer que isso seria

Perceba. Não é “ser contra a prática”, mas tratar alguém diferente por conta disso.

Azar nosso, porém, que o tratamento diferente

engloba todos os atos discriminatórios, desde piadinhas sem graça (que machucam de verdade, não nos iludamos) até as vias de fato, como espancar ou matar alguém por ser homossexual.

Ou seja, essa nova definição seria o fim de muitos humoristas e a consolidação de muita babaquice politicamente correta. Venhamos e convenhamos, isso, na prática, seria chamar qualquer coisa de Homofobia e seria tratar gays como bons selvagens. Lamentavelmente (ou afortunadamente), Rousseau, assim como “Deus” – mesmo ateu, escolho o lamentavelmente para este, e peço para que meus amigos cristãos não encarem isto como mais do que um uso conveniente para a frase nietzscheniana -, está morto. Fora isso, essa ampliação extremamente indevida daria sim espaço para frouxos “frouxearem” e processarem deus-e-o-mundo por “ato discriminatório”, o que, com o tempo, tornaria a sociedade ainda mais chata do que já é.

Mas, para Wolf, o primeiro problema real em tudo isso é que

Esse sentido mais amplo do vocábulo já está cristalizado na nossa sociedade e é legitimizado pelo uso popular. Acusar o Jean Wyllys de “especulação difamatória” por não se ater ao sentido conveniente de dicionário é um erro que eu poderia esperar de um sociólogo, economista ou mesmo um filósofo. 

E não reclamar disso, meu amigo, é um erro político, exatamente porque a filosofia de hoje (que Wyllys divulga com fervor), mesmo tendo, teoricamente, menos de 20 anos, já está mais caduca do que minha tataravó se estivesse viva. Aliás, gostaria de saber, como avaliar o uso popular quando o que se fez foi impor, goela abaixo, uma nova definição? Ainda mais, será que “o povo” realmente se preocupa com tais assuntos?

Pelo visto, eu deveria saber e não deveria mais errar, pois, segundo o próprio Wolf, estudo Letras e:

A língua, com suas variações tanto diacrônicas quanto sincrônicas, é seu objeto de estudo. Um erro básico desses vindo de você é simplesmente imperdoável. Se eu quisesse colocar aquele indefectível vídeo do Caetano xingando a burrice do interlocutor nessa minha resposta, eu o colocaria aqui.

Assim como é a língua, e não a religião cristã, o objeto de estudo do papa da Sócio – para os menos íntimos, Sociolinguística, que estuda as relações entre língua e sociedade e cujo pai mais famoso é William Labov -, Marcos Bagno, mas, mesmo assim, este, além de sequer permitir grandes contestações a suas ideias, ainda comete erros dignos do primário sobre a tradição cristã, que critica duramente. Além disso, quem estuda “a língua em suas variações diacrônicas e sincrônicas” são, em sua maior parte, linguistas, sociolinguistas, psicolinguistas, outros derivados da Linguística e quem compara obras literárias linguisticamente. Como não faço nada disso em minhas pesquisas, não é esse meu objeto de estudo.

Fora isso, sendo um pouco mais rigoroso, eu diria que o pessoal de Letras, no geral, temos um grande problema: somos os especialistas em tudo sem ter estudado nada mais do que Foucault apud Psicólogo x da Educação, Bordieu apud Marcos Bagno (e Bagno apud Erros conceituais) e Saussure apud Fiorin. Eu, com essa silepse, não tiro o corpo fora. O que faço, sem nenhuma silepse gramatical, porém, é tentar pelo menos mudar a mim mesmo e dizer, com orgulho, que não palpito no que não conheço, o que não é o caso da carreira parlamentar do LINGUISTA Wyllys, voltando ao pertinente.

Já o segundo problema real, este mais grave, é que

não é esse o único erro do parágrafo, nem o mais grave. Você dá a entender que preferir filhos hétero a homossexuais, salvo eventuais casos movidos por ódio, é pura questão de preferência. Falsa dicotomia. Preferência as pessoas têm por ter um filho loiro ou de cabelos castanhos. Há muitos motivos pelos quais alguém preferiria ter um filho hétero, a maioria deles de natureza homofóbica, segundo a definição mais geral que eu apresentei. Exemplos: “homossexualidade é doença, é falta de vergonha na cara; é imoral; é promiscuidade; eu quero um filho “homem”; E isso se vê nas reações das pessoas ao descobrirem que seus filhos são homossexuais. Uns espancam, uns expulsam de casa, uns até tentam aceitar o “defeito” do filho, o que não deixa de ser um passo contra uma homofobia internalizada de fato. Mas quase sempre é um desgosto na família, e um desgosto profundo. Por que há uma visão extremamente arraigada em grande parte da sociedade de que, de um jeito ou de outro, homossexualidade é feio. Pouquíssimos são os que prefeririam ter um filho hétero por um motivo não-homofóbico como “não gostaria que ele sofresse o que eu vejo os homossexuais sofrendo por aí.”

