Sociedade

“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.

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Dia dos Professores: uma mensagem apolítica

Como não é segredo para qualquer leitor deste espaço, já que o coloco no Sobre o Autor toda vez que finalizo um texto, sou um ainda inexperiente professor na área de Letras e, com isso, é óbvio que, no dia de hoje, receberia, tanto de colegas da mais alta estima quanto de alguns alunos também da mais alta estima, os parabéns pelo “meu dia”.

Problematizador como sou, porém (e, sim, ainda escreverei um artigo ou gravarei um vídeo defendendo o problematizar, fiquem tranquilos), sempre senti que havia algo ligeiramente estranho, algo incompleto nesse dia e nesses parabéns.  Há, sempre, as discussões sobre a valorização profissional (principalmente salarial) da categoria, mas nada que ultrapasse essas raias, já que, pelo visto, é proibido levantar certos tipos de tópicos no Brasil principalmente em datas comemorativas.

Quero, pois, com este pequeno ensaio, começar a discussão de algumas questões que, sinto, são deixadas de lado quando desse dia e que poderiam ser mais debatidas em nossa sociedade. Como não sou, porém, um esquerdista, não deixo de aceitar os parabéns e de ficar muito agradecido pelos votos, desejando tudo em dobro para os que me parabenizaram.

1- Aos discípulos e aos colegas de outros setores, com carinho

É justamente pela gratidão, aliás, que quero começar. Primeiro, muito se fala sobre o professor, mas é essencial qualquer professor, mesmo o ruim, ter sempre em mente que, sem aluno (e, algumas vezes, sem outros tipos de funcionários), não há dia do professor.

Por mais estranho que isso possa parecer, o que quero dizer é o seguinte: se não houver ninguém para que o professor ensine, quer aqueles com quem tem mais afinidade, quer, principalmente, aqueles com quem tem menor afinidade, não há a razão de ser e de estar empregado do professor.

Quando penso nesse dia, portanto, o que faço é talvez não uma autocrítica no sentido estrito da palavra, mas uma espécie de autoanálise: que tipo de professor tenho sido para os meus alunos? Será que o aluno vem à minha aula meramente por interesse, ou porque conseguimos construir uma sólida relação professor-aluno envolvendo cumplicidade e, talvez, até amizade? Não há algo a mais que possa fazer por ele? Não há algo a mais, principalmente, que possa fazer para demonstrar a minha gratidão?

Lembre-se, colega professor, de que você, por mais importante que seja e por melhor que tente desempenhar o seu trabalho, não é o centro da escola. O centro da escola é, sem dúvida, o aluno, não aquele idealizado de esquerda ou de direita, mas o aluno real, aquele que nos traz problemas, dificuldades, sonhos e esperanças (ou, no mínimo, renovação de esperanças), assim como o outro pilar, de que nós professores precisamos, está nos funcionários de outros setores, aqueles que muitas vezes salvam nossa pele de problemas que, sem eles, nunca seriam resolvidos.

Em suma, aos discípulos e aos colegas de outros setores, com carinho. Nada foi possível, nada seria possível, nada é possível, nada será possível sem todos vocês.

2 – O professor não é divino nem santo, nem deve ser

Se precisamos, como de fato precisamos, da contribuição de tantos para podermos desempenhar nosso papel até mesmo com má qualidade, quem dirá de modo muito satisfatório, fica óbvio que o nosso nível de ação enquanto professores, por mais que nos esforcemos, fica bem limitado.

Ao mesmo tempo, já diria a sabedoria popular e religiosa que “só Deus é perfeito” e que “nem Cristo conseguiu agradar a todos”, o que são duas formas de nos referirmos à natureza humana como limitada e decaída, ainda que não creiamos na cosmovisão cristã ou religiosa de qualquer matiz. Em suma, se não somos perfeitos, é certo que todos temos falhas morais das mais leves às mais graves e que estamos suscetíveis a cometer erros.

