Totalitarismo

Eu, Apolítico – Sobre rótulos e imoralidades

Proponho ao leitor uma reflexão. Imagine, amigo leitor, que você, na verdade, vive na Alemanha pré-nazista, em que Hitler ainda não havia chegado ao poder, mas já flertava seriamente com essa possibilidade. Por algum motivo, você sempre desconfiou dos resultados do projeto de Hitler, achando que todo aquele discurso e toda a narrativa nazista seriam, na verdade, só um pretexto para genocídios, censuras, antissemitismo e tudo aquilo que já deveria ser passado em um mundo civilizado.

Um amigo seu, porém, acabou de perder o emprego e está vendo as contas e as dificuldades familiares se acumularem. Sendo um cara mais emotivo do que racional, esse seu amigo ouve um discurso do canalha totalitário em questão e começa a dar sinais cada vez mais claros de estar se tornando um defensor fervoroso de uma ideologia que, para você, só pode gerar tristeza e desespero, inclusive para o seu próprio amigo.

Diante dessa situação, você tem duas opções: ou você simplesmente deixa um bom amigo traçar o seu caminho e cometer um grave erro de que se arrependerá depois, ou você tenta convencê-lo de que dar suporte à narrativa nazista é um erro que não deve cometer.

Para qualquer pessoa normal que ache que sua cabeça estará em risco, é óbvio que a primeira opção é de uma imoralidade tão grande que sequer se deve flertar com ela. O leitor inteligente, portanto, partirá para a segunda opção, e tentará convencer seu amigo, um sujeito altamente guiado pelas sensações e pelas emoções, a não cometer um terrível erro.

Em uma situação como essas, é claro, há diversas formas de convencer as pessoas, mas quero que o leitor escolha entre as duas principais que vemos, considerando, sempre, as características desse amigo. Leitor, para convencer o amigo em questão, o que você acha melhor: ir simplesmente refutando racionalmente um a um os argumentos nazistas ou rotular os adeptos do Nazismo (entre os quais o seu amigo ainda não se inclui) pelo que de fato são, isto é, racistas, egoístas, genocidas e ditadores?

Se escolheu a primeira opção, leitor, imagine que você precisa convencer esse seu amigo da forma mais rápida possível, para que ele, ainda que não se filie à ideologia que você quer, se mantenha bem longe do Nazismo. Ainda acha a primeira opção tão viável?

Creio que, diante desses fatos, os leitores mais sensatos, de qualquer grupo ideológico, em especial o da direita conservadora que se diz antitotalitária e que alega haver um projeto totalitário em curso no Brasil, responderiam nos dois casos com as segundas opções, que são as únicas opções viáveis e morais a serem exercidas.

Pergunto, então: se vocês não achariam imoral rotular uma ideologia totalitária como o Nazismo, e se vocês consideram de fato que a esquerda brasileira abraça um projeto totalitário de poder, por que tanta recusa em rotular a esquerda como de fato creem que ela merece ser rotulada?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se rotular fosse crime, já teria pegado prisão perpétua. Se ser omisso politicamente fosse crime, a direita brasileira já estaria há muito tempo na fila de espera da cadeira elétrica.

Eu, Apolítico – Política “for real dummies”: a arte de processar

Um dos aspectos mais importantes da guerra política é, sem dúvida, a guerra judicial, isto é, aquela que se dá no seio do Judiciário, consistindo em cada um dos oponentes se utilizar de processos e de outras armas jurídicas existentes (ou não, principalmente no caso da nossa esquerda), entre as quais temos o processo como  a mais destacada.

Sim, é fato que processar alguém não só pode ser como de fato é uma arma extremamente poderosa quando o assunto é jogar a política. A esquerda, ciente disso, usa e abusa dos processos e até mesmo das ameaças de processos, ainda que o adversário não tenha de fato feito o que quer que seja que demande medidas judiciais. A direita, porém, apesar de já ter ciência disso – já que já foi avisada até mesmo por um de seus filósofos prediletos, Olavo de Carvalho, tanto em textos quanto em um vídeo a ser citado posteriormente neste artigo -, se recusa terminantemente a fazê-lo ou, quando decide por processar alguém, o faz de forma errada.

Quando se recusa terminantemente à batalha judicial de fato, as desculpas, todas mais ou menos inválidas pelas mais diversas, e ao mesmo tempo mais parecidas, razões, abundam: “Não é todo mundo que aguenta ficar lutando o tempo todo!”, falam alguns que já não lutam por 15 minutos sequer; “Não nos igualaremos à esquerda!”, falam outros que certamente estão entre os direitistas que já deram o que tinham de dar.

