Tzvetan Todorov

Entrevista retirada de um capítulo de livro

Expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês… esperem, às vezes me esqueço de que este ainda não é um livro de memórias póstumas, mas um texto de memórias… de memória jornalística para ser mais exato. Oh, perdão, sei que muitos de vocês brasileiros gostamos de saber com quem estamos conversando, então cabe identificar-me. Batizaram-me Ludovico Kasprov (sabeis como é, meus pais leram muito um tal economista e gostavam muito de xadrez) na Bulgária em algum desses tempos em que a breguice predominou no mundo.

De qualquer forma, apenas ao atingir a maioridade pude vir cá para Brasil ter uma vida tranquila e relativamente chata como jornalista. Mas, como uma vida entediante tem sempre de ser estragada por algum evento mais ou menos interessante, fui forçado a sair do delicioso marasmo alguns anos atrás, pois a revista para a qual até hoje trabalho precisava de alguém capaz de entrevistar Tzvetan Todorov, ninguém menos do que o pensador meu conterrâneo mais famoso entre nós, os búlgaros pensadores (minto, acho esse negócio de pensar um atraso de vida, mas quero deixar o texto um pouco mais estiloso – na verdade, meu ortônimo brasileiro é quem quer, mas é melhor voltar ao trabalho, ou melhor, à escrita antes que ele me despeça como narrador e como heterônimo).

Até tentei fugir do interessante e voltar ao tédio, mas argumentos fortíssimos como passagens e hospedagem por conta da revista me fizeram rever minha tese inicial. Lógico que o hotel em que me hospedaram mais parecia uma estrebaria, mas hospedagem dada não se olha as toalhas de mesa (sim, eu sei, a piadinha é sem graça e nonsense, mas vocês já esperariam isso de meu ortônimo, não?)

Enfim, sem mais delongas, a entrevista foi sobre O espírito das Luzes, um livro que particularmente achei um saco mas que pode interessar ao leitor. Como minha introdução lhes tomou demasiados segundos úteis de vida, creio que não irão interessar a vós os detalhes sórdidos e fúteis extraentrevista do tipo “Todorov foi simpático” ou “Quando/onde foi a entrevista?”. E se interessarem, vidas tediosas as vossas, não? Nem eu curto tanto assim a vida alheia e… ah, não, não vou soltar piadinhas moralistas e medíocres sobre o jornalismo brasileiro. Se quiserem ler uma dessas, procurem naqueles geniais comentários do Facebook, aqueles que eu, tu, ele, nós, vós e eles já conhecem (e, sim, esse truquezinho manjado com os pronomes pessoais do caso reto foi obra do ortônimo, não minha).

Bom, segue o que colhi. Despeço-me, com um piparote machadiano, por aqui:

“LUDOVICO KASPROV: Olá, filósofo. Agradeço por me ceder essa entrevista.

TZVETAN TODOROV: É Kaprov, não é? Sou eu que agradeço, pois é muito raro poder vir a público para falar sobre tema de tamanha magnitude filosófica.

LK: Sim, filósofo, mas não falemos mais de mim. O público quer saber é sobre O espírito das Luzes… seria um livro sobre a história do Iluminismo?

TT: Não exatamente. Veja bem, suponho que já tenha ouvido falar mais de uma vez que nos falta, como defino no início do livro, um ‘plano conceitual’ que seja capaz de dar os alicerces necessários para nossos discursos e atos, certo? Pois foi justamente na vertente humanista do Iluminismo (ou das Luzes, como chamei ao longo dos ensaios) que consegui encontrar esse plano. Tendo em mente o desmoronamento mais ou menos recente das utopias políticas e filosóficas e tomando como premissa a ideia nietzscheana da morte de Deus em nossa sociedade, o que defendo em O espírito das Luzes não é simples volta ao passado, mas uma melhor compreensão de como as mudanças radicais ocorridas nessa época podem ser, de algum modo, reaproveitadas em nosso tempo, mesmo que não possamos mais utilizar todo o pensamento filosófico daqueles autores para resolver os problemas posteriores a esse período.

LK: Poderia explicar um pouco melhor exatamente como entende o período que conhecemos por Iluminismo?

TT: Como digo no primeiro capítulo do livro, o grande problema  quando tentamos definir qual era o projeto das Luzes é que, além de a maioria das grandes ideias das Luzes terem origem em outros períodos (o Renascimento, por exemplo), os pensadores desse período, ao contrário do que possa parecer, não estavam em total acordo entre si. Aliás, se não analisarmos esse período com cuidado, deixaremos de perceber os acalorados debates que aconteciam durante essa época entre os mais diversos pensadores. As Luzes, então, ao mesmo tempo que ‘são uma época de conclusão, de recapitulação, de síntese – e não de inovação radical.’, também ‘foram uma época mais de debate do que de consenso’.

LK: Seria, então, impossível definir esse projeto?

TT: De maneira alguma. Veja, por mais que este seja um período ‘de assustadora multiplicidade’, podemos detectar três ideias que, como interpretei, seriam os fundamentos, as bases desse projeto: ‘a autonomia, a finalidade humana de nossos atos e, enfim, a universalidade’. Obviamente, acatar essas ideias, como friso no primeiro capítulo, tem suas consequências (digo, aliás, que são inumeráveis), mas estas deixo para o leitor descobrir ao ler os ensaios.