Como um ser humano normal, o mesmo ocorre com o professor. A mensagem, pois, é simples, e se direciona tanto a alunos como a professores, a pais e a outros colegas de trabalho: o professor não é, nem deve ser, divino nem santo. Óbvio que, enquanto exemplos para nossos alunos, devemos procurar manter um comportamento socialmente aceitável na maioria das situações, mas é necessário também nos lembrarmos de que também temos sonhos, desejos, esperanças, apreensões, medos e, principalmente, defeitos.

Não se deve, portanto, exigir do professor uma devoção quase franciscana à profissão, como se, além de ter de trabalhar “por amor” (que, aliás, é uma das ideias mais infantis que existem) ou “por vocação”, devesse exercer a perfeição moral absoluta em absolutamente todos os momentos, tornando-o praticamente um escravo de seu rótulo social.

Por outro lado, também o professor precisa admitir que não é inquestionável e que pode cometer graves erros contra alunos. Sim, um professor pode mentir compulsivamente, construindo uma relação frágil com os alunos, baseada em mentiras e não em confiança mútua. Sim, um professor pode omitir. Sim, um professor pode doutrinar, colocando em perigo seu crédito não só como profissional, mas também como pessoa digna de respeito. Sim, um professor pode fazer tudo isso, por mais que não deva, já que a ética profissional e até pessoal não lhe permite.

Agir, então, pelo outro extremo, isto é, como se todo professor fosse automaticamente inquestionável, é igualmente desonesto não apenas com os professores, mas principalmente com aqueles que, de novo, são o centro da vida escolar: os alunos.

3- Professor merece respeito, mas não por ser professor

Com isso, chegamos ao último ponto: está mais do que na hora de pais e até mesmo de professores pararem de ensinar aos alunos que o professor deve ser respeitado por causa de sua profissão.

Lembrai-vos, amigos, de que a profissão de um indivíduo faz parte de quem ele é, mas um indivíduo não é só sua profissão. Como dito anteriormente, seus sonhos, suas esperanças, seus medos, suas qualidades e principalmente seus defeitos é que o tornam um indivíduo digno desse rótulo.

É, portanto, a individualidade, a subjetividade, enfim, a humanidade de um professor que o torna respeitável, e não sua profissão. Deve-se respeitar as pessoas não por causa de suas profissões, mas sim antes mesmo de sequer sabermos se estão empregadas ou não, se são médicas, advogadas, professoras, faxineiras ou qualquer outra profissão.

Devemos respeitar o professor, pois, não enquanto professor, mas enquanto ser humano digno, justamente por sua humanidade, de todo o nosso respeito, ao menos a priori. Condicionar respeito a uma profissão é, afinal, uma forma de reduzir o ser humano a um só aspecto de sua vida, tornando-o, justamente, o que não desejamos: um escravo de sua profissão.

Finalizo por aqui e agradeço não só aos leitores, mas também aos alunos. A esses, assim como a meus amigos professores, fico muito grato por poder mandar de volta um forte abraço e um “Feliz Dia dos Professores!”.

Peace out.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Orgulha-se de ser professor? Não. Orgulha-se de poder agradecer a todos que lhe permitem essa oportunidade de realização profissional.

Ensaio político-futebolístico sobre os tipos de direitistas que já deram o que tinham de dar

Em tempos de eleições municipais, nada melhor para um apolítico como o autor deste blog do que aproveitar as oportunidades existentes para achincalhar direita e esquerda sem ter de se preocupar com algum estorvo berrando nos comentários babaquices do tipo “QUEM VOTA NULO, É ALIENADO!” (a vírgula e o caps lock já revelam o nível do sujeito), já que a imensa maioria das pessoas não veem as eleições municipais como prioritárias.

Como um estudioso de guerra política, porém, não vejo motivos para achincalhar a velha e totalitária esquerda de sempre, uma porque quase sempre a achincalho ou a insulto quando falo sobre outros assuntos, duas porque, bem ou mal, os esquerdistas, mesmo com o moral em baixa pela queda do governo Dilma, ainda estão dando um banho na direita em termos de guerra política (redireciono-vos ao texto do amigo Roger Scar sobre Flávio Bolsonaro e Marcelo Freixo para servir de exemplo), essa mesma que, como todo leitor deste blog já deve estar careca de saber, é a maneira mais pacífica e mais moral para derrotar totalitários.