Quando se propõe a processar alguém, o direitista médio normalmente erra o alvo e ameaça não aqueles seus inimigos que de fato deveria ameaçar com processos, mas sim meros divergentes táticos que lhe falaram, ainda que de um jeito um tanto rude, coisas que esse mesmo conservador (liberais, em geral, não o fazem) certamente não queria ouvir, por quaisquer motivos.

Já passou da hora, então, de alguém, ainda que um apolítico, propor, em alguns passos muito simples, uma espécie de padrão de ação de ataque que a direita poderia executar quando tiver de lidar com a esquerda no terreno jurídico.

1- Conheça o terreno

Primeiro, já para se diferenciar da esquerda e evitar tanto acusações isentonas do tipo “nossa, mas direita e esquerda são só duas faces da mesma moeda” como acusações direitistas de “ain, vocês viraram esquerdistas de sinal trocado!”, é necessário que o direitista tenha o mínimo de conhecimento sobre a legislação brasileira vigente, representada, é claro, pela Constituição Federal de 1988, quer a adoremos, quer a repudiemos.

Não convém, portanto, tentar processar pessoas com interpretações malucas da letra da lei, assim como não é conveniente inventar crimes ainda não tipificados para ameaçar outros de processo, e a explicação para isso é simples: mentira tem perna curta, e, em política, mentir requer uma habilidade que a atual direita brasileira não tem.

Além disso, quando se está em minoria, é importante aprender a lutar não com o que se quer ter, mas sim com o que se tem, e tanto direita quanto esquerda de fato já tem muitas armas em mãos, com a diferença de que a nossa esquerda totalitária adora justamente inventar novas armas do nada ou deturpar as “armas” originais para seus objetivos.

Se for esperta, a direita deve, pois, agir com a verdade e, no caso de os esquerdistas mentirem como tanto adoram, rotulá-los aos olhos do público como canalhas, fascistas, entre outros tantos adjetivos. Ou é isso, ou  a batalha já começa metade perdida, já que uma diferença entre as duas iria para o espaço se a direita começasse também a mentir ou a deturpar a lei.

2 – Se você tem medo de perder, você já perdeu

Lembram-se do vídeo de Olavo citado anteriormente? Pois é. Nesse vídeo (cujo link não tenho), o hoje revolucionário contrário ao “estamento burocrático” – porra, Olavo, pelo menos poderia falar “establishment” ou “burocracia” para ficar mais elegante e menos tiozão nacionalista – explica a seus devotos justamente que, em política, a utilização dos meios judiciais é uma arma das mais válidas a serem exploradas também pela direita.

O ponto alto para este que vos fala, no entanto, é quando o filósofo campineiro discursa sobre como muitos direitistas não aceitam processar os seus adversários políticos porque acham que isso não vai levar a nada, já que a justiça atual está totalmente a favor da esquerda brasileira, e, para convencê-los do contrário, cita como exemplo a parábola cristã do juiz iníquo, que, segundo Olavo, acabou por ceder alguma espécie de ganho de causa a uma comunidade que lotou sua mesa com pedidos e mais pedidos referentes a certo problema que lá havia.

Olavo conclui, então, explicando que o objetivo político de um processo não é necessariamente ganhar a causa na primeira tentativa, mas gerar uma pressão (no nosso caso, política) para que, futuramente, os objetivos dos acusadores sejam alcançados, ainda que uma boa quantidade de dinheiro e de tempo tenha de ser gasta para isso. Segundo o campineiro, então, se alguém não está disposto sequer a devotar recursos financeiros e tempo a uma causa, esse indivíduo só faz transparecer que, talvez, a causa não valha a pena.

Neste caso em específico, de fato, as olavettes estão certas: Olavo tem razão. Digo, porém, mais ainda: se você tem medo de processar um esquerdista e perder, por qualquer motivo que seja, então você já perdeu. O problema é que, nesse caso, a consequência virá não só para você em um curto prazo, mas para todo o país em um médio e longo prazo.

A consequência, aliás, já até veio: mais de duas décadas de domínio cultural petista absoluto. Nesse caso, meus amigos, o medo foi e continua sendo o pior dos conselheiros.

3 – Conheça o oponente

Um dos passos mais importantes quando lidamos com um oponente na guerra judicial é, por óbvio, conhecer o oponente de quem falamos. Para os que procuram perder o mínimo de dinheiro e de tempo e tirar o máximo de poder possível da esquerda, qual é o propósito de ameaçar divergentes táticos, quer de direita, quer não, com processos, inquéritos ou o que quer que seja? Por que não gastar tamanha iniciativa e tamanhos recursos financeiros dificultando a vida do adversário totalitário que até hoje provavelmente nunca sentiu o que é ser processado por alguém?