Aqui, que me desculpe Wolf, o que houve foi um gigante salto de fé, pois o que eu disse foi que não há necessária relação entre preferir filhos hétero e homofobia, o que é fato. Devemos nos lembrar (como já fiz aqui e aqui) de que, no Brasil, a regra jurídica diz que todos são inocentes, e não culpados, até que se prove o contrário. Portanto, tentar colocar no mesmo balaio, como fez o deputado, mera preferência e atos reais de preconceitos é retórica barata e nada  mais. Dizer que o que eu fiz foi “falsa dicotomia” – o que não tem nada a ver com o assunto, sejamos honestos – e que uma preferência, até que se prove o contrário, não é uma preferência não é a música de Gabi Amaranthos, mas, se botar na vitrine da retórica, não vai valer nem R$ 1,99.

Mais ao fim, Wolf repete a mesma ladainha sobre a conduta do deputado ser apenas de discordância veemente e não de intolerância e reclama que

Em seguida, vem o comentário sobre “religiões, preconceitos e bancos”. Sim, uma pergunta provocadora da parte de Abujamra. Sim, uma resposta provocadora do entrevistado. Não uma defesa de tese, mas uma, de novo, provocação. A não-compreensão dessa palavra como pano de fundo e textura de toda a entrevista é o que causa a maior parte dos espantos por sua parte. Não se trata de provar que religiões e bancos são uma união que estraga o mundo, mas de colocar isso como possibilidade, e a presença do Banco do Vaticano (mais ainda, a acusação, que, até onde eu sei, teve bases sólidas para ser feita) são exemplos que sugerem – não provam – essa possibilidade. 

e que

Por fim o artigo, sem reconhecer o caráter poético da questão sobre reencarnação, descasca em cima da resposta do deputado sobre querer viver em “um mundo justo”. Clichês à parte (e se eu tenho uma crítica à resposta é justamente esse cliché desnecessário e incoerente com o que fora uma entrevista cheia de pontos provocadores de fato), o artigo aproveita para dar mais uma alfinetada gratuita no pensamento de esquerda, citando o Stalinismo (e o nazismo, mais isso é outra questão) como resultados das últimas tentativas de se fazer um mundo justo. Isso quer dizer que devemos parar de tentar? Que devemos deixar o mundo como está e pronto? Ou apenas questionar o que deu certo e o que não deu, pensar por que essas tentativas falharam e evitar cometer os mesmos erros? Porque em nenhum momento se trata de demonstrar fervor religioso a uma ideologia política inevitavelmente ditatorial. De novo, a defesa fervorosa de ideias é confundida com a intolerância às ideias contrárias. 

Quanto à primeira resposta, por mais que existam bases sólidas, o fato de alguém ser acusado de algo prova contra ele um grande pedaço de NADA, pois acusação não é prova de culpa. Pensar diferente disso é endossar que “onde há fumaça, há fogo”, que é um raciocínio bem mais provocador e bem mais instigante, convenhamos, do que toda a entrevista do deputado.

Quanto à segunda resposta, reconheço sim o caráter poético, só que o desprezo. Reconheço também a provocação da entrevista, só que sou um “escarniador”. Por fim, reconheço sim que o mundo pode ficar melhor, só não acho que  ajude nisso chamar velhos decrépitos e, até que se prove o contrário, limpos no sentido moral, de pedófilos homofóbicos. 

Aliás, a penúltima parte interessante é uma reclamação de que

quanto à religiosidade composta do deputado, isso não é, de modo algum, sintoma de um neo-ateísmo enrustido, mas faz parte de um sincretismo hardcore bem característico de quem nasceu e cresceu na Bahia, onde o cristianismo e as religiões de matriz africana convivem como em nenhum outro lugar do mundo.

Passou perto, Wolf. Pena que, de cristão fraco, Wyllys não tenha nada. O que isso geraria, em tese, é um cristão fraco, não um neo-ateu, que é, sim, o que Sua Excelência parece. Deve ter sido, imagino, o resultado da mistura disso tudo com o que ele entende por e de ateísmo –  que, pelo que ouvi, é nada e menos um pouco.

Por fim, e eis a última parte interessante, terminamos com um lamento:

Termino reiterando minha tristeza, fruto da admiração que tenho pelo autor do presente artigo, e da inteligência sagaz e mordaz que costumo ver mas não vi aqui, infelizmente. Assim como o remédio, na dose errada, se transforma em veneno, da mesma forma o veneno, na dose errada, vira puro mimimi. Uma pena. Mas não se pode ganhar todas.

Pois é, nobre Wolf, mas o mimimi, assim como ocorre com a zuera, seja na dose certa ou na dose errada, não deixa de ser o mais puro mimimi. Minto. Talvez um mimimi mais sofisticado, como o de Wyllys, seja, efetivamente, um bom discurso político. Prova disso é que, até mais do que as Igrejas pelas quais nutre tanto ressentimento, Wyllys conseguiu um bando de ovelhinhas para sua seita cheia de “religiosidade composta”.

Eu, porém, não vou me alongar ainda mais sobre isso, pois é, para quem, como Wolf, conhece neo-ateus e cristãos fracos, algo óbvio. Portanto, despeço-me por aqui e, desta vez, com um piparote e com meus agradecimentos ao leitor que nos acompanhou até aqui.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e caminha, ocasionalmente, pelo passeio público da Filosofia. Parafraseando um dos articulistas do blog Direitas Já, diria que, como ateu, não acredita em Deus, no Estado, no Mercado e na inocência de pessoas que, em tv aberta, citam Gramsci para falar sobre revolução.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 10/07/2013