Resta-me, pois, fazer troça da direita e pelo menos tentar ajudar amigos como Luciano Ayan e o já citado Roger Scar em sua tentativa de fazer a Alice direitista sair do País das Maravilhas em que a mera queda de Dilma levará à vitória, não sendo necessário fazer o que quer que seja para que os petistas não voltem ao poder.

Desta vez, utilizando-me do futebol como instrumento para metáforas (afinal, é desde o famoso “tudo acaba em pizza” que as metáforas futebolísticas são as mais efetivas), sinto que ainda há tempo para falar sobre seis tipos de direitistas que já deram o que tinham de dar, quer por sua chatice galopante, quer por sua imaturidade, quer por sua perturbadora inépcia política.

1- O direitista brucutu

É dos tipos mais comuns a serem conhecidos internet afora e fora da internet. No mundo do futebol, dizemos que um jogador, principalmente um defensor, é brucutu quando este, além de demonstrar habilidade zero nos fundamentos básicos (passe, chute, drible, entre outros), só sabe fazer faltas as mais duras possíveis e, muitas vezes, machucar até mesmo bons jogadores do próprio time em treino e, no jogo, deixar o time com um a menos com 20 minutos de jogo.

Transmutando este conceito para o mundo da política, não será difícil identificar de quem estamos falando: sabe aquele seu amigo que sequer leu 10 livros na vida (e, quando leu, certamente não entendeu), mas que ostenta orgulhoso nas informações de perfil do Facebook a citação rodriguiana “sou reacionário, reajo contra tudo aquilo que não presta”? Aquele que se julga um gênio da política, mas que sequer é capaz de desativar o Caps Lock para digitar? Aquele que se diz um defensor da norma culta e da língua de Camões, mas que escreve “quem viver, verá” sem ter a mínima ideia de que esse uso só foi permitido por mudanças nos parâmetros da escrita padrão? Aquele que acusa corretamente os crimes da esquerda, mas que é tão truculento que não ganharia a simpatia nem daqueles que concordam com ele?

Pois é. Se existe um tipo dessa lista que precisa urgentemente tomar o famoso “semancol”, o brucutu é um fortíssimo candidato, já que, muitas vezes sem perceber (darei o benefício da dúvida por enquanto), acaba por machucar a reputação não apenas dos direitistas, mas de qualquer um que queira se opor aos totalitários da esquerda canalha brasileira. Refratário à política, não percebe que, ao bradar clichês como “é o fim dos tempos!”, já está agindo politicamente contra qualquer causa que esteja defendendo, assim como o brucutu típico, com sua falta de inteligência tática, acha que dá para ganhar o jogo só na base da porrada.

Não preciso nem dizer mais nada, certo?

2- O direitista firula

Sabe aquele homem de frente do seu time que dribla, dribla e dribla, mas, na hora de concluir a gol, recua a bola para o goleiro ou a chuta para fora do estádio? A esse jogador, como qualquer amante do futebol sabe, chamamos de “firula” exatamente porque pode até ser que chame a torcida para o jogo, mas sua falta de objetividade acaba muitas vezes irritando até mesmo os próprios torcedores que um dia se divertiram com suas jogadas de efeito se a fase do time não for tão boa.

Na política, há um belo equivalente: sabe aquele seu amigo de direita que diz ser “da zuera”? Aquele que faz piada com tudo e com todos sem sequer fingir dar a mínima para os sentimentos alheios, como se ele estivesse sozinho no mundo e não precisasse que as pessoas o vissem como algo mais do que um moleque em algum momento da vida? Aquele que adora se dizer “opressor” e “reaça”, como se isso já não tivesse torrado a paciência até mesmo de outros direitistas com mais bom senso?