Outro ponto importante é que, algumas vezes, o curso de ação mais inteligente e mais produtivo pode ser justamente apenas não agir judicialmente, mas deixar as provas para um momento futuro, mas isto se houver outro alvo mais importante e mais urgente. Pegando um exemplo da própria esquerda, qualquer esquerdista sabe que é muito mais rentável politicamente processar Jair Bolsonaro ou Marco Feliciano do que gastar tempo e dinheiro com o tiozão reacionário do Caps Lock que, muito provavelmente, nunca sairá do anonimato e não dará ibope algum para o processo em questão.

Transportando isso para a direita, deixo uma reflexão: será que vale mais processar um divergente tático que o xingou no Facebook, um esquerdista sem público que pode crescer em cima de você ou uma figura pública de esquerda cuja reputação pode de fato ser afetada quando tiver uma ação judicial nas costas?

(Dica: responder a primeira ou a segunda opções não é o que devem fazer aqueles que dizem entender como o mundo funciona, mas, assim, só falando de boas, né…)

4- Conheça a plateia

Ah, a plateia, sem dúvida o elemento a ser o alvo de maior atenção de qualquer combatente político que se preze. O princípio aqui é muito simples: se um vendedor precisa conhecer o público com o qual deseja fazer negócios favoráveis, se um professor deve procurar o conhecimento sobre a realidade dos alunos aos quais legará lições, se um jogador de futebol precisa saber o máximo possível sobre as características do estádio em que disputará uma partida, então o mesmo vale para o jogador político, que precisa conhecer o terreno em que está pisando antes de tomar qualquer ação.

Ficando em um exemplo simples, é conhecimento comum que, apesar de ser crime, a pirataria de jogos ou de programas não é tão mal vista assim entre brasileiros e brasileiras. Outros crimes, porém, são tão repudiados que a mera imputação deles a alguém pode acabar com a vida do acusado em questão de minutos. Entre eles, temos a ameaça de morte, em especial quando praticada contra indivíduos em posição social mais fraca.

Suponhamos, então, um jogador político que tenha, contra seu oponente, tanto o fato de este ter copiado um programa seu ilegalmente quanto o de tê-lo ameaçado de morte. Não há dúvida de que, por mais que os dois atos tenham sido criminosos, processar o oponente pela ameaça de morte refletirá muito mais sobre a plateia do que a acusação de pirataria ou de quebra de direitos autorais, certo?

5- Se estiver atacando, alardeie. Se estiver sendo atacado, aja o mais rápido possível

Explico este princípio com um simples exemplo, para o qual demando o julgamento honesto do amigo leitor. Se os leitores se lembram, o hoje senador (pelo PSB) Romário foi acusado (e, vejam, nem falamos de via judicial aqui), meses atrás, pela revista VEJA de ter certas contas no exterior com algum dinheiro não declarado. Qual foi a primeira ação de Romário? Ele defendeu-se o mais rápido possível e ainda aproveitou para rotular a revista, certo?

Já em um episódio mais recente, o deputado Marco Feliciano, do PSC de SP, vem sendo acusado de tentativa de estupro contra uma ex-colega de partido. Ao contrário de Romário, a resposta de Feliciano, além de bem menos assertiva, demorou bem mais a aparecer. Além disso, por mais que a verdade, segundo os fãs do deputado, tenha prevalecido, fica óbvio que a postura de Feliciano certamente prolongou e prolongará (afinal, houve até abertura de inquérito contra o deputado no STF, como bem relata Luciano Ayan) uma batalha que, dada a gravidade da acusação contra o deputado, poderia ter sido ganha com larga vantagem há muito tempo, correto?

Peço ao leitor, pois, que, independente de preferências eleitorais, me diga com honestidade: ainda que se queira dizer que nenhum dos dois perderá as próximas eleições por causa dessas notícias, quem mais perdeu possíveis novos eleitores ou apoiadores para uma próxima empreitada, quem se defendeu logo de cara e não deixou a conversa se alongar demais (Romário) ou quem demorou a fazê-lo (Feliciano)?

Se forem honestos, descobrirão que há mais moralidade na guerra política (e, por extensão, na guerra judicial) do que supõe a nossa vã direita sedizente esclarecida.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. What’s the point in not suing somebody who should be sued, anyway?

Eu, Apolítico – As Olimpíadas do “mimimi”? Muita hora nessa calma, conservadores

Não é segredo para ninguém, a não ser para alguém extremamente alienado em relação aos fatos do dia, que, no dia de hoje, se encerraram os jogos olímpicos de 2016, sediados no Rio de Janeiro. Em termos desportivos, houve alguns destaques já previstos por todos, como o corredor jamaicano Usain Bolt, o ginasta japonês Ushimura e o nadador americano Michael Phelps, e houve alguns que, por seu ineditismo, surpreenderam até o mais otimista dos brasileiros, sendo dois fortes candidatos o ouro do futebol olímpico masculino e o desempenho do Brasil na canoagem com o jovem Isaquias Queiroz e suas três medalhas (duas pratas e um bronze).