LK: Filósofo, deve saber melhor do que eu que recai sobre os iluministas a acusação de pregarem o primado da razão sobre tudo mais. Até que ponto a acusação procede?

TT: Por mais que a corrente racionalista dos iluministas tenha se sobressaído às outras, devemos nos lembrar que as opiniões e as posturas filosóficas que originam as Luzes no século XVIII estavam, antes, em conflito, ou, como descrevo, ‘as Luzes são ao mesmo tempo racionalistas e empiristas, herdeiras tanto de Descartes quanto de Locke’, acolhendo os mais diversos grupos e tendo apreço pelas ideias mais contraditórias entre si. É uma época em que a fé e as religiões são criticadas não enquanto rituais, mas como ‘tutela imposta aos homens de fora’, e a crítica ocorre justamente para que seja possível à humanidade conduzir seu próprio destino. Nesse contexto, a razão é não necessariamente o ‘motor das condutas humanas’, mas uma ‘ferramenta de conhecimento’. É muito mais importante, por exemplo, a liberdade de pensamento, ou seja, a liberdade ‘de examinar, de questionar, de criticar, de colocar em dúvida: nenhum dogma ou instrução pode mais ser considerado sagrado’. É partindo dessas e de outras premissas que digo que, para o projeto das Luzes, ‘não é mais a autoridade do passado que deve orientar a vida dos homens, mas seu projeto para o futuro.’

LK: Mas, filósofo, essa ideia de agir em nome de um futuro possível e imaginado não pode gerar muitos equívocos?

TT: Deixemos isso para o leitor, Kasprov. A sua postura, porém, é extremamente digna do que escrevo no livro e dessa ‘refundação das Luzes’. Afinal, se escrevi que devemos também submeter esse passado a um exame crítico e lúcido, nada mais coerente do que deixar a sua provocação ao leitor. Como digo no fim do primeiro capítulo, ao criticarmos esse projeto, ‘não arriscamos trair as Luzes, ao contrário: a verdade é que as criticando continuamos fiéis a elas e colocamos em prática seu ensinamento’. Sinta-se o leitor livre, então, para fazer esse exame.”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não fará a promessa de não mais tentar cometer literatura pois não sabe se conseguirá cumpri-la.

Referência bibliográfica:

TODOROV, Tzvetan. O espírito das Luzes. Tradução de Mônica Cristina Corrêa. São Paulo: Barcarolla, 2008. 158p.

Teste de cegueira ideológica 2

Após o retumbante fracasso de alguns dos meus leitores no primeiro destes testes, em que a resposta certa era obviamente o filósofo húngaro Tzvetan Todorov, resolvi aplicar este segundo, desta vez com um livro mais famoso, apesar de apenas mais ou menos famoso.

(mais…)

Teste de cegueira ideológica

Apresento ao leitor a seguinte citação, retirada de um livro não muito famoso:

“Quando é o poder que diz ao povo aquilo em que é preciso crer, está se referindo a uma ‘espécie de religião política’, raramente preferível à precedente […] Ao fim e ao cabo, o conteúdo específico do novo dogma importa pouco […] O essencial é a nova ‘plenitude de poder’, já que o poder temporal impõe também as crenças que lhe convêm. Controlando a escola, ele transforma a instrução, que supostamente deveria trazer a liberação, em ferramenta de uma submissão ainda maior; ele apresenta como dogmas imutáveis ou, pior, verdades científicas, as últimas decisões políticas […] A religião tradicional queria controlar a consciência do indivíduo, fosse exercendo ela mesma o poder temporal, ou delegando a este a tarefa de reprimir. A religião política, por sua vez, poderá vigiar e orientar diretamente tudo. […] O território da nova religião ultrapassa de longe o do antigo; em consequência aumenta também aquele que o indivíduo terá de defender.”

Lanço, agora, três perguntas:

1- Você concorda até que ponto com o autor?

2- Quem você acha que é o autor de cujo livro a citação foi retirada?

a) Mestre (e, para alguns, uma deidade) Olavão, em “O Imbecil Coletivo”

b) O libertário Marcos Bagno, em “A Norma Oculta”

c) A maior filósofa do hemisfério, Marilena Chauí, em “O que é Ideologia?”

d) O filósofo búlgaro Tzvetan Todorov, em “O espírito das Luzes”

e) O reaciotário Luciano Henrique Ayan, em “Desvendando o Esquerdismo – Guia para Iniciantes”.

3- Você considera que este autor tem o DIREITO de continuar a escrever livros (caso discorde dele)?

Saberão a segunda resposta em breve (ou nos comentários mesmo).

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, obstinadamente, procura desvendar os enigmas da Filosofia. Perguntaria a um certo membro do Ad Hominem como é ser odiado por olavettes e esquerdistas ao mesmo tempo, mas, além de já conhecer esta sensação, só se mistura com libertários durante o happy hour.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 31/01/2014