Óbvio que o caso não é tão grave quanto o do brucutu, mas a questão ainda persiste, já que, ao contrário do que dizemos de brincadeira na internet, a “zoeira” tem, sim, limites, e um deles é o de não passar por retardado moral ou por insensível quando se necessita que as pessoas pensem justamente o contrário.

Igualmente óbvio que piadas e sarcasmo são uma arma excelente, se não a melhor, quando o assunto é a guerra política, mas o que se vê em 90% são justamente as piadas pelas piadas, as piadas sem objetividade política, as piadas cujo único objetivo parecem ser fazer o piadista passar a imagem de lorde inglês com toda sua classe, elegância e conhecimento estético, isto é, uma espécie de “Roger Scruton zoeiro”.

Dica: Roger Scruton falando sobre o que quer que seja é mais chato do que os comentários do Craque Neto na Band. Imaginem, então, um Roger Scruton querendo pagar de engraçado.

3- O direitista individualista

Este pode até ser craque (ou, no caso da política, um bom jogador da guerra política), mas o fato é que  não lhe entra na cabeça que, no futebol moderno (na política moderna), não é o time que se deve modelar ao seu redor, mas ele que se deve adaptar e ser, quando possível, um diferencial para que vitórias e mais vitórias sejam obtidas e os objetivos sejam alcançados.

Dependendo dos casos, o máximo que o direitista individualista consegue falar em seus discursos políticos é um “graças a Deus” tão maçante quanto o de qualquer jogador de futebol. Creio nem precisar explicar muito além disso.

4- O direitista triatleta

Corre, pedala e nada, no futebol. Discursa, ironiza e nada, na política. Sua diferença para o direitista firula é que, desde o começo, nem a própria torcida tende a gostar do triatleta, pedindo sua saída do time até mesmo quando a crise sequer chegou a se instalar no grupo. Dispensa maiores comentários.

5- O direitista frangueiro

Assim como o goleiro no futebol, deixa passar gols os mais bizarros do adversário, podendo, inclusive, prejudicar o moral do time por não transmitir qualquer segurança para que os companheiros procurem, eles próprios, o caminho do gol adversário, já que estarão com um a menos na hora de defender.

6- O direitista delivery

Assim como vários famosos zagueiros e volantes, pode contribuir e muito para o despertar de um frangueiro, já que faz questão de entregar ao adversário a bola de maneira açucarada para que ele, cara a cara com o goleiro, possa até driblar com classe e tocar para o gol vazio, isto se não quiser humilhar toda a defesa com dribles desconcertantes antes de marcar, com ares de soberba, um gol antológico politicamente.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera nunca ter de dizer que a direita parece o Corinthians de 2007, ou então passará a teclar a palavra “direita” com tanto desgosto quanto tecla algum nome daquele excelente péssimo time.

Eu, Apolítico – Habemus Impeachment… mas, e agora?

Depois de trocentos e tantos meses de governo provisório do agora presidente efetivo, Michel Temer, finalmente acabou o processo de impeachment de Dilma Rousseff, agora ex-presidente do Brasil. Óbvio que, para qualquer defensor da liberdade que se preze, há muito o que comemorar, mas, para qualquer defensor consciente da liberdade que se preze, há também muito a se fazer. Temos o impeachment… mas, e agora?

Agora, meus amigos, não é a hora de dizer apenas que “não houve golpe algum”, mas sim de fazer o cidadão comum perceber e aceitar que “só um perfeito cretino, ou um fascista descarado, ainda pode dizer que houve qualquer golpe”. É hora, pois, de aprender que, em política, via de regra, quem mais ataca é quem vence, ou, em termos de guerra política, o agressor geralmente prevalece.

Não é a hora de ficar falando simplesmente que “o PT nunca desistirá da retórica do nós contra eles” como se isto fosse algum tipo de segredo arcano só acessível a quem tem conhecimento elevado sobre política, e sim a hora de fazer os militantes da esquerda totalitária brasileira sentirem como é ser o alvo de um “nós contra eles”. Em termos de guerra política, não existe hora melhor para falar aos corações das pessoas sobre todas as barbaridades cometidas por 14 anos de petismo e sobre como eles, os petistas e os esquerdistas totalitários em geral, não podem mais voltar ao poder nem em um milhão de anos.