Em termos políticos, porém, é que aconteceram os destaques que mais captaram a atenção deste articulista. Do caso de um garoto fã de futebol instrumentalizado pelas feministas para seus discursos políticos à implicância contra a faixa 100% Jesus exibida por Neymar ao comemorar o ouro olímpico, o fato é que tivemos, talvez, as Olimpíadas mais politizadas da história recente, superando e muito qualquer politização que tenhamos visto em Atlanta, Sidney, Atenas, Pequim e até mesmo em Londres, sendo que a politização já havia sido relativamente alta na capital inglesa.

Em face disso, alguns dos direitistas, quer conservadores, quer liberais, que não têm vergonha de declarar seu asco quanto a esse mundo superpolitizado criado pela esquerda foram rápidos e taxativos. Segundo eles, as Olimpíadas Rio 2016 entrarão para a história como “As Olimpíadas do mimimi”, já que a esquerda não hesitou por um minuto e reclamou abundantemente sobre qualquer conduta dos atletas que fugisse aos desejos totalitários e fascistas dessa mesma esquerda que finge se preocupar com oprimidos, mas que, na verdade, como qualquer ser humano mais ou menos racional já está careca de saber, só quer saber do poder pelo poder.

O caso, na verdade, é que o direitista que for inteligente enxergará, nos presentes jogos olímpicos, não “As Olimpíadas do mimimi”, e sim “As Olímpiadas da oportunidade”. Oras, se formos francos e se tivermos visão suficiente para ver para além das aparências, o fato é que, depois dessas Olimpíadas, a direita, independente de a que matiz religioso ou ideológico se filie, acabou de ganhar não só uma, mas várias oportunidades para começar a derrota de vez a esquerda em termos culturais.

A esquerda, por exemplo, desdenhou de e execrou sem dó os atletas militares, desde o atirador Felipe Wu até a dupla de vôlei de praia Alison e Bruno, que prestaram continência à bandeira nacional quando subiram ao pódio. O problema para a esquerda, no entanto, foi que, nos esportes individuais ou em dupla, foram justamente esses atletas os maiores responsáveis por, além de evitar um completo vexame brasileiro, também levar o Brasil, junto com os esportes coletivos, ao seu melhor desempenho em Olimpíadas.

Ficou claro para todos os que queiram ver, então, que, para a nossa esquerda canalha e fascista, suas fantasias ideológicas perversas são tão importantes que nem mesmo um momento de felicidade que seja é permitido se tudo não for feito de acordo com os delírios esquerdistas.

O brasileiro, pois, que se sentisse humilhado e ainda mais deprimido do que de costume ao assistir às Olimpíadas por semanas e ao ver, no quadro final, só as medalhas dos esportes coletivos e dos atletas civis: o que importa é que a ideologia dita protetora de oprimidos não seja desafiada, não é mesmo? Será que tamanha falta de empatia com os sentimentos dos outros passará impune e que os direitistas militaristas não tentarão lembrar o povo de tamanha crueldade constantemente?

Outro exemplo destacado é, sem dúvida, a implicância com a já citada faixa de cunho cristão na cabeça de Neymar. Contra ela, esquerdistas usam os erros passados de católicos e evangélicos (Cruzadas, Inquisição e tudo o mais que já conhecemos), alegando que um atleta utilizar esse adereço seria propaganda religiosa e que, mais ainda,  o próprio Neymar, além de vários outros que querem ser como Neymar, só professam certa religião porque foram doutrinados por seus pais ou responsáveis a fazê-lo.

Que moral tem para falar de qualquer tipo de doutrinação ideológica ou religiosa de crianças, porém, uma esquerda que usa despudoradamente um garoto inocente para fazer propaganda de feminismo às custas da seleção feminina de futebol, em quem caiu, também, uma pressão gigantesca que quase certamente atrapalhou  o bom time montado por Vadão na busca pelo inédito ouro olímpico?

Pior ainda: como uma esquerda podre como a nossa quer falar com autoridade moral sobre qualquer tipo de doutrinação ou sobre uso da imagem de  crianças para angariar simpatizantes a uma causa quando não tem a menor vergonha de se utilizar de crianças, de idosos, de gestantes e de qualquer outra figura pela qual o brasileiro médio sente empatia para divulgar mentiras totalitárias por meio das asquerosas fanfics de esquerda, cujo claro objetivo sempre foi aumentar a soberania psicológica dos esquerdistas sobre a cultura e sobre a sociedade?

Será, porém, que os direitistas cristãos (os mais diretamente ofendidos pela crítica à faixa de Neymar) e mesmo quaisquer direitistas seculares de bom senso deixarão sair impune uma esquerda que não perderá tempo e que apelará para canalhices dessa natureza para continuar a ganhar poder sobre todos, quer direitistas, quer não? Ou será, na verdade, que finalmente partirão de vez para a guerra política, isto é, para a alternativa mais moral e mais pacífica para derrotar a esquerda?

Reafirmo, em suma, a tese inicial deste artigo: só mesmo um direitista com pouca visão poderá notar apenas “mimimi” em tudo o que ocorreu nessas Olimpíadas. O direitista esperto, na verdade, notará oportunidades, sendo a principal delas, na realidade, a oportunidade de fazer que a esquerda não mais saia impune, politicamente falando, das totalitarices que prega. Ou é isso, ou continuarão a provar que ainda não entenderam como o mundo de fato funciona.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera francamente estar errado quando pensa que a direita, mais uma vez, irá comer bola politicamente.

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.

O blefe de Marilena Chauí contra a direita que não joga Poker

Imagino que certos amigos de direita deveriam se manter distantes de qualquer tipo de jogo de cartas, em especial os com apostas, porque cada vez mais têm se mostrado péssimos em detectar qualquer tipo de blefe político por parte da esquerda, e sequer é preciso ser um jogador assíduo de Poker ou qualquer outro jogo de cartas para saber que, nestes, o blefe é um elemento recorrente.

Digo isto porque já deve ser mais do que conhecido pelos leitores deste espaço o fato de que, bem recentemente, a docente aposentada da USP, Marilena Chauí, mais conhecida por seu discurso odiento em relação à classe média e menos conhecida por ser uma estudiosa da obra do filósofo Baruch Spinoza, ter sido a protagonista de um vídeo em que, entre outras coisas, acusa o juiz Sérgio Moro, um dos atuais símbolos e agentes da chamada Operação Lava Jato, de ter sido treinado pelo FBI para pôr a operação em prática para, entre outras coisas, entregar o Brasil aos imperialistas, destruindo a soberania nacional brasileira.

É óbvio que este blogueiro está ciente de que a acusação parece ser, se a avaliarmos em termos factuais, um completo absurdo e nada mais do que uma teoria de conspiração a ser divulgada com seriedade apenas por pessoas de cujas sanidades mentais devemos desconfiar. Quando assistimos ao vídeo em si, porém, percebemos o óbvio, isto é, que o problema é bem mais profundo do que parece, pois o que vemos é, justamente, um show de rotulação e de uso de diversas estratégias de guerra política por parte da marxista uspiana.

Já no começo, temos a invocação de uma teoria conspiratória antiamericanista que já é comum no Brasil. Afinal, quem nunca ouviu algum amigo um pouco menos informado sobre política, isto é, um eleitor comum, falando algo do tipo “ah, cara, todo mundo sabe que o que esses americanos querem é a Amazônia” ou “ah, velho, você sabe que nada no mundo acontece sem o aval dos EUA”? Se um número considerável de brasileiros já nutrem um sentimento de que os EUA querem o Brasil para si mesmos, o que custaria a um grupo político que nada tem a perder tentar enfiar mais uma conspiração envolvendo os EUA na cabeça do brasileiro, mesmo que isso não desse frutos imediatos, mas só daqui a alguns anos, quando a história de 2016 estiver sendo narrada?

Logo em seguida, começa um show de rotulagens. Além de associar esse suposto plano americano de dominação ao rótulo “imperialismo”, que invoca pelo menos entre a “elite pensante brasileira” os sentimentos de que a esquerda necessita, a estudiosa de Spinoza apela, em seguida, ao nacionalismo brega de inspiração rodriguiana ao falar de “ameaça à soberania nacional” e até mesmo ao sentimento de amor de pais por filhos ao bradar que, com isso, Moro, Temer, Serra e o FBI estariam colocando em risco o futuro das crianças.

Falando, aliás, de futuro, outro truque utilizado por Marilena é, claro, utilizar o futuro como uma espécie de tribunal segundo o qual devem ser e no qual serão julgadas as ações do presente. Segundo Chauí, afinal, “não podemos deixar isso acontecer”, sendo esse “isso”, na verdade, entre outras coisas, “o comprometimento do futuro das novas gerações, das gerações futuras”.

Una-se a isso o uso de grandes corporações internacionais que estariam participando desse “plano” e o uso de frames como “destruição da democracia” e temos, por mais incrível que isso possa parecer, uma narrativa que, ao eleitor desinformado, ainda que não a conheça por Marilena diretamente, parecerá totalmente crível e, mais ainda, parecerá que os opostos a essa narrativa é que são, na verdade, o mal a ser combatido.