Não é a hora, também, de bradar aos quatros ventos “eu não tenho político de estimação!”, rotulando a si mesmos como os mais virtuosos da terra. É, na verdade, a hora de mostrar como os oponentes retóricos, os esquerdistas totalitários, é que são tão repletos de vícios que conseguem ser piores até mesmo do que os piores políticos anteriores a eles. Novamente em termos de guerra política, é hora, pois, de rotular não a direita ou o antiesquerdismo como o bem na terra, mas o esquerdismo como um mal intolerável, e, portanto, como inadmissível em um mundo civilizado e livre.

É, em resumo, a hora de a direita aprender de vez a utilizar a guerra política a seu favor, e não de os direitistas ficarem choramingando bobagens do tipo “ain, a esquerda só ganha na política porque é trapaceira e imoral”. Guerra política, afinal, não tem nada de trapaça e de imoralidade, pois, além de ser o mais moral e o mais pacífico dos métodos de combate ao totalitarismo, é também a mera aplicação, ao contexto político, de alguns princípios que já utilizamos na vida social, ainda que não percebamos.

É, pois, a hora de a direita crescer (de envelhecer, inclusive) e aparecer. Ou é isso, ou é Lula 2018, Lula 2022, Haddad 2026, Haddad 2030…

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não é dizendo nada, mas seu ebook sobre guerra política esclarece muita coisa.

Eu, Apolítico – Um conselho rodriguiano para a direita trapalhona: ENVELHEÇAM!

Se há um escritor com o qual mantenho uma relação de amor e ódio, ou melhor, de admiração e repúdio, este é, sem dúvida, o dramaturgo, cronista esportivo, jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues, mais conhecido por ser citado por direitistas em frases de efeito (algumas das quais talvez nem sejam de sua autoria, diga-se de passagem), e menos conhecido, infelizmente, por sua genialidade artística enquanto autor de peças que conseguem ser, ao mesmo tempo, tão cariocas e tão universais.

Admiração, é claro, tenho pelo Nelson dramaturgo, aquele que, em Álbum de Família, por exemplo, se utiliza de um speaker hipócrita e superficial, além de outros variados recursos estilísticos, para desnudar o quão diferentes podem ser as relações familiares vistas de fora das reais relações familiares, ou que, em Vestido de Noiva, mistura realidade, ilusão e memória como poucos e produz um drama digno da reputação do cronista.

Repúdio, todavia, é tudo o que sinto pelo Nelson nacionalista, aquele mesmo que precisa ser colocado algum dia no banco dos réus da história por ser o inventor, ou, no mínimo, o marqueteiro maior, por meio de suas já citadas frases famosas, de babaquices do naipe de “pátria de chuteiras” e “complexo de vira-lata”, este último reverberado aos quatro cantos da terra brasileira tanto por nacionalistas teimosos e bregas como por esquerdistas totalitários, ainda que por motivações um tanto diferentes.

O Nelson frasista, ainda assim, continua com bem mais méritos do que deméritos, sendo que, inclusive, pode ser desconstruído e reconstruído linguisticamente para ajudar a fazer que nossa direita, a mesma que se diz sua tributária intelectual, passe a ser menos cega, mais sábia e, principalmente, ao menos em termos do mundo das aparências, mais empática.

O dramaturgo, por exemplo, quando perguntado pelo jornalista Otto Lara Rezende sobre que conselho gostaria de dar aos jovens, respondeu sem pestanejar: “Envelheçam! Envelheçam depressa, com urgência, envelheçam!”.

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de luminar conservador sedizente conhecedor de como o mundo reage para perceber que, por mais que haja muitas desvantagens fisiológicas em envelhecer, há alguns ganhos psicológicos no idoso típico que podem ser muito úteis não só na vida cotidiana em si de um indivíduo, mas também na política.