Mesmo que se queira sustentar que a ideóloga da USP não tenha pensado nisso tudo antes de vir a público e fazer um discurso político (o que, dada a sua experiência na militância, é bem improvável), a pergunta que ainda resta ao amigo direitista é a seguinte: considerando que loucos são vistos no Brasil como pessoas dignas de pena e nada mais e que, ainda que Chauí esteja totalmente surtada, seu discurso pode ficar mais poderoso no futuro, será mesmo que ficar chamando a esquerdista que se passa por filósofa de “maluca” é a melhor opção, ou será (que é o que acho mais provável) que, de novo, a direita está caindo em outro blefe da esquerda?

Na moral, nesse ritmo, a direita não ganhará nem jogo de truco, quanto mais salvar vidas inocentes das mãos do Estado petista. Afinal, só mesmo alguém muito inepto para a política agirá  politicamente com base na suposição de que uma militante política experiente acredita em tudo que fala.

Ou, sei lá, talvez eu esteja certo há algum tempo em supor que nossos direitistas são todos uns línguas de trapo que avaliam a língua das pessoas pela própria régua.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Desde que percebeu que existe gente que acredita em militante comunista experiente e honesto ao mesmo tempo, não se preocupa mais com crianças que creem em Papai Noel. Acha esta crença, inclusive, um pouco mais plausível do que a primeira.

Eu, Apolítico – Dois conselhos políticos para a direita puritana brasileira

Como um estudioso apolítico da política e, principalmente, da guerra política, confesso que até tento, mas não posso evitar dar, constantemente, conselhos à nossa direita mentalmente preguiçosa sobre como deveria lidar com a esquerda politicamente, ainda que esses puritanos de meia pataca insistam em dizer que só a “revolução popular democrática“, e não meros jogos linguísticos que buscam ocultar a verdade (péssima definição para guerra política, aliás), salvará o Brasil das garras da esquerda totalitária.

Seguem, portanto, mais dois conselhos que nossa direita moralista e cretina deveria começar a seguir tão rápido quanto possível, ao invés de ficar espalhando platitudes insossas do tipo “sou contra a corrupção” ou “que todos sejam investigados”.

Tais conselhos, por óbvio, são baseados na autoridade de ninguém mais ninguém menos do que o ilustre blogueiro que vos escreve. Ou seja, o leitor pode ficar descansado, porque, se há algo que posso lhe prometer, é que, neste artigo, não se utilizará qualquer tipo de bibliografia arcana e acessada apenas por um bando de freaks para fazer o leitor parecer mero tolo quando for questionar as ideias aqui propostas.

Se você discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota

Volta e meia, algum site, revista, jornal ou órgão de imprensa que podemos descrever pelo epíteto “não sou de esquerda, mas…” divulga um texto repleto de um pedantismo digno do mais orgulhoso universitário brasileiro provando que a meritocracia, tão alegadamente adorada pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira – apesar de que, estranhamente, adoram um corporativismo e um nepotismo de vez em quando, isto é, adoram deturpar uma possível “meritocracia” -, é nada mais do que uma farsa destinada a mascarar, por meio de uma retórica perversa e nada empática, os problemas e as lutas sociais.

Ora, independente de um sujeito, à direita ou à esquerda, ser ou não um adepto da ideia de meritocracia como o sistema ideal, ninguém pode negar que, ainda que se queira dizer que a esquerda ataca um espantalho quando fala sobre meritocracia, os esquerdistas conseguiram, com um brilhantismo linguístico ímpar, não só incutir nas pessoas a ideia de que a definição de esquerda de “meritocracia” é a única verdadeira como também fazer que o debatedor político comum associe a defesa da meritocracia com um certo tipo de figura pouco admirável.

Pense comigo, leitor: quando o debatedor político neutro pensa em um defensor da meritocracia, será que pensa em um homem trabalhador que se esforçou para vencer na vida ou em um egoísta que, após ter chegado ao topo com a “mãozinha amiga”, quer que os de cima subam e os de baixo desçam? Pensará esse neutro em um cidadão sem preconceitos, aberto aos diferentes modo de vista, ou em um tiozão reacionário do Caps Lock que fica contando piadas de um gosto duvidoso sobre minorias durante aquela celebração em família?

Por outro lado, quando falamos para esse mesmo debatedor político neutro sobre algum defensor da justiça social, em que será que ele pensa? Acham mesmo que ele não pensará no defensor da justiça social como é descrito pela narrativa de esquerda, isto é, como um sujeito socialmente agregador que quer que todos tenham oportunidades dignas de vida?

Em resumo, amigo direitista, você até pode espernear que meritocracia não é o conceito descrito pela esquerda, mas a questão é que, politicamente, o que realmente importa não é se a meritocracia é ou não boa, mas se aparenta ou não ser boa, ou, trocando pela metáfora a que os que leem este espaço já estão acostumados, que a mulher de César pareça honesta, e não que seja honesta.