Via de regra, um ganho é, definitivamente, na sabedoria, que advém da maturidade cognitiva adquirida pelo adulto unida às experiências pelas quais esse mesmo indivíduo passa até chegar à terceira idade. É de posse dessa sabedoria que um senhor ou uma senhora acabam por tomar, muitas vezes, decisões melhores e bem mais seguras do que as de pessoas mais jovens que tenham até mesmo mais recursos financeiros disponíveis.

Outro ganho é, sem dúvida, uma cegueira bem menor, em geral, às segundas intenções dos outros. Afinal, a não ser em casos de alienação tremenda ou de cegueira intencional, um idoso tende, justamente por ter sido enganado em várias ocasiões, a ser mais desconfiado em relação a fantasias e a captar nas entrelinhas certos ganchos a partir dos quais é possível descobrir o caráter de alguém, ou ao menos ter uma boa ideia em relação a isso.

Por fim, e talvez mais importante, poucos contestariam a ideia de que, quando nos tornamos mais velhos, as experiências por que passamos nos deixam mais capazes de entender e de simpatizar, ainda que não externemos essa simpatia, com os problemas alheios.

Ganhamos, portanto, em empatia, isto é, na capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de ao menos tentarmos enxergar o mundo por outra perspectiva. O que, porém, tudo isso tem a ver com política e, mais ainda, com algum tipo de conselho à direita brasileira?

A resposta é terrivelmente simples. Afinal, não é difícil encontrar nas redes sociais um adepto, ainda que inconsciente, do que chamarei aqui (e em alguns textos futuros) de direita trapalhona, isto é, aquele grupo de pessoas declaradas liberais ou conservadoras que gastam uma quantidade de tempo considerável reclamando da chatice do mundo, pois, segundo eles, um programa como Os Trapalhões (que, na real, tem mais fama de engraçado do que de fato o era) ou uma banda como Mamonas Assassinas seriam acusados de ofender minorias e censurados pela militância do politicamente correto, ou melhor, dos fascistas de nossa era.

Por menos que eu discorde dessa perspectiva, o fato é que, politicamente falando, o que ela significa é justamente que temos setores de direita juvenis demais para perceberem que tamanha sinceridade não só pode ser como de fato é contraproducente, já que faz parecer que o defensor do “politicamente incorreto” é alguém sem a capacidade de se solidarizar com os dramas alheios, ou seja, alguém sem justamente a empatia dos que de fato envelheceram.

Óbvio que o leitor pode replicar que “esse negócio de reclamar de racismo quando alguém se julga ofendido ao ser chamado de macaco é coitadismo e vitimismo, já que o Mussum era chamado assim pelo Didi lá nos anos 80 e ninguém reclamava”. O que eu respondo? “Envelheça, leitor da direita trapalhona. Envelheça depressa, com urgência, envelheça”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que os direitistas trapalhões consigam entender uma generalização quando a veem na ponta de seus narizes.

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.

Bolsonaro contra o STF: que tal falar sobre o real problema?

Pululam, na internet, memes, hashtags, textos de Facebook e até posts de sites pouco confiáveis pagos com o dinheiro público sobre a mais recente polêmica da política brasileira, isto é, o fato de o deputado carioca Jair Bolsonaro ter sido processado pelo Ministério Público, e ter este processo acatado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pela resposta que deu, em 2014, à deputada petista Maria do Rosário após esta acusá-lo de estuprador, dizendo-lhe que nunca a estupraria porque ela não merecia.

Uma pequena parte da direita, então, foi em sua defesa alegando, com méritos, que a mera existência de um processo dessa natureza é um atentado absurdo contra a liberdade de expressão no Brasil, sendo Bolsonaro uma das milhares vítimas do processo totalitário pelo qual o país está passando.

A outra parte da direita, isto é, a grande parte, também foi defender Bolsonaro. Como, porém, esse setor mais conservador adora ficar vomitando platitudes insossas do tipo “liberdade de expressão gera grande responsabilidade” (oh, really, Uncle Ben? I’d have never guessed), eles tiveram de se limitar a dizer que a esquerda é ilógica e contraditória porque caça Bolsonaro enquanto veste Guevara e outros facínoras que nenhum interesse tinham em direitos das mulheres.

Por mais que a menor parte (que inclui amigos como Luciano Ayan e Roger Scar) esteja bem mais próxima do ponto do que a maior parte, o fato é que ambas estão bem longe de discutir o real problema de toda essa celeuma envolvendo a corte máxima brasileira e o deputado carioca. O problema, amigos de direita, é um só e tem nome e sobrenome: Jair Bolsonaro.

Também por incrível que pareça, o problema nem é que Bolsonaro se mostre um saudosista de um regime em que justamente o autoritarismo era a regra, mas, sim, a “franqueza” (não encontrei melhor palavra) excessiva que o faz inclusive defender esse regime em momentos os menos oportunos.

Ora, sejamos sensatos: ainda que se defenda o direito de Bolsonaro ou de qualquer outro falar o que lhe vier à mente sem sofrer sanções legais por isso, deve-se reconhecer que, para tudo, há hora e lugar adequados. Deste modo, se Bolsonaro podia (como de fato podia) responder de mil e uma maneiras bem mais devastadoras a Maria do Rosário sem se arriscar a ser desconstruído pela esquerda – ponto que precisa ser, na verdade, até mais preocupante para o deputado do que qualquer processo -, por que, então, deu justamente a resposta que colocou em circulação as melhores palavras possíveis para a esquerda usar contra o representante dos conservadores?

Muitos diriam que Bolsonaro é impulsivo, o que, na realidade, não torna a réplica nem um pouco mais aceitável. Torna-a, aliás, ainda mais inaceitável, pois, se a melhor réplica que um político experiente pode articular no momento são palavras como as de Bolsonaro, fica claro que esse político não está pronto nem é confiável para o debate público, já que dá ao oponente as chances de que precisa para atacá-lo.

Sendo um possível presidenciável, então, a situação toda fica ainda pior. Se, afinal, cobraríamos e cobramos até mesmo um amigo pouco popular quando este comete um erro comprometedor ao se expressar, por que não responsabilizar e cobrar, ainda que apenas em privado, um homem que necessariamente precisa ser popular e trazer para si e para os seus mais eleitores/simpatizantes, e não mais detratores?

Defender Bolsonaro em nome da liberdade de expressão? Aceitável e até louvável, mas o problema será saber até que ponto o brasileiro médio de fato se preocupa com liberdade de expressão. No “chutômetro”, aliás, digo que essa seria a última prioridade do homem comum brasileiro, mas esse é outro papo.

Acusar a esquerda de ilógica e de contraditória e achar que com isso ela sairá derrotada no debate político? Risível, já que seus seguidores podem arranjar mil e uma desculpas mentais que convencerão as pessoas não tanto a votarem na esquerda, mas a não votarem na direita.

O que fazer então? Muito simples. Primeiro, deixar a defesa mais fanática de Bolsonaro para seu público já cativo. Segundo, responsabilizar Bolsonaro por suas imprudências retóricas contraprodutivas. Terceiro, mostrar não que a esquerda é ilógica, porque, afinal, nem sempre as ideias mais lógicas são as mais atraentes politicamente, como qualquer analista político mirim deveria saber, e sim que a esquerda é canalha, é assassina, é totalitária e é a representante de tudo aquilo que só os facínoras seguem e querem.

Ser chamado de ilógico, afinal, é desconfortável, mas tolerável, além de poder ser um rótulo contra o qual as mais eficientes desculpas mentais podem ser criadas (quem se preocupa com lógica, afinal, quando se parece estar fazendo o bem?). Ser chamado de canalha, porém, ainda que lateralmente, é insuportavelmente vergonhoso para qualquer pessoa honrada tanto em termos privados quanto em termos sociais, por mais que certos analistas políticos insistam em dizer o contrário. Quem, afinal, seguirá o que tem a aparência de ser o mal?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não concorda nem discorda de Bolsonaro. Muito pelo contrário, aliás.