Repito, então, o que afirmei no título desta parte: por uma questão de forma, e não necessariamente de conteúdo, se você, direitista, discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota exatamente porque seguiu os passos que o fascista queria que você seguisse.

O que pode fazer, para não deixar barato quando aquele seu amigo esquerdobabaca vier te falar sobre como a meritocracia é o pior dos mundos, é jogar-lhe na face todos os crimes cometidos pela esquerda ao longo dos séculos, mostrando ao público por meio de fatos e de apelo emocional que, entre qualquer proposta de direita e qualquer proposta de esquerda, a proposta canhota é sempre intolerável, só restando ao espectador concluir que qualquer coisa é melhor do que a proposta esquerdista.

Aliás, o próximo conselho é exatamente sobre isso: usar a emoção na política

Racionalismo em política é babaquice, quando não canalhice. That’s the long and short of it.

Não é raro ver direitistas (principalmente conservadores, mas liberais e libertários também estão no barco) que, ao se depararem com um discurso oponente, o acusam de ser puramente emocional, como se alguém fosse deixar de ser esquerdista apenas porque algum autodeclarado luminar do direitismo nacional revelou que, surpresa das surpresas, um discurso político determinado da esquerda usa e abusa das emoções alheias.

Sinceramente, isso a que chamarei aqui de “racionalismo político” – isto é, tentar vender a ideia, sabe-se lá com que objetivo, de que a retórica política assim como a prática política em si deveriam ser ou são puramente baseadas na razão – é tão deprimente que nem deveria merecer resposta, além de ser ou uma babaquice tremenda ou uma canalhice inadmissível.

Afinal, além de o uso da emoção ser normal e muitas vezes até a alternativa mais moral possível no cotidiano das pessoas, o que também o torna normal e até moral também na política, que é também uma dimensão do humano apesar das tentativas de certos vigaristas de direita de incutir na mente das pessoas  a ideia contrária, dizer que o seu oponente político está fazendo um discurso baseado na emoção não te ajuda em nada a tirá-lo do poder, amiguinho direitista. Aliás, dependendo da esperteza do seu oponente, o efeito pode muito bem ser o contrário, posto que este pode acusá-lo de ser um sujeito frio e calculista em quem não se deve confiar.

A dimensão babaca do racionalismo político, pois, fica clara. Se, porém, a direita alega (e suponhamos que a alegação seja verdadeira) estar combatendo um projeto de poder totalitário, investir em um discurso tão ineficiente não é só babaquice, mas também a mostra de um grau de canalhice poucas vezes visto na história humana, já que se está deliberadamente perdendo a chance de golpear o totalitarismo retoricamente por motivos obscuros para qualquer um que já tenha aprendido como o mundo da política reage.

Esse racionalismo se torna ainda mais cretino, então, quando esses racionalistas passam a defender a tese de que, sendo a guerra política, que é justamente o método mais moral e mais pacífico de luta política, uma empulhação criada por esquerdistas, o negócio é um banho de sangue por meio de uma guerra civil para eliminar, fisicamente, a esquerda do território brasileiro e acabar com o problema de vez.

Fora o fato de esse plano ser fruto de uma mente lunática (afinal, eliminação física de oponente é impossível) de uma pessoa que claramente precisa fazer amigos ou sexo com mais frequência, o mais escandaloso é que essa racionalização política para negar a política transforma pais de família em meros joguetes a serem descartados por canalhas que, pela preguiça de fazer política, falam em descartar vidas humanas como se estas fossem alguma espécie de lixo reciclável que sempre se poderá ter de volta.

Tudo isso, claro, em nome de um projeto moralista que, cada vez mais, tem se mostrado, na realidade, um projeto de controle sobre a vida alheia parecido em vários aspectos com o da esquerda brasileira. A diferença, é claro, é que, enquanto a esquerda brasileira rouba a voz das minorias, esses babacas puritanos que preferem ver vidas ceifadas em uma guerra civil  a ver vidas poupadas pela guerra política roubam a voz de todos aqueles que se importam com moralidade.

Se ainda há, pois, civilidade na direita, que esse racionalismo e seus defensores sejam jogados na lata de lixo da história.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando percebeu que ser comunista levava logicamente ao descarte de vidas humanas, deixou a esquerda para nunca mais voltar. Quando percebeu que a direita se enredava pelo mesmo caminho, perdeu a vergonha de ser um antidireitista convicto.

Bolsonaro contra o STF: que tal falar sobre o real problema?

Pululam, na internet, memes, hashtags, textos de Facebook e até posts de sites pouco confiáveis pagos com o dinheiro público sobre a mais recente polêmica da política brasileira, isto é, o fato de o deputado carioca Jair Bolsonaro ter sido processado pelo Ministério Público, e ter este processo acatado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pela resposta que deu, em 2014, à deputada petista Maria do Rosário após esta acusá-lo de estuprador, dizendo-lhe que nunca a estupraria porque ela não merecia.

Uma pequena parte da direita, então, foi em sua defesa alegando, com méritos, que a mera existência de um processo dessa natureza é um atentado absurdo contra a liberdade de expressão no Brasil, sendo Bolsonaro uma das milhares vítimas do processo totalitário pelo qual o país está passando.

A outra parte da direita, isto é, a grande parte, também foi defender Bolsonaro. Como, porém, esse setor mais conservador adora ficar vomitando platitudes insossas do tipo “liberdade de expressão gera grande responsabilidade” (oh, really, Uncle Ben? I’d have never guessed), eles tiveram de se limitar a dizer que a esquerda é ilógica e contraditória porque caça Bolsonaro enquanto veste Guevara e outros facínoras que nenhum interesse tinham em direitos das mulheres.

Por mais que a menor parte (que inclui amigos como Luciano Ayan e Roger Scar) esteja bem mais próxima do ponto do que a maior parte, o fato é que ambas estão bem longe de discutir o real problema de toda essa celeuma envolvendo a corte máxima brasileira e o deputado carioca. O problema, amigos de direita, é um só e tem nome e sobrenome: Jair Bolsonaro.

Também por incrível que pareça, o problema nem é que Bolsonaro se mostre um saudosista de um regime em que justamente o autoritarismo era a regra, mas, sim, a “franqueza” (não encontrei melhor palavra) excessiva que o faz inclusive defender esse regime em momentos os menos oportunos.

Ora, sejamos sensatos: ainda que se defenda o direito de Bolsonaro ou de qualquer outro falar o que lhe vier à mente sem sofrer sanções legais por isso, deve-se reconhecer que, para tudo, há hora e lugar adequados. Deste modo, se Bolsonaro podia (como de fato podia) responder de mil e uma maneiras bem mais devastadoras a Maria do Rosário sem se arriscar a ser desconstruído pela esquerda – ponto que precisa ser, na verdade, até mais preocupante para o deputado do que qualquer processo -, por que, então, deu justamente a resposta que colocou em circulação as melhores palavras possíveis para a esquerda usar contra o representante dos conservadores?

Muitos diriam que Bolsonaro é impulsivo, o que, na realidade, não torna a réplica nem um pouco mais aceitável. Torna-a, aliás, ainda mais inaceitável, pois, se a melhor réplica que um político experiente pode articular no momento são palavras como as de Bolsonaro, fica claro que esse político não está pronto nem é confiável para o debate público, já que dá ao oponente as chances de que precisa para atacá-lo.

Sendo um possível presidenciável, então, a situação toda fica ainda pior. Se, afinal, cobraríamos e cobramos até mesmo um amigo pouco popular quando este comete um erro comprometedor ao se expressar, por que não responsabilizar e cobrar, ainda que apenas em privado, um homem que necessariamente precisa ser popular e trazer para si e para os seus mais eleitores/simpatizantes, e não mais detratores?

Defender Bolsonaro em nome da liberdade de expressão? Aceitável e até louvável, mas o problema será saber até que ponto o brasileiro médio de fato se preocupa com liberdade de expressão. No “chutômetro”, aliás, digo que essa seria a última prioridade do homem comum brasileiro, mas esse é outro papo.

Acusar a esquerda de ilógica e de contraditória e achar que com isso ela sairá derrotada no debate político? Risível, já que seus seguidores podem arranjar mil e uma desculpas mentais que convencerão as pessoas não tanto a votarem na esquerda, mas a não votarem na direita.

O que fazer então? Muito simples. Primeiro, deixar a defesa mais fanática de Bolsonaro para seu público já cativo. Segundo, responsabilizar Bolsonaro por suas imprudências retóricas contraprodutivas. Terceiro, mostrar não que a esquerda é ilógica, porque, afinal, nem sempre as ideias mais lógicas são as mais atraentes politicamente, como qualquer analista político mirim deveria saber, e sim que a esquerda é canalha, é assassina, é totalitária e é a representante de tudo aquilo que só os facínoras seguem e querem.

Ser chamado de ilógico, afinal, é desconfortável, mas tolerável, além de poder ser um rótulo contra o qual as mais eficientes desculpas mentais podem ser criadas (quem se preocupa com lógica, afinal, quando se parece estar fazendo o bem?). Ser chamado de canalha, porém, ainda que lateralmente, é insuportavelmente vergonhoso para qualquer pessoa honrada tanto em termos privados quanto em termos sociais, por mais que certos analistas políticos insistam em dizer o contrário. Quem, afinal, seguirá o que tem a aparência de ser o mal?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não concorda nem discorda de Bolsonaro. Muito pelo contrário, aliás.